“Everything distracted me, but most of all myself.” ― Patti Smith, Just Kids
(New York City, 2012)
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“Everything distracted me, but most of all myself.” ― Patti Smith, Just Kids
(New York City, 2012)
Like birds flying,
this too shall pass.
Em algum carnaval de São Paulo.
Mariana e a cor, 2014.
Pedro, Alice e o reflexo do céu.
Sobre prisões e privilégios
Desde que me mudei para o centro de São Paulo, todo sábado ou domingo saio com minha sacolinha de feira e vou para o sacolão da rua Avanhandava comprar frutas e etc (atitude bem importante para quem ainda não pode estocar muitas coisas por estar temporariamente sem geladeira). Ao chegar na rua, bem no comecinho dela, ali onde ela cruza com a Martins Fontes, geralmente me deparo com aquelas luzes coloridas fofas e com todos aqueles restaurantes bem arrumadinhos.
Para quem não sabe, esse trecho da Avanhandava é algo meio atípico no Centro de São Paulo. Ele foi reformado e “revitalizado” por um empresário que resolveu deixar tudo “bonito” e “limpo”, sem ajuda da prefeitura. É só um quarteirão, mas sem dúvida, é o quarteirão mais bem representado das redondezas. Não existem moradores de rua, não tem cheiro de mijo e seguranças bem apessoados estão sempre por perto.
Como normalmente passo por ali próximo do horário de almoço, sempre vejo algo peculiar: uma fila de carros de luxo dos quais vão saindo diversas senhoras e senhores e jovens e crianças muito bem vestidos, limpinhos e arrumadinhos. Eles são direcionados, pelos seguranças bem apessoados, diretamente para dentro dos restaurantes. Sem nem olhar para os lados.
Paro por um tempinho e reparo que outras “tradicionais famílias brasileiras” vão saindo dos restaurantes, sendo direcionadas diretamente para os seus carros. Também sem nem olhar para os lados.
Continuo o meu caminho.
O quarteirão bonitinho acaba e em seguida, após um cruzamento, vem mais um viaduto. E voltamos ao cheirinho de mijo.
Chego no sacolão e, por um minuto, penso no almoço chique de alguns. Mas logo reparo que o cogumelo shimeji está na promoção. Sou tomada por felicidade vegetariana e esqueço o resto. Em seguida vejo o imigrante haitiano que conversa com uma senhora de sotaque estranho, ela diz “olha, estou aqui, vim da Alemanha, há mais de 30 anos e nunca aprendi esse português direito”. Os dois caem em gargalhada. Depois reparo nos meninos que carregam skate e compram cigarros e cerveja, apesar de não terem idade para isso, obviamente.
Feliz com mais promoções vegetarianas, me dirijo ao caixa, onde uma moça simpática, mas com olhos cansados, me atende sorrindo e dizendo estar “morrendo de fome com o cheiro de pastel que vem da barraquinha ao lado”. “E o almoço?”, pergunto. “ih, eu trabalho só seis horas, não tenho direito ao almoço.” Desejo boa sorte e digo tchau. No caminho de volta, dou uma olhadinha no céu, que está claro e bonito, e penso em como as sombras do meio dia deixam a cidade diferente das sombras de fim de tarde.
Volto a passar pelo quarteirão “encantado”, tchau cheiro de mijo, oi cheiro de comida e perfumes caros. Viro a rua, agora estou no alto do viaduto nove de julho, vista que eu amo, com ou sem cheiro de mijo. Paro e olho um pouquinho. Aquelas paredes de concreto chamadas prédios. Cada buraquinho chamado janela, uma história de alguém. Me sinto confortavelmente pequena.
Quase na porta do meu prédio, encontro a vizinha japonesa que mora no centro há 40 anos. “Dia bonito, né?”. “Sim, tá lindo mesmo”. “Por isso que, como te contei, até tentei morar em Minas e no Japão, mas prefiro essa bagunça aqui mesmo”. “Acho que também prefiro…”
Ela sorri. Me despeço e logo falo “Oi” para o porteiro que está vendo TV no celular e rindo com alguma piada de algum programa de auditório, dou um sorriso e lembro que essa cena já aconteceu antes. A vida parece cíclica. E me sinto confortavelmente pequena.
