O nariz de Aiko se contorcia com, absolutamente, tudo. Esse tique se devia ao simples fato de que a japonesa havia nascido com um distúrbio olfativo que aumentava sua percepção aos odores. A condição poderia se mostrar uma grande vantagem quando se tratava de sua vida profissional. No entanto, ela, também, poderia se revelar um inferno nas outras esferas de sua vida.
Com certa recorrência, a Kishimoto sentia incômodos e enjoos aos cheiros menos sutis. De início, eram coisas que conseguia ignorar com perfeição, mas quando se mudou e sua vida se tornou mais movimentada do que esperava, precisou deixar a teimosia de lado, ao ver sua condição piorar, e procurar um médico que a ajudasse. No fim, a busca não se mostrou muito favorável. Depois de algumas consultas e exames, descobriu que sua sensibilidade era causada por um fator genético e teria que, simplesmente, se acostumar com isso. O jeito foi fazer algumas terapias de dessensibilização quando se tornava mais sensível pós-cio e remédios, de vez em quando, para lidar com as náuseas e enxaquecas. Eram ótimos métodos e funcionavam, então, não reclamava.
O cheiro de seu mais novo conhecido era fraco, admitia que ele escondia bem, mas era uma tarefa difícil escapar de seus sentidos aguçados. Aiko reconhecia com facilidade os sujeitos que praticavam o camuflamento de suas classificações. Era um reconhecimento que teve como base sua sensibilidade, sim, mas, também, observação. Depois de tanto tempo sendo uma grande usuária de supressores e suas variações, passou a perceber que nem sempre eles eram tão eficientes; talvez, fosse o sistema se acostumando à dose ou porque, simplesmente, medicações não eram 100% eficazes. Um senso comum, não? Cada corpo reage de maneira diferente. Além disso, perfume era outra opção viável para ajudar, mas Paris a levou — forçou, sendo menos gentil nas palavras — a aprender a diferença entre cheiro artificial e feromônios, quando descobriu que banhos diários não eram tão comuns na Europa. Não era tão óbvio, e, na verdade, era difícil de dizer, mas as pessoas suavam, o perfume se esvaia aos poucos e, de maneira natural, os feromônios ficavam mais evidentes.
Aquela situação em específico, no entanto, era peculiar para Aiko. Não sabia dizer onde estava se metendo, de verdade. Conheceu muitas pessoas em toda a sua vida, afinal, seres vivos eram a base e natureza de seu trabalho, porém, não havia conhecido nenhum alfa, realmente, que mentisse sua classificação. Alguns betas e, com muita frequência, ômegas passaram pelos seus dias o fazendo, alfas eram uma novidade. Não era muito melhor viver com as vantagens que a vida lhe dava de mão beijada?
Durante a sua adolescência e início da vida adulta, não gostava muito de alfas, era um fato. Estavam sempre no topo, ocupando lugares, apenas, porque eram alfas, sem esforço algum. Então, sim, havia um quê na ousadia do seu questionamento. Ele estava escondendo algo mesmo? Pra quê? O que um alfa ganharia tentando ser um beta? Se ele fosse um ômega, até entenderia, Aiko mesmo já havia escondido a todo custo sua própria classificação para que não fosse menosprezada. Afinal, a cozinha que ela pertencia, de acordo com a sociedade, não era uma cozinha profissional e sim uma doméstica.
Parando para pensar a fundo, aquelas questões ainda faziam seu sangue ferver, sim, mesmo que um pouco. E ainda mais quando aquele comentário, sutil, mas, obviamente, irônico saiu dele. Aiko pendeu a cabeça para o lado, franzindo o cenho, um sorriso de canto nos lábios. Ele estava na defensiva? Estranho. No fim, talvez ela não estivesse tão errada em sua suposição.
Com a movimentação repentina para a sala de jantar, Aiko aproveitou para ir à cozinha guardar a garrafa de vinho presenteada e retirar a entrada do forno, soupe à l’oignon, uma sopa de cebola francesa que amava fazer. Estava tudo perfeito, havia deixado toda a comida por sua conta, porque estava feliz com o evento, empolgou-se e até decorou, também, a mesa com o cuidado e a expertise que se orgulhava em mostrar. Era uma ótima noite e nenhuma birra iria estragar a sua felicidade e, muito menos, a de seus pais e a do novo amigo deles.
Voltando à mesa, encontrou todos já sentados, entre conversas leves e risadas divertidas. Tentou não atrapalhar o embalo, mas foi inevitável puxar a atenção para a comida em suas mãos cobertas por luvas térmicas. "Essa é minha especialidade, depois da cozinha japonesa. Acho que eu nunca fiz para vocês, não é?", a mulher olhou em dúvida para os pais, um biquinho nos lábios que foi trocado, logo, por um sorriso e seu charminho típico e convencido, enquanto colocava a panela no centro da mesa. "Espero que gostem!~", disse, distribuindo os ramequins para cada um e, finalmente, sentando-se, também.
Aiko estava frente a frente com Chanhyuk, mas tentava não se importar, mesmo que sua curiosidade não deixasse tanto quanto queria. O que a distraia, de verdade, era como sua mãe se animava ao contar como ela havia começado a cozinhar, em meio aos elogios. "Naquela época, foi o Hiroshi que ensinou ela a usar uma faca e, quando eu menos esperava, ela voltava para casa cheia de cortes nas mãos.", Aiko riu, "eu não jogaria toda a culpa no meu pai, eu, também, inventava malabarismo achando que poderia cortar igual ele, com anos de experiência.", respondeu em defesa do genitor. "A culpa dele está em não ter te vigiado. Você tinha o quê? Treze, quatorze anos?", a filha encolheu, um sorriso bobo ao olhar para o pai, como se não pudesse ajudar ele naquela. Ele mesmo estava calado e com as orelhas vermelhas com a exposição, mas se divertia, conseguia ver através de seus olhos. Por um momento, como um impulso, desviou o olhar para o beta e, com rapidez, abaixou-o para a sopa, dando a sua última colherada, sentindo-a derreter, perfeitamente, na boca. Estava condenada mesmo.