“...gostava que soubessem que só está sozinho neste dia quem está só na vida.”
Este ano o dia de S. Valentim assomou-se acanhado e discreto, tão miudinho que nem dei por ele chegar- confesso que nunca fiz grandes preparativos, é talvez para mim uma data quase nula, mas nunca me esqueci ou obliterei o marco, quer estivesse sozinha ou acompanhada.
Este ano… O dia de S.Valentim ia fugindo de mim.
Conhecida por referência aos chocolates e flores, corações e amores, a tradição remete para o séc III quando um dito bispo S. Valentim foi decapitado neste dia florescente por ir contra as ordens do imperador Claudio II- a alteza havia proibido os casamentos no reino dado que acreditava que jovens solteiros e sem família formariam um melhor exercito. Casar os apaixonados das redondezas, mesmo que em segredo, custou a Valentim a liberdade, mas comprou-lhe por outro lado a admiração: diversas jovens deixavam-lhe bilhetes na cela. Irrompe-se então uma bonita história de amor entre o bispo e uma tal dessas mas que era cega, de nome Artérias, que chegou por milagre do afeto a recuperar a visão… S. Valentim morreu à mesma decapitado, por isso, celebra-se hoje neste dia o amor, para compensar a sua coragem e bravura demonstrada ao unir por meio matrimonal aqueles que uma outra maior força já unia.
Maior força essa que ninguém sabe muito bem explicar o que é, mas que conforme ditam os dicionários…
“amor - a.morɐˈmor - nome masculino
Sentimento que predispõe a desejar o bem de alguém.
Sentimento de afeto ou extrema dedicação; apego.
Sentimento que nos impele para o objeto dos nossos desejos; atração; paixão.
Afeto; inclinação.”
…é o sentimento de desejar o bem de alguém.
E hoje, atarefada e efervescente, enterrada no quotidiano, caí em hesitação e talvez dúvida quando comigo brincaram, chamando a minha atenção para o facto de ser dia 14… E hoje é o dia do coitado decapitado, dia daquele que deu a vida para unir os que dariam a vida pelo outro- porque o amor é, mais uma vez, desejar o bem de alguém, e talvez isso também explique o porquê de ter sentido que este ano, apesar de incerta e honestamente ignorante, eu me senti tão amada neste S.Valentim…
Porque para mim este dia não sobre ter flores à minha espera, ou um beijo de bom dia, mas sim sobre saber e pressagiar que há quem gaste da sua energia comigo, consuma o seu tempo comigo, esbanje sorrisos e felicidade comigo. Porque para mim, não há melhor prenda que um ‘acredito em ti’ vindo de alguém que admiro, ou de um riso mais desprevenido de um amigo ou até mesmo um bom dia cheio de energia de qualquer alguém... Porque para mim, por mais atual, comum e banal que seja, o dia de S.Valentim é todos os dias, e todos os dias eu cultivo com devoção o bem-querer, o afeto e a amizade- pois o amor é isto.
E deixei praticamente o dia passar sem eu passar por ele quando aficadamente choram tantos solteiros- gostava que soubessem que só está sozinho neste dia quem está só na vida.
“Se hoje procuro o cru, o bruto, o nu...É porque aprendi com este senhor a chocar. “
Podia ser mas não é… uma queixa encontradiça contra as decorações natalícias tão prematuras que marcam os inícios de novembro.
Sei que é natal quando se começa a sentir no ar aquele pesado cheiro a fermento de padeiro e as lojas esgotam o stock não de roupa mas de versões da All I Want For Christmas.
Sempre foi assim, e já quando tinha os meus 13 aninhos era.
Não me lembro, no entanto, se era novembro quando eu toda arranjada ( risos imensos pois ainda me recordo da camisa azul escura que levava) pus os pés a caminho da biblioteca Orlando Ribeiro, ali em telheiras, onde completamente febril ia buscar o Ecstasy- Não a droga literal mas sim a obra de Irvine Welsh.
Tinha esperado umas duas semanas que resgatassem o exemplarzito do arquivo, ler Irvine sempre foi caro, mas em dois dias devorei aquilo que considerava a minha nova Bíblia. Eram altas como os sonhos as expectativas, mas foram inteiramente superadas, esmagadas a sangue frio, pela escrita do escocês, quando ainda só tinha lido um dos seus trabalhos.
