Não conseguia encará-lo. As palavras dele eram como pequenas agulhas picando sua pele. Era torturante perceber que havia tristeza em sua voz. Também lhe apertava o coração, incomodava e doía, ver que ele pensava coisas tão ruins de si mesmo, embora reconhecesse exageros em suas palavras. Ela se sentia mal porque sabia que havia contribuído para que se sentisse daquela forma. Jean era um marido infiel, mas ela não pensava tudo aquilo dele, provavelmente só ela sabia o que realmente pensava dele. E seus filhos quando os impedia de falar qualquer coisa sobre o pai. Mas poderia ser levado como sua vontade de que dessem respeito ao pai por ser uma autoridade. “A culpa é sua, isso é óbvio!” Declarou encontrando sua voz. “Mas eu não penso todas essas coisas horríveis sobre você! Eu não lhe acho a pessoa mais repugnante do mundo, muito menso nojento. O problema da sua imagem é que não aparenta haver esforço. Pelo menos não para mim. Se eu posso dizer com certeza que eu vi algo diferente, que quase acreditei, foi hoje! Como você acha que vão acreditar em você se guarda isso para si mesmo? Você quer melhorar? Prove! Quer ser um melhor pai? Faça mais por eles! O que separa os vencedores dos fracassados são as ações. Querer, todo mundo pode querer. Se dar por vencido é muito fácil para aqueles que não querem enfrentar as provações. Ou você acha que vai ser fácil? Do dia para noite você vai mudar tudo?” A mulher não entendia porque aquelas palavras saíam da sua boca, porque estava o estimulando a correr atrás se era da sua vontade. Ela estava cansada, desgastada, ferida com aquela conversa. Mas, no fundo, tinha de reconhecer que seus sentimentos clamavam por ele lutar pela família. Era seu desejo mais profundo. Mas ela nunca havia estimulado ele porque queria que ele tivesse vontade por si próprio ou para ela não soaria totalmente genuíno.
“Eu estou me sentindo sufocada, René! Ou eu não posso ficar de lingerie no meu próprio quarto? Se quiser, eu posso pegar uma camisola, se te incomoda tanto que eu esteja assim!” Reclamou. Estavam tratando de um assunto sério e ele tinha tempo para se importar com sua roupa? Se Padma não tivesse se sentindo tão mal, com a cabeça num redemoinho de pensamentos e sentimentos e se controlando para não perder o controle sobre seu emocional, ela se importaria de não deixá-lo vê-la tão exposta. Não que fizesse grande diferença vê-la semi nua, afinal, ele já tinha a visto inúmeras vezes totalmente nua. Mas ela percebia que seu corpo estava mudando e tinha receio que aquilo fosse um estimulante para René perder até o desejo que vinha tendo por ela. Se estava se controlando, ele poderia perder o interesse ao perder que Padma já não estava mais com o belo corpo de sempre. Teve vontade de rir diante da afirmação dele. Ela realmente pensou na razão pela qual estava pálida e alterada. Continuava sendo por culpa dele, mas não era o que imaginava que fosse. Claro que aquela discussão não deixava de estar indiretamente relacionada. Ela apenas mordeu os lábios se impedindo de falar a verdade. Ele não precisava saber da sua condição, não ainda. “Eu digo isso porque é a verdade, René. Eu passei mais tempo do seu lado do que sozinha. É só… Parece não fazer sentido para mim que não continuemos juntos.” A mente dela rodava. Como explicar para ela que tinha um amor tóxico por ele? Um sentimento que nunca seria retribuído? Que nunca poderia ser feliz com outro? Que uma separação apenas adicionaria mais infelicidade a família. “Como eu poderia confiar em outro homem? Deixar que ele me ame quando eu não vou conseguir confiar. Minha confiança está quebrada nesse aspecto. Não tem espaço intacto no meu coração para outro, René! Para que eu me separaria se é contra o que eu acredito? Para dividir nossos filhos? Para que você possa ter menos tempo com eles? É injusto com eles mesmo que eles não possam reconhecer o bem que faz ter uma figura paterna presente! É injusto com você!” Padma era capaz de reconhecer o quanto Jean amava seus filhos, mesmo nunca tenha os tido em alta voz, e como era importante para ele. A mulher sempre tentou que seus filhos o vissem pelo homem que era como pai e como chefe de família, deixando a imagem do marido apenas para ela. Não queria que seus filhos pudessem se tornar contra o pai de maneira