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One Nice Bug Per Day

if i look back, i am lost
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@ioankrum
Tudo bem, eu admito, você tem razão e eu sou paranoica. Ainda não sei muito de você, então não me desaponte me matando no final, pode ser? Estou dando um voto de confiança aqui porque você me parece realmente uma pessoa legal. Esquisito, mas legal. Foi uma escolha errada sua, mas também foi muito errado da minha parte ter sido rude com você daquele jeito. O que importa é que foi divertido, como você disse, algo que eu não esperava ter quando acordei naquele dia. Linda, então. Aceitado. Não sei lidar com elogios, mas acho que isso você já notou, Sr. Perceptivo e Observador.
Ei, eu também quero um desafio! Na verdade, os dois são formas de calor iguais. O que acontece é que, com a presença de outra pessoa por perto, se é que me entende, os batimentos cardíacos costumam acelerar e é isso que faz a diferença no processo de… aquecimento. Realmente, quem trocaria uma pessoa por encantamento? De qualquer forma, anotei o conselho do anônimo de não ir sozinha para a Bulgária.
Eu acho que você tem uma mania muito estranha de se auto ofender. Estamos conversando há menos de cinco minutos, e é a segunda vez que se insulta. Prometo que não te matarei, não só uma promessa como uma garantia também. Não tenha medo de mim. É a segunda vez que você me elogia também, a conversa está ficando cada vez mais interessante. Muito obrigado. Acredito que seja melhor nós dois esquecermos aqueles primeiros momentos e focarmos somente em quando tudo deu certo e meu intento de te fazer sorrir foi alcançado. Talvez eu tenha notado, srta. Inglesa, mas você deveria aprender a lidar. Tenho certeza que merece todos os que recebe.
Você também quer um desafio? Vejamos... Tem alguma ideia? Você entende muito de muita coisa, não deveria levar tudo para o lado científico. Prefiro pensar que um abraço, por exemplo, é muito mais confortável do que uma porção de casacos. Não são iguais, de jeito nenhum. Ninguém trocaria ma pessoa por um encantamento, a não ser que essa pessoa de fato repudiasse o toque de um semelhante - o que eu acho um verdadeiro absurdo, pessoalmente. E a senhorita pretende visitar meu país de origem um dia? Poderia te desafiar a ir comigo um dia, mas isso se encaixa mais no meu desafio do que em um novo para você. Preciso pensar mais um pouco.
O que queria que eu fizesse, sinceramente? Um estranho senta na minha mesa e começa a puxar papo comigo em um bar. Por favor, fui criada no pensamento “não fale com estranhos”. Até onde sei, você podia ser um assassino em série procurando indefesas sozinhas e depois quando vou notar estou em um lugar que não conheço e faltando órgãos internos ou picada em pedacinhos, mas nesse caso eu nem notaria porque já estaria morta. Achei melhor não arriscar. Além disso, meu humor não estava dos melhores depois de passar meia hora com aquele idiota inútil. Enfim. Louca seria o último? Meus amigos discordariam disso. E qual seria o primeiro?
Veremos, búlgaro. Veremos. Talvez isso seja um desafio. Sim, foi um elogio disfarçado, aceite e não me faça repetir. Ah, droga. Ficou tão evidente assim? Bem… Disseram que eu precisaria de alguém para me esquentar. Ou esquentar alguém. Não lembro mais, mas o resumo era uma pessoa esquentando outra. Cada pergaminho estranho que recebo, só Merlin pra me dar paciência.
Algumas pessoas conversam com as outras pelo simples fato de gostarem de interagir, sem qualquer plano macabro de morte absurda por trás disso. Afinal de contas, o que eu ganharia te matando? Para mim, você é muito mais interessante viva, com todos seus órgãos internos no lugar. Sim, a respeito do humor eu devo concordar. Talvez tenha sido uma escolha errada minha ter invadido seu espaço pessoal justamente naquela hora, mas como eu iria adivinhar? De todo modo, nós dois saímos ganhando no final. Acho que isso é o que importa. Por que a surpresa? Talvez seus amigos sejam os loucos, na verdade. Linda, eu diria, mas aceite e não me faça repetir.
