Nunca achei que seria um problema amar um coração que já havia sido dado a outra pessoa.
Justamente porque dia após dia eu reconstruo pedaços do que talvez tenha sido uma vez um coração sem medo (talvez não). Às vezes até penso que só sou eu mesma quando me perco no que sobrou com o que foi feito comigo, por ser familiar demais e não por ser confortável (não é).
O problema não era, de forma alguma, o amor que já existia quando eu cheguei. Ele já era seu, e eu amei você amando o seu amor justamente por ser seu e por refletir tanto da luz que você já tinha e ainda tem. O que se tornou um problema foi a partida do seu amor, e do seu coração.
Não imaginei que teria que ver sua dor intensa, abraçar sua ausência e montar um quebra-cabeça com os sinais que eu consegui caçar pra poder ser mais compreensiva com seu sofrimento. Eu jamais deixaria que algo de ruim te acontecesse ou que algo te machucasse, se pudesse. Busquei incansavelmente a chance de te cuidar como eu sempre quis ser cuidada mesmo que talvez você nunca tivesse de fato me permitido. Consegui forças que não sabia que tinha pra poder respeitar seu espaço e seu momento, até seu sofrimento, que não pude carregar como um fardo meu, porque eles todos são seus e eu amo cada coisa que é sua.
Eu cheguei a pensar que não sobraria nada pra mim depois disso passar por ti, e quase que ao mesmo tempo eu entendi que estar ao seu lado já me contentaria.
Mas não era verdade: eu quis estar contigo no seu pior (mesmo que apenas sendo paciente), quis sua amizade, sua companhia da madrugada, quis seu riso, sua parceria em encontros em lugares aleatórios, seus áudios intermináveis e incríveis, sua compreensão, sua paciência, seu carinho que sempre esteve presente, sua paixão por mim que talvez nunca tenha existido, o sexo que foi ensaiado. Quis que você estivesse aqui, e não passasse aqui.
Num golpe de azar, o que no começo parecia pura sorte se inverteu. Estarmos juntos era um desejo que tínhamos, só não era o mesmo que o universo tinha pra nós (ainda não sei qual é, mas ele tem um jeito esquisito de trabalhar). Por ironia do destino, nenhuma das vezes que estivemos juntos conseguimos ter paz.
Não me leve a mal. Você sabe que de batalha eu entendo graças a meu Pai, e eu batalharia contra o universo e a paz juntos por nós dois. Mas me sinto cansada e talvez saiba, lá no fundo, que a batalha, dessa vez, não é vitória minha. Por mais que pareça que eu nasci pra isso, numa piada de muito mau gosto.
Ainda como tinta fresca, dentre muitas coisas, descobri que meu relógio corre diferente do seu: o meu, corre ansioso por estar contigo; o seu, se aperta pra que sobrem alguns segundos pra mim.
O nosso romance foi feito quase que totalmente de coisas que eu imaginei que faríamos e que desejei que fizéssemos; a cada noite indo dormir desde que você chegou, mesmo nas quais estava acompanhada, imaginei como seria dividir aquele momento contigo. Até hoje eu não sei como é, e com certeza em algumas dessas encenações eu me apaixonei mais um pouco por você.
Meu amor de hipóteses. O que mais eu poderia querer?
Tá tudo bem. Suas músicas serão sempre suas, seus “meus sentimentos” também serão sempre seus. E talvez hoje camurça seja uma cor pra você como foi um dia pra mim.
Sobre seu silêncio, não é como se ele tornasse o mundo cinza; ainda sei que é colorido onde você está e que existem cores diferentes nos meus dias. Mas seu sumiço simula fielmente sua ausência, e de modos diferentes. Como se você nunca tivesse existido, como se você já tivesse partido, como se você estivesse se distanciando pra partir. Nunca sei o que seu silêncio significa. E nunca sei se você vai voltar.