nenhuma. “Eu sei que não posso pedir para que você seja o marido que, um dia, esperei que fosse! Eu não sou boa o suficiente para você. Eu nunca fui. Eu entendo isso. Fomos mais um matrimônio arranjado. A única coisa que eu tenho pedido é para nos ajudar, sua família, a não ter que passar por momentos desconfortáveis em público. Eu sei que não me ama como o amor da sua vida, e não me faça gracinhas sobre leitura de livros a essa hora, mas você ama seus filhos como você mesmo disse! Faça isso por eles!” O toque do marido em sua bochecha queimou em sua pele e ela fechou os olhos momentaneamente. Ela queria abraçá-lo. Ela queria sentir os braços dele ao seu redor. Queria enterrar a cabeça no seu peito até que as lágrimas fossem embora. Ela nunca se permitiu aparentar tão frágil, mas estava tão sensível, tão cheia de hormônios à flor da pele que não conseguia evitar. Mas ela apenas abriu os olhos sem se movimentar. “E eu queria que esse seu desejo fosse forte o suficiente para fazê-lo lutar pela sua família, pelos seus filhos ao menos, em vez de abrir mão dela. Tente fazer isso, René, sem deixar palavras ao vento e aí eu te perdoo.” Declarou enxugando as lágrimas que ainda escapavam. “Eu acho que é uma boa ideia. Já falamos além da conta por hoje e daqui a poucos nossos filhos chegam e não quero que se preocupem. Se importa se for tomar banho no banheiro comum? Eu acho que preciso usar o banheiro da nossa suíte com certa urgência!” Ela sentia o vômito na boca do seu estômago. “E…” Ela se desencostou fraca dando uns passos na direção do marido. “… não precisa ir a lugar nenhum.” Declarou deixando-o para trás sentindo que não conseguiria falar mais nada. Um, porque ela não queria se entregar, precisava dormir para renovar suas forças e reforçar suas barreiras. Dois, porque ela estava prestes a vomitar. Para não deixar Jean ver, andou o mais rápido que suas pernas permitiam e fechou a porta com força.
“Você tem toda razão, Anni! Sempre teve toda razão! E talvez esteja ainda mais certa dessa vez, talvez eu não esteja me esforçando para mostrar mudanças significativas... sei lá, eu já fiz tanta coisa errada, não parece justo mudar agora, é como se sentisse que pra mim tão tem mais jeito, que sou um caso perdido, sabe?! Me imagino aquele pecador que comentou os erros mais graves que poderia e que agora, no leito de morte, se arrepende e pede perdão apenas para não ir para o inferno ou seja lá o que...” confessou a olhando terno, realmente não se achava digno de ter um imagem que não fosse aquela, não depois de tudo que já havia feito. “Eu quero mudar... só não sei como fazer isso! Não sei se é justo com você lhe pedir isso, mas preciso que me ajude, Padma! Você é a unica que consegue ver coisas boas em mim, eu sei o quanto me defende para nossos filhos e te agradeço por isso! Sei que as coisas não vão mudar da noite pro dia, sei disso, sei que não será nada fácil! Foram anos de estrago pra se resolver em poucos dias... mas eu... eu quero isso! Eu quero mudar, serio! Por você, por nossos filhos...” gesticulava sem tirar seus olhos da esposa, estava sendo sincero quando dizia que precisava de ajuda, e só Jean sabia o quão dificil estava sendo admitir aquilo. Admitir que precisava de ajuda talvez fosse o inicio de uma verdadeira mudança. “Se eu conseguir mudar a imagem que você tem de mim, que nossos filhos tem de mim! Já ficarei extremamente feliz!” completou sorrindo fraco para ela, pouco lhe importava o que a mídia dizia ao seu respeito, era a sua família sua real preocupação. “Posso imaginar, também estou sufocado com toda essa historia! E não se preocupe, não me incomoda nem um pouco, pelo contrario... é que.... me distraio um pouco com seu corpo amostra desta forma e acho que sabe disso!” sorriu um pouco mais abertamente desta vez. “Vou me concentrar na nossa conversa, prometo!” completou piscando para ela, talvez seu jeito tirasse um pouco a tensão de toda aquela conversa. “O que vai ser uma tarefa árdua já que está muito atraente dessa forma...” sussurrou abaixando a cabeça, não tinha a intenção que ela ouvisse a ultima frase, mas se aquilo acontecesse também não seria um problema. Voltou a focar no assunto que era o foco da conversa, não era exatamente o que ele queria ouvir, então era isso?! Ela estava com ele por puro