Te saberá a pouco
Não te escrevo com fogo nas mãos,
mas com a calma insinuante
de quem aprendeu cedo
a tocar sem tocar.
Sou feita de silêncios longos, de pele clara que sente tudo mesmo quando finge não sentir, e de um olhar doce que fica, mesmo quando me vou embora.
Em mim não há pressa, há espera.
Não há ousadia exposta, há promessas ditas baixinho, encostadas ao ouvido como quem pede sem pedir.
Entrei em ti sem alarde, como quem aprende o caminho pelos sentidos.
Fui ficando aos poucos, num gesto quase inocente que o teu corpo entendeu antes de ti.
Despi-me por dentro,
sem pressa, e deixei a porta aberta
para nunca mais seres o mesmo.
Depois de mim, não por vaidade,
mas porque assim sou qualquer outra mulher
te saberá a pouco.
Não porque sejam menos, mas porque eu fiquei em ti de forma subtil:
na memória da boca,
no toque que não se esquece,
no corpo que reconhece
onde já se sentiu seguro.
Sou suave, sim.
Quase frágil.
Quase menina.
E é exatamente por isso
que não me esqueces.
Maria Antônia