Um desafio, ótimo para mim. Gosto de ser desafiado. Aceito de muito bom grado, não farei você passar pelo constrangimento de admitir que achou minha voz e sotaque agradabilíssimos. Bem, um pouco. Não seria tanto caso eu não fosse bom em observar as coisas. Interessante a observação desse anônimo? ao enviar a coruja. Dizem que o calor humano é muito mais eficaz do que cobertas ou agasalhos. A única coisa que o supere, talvez, seja algum feitiço aquecedor. Mas quem trocaria uma pessoa por um encantamento?
Não acho que exista uma definição universal socialmente de “encontro”. Mas tudo bem, teve seus méritos, eu chamaria de encontro incidental. Porque não foi planejado, você não pediu, só deu sorte de eu estar precisando de alguém para me salvar de um encontro terrivelmente desastroso. Ou azar, considerando que sou incapaz de calar a boca por um minuto e você deve me achar uma louca.
Próxima vez? O que te garante que vai existir uma? Ahh, búlgaro. Realmente, o sotaque é algo a mais. Hoje me falaram da Bulgária, coincidentemente, que é muito frio e eu deveria… Me agasalhar quando fosse lá. Weird.
Ah, eu quase tinha me esquecido desses pequenos detalhes. Foram o que mais me divertiram, para falar a verdade. Caso precise de alguém de emergência novamente, saiba que pode contar comigo. Apesar de você me tratar com... Bastante... Grosseria no início, aquela tarde foi bastante agradável. principalmente por não ser eu o único a falar. Considero nosso encontro incidental algo de sorte. Para nós dois. E louca seria o último termo que pensaria para te descrever.
Próxima vez. O que te garante que não vai existir uma? Não me subestime. Búlgaro, sim. Isso foi um elogio? De fato, o país de onde eu vim faz muito mais frio do que vocês ingleses estão acostumados. Mas eu duvido muito que tenham escrito exatamente isso em seu pergaminho. Ainda mais depois dessa hesitação antes de concluir a frase. Vamos lá, o que eles realmente disseram?
E nosso encontro não foi um encontro propriamente dito, senão… Merlin, que diabos estou falando? Esquece.
Sim, britânica e completamente desconhecedora do “costume” que te falaram. Você não é daqui, isso eu percebi, mas estou em dúvida pelo sotaque.
Bem, considerando que tomamos algumas cervejas amanteigadas juntos e te fiz rir algumas vezes, aquilo pode sim ser considerado como um encontro. Senão o que? Existem outras exigências além dessas? Prometo me redimir da próxima vez.
Deveria ter desconfiado desde o início, é evidente agora. Estranhei, realmente, o tal costume. Britânicos são conhecidos pela extrema educação, afinal. Sou da Bulgária, e acho que nunca perderei esse sotaque. Dizem que é meu charme.
itsmindover-matter replied to your post:britânicos têm costume de fazer sexo no primeiro encontro. só avisando
Na verdade, é mentira deslavada. Até onde sei.
Fico aliviado em saber que o problema não sou eu.
Então quer dizer que você é mesmo britânica?
britânicos têm costume de fazer sexo no primeiro encontro. só avisando
Das duas, uma: Ou isso é uma mentira deslavada, ou aquela garota que encontrei dias desses em Hogsmeade não é britânica.
Claro, porque me recuso a pensar que eu sou o problema.
GATO. se tivesse em hogwarts, te levava pra qualquer armário de vassoura sem pensar duas vezes
Isso é um problema, porque nunca sequer visitei Hogwarts. De todo modo, lugar para ser levado não é problema. O que é um armário de vassouras comparado à toda Inglaterra.
Vocês, crianças, pensam muito pequeno. Quem sabe após a formatura?
boatos que curte as novinhas
Apesar de não parecer, tento ser o mais responsável possível.
Dou valor ao meu emprego e liberdade. Não pretendo abrir mão de nenhuma dessas coisas.
senhor essa sua jawline *n lembra o nome em pt* é completamente ofensiva fico encarando e não paro
Não querendo ser grosso nem nada, mas descobrir que existe alguém com o hábito de encarar minha jawline com tanta frequência me perturba.
Principalmente quando eu não faço ideia de quem seja.
desde que eu te conheci, todos os meus sorrisos são sinceros
Isso era pra ser um elogio? Uma cantada?
Fico feliz, de qualquer forma, por ser o grande causador da... Sinceridade... Em seus sorrisos.
não faz isso krumigo, iolindo
A cada dia que passa me surpreendo mais com a criatividade de vocês, anônimos.