Apartamento 112. Compras guardadas. Pego meu shimeji. Almoço com felicidade vegetariana. Mas por um momento, penso em toda a vida que vi ao caminhar. Tanta vida em tão poucos quarteirões. E aí lembro dos carros chiques, da rua atípica bem no meio de São Paulo, dos seguranças, da falta de moradores de rua (o que eles fariam se um morador de rua decidisse entrar ali?) e das famílias que tem esse tal privilégio de serem guiadas diretamente de seus carros com vidros fechados para um restaurante também de vidros fechados. Quer saber?
Alguns privilégios parecem uma prisão.
Rodrigo, Julia - the white series, 2015.
Presto atenção no rosto da pequena garota que é carregada nas costas pela mãe no meio do ato contra a PL5069 e contra Eduardo Cunha aqueles olhos de criança que parecem tentar entender e decifrar tudo depois penso na minha câmera que até então estava na mochila penso que mesmo com toda a hesitaçao e timidez que me são inerentes, preciso tirar a máquina de lá para registrar a grandiosidade do que tem acontecido chegando em casa penso também no quanto a minha voz, às vezes tão tremula e insegura, tem tido a certeza de que não pode mais permanecer em silêncio porque minha insegurança e timidez não são simples acasos, são utilizáveis por quem faz questão de falar por mim por quem se aproveita das minhas (e nossas) (supostas) fragilidades a minha voz precisa contar sobre o que aconteceu e o que acontece comigo porque ela é tão única quanto é pertencente à todas nós o meu corpo existe. a minha dor existe. e as minhas questões não são frescuras. elas importam. a minha mão que já tentou tanto esconder o rosto envergonhado, agora se levanta e diz que chega. chega de permitir que falem por mim. chega de permitir que utilizem a minha doçura de maneira cruel, que alimentem minha insegurança para que eu permeneça imóvel. é claro que é conveniente que eu me cale. mas calo não. calo nunca mais. o meu corpo é só meu e minha dor é meu trampolim. atrás não voltamos. (e como é bonito quando caminhamos juntas.)
"Do lugar onde estou já fui embora."
é o que diz a frase de Manoel de Barros escrita no papelzinho preso à mesa do apartamento. apartamento do qual me mudo daqui a algumas semanas. apartamento do qual parece que já me mudei há um século. ou será que parece que aqui nunca estive? sei que ainda parece que meus pés não me pertencem. e que uma janela escancarada está no lugar de meu coração.
(janela que nunca mais fecha.
porque não quero que feche.
quero ser janela aberta
estrada sem fim
e pó de coração quebrado.)
"Do lugar onde estou já fui embora."
do lugar onde estou já nunca estive. do lugar onde estou já não sei nem o nome. do lugar onde estou saio sem olhar pra trás. do lugar onde estou nada quero saber daqui pra frente.
(e toda a nostalgia que existiu, existe ou existirá em mim: pulou. pulou pela janela escancarada.)
"Do lugar onde estou já fui embora."
do lugar onde estou só carrego a janela.
- e daí que de repente o céu tava na calçada.
- acho que já sonhei com isso.
(não sei se é tristeza ou preguiça.)
.the black series. rodrigo, 2014.
#portraits #photography #retratos
"There is a crack in everything.That's how the light gets in." - Leonard Cohen
Aeroporto. Abraço. - Eu vou morrer sem você. - Eu também vou. Mas a gente nasce de novo. (there’s no good way to say I’m leaving you).
Quando estava morando longe, sonhava com o quarto da casa em que cresci. Depois que voltei para a cidade onde nasci, sempre sonho com o quarto em que morei sozinha, em outro país. Sem explicação, apenas é assim. De vez em quando, me pergunto com qual quarto e com qual cama algumas pessoas sonham.
There aren’t enough words to say all the things I can’t. nunca existem palavras suficientes.
Gostaria de voltar no tempo para conversar com minha bisavó e com outras mulheres daquela época.
Ainda não existia feminismo.
E nem princesas da Disney.
Ou revistas de moda.
Será que o céu era mais azul?
Com certeza ela enxergava mais estrelas.
Queria que ela me dizesse com o que vale a pena se preocupar e o que, de verdade, é digno de fuga.
Será que ela também tinha vontade de fugir? Ou será que ninguém tem tanta vontade de fugir quando existem mais estrelas no céu?