Hoje eu senti sua falta, como não sentia há muito tempo. Me pergunto: como? Parece um buraco no peito, uma maldita Gangântula*, tal como a pulsão de morte**, que altera tudo que está ao redor, que agarra toda a vida que existe e puxa pra perto, o tempo é distorcido tamanha a força gravitacional desta merda. As memórias embaralham meu desejo diante de tal funcionamento mortífero no meu peito. Que lamento dizer, mas foi criado na maldita relação que tivemos. Foi um ponto riscado no meu coração que não importa o tempo que passa, os vetores sempre me cortam atravessando o meu presente para me arraigar na dor de um passado infeliz. Pra me jogar nesse poço artesanal que você criou em mim com suas próprias mãos.
Mas me pergunto: como posso então desejar tanto, sentir tanta falta da maldita faca que me fez um corte tão profundo? Pois é isto que você foi em meu corpo: agente de cortes, que marcaram, sangraram e parecem nunca fechar. Mas em algum momento, existiu prazer. Entre o seu corpo dentro de mim e um grito me mandando ir embora, talvez. Existiu prazer, mas o prazer em ser cortado? Freud fala sobre masoquismo, mas não me lembro agora o que ele fala. Como você, ele tem essa mania de falar de tudo, palavras vazias para um amor ou para uma clínica. Suas palavras também foram cortantes, as promessas ainda conseguem ecoar neste antro gravitacional onde nem há oxigênio para que se haja som. Elas estão escritas em cicatrizes pelo meu corpo onde você já passeou com a boca.
E sinto saudades, apesar de tudo.
Algumas dores são tão profundas que pesam, pesam como uma bola de bilhar num pano: e todas as outras bolas mais leves serão puxadas para o centro. Tudo me traz de volta a ser dor, a esse maldito amor.
Que findou.
*Gargantula é o nome de um buraco negro no filme Interestelar;
**Pulsão de morte é um conceito freudiano colocado em oposição a pulsão de auto conservação. Enquanto a segunda buscaria organização e construção, a primeira agiria através da desorganização, fazendo morrer a possibilidade de seguir em frente, fazendo o sujeito voltar atrás, até que este chegue ao momento do passado em que este era inexistente, morto.