I remember it well the first time that I saw — Ioan & Glenda
Já se passava de cinco anos desde que havia deixado a Bulgária para viver no Reino Unido. Cinco anos que convivia diariamente sob o mesmo teto que sua melhor amiga, e cinco anos que conquistara o que almejava desde os onze: liberdade para fazer o que desejava.
Existem alguns momentos na vida de jovens adultos em que é necessário realizar escolhas que irão auxiliar no caráter e personalidade de seu “eu” no futuro. Ioan Krum lidava com essas escolhas a muito mais tempo do que qualquer um de mesma idade. A primeira importante escolha que lhe fora dada foi ter Anna Ivanova como melhor amiga. Aquela foi a mais fácil, porém, mesmo tendo ganhando junto com a amizade da morena alguns hematomas e a pior detenção de toda a sua vida estudantil. Nunca valera tanto a pena. Outra escolha que marcou o jovem rapaz, certamente, foi ter coragem o suficiente para confrontar os pais quando o desejo de sair de seu país natal e largar a velha tradição familiar o tomou. Uma escolha que causou grandes conflitos dentro de sua família, mas se tornou mais fácil de suportar somente por causa do apoio de Anna.
Muitas dessas escolhas, além de transformar as pessoas, também podem dar um sentido totalmente diferente à vida de quem a fez. Essa escolha crucial foi feita por Ioan no alto de seus quinze anos, dotado de uma expressão tão séria que poderiam até acreditar que ele era como todos os outros estudantes de Durmstrang. Contudo, a decisão que tomara contrariava a impressão dada por seu rosto naquele momento. O fato é que Ioan sempre fora uma pessoa muito entregue, e naquele momento ele decidiu dedicar os próximos anos de sua vida em prol da morena que conhecera e aprendera a amar como uma verdadeira irmã. E ali estava ele, em um pequeno bar do Reino Unido, afastado apenas poucos minutos de Ivanova em uma folga de seu trabalho como Curse Breaker. Claro que não era como se o rapaz formado tão recentemente tivesse tanto respeito em meio aos veteranos na área, mas como já fora dito antes, ele era entregue.
O fácil e o complicado. O bom e o mau. O certo e o errado. Cerveja Amanteigada ou Firewhiskey? O balcão ou uma mesa afastada de todos? Caminhava com uma capa preta, as mãos escondidas no bolso fundo a fim de se proteger do frio. Os ombros encolhidos, ainda indeciso. O lugar estava cheio, provavelmente devido à visita dos estudantes de Hogwarts ao vilarejo vizinho à escola de magia. Não tinha muito que decidir, de qualquer forma, e decidir não decidir qualquer coisa foi uma dessas escolhas importantes que Krum iria se lembrar pelo resto da vida.
Havia apenas três mesas com lugares vazios onde o búlgaro poderia se acomodar e se servir da bebida que tanto ansiava. Não pensou muito antes de caminhar cegamente enquanto se desviava de algumas adolescentes até um lugar onde apenas uma mulher ocupava. Não viu o seu rosto quando murmurou um “Com licença, posso me sentar?”, tampouco aguardou resposta no momento em que se arrastou até o fim do banco largo do lado oposto ao dela. Aguardaria seu pedido já feito no balcão ali, tentando ignorar a bagunça que os mais novos protagonizavam no estabelecimento. — Está esperando alguém? — puxou assunto tentando ser amigável, afinal, a morena não desviara os olhos da porta desde que a vira.
Sensory.
sensorial | adj. 2 g.
sen·so·ri·al (francês sensoriel) adjetivo de dois gêneros Relativo ao cérebro ou à parte do cérebro chamada sensório.
Desde que vocês começaram a viver juntos nessa bagunça que era a guerra, morte e a responsabilidade de pessoas adultas, essa foi a primeira vez que ela foi dormir sem falar com você. Antes disso, suas noites e madrugadas eram repletas de discussões e conversas que ambos sabiam que não os levariam a lugar nenhum, mas faziam questão de ter. Se tinham algum medo ninguém saberia, mas a preocupação e receio eram evidentes quando qualquer um dos dois ameaçava cruzar a porta daquele apartamento cuja arquitetura não se comparava à mansão de seus pais. No entanto, ouvir a voz do outro era uma confirmação de que vocês dois estavam ali, estavam vivos e tinham mais uma chance. Uma chance que surgia diariamente assim que vocês abrissem os olhos e percebessem que o outro estava ali ao lado. Você não dormia direito desde que deixara Hogwarts, e aquela parecia ser a primeira noite de sono tranquila dela após a discussão que tivera com o pai e a abdicação da profissão que deveria ser uma certeza em sua vida.
