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@imperf-eitta
Aquilo que você mais amar, será a causa da sua maior dor.
RESUMO:
Essa é a história real de como conheci do amor.
Provavelmente essa não é a primeira que senti o amor, mas é a primeira vez de que eu me lembro, e consigo descrever.
Eu tinha 4 anos quando o meu coração disparou de amor pela primeira vez, e para a minha sorte, do outro lado da cozinha tinha um outro coração, transbordando de amor por mim também.
O meu pai, Roberto Martins da Silva, foi o meu primeiro amor.
Ainda me lembro do seu olhos, de como eles se enchiam de alegria ao me olhar, lembro dos abraços, e principalmente, lembro bem dos dias que mesmo cansado, depois de ter chego do trabalho, ainda dedicava boa parte do seu tempo a ficar comigo. (Meu pai era mergulhador, e passava boa parte do tempo embarcado, então quando estava em casa buscada aproveitar muito o tempo com a família e amigos, era alegre, festivo, engraçado e maravilhoso.)
Lembro que uma certa vez, eu estava chorando muito por que ele iria voltar para o mar, e nesse dia ele sentou no sofá da nossa casa, me chamou e disse: Meu amor, venha aqui, papai quer falar com você.
Eu fui correndo, chorando, fazendo o maior drama. E ele me disse, Tudo que eu faço é por que eu te amo, e quero te dar tudo que você merece. Papai vai, mas papai volta, eu prometo.
E assim ficamos ali, ele sentado, e eu deitada com a cabeça na sua perna, enquanto ele colocava uvas verdes na minha boca e me contava como era ver um tubarão de perto, essa é uma memória preciosa demais pra mim.
Também tem a memória da lagosta.
Eu tinha 5 anos, lembro que estava na praia quando ouvi alguém falar que o meu pai chegou, sai correndo pra casa e quando chego lá, ele estava na cozinha, com o seu avental branco, de bermuda e sem chinelo. Minha mãe estava sentada na mesa ouvindo ele falar, e quando ele notou a minha presença, logo abriu os braços para me abraçar. O melhor abraço do mundo.
Aquele dia, eu vi a maior lagosta que já existiu no mundo, era enorme, quase do meu tamanho, e eu não conseguia parar de olhar, era linda, e foi o meu pai que pegou.
Lembro também das inúmeras vezes em que me meti em confusão e a minha mãe pedia para ele me colocar de castigo, e o meu pai me deixava na cadeirinha do castigo por menos de 5 minutos e vinha chorando falar que me amava e que não era pra contar a mamãe que ele não brigou comigo.
Esse é o nosso segredinho!
(Mãe, se um dia você ler isso, finge que não leu, tá? Obrigada querida)
Meu pai me deu todo o amor que ele pode, até quando ele pode, as poucas memórias que tenho dele são lindas, cheias de amor, cheias de felicidade, mas não lembro mais da sua voz... é que já faz muito tempo.
Eu tinha só 5 anos quando ele se foi.
Lembro exatamente da última vez que o vi, eu estava dormindo com vovó na sala da casinha dela, e lembro que fazia um certo que eu não chorava tanto pedindo pra ele não ir.
Como em todas as vezes, ele chegou para pedir a benção dela, e nesse dia, nós duas choramos muito pedindo para ele ficar em casa... Essa foi também a primeira vez em que eu vi minha vó chorar. Eu pedi pra ele não ir, ela também pediu, mas ele tinha uma família pra sustentar, e ele me disse mais uma vez:
Papai vai, mas papai volta.
Só que dessa vez, ele não voltou, e por muitos anos, eu achei que a culpa era minha, por que se eu não tivesse pedido a ele aquela bicicleta rosa da fadinha, talvez ele tivesse ficado em casa.
Mas ele tinha uma família para sustentar, e eu era parte dessa família.
Meu pai morreu afogado no próprio sangue, ele era mergulhador de águas profundas, e dessa vez mergulhou fundo demais e a pressão fez ele engasgar no próprio sangue.
Foi difícil encontrar o corpo, ele foi encontrado na bahia da traição, 2 dias depois do acidente.
Lembro que nesse dia, eu estava em recife, na casa do meu avó materno, e o telefone da minha mãe tocou, ela atende, senta na cama e depois do alô, ela não fala mais nada. O meu irmão caçula (Robson) não parava quieto um segundo, e pela primeira vez na vida eu senti uma dor tão forte e fina no meu coração.
Ela não precisou me dizer uma palavra, eu já sabia, eu senti.