A paixão com que Irvine Welsh escreve é a paixão com que eu o leio, a paixão que ambiciono um dia vir a escrever com e quiçá ser lida. Não o considero um amigo, mas sim um professor, daqueles que se encontra de tempos em tempos na rua passados anos de nos ter lecionado.
Se hoje procuro o cru, o bruto, o nu...É porque aprendi com este senhor a chocar.
Encontrei nas personagens do universo Welsh a profundeza de pessoas reais, as emoções mais sinceras e factuais, as vidas acima de autenticas- e quando descobri que um louco qualquer se tinha aventurado a dar cor e imagem para além daquilo que o nosso cérebro constrói quando lemos… Uma parte de mim partilhou a ternura e devoção que tinha a Irvine com ele, Danny Boyle.
Trainspotting (1996) foi a adaptação cinematográfica de um livro do meu rei.
Gozei de um inexplicável ardor quando conheci as vozes e as caras daquelas pessoas com quem partilhei horas a fio através das páginas. Memorizei as suas feições e decorei os seus feitios. Sei do que gostam, do que não gostam e até alguns segredos. Caí num vazio quando deixei de sentir que havia novidade naquele filme, pois o resto já eu conhecia, como se lentamente morresse a vivacidade daquelas peculiares criaturas.
Mas este ano, o natal chegou mais cedo, e ainda nem sequer cheirei o raio do fermento de padeiro nem ouvi a All I Want For Christmas! Fui presenteada no entanto com o trailer do filme Trainspotting 2, que será a adaptação de Porno, e os meus amigos Mark “Rent Boy” Renton, Daniel “Spud” Murphy e Simon “Sick Boy” estão vivos de novo, e temos um encontro marcado para Fevereiro de 2017.
‘As leis são como as meninas virgens...São para ser violadas’.
Carta aberta a Jorge Máximo,
É uma carta aberta, um grito, uma insubordinação! Porque EU e todas as MULHERES somos MENINAS VIRGENS!
Não ambiciono sublinhar uma opinião pessoal relativamente às manifestações públicas contra a Uber. Não tenciono adotar um dos lados- mas é impossível não perguntar...
Até onde vai a vossa revolta?
Ate onde vai o vosso imensurável desejo e sede de vingança contra a concorrência que se limita tal como vós a levar passageiros do ponto A ao ponto B?
Até que ponto vai a vossa agressão? Não só a física realizada sobre os agentes da autoridade mas também a moral exercida sobre todas as mulheres... até onde são capazes de ir?
Porque não é aceitável eu entrar num taxi e ter por hábito enviar uma mensagem ao meu pai a dizer o número deste, só no caso de algo acontecer.
Porque não é aceitável uma amiga minha insistir para eu lhe enviar uma foto do taxista, só no caso de algo acontecer.
Porque não é aceitável as minhas amigas juntarem-se aos pares para andar de taxi, só no caso de algo acontecer.
Chega de perpetuar os abusos às mulheres, os assédios a que somos expostas por pessoas como Jorge Máximo, que hoje publicamente e orgulhosamente confirmou a brutalidade que as mulheres enfrentam quando andam de taxi. Chega de deixar passar impunes comportamentos que espancam a dignidade, a segurança e respeitabilidade feminina.
Jorge Máximo, espero que nunca nenhuma das ‘meninas virgens’ que tem lá em casa passem pelas obscenidades que tantas outras mulheres passam por unicamente querer ir do ponto A ao ponto B...
Porque eu sou uma menina virgem e hoje o meu medo de andar de taxi sozinha deixou de ser visto como irracional.
Porque nós meninas virgens somos as vossas filhas, as vossas netas, amigas, mães, irmãs, mulheres e namoradas... E o que diz Jorge Máximo sobre as meninas virgens? ‘São para ser violadas.’
“Está no modo como celebramos o que nos rodeia, na forma julgamos e encaramos uma situação... E tem um nome: Compaixão seletiva.”
A compaixão seletiva sai vitoriosa quando dizemos feliz dia da mulher, feliz dia do pai... As filas nas lojas de ‘prendas rápidas’ condensam nestas celebrações e ocasiões, e poucos valores serão uma melhor prenda que um módico e acanhado troféu com um preço inflacionado que diga ‘Melhor do mundo’. O problema social e moral não está no festejar e elogiar, está na forma como são pintadas estas personalidades num dia e como o são o resto do ano- Há uma frase popular que descreve na idealidade a descarinhosa realidade sobre a qual me pronuncio: De Bestial a Besta .