Glenda possuía olheiras sob os olhos escondidos pelas pálpebras, e você podia ouvir a respiração regular que era interrompida de tempos em tempos por um suspiro mais profundo. A cama de solteiro onde ela repousava parecia diminuí-la devido à posição que ela escolheu, mas isso não fazia dela alguém frágil ou delicada. Ela era forte, e foi justamente isso o que te chamou atenção desde o começo.
audição | s. f.
au·di·ção substantivo feminino
Ato e faculdade de ouvir ou de escutar.
Barulhenta. Hogwarts era barulhenta. Em todos os seus anos em Durmstrang, você nunca tinha presenciado tanta confusão de sons, vozes e pessoas por todos os lugares. Sussurros, risadas, pequenas discussões, passos, penas arranhando em pergaminhos, ali tudo parecia muito mais intenso. Você não via problema algum naquilo, porque era mais fácil para observar e conhecer as pessoas sem precisar se apresentar. A voz dela era baixa, moderada e soava ainda assim, imponente aos seus ouvidos. Aquele foi o primeiro contato real (porém ainda distante) com ela, algumas brincadeiras e tentativas de fazer você falar. Certamente uma ideia da garota que a acompanhava nas provocações, e que não tinha sua menor atenção.
Ela falava, ria, te provocava. Nos corredores passavam tantas pessoas que você não era capaz de especificar de quem era a dona daquela voz, mas era evidente sua curiosidade acerca dela. Você não respondeu à dona dos cabelos longos e escuros cujo o rosto ainda era uma incógnita, e a voz gravou-se em sua memória.
Aquela voz, ao contrário do que você pensou quando entrou na sala correspondente a aula que teria naquele dia, não se fez presente durante o ensinamento das disciplinas nos dias seguintes. No entanto, lhe fora uma grande surpresa ouvi-la da ravenclaw nervosa prestes a participar de uma disputa que juntaria os dois de uma maneira que ninguém havia cogitado. Você, principalmente.
"Está falando comigo?"
visão | s. f. | s. f. pl.
vi·são substantivo feminino
Ação ou efeito de ver.
Inúmeros rostos passam através de seus olhos diariamente. Em escolas como Hogwarts ou Durmstrang esses rostos tornam-se familiares com o tempo, devido o convívio. Você já havia a visto antes. Em um ou dois esbarrões nos corredores, encontros rotineiros no Salão Principal, aulas em conjunto e até mesmo alguns olhares trocados em horários vagos nos jardins ou na grande biblioteca da Instituição. Vocês definitivamente já tinham conhecimento um do outro ali, contudo, você só a viu realmente, pela primeira vez através daquele sorriso aliviado e olhos que pareciam te procurar de algum modo após a vitória no clube de duelos.
Você já sabia o nome dela e também sabia que era a dona da tal voz que te instigou. Glenda. Glenda Chittock.
Ela era diferente das garotas que você costumava brincar que tinha dificuldade em distinguir na Bulgária, era diferente das garotas de Hogwarts. A aparência e personalidade totalmente distintas de tudo o que você vira antes. No entanto, quem tivesse apenas uma impressão dela era incapaz de vê-la como você via.
As mechas escuras de seu cabelo escorriam pelas costas formando pequenos ondulados em suas pontas, moldando o rosto alvo e sério que ela detinha. O sorriso era raro, mas você nunca gostou que eles fossem desperdiçados. Ela era alta, talvez fosse uma das garotas mais altas de seu ano. Você gostava disso, Ioan, e nunca demonstrou o contrário.
E foi ali, a partir daquele momento que você soube que não teria mais volta.
olfato | s. m.
ol·fa·to substantivo masculino
Sentido com que percebemos os cheiros.
