Esfaquear o impossível para que nenhum tempo fique por viver.
Abrir os olhos sem nunca os ter fechado, sonhar os sonhos sem nunca os ter vivido, desmanchar dias como camisolas de lã e tricotar de novo, intuindo as cores da noite, desenhando bichos, bailarinas, pianos sustenidos e florestas encantadas;
como é macio este novelo, bola de fogo, tapete voador, pura matemática da imaginação.
Cortar o tecido com tesoura mágica, juntar panos do passado aos do presente, costurar um tempo novo.
Escrever um poema sem palavras, um poema de afetos e de amores, escrever o poema com que todos os poetas sonham. O milagre do silêncio e das lágrimas.
Rasgar o impossível, tocar a vida no útero de Deus.
João Bernardo Soares.