É um B capitalizado de Basta, porque é feliz dia da mulher, feliz dia da emancipação do feminino mas 47 mulheres foram assassinadas em 2015 pelos agressores que estas julgavam ser a sua cara metade, e outras 33 ficaram com a vida por dar, miseravelmente marcadas para a eternidade decerto... É dia das senhoras, moças, madames e mocinhas mas por mês 6 mulheres são vitimas de tentativas de homicídio por “pessoas com quem mantinham uma relação de intimidade” . Mas um dia por ano, elas são o centro das atenções.
No entanto, o sonho e intento desta sensata ponderação não é virar os olhares para uma única iniquidade, mas para copiosas injustiças que partilham perversidade.
Em Portugal, 94% dos processos de disputa de responsabilidade parental de uma criança culminam na atribuição do poder paternal maioritário à mãe. A legislação é clara: é favorecido o elemento do ‘casal’ que apresente melhores condições à educação e desenvolvimento saudável de um menor. É no entanto insólito engolir que apenas 6% dos pais que demandam a custodia dos filhos detenham melhores condições que a mãe. Existe axiomaticamente uma descriminação intensa perante o progenitor. É feliz dia do pai, feliz dia do melhor do mundo... Até este ter que debater em tribunal a sua capacidade paternal- De melhor do mundo a insuficiente.
Nada obstante, a compaixão seletiva, isto é, a cuidadosa escolha de quando é importante um determinado grupo ou acontecimento, estende-se para além da guerra do género...Estende-se à guerra em si.
Nos últimos 5 anos quase meio milhão de pessoas morreram devido à guerra que a Síria enfrenta, e embora este número se faça ouvir ocasionalmente nos media, assustando que o lê, ao menor irrompe da palavra ‘refugiados’ lá se vai a compaixão pelos mortos. Rotulados de caça tesouros e oportunistas, pessoas que nada mais procuram do que segurança são vistas como o lixo que vai ‘roubar os nossos empregos e alimentar-se dos nossos impostos’. O tamanho egoísmo deve-se ao facto de a memória ser curta: em 2013, num ano apenas, faz-se sublinhar, 110 mil portugueses emigraram em busca de melhores ganhos. Os refugiados, vão de coitadinhos a gananciosos, e nada querem senão salvaguarda de bombas...Mas quando as bombas são em território europeu, o povo já treme de medo, e fazem-se ouvir as Hashtags #PrayFor e as imagens tristes que choram a sentida e padecida perda de vidas humanas. Morrem por bombardeamentos mais pessoas numa semana na Síria do que num ano na Europa, mas rezem por nós Europeus, ao fazerem um cobrimento mediático quase totalitário da desgraça que o terrorismo representa, ignorando o atroar duma e outra explosão nos países mais a Este. Ahhhh! E não podendo pretenir do ‘livrar das culpas’, vamos incriminar mais uma vez os refugiados, e os muçulmanos, que por seguirem apenas uma religião são terroristas.
A compaixão seletiva também vagueia por entre as religiões...
O que numa religião é dedicação, noutras é sujeição. Conhecida por todos a difundida religião católica caracteriza-se por uma liberdade relativamente acentuada no que toca aos hábitos e preferências de cada um referentes ao vestuário- prioriza-se no entanto a modéstia. Assim sendo, qualquer gesto mais imoderado por parte de um crente é visto como um sinal enorme de devoção: o uso de uma cruz ao peito por parte de uma jovem católica em conjugação com roupas simples prova o quão pura, respeitável e inócua esta é. Mas uma jovem que use burka... É oprimida. É compaixão seletiva termos pena de uma adolescente que tape o seu corpo por entrega a algo em que acredita e admirarmos outra que usa uma cruz. Ambos estes elementos são símbolos religiosos, e todos os símbolos religiosos deviam ser vistos como iguais, assim sendo, podem ser encarados na totalidade como meios de opressão e não só alguns.
É hipócrita julgar uma família que motive as filhas a usar burka quando aplaudimos os batizados católicos a bebés, que rondam 72% do número de nascimentos . De religião a opressão...
E porque a opressão anda sempre de mãos dadas com o preconceito, claro está que o preconceito lucra com a compaixão seletiva.
Há uma compaixão seletiva antes de sequer nascermos. Nos primeiros meses de gravidez, quando ainda somos um saco de células não importa como vamos nascer. É prometido a um feto amor seja este saudável ou não, rapaz ou rapariga...