Adicione a pele de Ararambóia picada no caldeirão e ferva por 20 minutos. Depois tire-a do fogo, coloque um acônito e mexa no sentido horário e ela vai ficar com uma cor lilás. Após isso, devolva ao fogo e coloque o bezoar. Deixe-a ferver por 30 minutos, assim quando ferver, ela vai ter um aparência vermelha. Retire do fogo novamente e coloque o segundo acônito. Mexa no sentido anti-horário. Quando terminar ela vai ter de ficar de cor azul bem escura ou um verde brilhante.
Hortelã, mar, cigarros e madeira.
Amortentia sempre foi a poção que mais lhe despertou curiosidade. A madeira lhe remetia ao lugar onde você cresceu; os móveis antigos — em mogno na sua maioria — foram testemunhas de uma grande parte da sua vida. Você não fuma, não frequentemente, mas a fumaça dos cigarros trouxas que você mantém escondidos no fundo do seu malão sempre foi uma maneira de canalizar suas preocupações, te fazendo pensar com mais clareza. O mar rodeava Durmstrang, e o cheiro fraco de maresia nunca te deixava, por mais que você não o visse há meses.
Você se perguntava se o cheiro da poção que tanto te causava estranhamento havia modificado com essa mudança. O fato, Ioan, é que você nem sequer sabe a razão de sentir tais odores quando se aproxima do veneno, tampouco porque alguém usaria aquilo para ter alguém por perto. Afinal de contas, o amor para você sempre foi algo muito contraditório. A maioria das pessoas que você conhecia e se apaixonavam acabavam infelizes, afinal. Você não acreditava nele. Você preferia não acreditar nele, porque você sempre prezou demais a felicidade, mesmo que ela fosse momentânea ou falsa.
Hogwarts cheirava doces, livros e ar puro.
Glenda tinha um perfume distinto. Não era doce ou floral, Tinha um toque de canela que combinava perfeitamente com o aroma de maçã de seus cabelos. Não que você se preocupasse com os cheiros que ela emanava, não seria necessário para coisa alguma. Porém, de todo modo, mesmo que inconscientemente, aquela informação ficou gravada tanto em seu olfato quanto na sua mente. Isso poderia te incomodar, em alguma outra ocasião, mas você estava ciente de que não tinha absolutamente nada a ver com Amortentia. Nada a ver com amor.
tato | s. m. tato | adj.
ta·to (latim tactus, -us, toque) substantivo masculino
Sensação produzida por contato.
Você sempre detestou coisas clichês. Gostava de surpreender e ser surpreendido, embora isso soasse completamente clichê aos ouvidos de alguns. Ainda assim, você fugia disso. Você era um estudante de uma das mais importantes instituições bruxas, que prezava pela pureza de sangue e a importância dos sobrenomes das famílias que tradicionalmente educavam, mas foi expulso para defender a melhor amiga. Mudou-se para a Inglaterra e ingressou em Hogwarts, sendo selecionado para a Slytherin. Não tinha as principais características do grupo de acordo com o que o Chapéu Seletor pregou antes de gritar o nome da casa verde e prata, mas isso foi completamente ignorado. Você era bom, Ioan. Genuinamente bom, e sempre fora.
Ela também fugia de tudo o que você conhecia. Não parecia se preocupar com a aparência, mas mantinha uma beleza natural. Ela era espontânea, te fazia rir. Às vezes era negativamente impulsiva. Parecia gostar de iniciar ou dar continuidade às suas pequenas discussões. Era inteligente e repleta de argumentos que quase te deixavam sem palavras. Quase. Você tinha esse instinto de proteger as pessoas de quem e quando achasse necessário, e ela nunca precisou da sua ajuda. Você apenas queria fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Queria ficar por perto.
A expressão que ela havia assumido enquanto conversava com um colega que você nem se preocupou em identificar não era uma das melhores. O rapaz, de costas para você gesticulava demonstrando uma possível frustração. Ela estava irritada, e você sabia disso porque o cenho estava enrugado assim como quando encarava Avery no dia em que duelaram. Você, com essa mania de super herói e um impulso nada típico entre seus colegas de casa, decidiu defendê-la do que quer que fosse. E pela primeira vez naqueles poucos meses de convívio, a tocou. Sua mão fechou sobre o braço fino e pálido interrompendo por fim a conversa que parecia chegar a lugar algum. Você não a olhou, mas poderia imaginar nitidamente a expressão chocada e talvez ofendida que tomou conta da face alheia. A sua intenção era tira-la dali, mas você se encontrou mais preocupado com a sensação que poderia passar desapercebida se você não fosse tão observador. Havia acontecido algo ali, porque você ainda sentia seus dedos formigarem dias depois do ocorrido.