comodismo?! “Claro... estar comigo se tornou apenas um costume, um comodismo... não esperaria nada mais além disso, afinal o que eu poderia querer depois de tudo não é mesmo?!” deu de ombros, doí saber que aquele era o motivo para ainda ter a esposa ao seu lado, mas como culpa-lá por não ter o menor interesse nele?! Que mulher em seu lugar teria?! Qualquer outra eu seu lugar já teria deixado-o a muito tempo. “Olha o estrago que fiz em sua vida falando mais alto! Você não é mais capaz de confiar em um homem?! Céus...” falou caminhando até a poltrona onde largou o terno e apoio suas no encosto, abaixando a cabeça tentando absorver tudo que Padma lhe falava, tentando controlar suas emoções para não dizer nada além do que deveria. “Okay, sem divorcio, tudo bem?! Esquecemos essa ideia, vou acatar suas palavras, não quero divisões em nossa família, não quero causar ainda mais problemas! Se está disposta a continuar com o casamento, também estou!” falou voltando seu olhar para a mulher, sorrindo fraco. Balançando negativamente a cabeça com as próximas palavras, como pode deixar chegar ao ponto de Padma não se achar mulher suficiente para ele?! Sua vontade foi de correr na direção da esposa e dizer o quão errada ela estava, o problema nunca foi ela, o problema era, exclusivamente, Jean e suas varias decisões erradas. “Eu provavelmente nunca serei esse marido, nunca conseguirei sei o homem que você merece, que tenha prazer em estar a lado.... “ retrucou encarrando mais uma vez o chão, antes de voltar a olhar para Padma, se aproximando dela mais uma vez. “Não é boa o suficiente para mim?! Anni, por favor! Não diga isso! A culpa de nada disso é sua, nunca foi! Eu diria que é totalmente ao contrario, o não bom o suficiente da historia sou eu e não você!” falou colocando mais uma vez as mãos no rosto da esposa, estava inquieto com toda aquela situação, e quando ela falou sobre não ama-lá sua vontade fora de jogar para fora todos os sentimentos guardados a sete chaves. “E faria alguma diferença se eu disse que te amo depois de tudo que te fiz?! Não me parece justo com você depois de todo esse tempo! Vindas de mim essas palavras parecem tão vazias.... afinal, que tipo de amor seria esse?! Que só te faz mal?! ” disse a olhando nos olhos, mordendo os lábios para não falar mais nada. “Me desculpe...” ele disse e mas uma vez desviou o olhar da esposa, se afastando dela mais um vez, toda aquela aproximação não era segura. Passou mais uma vez as mãos no rosto antes de continuar, precisava se acalmar, era como se a qualquer momento soltaria tudo que estava guardado a sete chaves, como se fosse desabar a qualquer momento... Jean nunca havia derramado uma lagrima sequer, nem mesmo no velório do pai, não iria começar logo agora, não na frente de Padma. “Eu... eu vou fazer o que me pede, farei isso por nossos filhos! Eu os amo tanto, Anni! Provavelmente a melhor coisa que já fiz na vida! A melhor coisa que você poderia ter me dado!” negativou com a cabeça rindo fraco, porém aquele riso era de frustração. “Sabe, eu nunca ouvi do meu pai que ele me amava! Acabei fazendo a mesma coisa com nossos filhos! Nunca disse pra eles que os amo! Stupide....” balançou mais uma vez a cabeça. “Os meninos são mais fáceis se é que podemos dizer assim, não precisam tanto de palavras amorosas como esta, mas Súria... Mon Dieu! A Súria, Padma! Como errei com ela!” admitiu, sabia que a filha seria a mais dificil pra se reaproximar, seu relacionamento com os meninos sempre foi mais fácil do que o seu com a filha mais velha. Voltou para o lugar onde estava a pouco, se apoiando novamente na poltrona, ainda com seu olhar na esposa. “Também não quero que nos vejam nesse estado! Amanhã vai ser um novo dia, poderemos conversar com mais calma!” ele disse sorrindo fraco para Annika. “Não, eu uso o comum sem problema, mas... por que?! Você está bem?!” perguntou um tanto preocupado, porém quando a esposa saiu correndo na direção do banheiro, imaginou que ela queria apenas ficar sozinha. Pensou em bater na porta ver se ela precisava de algo, porém não o fez, sua mão fechada pronta para acertar a porta, morreu no ar e voltou para próximo ao seu corpo, depois de ter tido que poderia ficar ali, deduziu que Padma precisava de recuperar de tudo que foi dito. Ele mesmo precisava.