Quando aos primeiros meses de gravidez ouvimos os progenitores dizer que o sexo do bébé não importa, estamos a testemunhar uma situação de compaixão seletiva- não importa até ao momento em que a criança evolui e pondera, e mais tarde já adolescente, se assume como transsexual. A anormal realidade é que no mundo 41% dos transsexuais tentam suicidar-se pelo menos uma vez na vida, sendo o motivo mais comum a falta de aceitação e a opressão, especialmente por parte dos familiares. De ‘não importa o sexo’ a ‘afinal já importa’...
Talvez seja uma embirração pessoal, mas por falar disto também eu vou de ‘Bestial a Besta’... É um B capitalizado de Basta.
Fontes:
Borga Marcos; “Violência doméstica. 27 mulheres assassinadas este ano”, in Expresso; acessado a 1/04/2016 in http://expresso.sapo.pt/sociedade/2015-11-25-Violencia-domestica.-27-mulheres-assassinadas-este-ano
Associação 26-4, Ministério da Justiça; Acessado a 3/04/2016 in http://serpai.no.sapo.pt/estatisticas_poder_paternal.htm
Azevedo Viana, Joana; “Síria. Quase meio milhão de pessoas já morreram em cinco anos de guerra civil”; in Expresso, acessado a 3/04/16 in http://expresso.sapo.pt/internacional/2016-02-11-Siria.-Quase-meio-milhao-de-pessoas-ja-morreram-em-cinco-anos-de-guerra-civil
Faria, Natália; “Só no ano passado emigraram 110 mil portugueses”; in Publico; acessado a 3/04/16 in https://www.publico.pt/sociedade/noticia/emigracao-no-ano-passado-atingiu-110-mil-portugueses-1676057
Moleiro, Raquel. “Já nem o batismo é para a vida”; in Expresso; acessado a 4/04/16; in http://expresso.sapo.pt/actualidade/ja-nem-o-batismo-e-para-a-vida=f640510
Hodges, Fr. Mark;
“The transgender suicide epidemic: is accepting their confusion really the answer?”; in LifeSite; acessado a 4/04/16 https://www.lifesitenews.com/news/gender-confused-suicide-rate-ten-times-national-average
Imagem: http://il6.picdn.net/shutterstock/videos/4974800/thumb/1.jpg
“Hodiernamente, ou pelo menos hoje, o meu género está de greve...”
Tenho sentido, demasiado frequentemente ,quase hiperbolicamente, que o meu género está ofendido... Está e sente-se compungido, humilhado, pelas atrocidades pintadas que o encurralam. Eu juro, e não imploro nenhum atestado de insanidade ao fazê-lo, mas o meu género grita, esperneia e suplica por liberdade.
“Eu não tenho que me conformar à norma binária que os teus patéticos antepassados construiriam, e mal, muito mal. Eu não tenho que me subjugar ao preconceito que o homem não chora e a mulher não se toca, nem à ideia crescente que existem roupas para uns e hábitos para outros. Eu não tenho que existir limitado a dois polos quando sou um vasto espectro e muito menos cingir a minha entidade... Aliás, a TUA entidade”
Hoje, o meu género fez greve, está chateado... Diz que não faz sentido existir conformado.
“ Não posso ser hipócrita: acho que somos amargos pela inveja que nos atinge.
Não tivemos direito a nada senão falsas esperanças... E agora de nada passamos senão de uns incapazes. “
Nada, somos nada. De 1990 a 2000 nasceram por todo o mundo gerações de crianças destinadas a viver na ascensão intelectual e queda moral, na elevação máxima da propagação de informação mas na decadência espiritual e na escalada indomita da tecnologia que nos avizinhou mas cercou de tudo... Foi escrita a sentença aquando a injusta e torpe escolha da sorte nos condenou ao ditar que iríamos crescer numa época de dúvida e insuficiência permanente: Somos os que nasceram nos 90s- A Geração Nada.
Não me é custoso apartar e eleger os momentos da minha infância mais marcantes e acredito que a quem floreou nas mesmas circunstâncias cronológicas que eu, tal dificuldade mostra-se praticamente nula também. Lembro-me sem esforço do que era brincar, do que era repetir livremente a mesma brincadeira incessantes vezes, reclinando a um cantinho a possibilidade de qualquer aborrecimento. Lembro-me na perfeição do que era empanturrar-me com certos jogos, perder-me nas horas amenas das tardes longas que passava em casa a criar mundos só meus. Infelizmente, hoje em dia as crianças não detém esta opção...