E ainda faltava um.
paladar | s. m.
pa·la·dar substantivo masculino Sentido do gosto.
Chegou um momento em que você não se sentia mais satisfeito em apenas olhá-la, ou tocá-la superficialmente, ou sentir o perfume de seus cabelos e pele de longe. Você queria mais, e não era capaz de contradizer o fato evidente. Você sabia Ioan, que o cheiro instigava a provar, sabia também que era apenas questão de tempo para que a ânsia desse sentido fosse despertada.
Foi em uma tarde comum, em um lugar e momento comuns, mas era aconchegante e certo. Ela parecia querer isso tanto quanto você, e a quem vocês queriam enganar evitando por tanto tempo aquilo que todos já tinham notado? Você não precisou pensar antes, tampouco buscar coragem em qualquer lugar. Fora espontâneo e muito natural.
Vocês se olhavam com uma seriedade que há muito tempo não tomava conta de suas expressões, e então você foi se aproximando. Devagar, quase com medo de ela se afastar assustada, mas ela não o fez. Deixou que os lábios se encontrassem em um contato sutil.
E é com base na crença de muitos que dizem nossas vidas têm um ponto que separa um antes e o depois, que te transforma e faz com que ela seja melhor ou pior. Você, Ioan, nunca acreditou em nada. Deus, destino, sorte ou azar, não era real para você até que fossem verdadeiramente provados. Entretanto, a junção de seus lábios, o toque ínfimo de suas bocas causou uma linha invisível e tênue que separava sua vida no antes e depois desse episódio. Porque depois que você experimentou os lábios de Glenda, teve a certeza que não viveria mais sem eles. E pela primeira vez naqueles recentes dezoito anos, você desejou acreditar em qualquer coisa que fosse, pois sentia uma grande necessidade de agradecer.
And so it’s The shorter story No love, no glory No hero in her sky
O quarto era pequeno. Possuía apenas uma cama de solteiro, uma cômoda onde vocês guardavam as poucas roupas que carregavam e uma poltrona onde você fingia dormir. Você fechava seus olhos primeiro, e se perguntava se ela te observava naqueles minutos (ou horas?) antes de por fim pegar no sono. Sempre que você abria os olhos, ela estava virada em sua direção. No entanto, essa noite em que ela parecia descansar verdadeiramente, em algum momento de sua divagação ela se virou. Você só podia ver então a silhueta delineada sob os lençóis, constatando seu sono profundo devido à respiração que remexia o corpo alheio eventualmente.
O cabelo solto cobria quase todo o travesseiro, e você sentiu uma vontade enorme de entremear seus dedos pelos fios escuros. Tentando reprimir o desejo, você passou as mãos pelo próprio cabelo, vendo imediatamente que o gesto fora inútil. Portanto, tentando ser o mais silencioso possível, você se levantou largando as cobertas sobre o assento e caminhando vagarosamente até a cama que ficava a poucos metros de distância.
Você se deitou ao lado dela, Ioan, porque sentia falta de todos os seus sentidos, sentidos que somente ela era capaz de despertar. Você fechou os olhos quando se viu muito próximo do corpo feminino, porque somente olhar nunca mais seria o bastante. Ela se movimentou sobre o colchão estreito se aproximando um pouco mais, e o cheiro, aquele cheiro, era a única coisa que você era capaz de sentir.
A sua mão moveu-se inconscientemente até a cintura esguia de Glenda, virando-a por fim para você. Ela permanecia afogada no sono, e você deitou a cabeça dela em seu peito. Outro suspiro fora ouvido, e esse era seu. Um suspiro confortável e aliviado, porque era aquilo o que você precisava sentir para que pudesse repousar. Você beijou aquela bagunça de fios que era a cabeça dela naquele momento, e aconchegou-se sob o corpo alheio sentindo pela primeira vez a paz que a guerra havia roubado de ambos.
Você não a amava.
Mas sentindo o sono chegar gradualmente expulsando todos os problemas de sua mente só porque ela estava dentro de seus braços, você precisou reconhecer o que quer que fosse que vocês tinham, estava longe de ser insignificante.