Comecei a perguntar, cadê o meu pai?
Onde tá o meu pai? eu quero falar com o meu pai.
Quando ela começou a chorar, pegou meu irmão no colo, mas não me disse uma única palavra. Eu sabia que ela não ia conseguir dizer, eu sabia.
E essa foi a primeira vez, que eu, uma criança de 5 anos, perdi totalmente o controle, comecei a quebrar a casa toda, não conseguia parar de jogar as coisas fora, de chamar pelo meu pai, de pedir pra ir embora pra casa da minha vó, eu sabia que lá eu teria as respostas, lá eu saberia se era realmente verdade o que o meu coração estava dizendo.
Poucos minutos depois da ligação, nós estávamos entrando num taxi, e foram as 5 horas de viagem mais longas da minha vida.
Quando o carro parou na porta de casa, eu entrei correndo lá em vovó, e a cena que vi foi ela desmaiada no chão, com todas as minhas tias tentando acorda-la, a casa era pequena, e estava cheia, e foi bem ali que o meu coração se quebrou pela segunda vez, no mesmo dia. Eu tinha perdido o meu primeiro amor, e o segundo estava no chão desmaiado, e todos os outros amores da minha vida estavam naquela sala chorando, me olhando como se eu fosse o reflexo de toda a dor que eles estavam sentido, e ao mesmo tempo, me abraçando como se se quisessem dizer ''Sinto muito".
Não tenho mais memórias daquele dia, não sei o que aconteceu dali em diante até o dia que o corpo do meu pai foi encontrado e veio para casa.
Mas eu me lembro que minhas tias acharam melhor que eu não fosse ao enterro, pois não queriam que eu tivesse aquela imagem do meu pai, e hoje eu agradeço por isso, por mais que eu não tenha obedecido na época.
No dia do enterro, eu acordei e estava em casa com Tia Mercia, ela tinha ficado para cuidar de mim, do meu irmão que não entendia nada do que estava acontecendo, e do meu primo Matheus, seu filho, que também era novo demais pra entender alguma coisa.
Mas eu sabia o que estava acontecendo, então eu peguei o vestido de labirinto amarelo que vovó fez pra mim, vesti e sai escondida pela janela do quarto.
Quando cheguei na igreja, lembro de mais uma vez ver vovó desmaiada, em uma cadeira de balanço, ao lado do caixão. Eu não tive coragem de chegar perto e vê-lo, então caminhei até o primeiro banco da igreja, sentei lá e fiquei em silêncio, não conseguia chorar, não conseguia acreditar, não conseguia falar uma única palavra. A irmã da minha vó, Santa, que estava sentada ao meu lado, me abraçou e começou a chorar muito, e eu só conseguia olhar pra frente ver a minha vó desmaiada, na cadeira de balanço, com as minhas tias em volta.
Tia Ninha não me deixou ficar por muito tempo, ela foi até onde eu estava e me levou pra casa novamente, eu não questionei, não tentei ficar, eu queria realmente ir embora dali, eu queria esquecer o que tinha visto.
Depois desse dia, eu perdi todo o amor pelo mar que eu tinha.
Eu tinha medo dele, eu tinha tanta dor que o mar me deu, que eu evitava até passar perto dele.
Lembro que uma vez eu falei sobre isso a tio Christian, na verdade, ele foi o único a quem eu contei tudo isso, e ele me disse: O mar não tem culpa, meu amor, o mar era a casa do seu pai também, o mar o acolheu e o mar sempre vai trazer ele para perto de você de novo, e se um dia eu morrer também, sempre que quiser lembrar de mim, vá para o mar.
Mas eu precisei de muitos anos para conseguir voltar a amar o mar, eu perdi o meu pai aos 5 anos, e só voltei para o mar agora, aos 21... Graças a tio Christian, mas ainda não é fácil, mas, agora eu o vejo com amor, e como lar, do meu primeiro amor.
“Eu tenho imensidões em meu coração. Carrego dentro de mim, sentimentos tão meus, que ninguém nunca irá saber.”
— Isabella Martins.
“A ferida existe, mas tirei a sua capacidade de me dominar.”
— Karoline Koppe.
Não me prendo a nada que me defina. Sou companhia, mas posso ser solidão. Tranquilidade e inconstância, pedra e coração. Sou abraços, sorrisos, ânimo, bom humor, sarcasmo, preguiça e sono. Música alta e silêncio. Serei o que você quiser, mas só quando eu quiser.
Clarice Lispector. (via inverbos)