Os pais que trabalham 8 e 9 horas (às vezes até mais) esforçam-se para manter as criacinhas ocupadas, e para que não lhes falta nada do que acham essencial, omito então o facto que não passam de luxos tecnológicos e outros tantos dispensáveis materiais, obliteram a necessidade que os filhos naturalmente sentem de estar a sós a brincar, ou em ambiente familiar, para se dedicarem aos empregos que só em outros hipotéticos universos são a garantia de uma família feliz ...
Mas
“Hoje em dia as crianças não sabem o que é brincar.
- Vai brincar! – e ficam a olhar para nós....’ O que é brincar?’ “
Há várias coisas há minha volta que me sombreiam e trespassam deixando marcas fundas que mesmo quando intento ignorar me magoam: Estamos a andar para trás, e os filhos dos 90s estão no meio duma guerra entre os limites. Infelizmente, ambos fazem o seu melhor esforço para indigitar que são o lado correto.
Vamos começar pelo inicio, alias, pelo ‘antes do incio’.
As gerações que nasceram antes dos 90s foram gerações muito sofridas em geral...Marcadas pela presença ininterrupta de vivências horridas e bárbaras que os pais e avós passaram, acredito que existia uma aura receosa de fracasso. Os estudos eram uma obrigação cada vez mais acentuada pois as histórias dos anteriores que haviam deixado a escola para trabalhar por um ordenado quase digno de escravo achavam-se por toda a parte. Em adição, estas gerações foram ensinadas e ter medo de tudo o que estava ligado às drogas pois a apenas uns anos de distancia atrás a ascensão das substâncias ilícitas provocaram mutações penosas na forma como eram encaradas: mortes, doenças, sequelas. Em suma, e não esquecendo de sublinhar que estas duas vertentes da educação das gerações antes-90s não são as únicas vertentes singulares, posso concluir que a forma como estas cresceram teve um impacto muito forte nas seguintes.
Assim sendo, a geração dos 90s foi como um protegido. Eramos os perfeitos, os capazes, o futuro... Estávamos livres dos traumas antigos e detínhamos a sorte de ter nascido numa altura em que a informação que transbordava por toda a parte não nos permitiria cometer os erros antes comidos pelos passados. Bem cientes do que o mundo frio era, quem nos criou fez questão de nos tentar proteger de tudo e todos, mas não o fez a sós, pois tal como mencionei, a melhoria económica e social fez questão de atenciosamente oferecer uma ajudinha. Nascemos com a impressão que se estudássemos muito, nos dedicássemos ao que gostamos e evitássemos fazer asneiras nada nos poderia negar uma chance brilhante de vir a ter um emprego de sonho que era na realidade uma garantia de felicidade- era o tempo das vacas gordas, mas ninguém nos falou do que era fazer dieta. Mantenho a minha opinião sincera: acho que estávamos todos tão ocupados a ser mimados pela máxima ‘És especial’ que nos cegamos contra a tétrica que nada é perfeito, e agora tivemos um choque de realidade com as gerações posteriores a nós... Mais novas mas mais livres; mais novas mas mais preparadas.
Não tem medos, mas acredito que também não tem morais. As gerações de agora, as crianças de agora, pois não são mais que isso, não tiveram infância. Acho questionável e até preocupante que ambos os extremos se assemelhem tão ironicamente: os anteriores aos 90s, não tiveram infância devido à obrigação de trabalhar, devido a tragédia social... Os posteriores aos 90s não a tiveram porque de tão rodeados de luxo estão que não lhes assiste a ideia que ser criança não tem mal.
Passam horas vidrados em ecrãs, desde tenrazinha idade. Os seus objetivos não são muito mais além do ‘ter uma boa aparência’. Os estudos também não representam uma importância nas suas rotinas, até porque ao contrario dos 90s estes não foram regados com esperanças de um futuro estável e iluminado.
Não posso ser hipócrita: acho que somos amargos pela inveja que nos atinge.
Não tivemos direito a nada senão falsas esperanças... E agora de nada passamos senão de uns incapazes. Não temos bem a noção do que é o mundo real pois fomos vidrados por teóricas sem utilidade prática. As gerações anteriores a nós tem experiência... As gerações a seguir de nós estão a desenvolver experiência e mesmo sendo mais novos aparentam e comportam-se como mais velhos. E nós?! Nós estamos no meio, perdidos pois somos um nada que nada sabe.
É azeda a existência incapaz de alguém que pertence aos únicos que tiveram uma infância protegida pois estamos agora deslocados. Nasceste nos 90s? Parabéns! Pertences a Geração Nada.
“Somos os zé ninguém. Somos o exagero. Somos os que não vão ter futuro.”
Quando uma ou outra alminha se a mim dirige questionando com sinceridade, salvo as vezes em que é na verdade disfarçada maldade e preconceito, o porquê de me vestir assim, entrego um “porque gosto”. A mais pura e voraz verdade é que o “porque gosto” está a imensuráveis léguas da profunda razão. Ahh! É trabalhoso explicar que não pretendo ser diferente nem tão pouco ambiciono me destingir dos demais- pois se o acontece afirmo que é mais a consequência prejudicial que a saborosa recompensa. Aprendi, da piore das maneiras, que quando queremos expor o que detemos no interior temos que aprender a esconder por sua vez o que nos motiva a tal fazer. Podia estender parágrafos explicativos que demonstrassem como me sinto eu mesma quando sou aquilo que sou hoje, mas depois das primeiras vezes de descrência total e menorização completa sobre os meus gostos e opções pessoais, desisti. Perdi a antes tamanha motivação, findei as tentativas. Contentem-se então com um ‘porque gosto’.
Exteriorizar o que sou sempre me foi, no entanto, fácil, lidar com o preconceito também. Já contam uns bons anos, e já não há olhares penetradores que causem desconforto- devo, no entanto confessar que por vezes ainda me entrego à irritação...
Há uma construção social pejorativa sobre aqueles que decidem seguir e expor as vontades intimas, e tal construção tem causado danos profundos nestes indivíduos. Arranjar um emprego para quem detenha respeito a si próprio e se recuse a desvanecer para pertencer é mais que difícil, e simplesmente caminhar na rua sem sentir o julgamento constante ainda mais. Somos os zé ninguém. Somos o exagero. Somos os que não vão ter futuro.
Cada vez que penso num futuro, crescentemente mais próximo, em que forçosamente vou ter que alterar aquilo que sou, sou atingida pela pesarosa angústia que me consome...Eu modifico o meu corpo para demonstrar aquilo que sou no interior, se não o poder fazer, quem serei eu senão uma personagem?
“Mas podes ser quem és sem essas porcarias!”... Hipócrita pois se obrigassem quem isto diz a vestir, ter e mostrar algo que não são iriam então perceber o conflito emocional que é ter que mudar, esconder e tirar aquilo que somos. Enquanto houver a ideia que quem se molda quer apenas ser diferente, vai haver a ideia que estes hábitos e escolhas são opcionais...
E consequentemente vai existir a outra ideia de que é obrigatório o belo dos atos: mudar até encaixar.
“E depois perdes, sem retorno, quem te dava a segurança que te fazia caminhar confiante de que a única queda que poderias sofrer era a literal.”
Dá valor... Ao que sempre esteve lá mas obliteravas por maior interesse perante outras coisas, provavelmente mais triviais e temporárias.
Dá valor... Ao que ambicionas e esqueces porque os prazeres momentâneos ultrapassam a motivação que te resta para lutar e trabalhar a fim de alcançar o que objetivas.
Dá valor... A quem te ama e motiva mas escolhes desconsiderar porque te negligencias da relevância que essas pessoas detém sobre a tua vida...
E depois perdes, sem retorno, quem te dava a segurança que te fazia caminhar confiante de que a única queda que poderias sofrer era a literal.
E depois perdes sem retorno, oportunidades únicas na vida que seriam um caminho abrigado e assegurado para a felicidade.
E depois perdes, sem retorno, os pequenos prazeres que faziam tudo tomar sentido independentemente das tempestades que nos atingem aqui e ali aquando vida.
Não sou fã dos dogmas universais, mas recomendo: Dá valor.
“Aos 13 anos a Sofia (nome fictício) assumiu-se como lésbica perante os pais.“
Aos 13 anos a Sofia (nome fictício) assumiu-se como lésbica perante os pais. Estávamos em 2011/2012 e apesar de já lá irem uns aninhos, na altura o meu tenro, inocente e sincero eu achou cruel e até bárbaro a forma como os pais dela reagiram- um castigo severo foi aplicado e o tirano tratamento de silencio, que durou demasiado, estabeleceu-se. Sofia, hiperbolicamente nova para se compreender a ela mesma e para compreender os pais, entrou numa interminável espiral de procura ao auto-(des)conhecimento.
Vi a minha jovem amiga a metamorfizar-se a cada dia, passando por fases atrás de fases, umas mais fundamentais que outras, desde a forma de vestir a uma postiça bissexualidade...até ao momento em que me deparei com uma Sofia morta. Já não havia Sofia, havia o João. Aos 14 anos perdi uma amiga que se impôs perante tudo e todos como transsexual-não tendo na minha posse a capacidade de mentir pois se há entidades divinas elas não me concedem tamanho pecado, não aceitei, não por preconceito mas porque sabia que aquele não era o ser humano que tanto gostava e admirava, mas respeitei e com muita força de vontade comecei a abordar a antiga Sofia por João e a usar ele.
Muito poucas coisas nesta vida traduzem a dor que é ver alguém mudar não por opção mas sim por pressão. Por mais utópico que se figure, a ideia de substituição de uma filha por um filho era mais aceitável do que a homossexualidade. Inegavelmente, a posição de juiz não me cabe a mim, mas é inviável sentenciar que ambicionar matar a vergonha de ser conhecidos pelos pais de uma lésbica desta forma é simplesmente nojento.
Vi lentamente os cabelos longos dela a encurtarem e a passarem do tom escuro e quente para loiro de 80vol descolorante. Vi uma nova conta no Facebook a adicionar-me e outra antiga a fechar. Vi tamanhas falsidades atrás de outras atrocidades mas o que mais estava a vista era a tristeza que aqueles olhos, que nunca mudaram, detinham.
Mas vamos voltar atrás, muito antes da minha Sofia ter encontrado esta forma de paz exterior e guerra d’alma. A Sofia foi forçada a ir a psicológicos, e sim, há psicólogos que ainda denominam uma orientação sexual de ‘doença’. Paginando calmamente uma revista, a mãe perguntava-lhe, indicando uma modelo qualquer, ‘Achas bonita?’. Tamanha degradação só competia com o genérico e popular ‘És demasiado nova para saberes o que és...’ e por vezes com o outro infeliz comentário ‘És demasiado nova para sequer amar!’
Mas...e se ela fosse heterossexual? E se Sofia amasse namorados em vez de namoradas? E se Sofia achasse rapazes atraentes em vez de raparigas? E se Sofia nem fosse ela rapariga e pudesse assim se atrair por outras raparigas? E se...Tantos se.
Existe a intocável doutrina do depende.
A Sofia era capaz de se autoconhecer aos 13 anos, mas depende.
A Sofia era capaz de amar, mas depende.
A Sofia podia achar pessoas atraentes, mas depende.
A Sofia podia amar raparigas, mas depende.
Atualmente, tenho a minha Sofia de volta que agora tem 18 anos- Assume-se, de momento, como heterossexual quando lhe perguntam...Mas eu juro, e tão devotamente o faço, que quando passa uma rapariga bonita, os olhos da Sofia brilham mais, e seguem, perseguem, tão inocentemente como vemos os apaixonados fazer, os movimentos da individua. É triste mas infelizmente ela existe, e tão cedo não vai cessar, a intocável doutrina do depende
Nota da autora:
A Sofia acabou por considerar a sua bissexualidade como nada mais que uma fase, sendo então esta a forma como a retrato para ser o mais fiel possível à realidade, mas não de forma alguma pretendo negar ou minorar esta orientação sexual tão válida como as outras.
A Sofia também acabou por admitir que nunca se auto identificou como rapaz, e que sempre lhe aqueceu o coração saber que os amigos mais próximos perceberam que não passava de um disfarce. (Repito que não procuro minorar a transsexualidade mas sim retratar o caso da Sofia).
A Sofia não se chama Sofia, mas todos os acontecimentos bem como datas são factuais.
“Paralelizar no tempo é perde-lo, e posso não dispor de vivências que me apoiem na defesa, mas tenho a certeza que a fugacidade da vida não nos deveria permitir a este malíssimo e narcótico luxo.”
É ténue a distancia que vai do adorar ao odiar, talvez porque considera-se que tais sentimentos, tão fortes na sua tragédia, sejam impossíveis de paralelizar- São ambos agridoce dado quando se adora sofre-se na perda e quando se odeia amarga-se a alma no processo. A realidade é que há um triunfo honesto quando vemos falhar e findar o que desprezamos e outro existe na adoração que detemos pelas coisas, pessoas...
Mas o que dita se odiamos ou adoramos algo?
Eu adoro as despedidas, os fins, os adeus.
Nunca me consegui identificar com as personagens deste mundo que enchem o peito de dor e amargura para dizer, herdando ao mesmo tempo um olhar desolado, ‘odeio as despedidas’. Respeita-se quem de outra forma as encara, mas torna-se utópico negar e repelir que tudo tem um fim necessário. Sempre houve algo na finalização de um evento que me fascinou, e apesar de não deter capacidade para precisar o que me magnetiza, suspeito que seja a circular ideia que no fim da linha estará algo de novo, pacientemente esperando, aguardando.
Paralisar no tempo é perde-lo, e posso não dispor de vivências que me apoiem na defesa, mas tenho a certeza que a fugacidade da vida não nos deveria permitir este malíssimo e narcótico luxo. Se na natureza tudo começa e tudo acaba, porque evita o ser humano impor a simples finalização do ciclo Adeus? Não me direciono unicamente ás despedidas sentidas quando alguém nos deixa, parte, nos abandona por viagens ali ou além- até porque nem sempre há a valiosa oportunidade de nos despedirmos: falo então da ideia geral que representa o Adeus: concluir, sepultar, cessar.
Se há um tanto belo é sem dúvida a vicissitude de ser apto para terminar algo, e assim seguir em frente, debilitado mas mais forte, já que trata-se de deixar para trás um pedaço de nós, pois pomos bocados nossos em tudo o que fazemos. Não negarei a tristeza que atinge o corpo e a cabeça quando enfrentamos um adeus, quando nos vemos forçados, seja por nós próprios ou não, a abandonar o que quer que seja, mas será que a magoa é suficiente para odiar? Será que faz sentido escornar esta chegada ao fim? Deveríamos valorizar o conseguir recorrer ao adeus, adorar a promessa de luz que este nos traz...
Pois dizer adeus é deixar para trás, e para trás fica o que podemos recordar e celebrar. Prezo o adeus, e venturosa me sinto por findar as amizades, as paixões, os amores, os hábitos, as felicidades. Não consigo odiar, eu adoro o ‘Adeus’.
“...fingir cansa a alma, o que desencadeia um niilismo subtil: Nada vale a pena. Confrontados com imagens inalcançáveis do que deveriam ser, os jovens entregam-se à apatia, desistindo do futuro e da vontade de o mudar; para eles, o fado já está escrito, só resta aceitá-lo. “
Contrariamente à opinião das maiorias, defendo que os princípios Epicuristas e Estoicistas não só ainda detêm a capacidade de presença na filosofia de vida pela qual os jovens na atulidade se regem, como afirmo que tal participação é, mais do que nunca, extremamente acentuada.
O Epicurismo baseia-sena procura da felicidade relativa que reside no prazer alcançado através das perceções. No entanto, este não é desmedido, e há uma preocupação em controla-lo, pois um desequilibro pode significar a chegada de dor profunda, o que condiciona a ambicionada ataraxia, que se caracteriza pelo estado de confiança proporcionando pela ausência de sofrimento, já o Estoicismo procura uma completa indiferença perante as emoções e uma aceitação natural do fado. Opostamente à descrição anterior, aqui pretende-se desvalorizar os prazeres e promover a desejada abdicação.
Disto isto, a dificuldade de identificar tais aspetos na juventude de agora é reduzida. No era da informação, onde o hoje é o amanhã, as altas expectativas impostas pela sociedade capitalista e de consumo de aparências em que vivemos levam das adolescentes a procurar alcançar tais metas, vivendo tudo demasiado rápido, atropelando valores e cedendo aos prazeres das perceções trazidas prematuramente pelas bebidas oferecidas em seu redor e pelas drogas leves de fácil acesso. Porque não há tempo para sofrer- tudo se dá num instante- o objetivo das faixas etárias mais baixas é alcançar a ataraxia, construindo para tal uma imagem implacável de si mesmos nas redes sociais, impondo então uma fachada pesada sobre a sua própria pele. Não é de admirar que as depressões cheguem tão cedo- fingir cansa a alma, o que desencadeia um niilismo subtil: Nada vale a pena. Confrontados com imagens inalcançáveis do que deveriam ser, os jovens entregam-se à apatia, desistindo do futuro e da vontade de o mudar; para eles, o fado já está escrito, só resta aceitá-lo.
Em suma, provo então o meu ponto de vista: o epicurismo e o estoicismo estão omnipresentes no modo de vida da juventude do séc.XXI, talvez como nunca estiveram previamente.