não espera ter o riso arrancado assim. não é um riso só de humor, mas certo escarnio.
e é claro que athos não deixa a oportunidade passar.
“ ah. ” suspira, ignorando a parte em que o não-mutante acha que tem sua atenção. algo em troca? athos não consegue pensar em nada que gostaria de ter. “ você tem que saber ser mais comedido, ter mais jogo de cintura. se afasta assim de mim, mas no segundo seguinte está dizendo que precisa de mim. ” ele não deixa passar; brilha nos olhos e no sorrisinho de soslaio como é de propósito.
não se move, só acompanha kangjin com os olhos. athos encontra as mãos atrás do corpo e assume uma postura que pouco tem ciência, mas o faz parecer um soldado em alta posição. não quer, e não pode, mostrar qualquer fraqueza para aquele cara — especialmente agora que sabe que ele quem o quer.
de qualquer maneira, athos se faz atento. quer saber, sim, sobre o que aquilo se trata.
e é tudo muito bonitinho (sinceramente, o deixa surpreso, abismado e levemente irritado) até o momento em que a oferta é feita. athos não pode deixar ir do par de olhos esverdeados por alguns segundos.
(aqueles olhos o leva para meses atrás, quando seu pai foi morto. o assassino tinha os mesmos olhos esverdeados).
athos quebra a troca intensa de olhar no momento em que as pálpebras apertam e ele sorrir. deixar o livro sobre a mesa é um ato delicado, bem diferente de como puxa a cadeira, senta e vira o computador para si. é preciso conferir que tipo de coisa tem em sua ficha antes de abaixar a tela com a mesma falta de delicadeza.
“ sabe porquê meus pais não estão aqui? ” o indicador grosseiro toca a carcaça do laptop. “ porque a não ser que teu sistema alcance o céu, ao lado de deus, teremos problema em encontrá-los. ” não pode deixar de citar sua crença — é uma das coisas que compõe seu capital intangível. nem de mentir, principalmente. ao menos sobre sua mãe.
“ honrado que você tenha procurado tanto tempo por alguém como… eu. romântico. ” athos desfaz a postura dura, voltando ao humor de sonso. “ mas quer saber? hum. até tem alguém que eu gostaria que encontrasse. o problema: eu não sei se teu sistema funciona ou é só uma das porcarias enganosas que vocês ” kangjin havia sido o primeiro a separá-los, mutantes e não-mutantes. “ são tão bons em contar. ”
Uma virtude que perdeu com o passar dos anos foi paciência. Não fazia nem questão de exercitá-la, especialmente com alguém que claramente o testava. O ar era constantemente contido para não expurgar um suspiro que pudesse mostrar a vontade que tinha de pegar suas coisas e desistir de tudo aquilo. Mas já estava ali, já havia buscado sua humilhação quando disse que precisava desse babaca.
E não estava fazendo aquilo por ele. Pelo menos era o que tinha em sua mente, cego para a realidade e perspectiva de que não, ele não conseguia abrir mão de sua irmã depois de todos aqueles anos. Não conseguia ver que ainda que encontrasse qualquer coisa em toda aquela situação, se pudesse caçar, arrebentar e deitar o mutante que fez isso na porrada, ainda assim, não teria sua paz interior. Talvez ele já estivesse perdido além do recuperável.
Os dentes trincados, o corpo todo tenso enquanto esperava por uma resposta não o permitiu perceber que os olhos dos dois estavam trancados uns no outro. Quanto tempo isso durou? Não sabia bem dizer, talvez estivesse perdendo a cabeça, talvez isso tudo tivesse sido um puta engano.
Ouviu a chacota por parte de Athos, mas não se abalou por isso; O que o abalou foi que seu único blefe não funcionara. Agora era só esperar a humilhação. Sua mente ansiosa rodeou as possibilidades que aquela abordagem fracassada implicaria em sua vida e um filme de meses passou diante de seus olhos por um segundo, perdido, encarando o rosto dele.
A palavra “romântico” puxou-o como um guindaste pra realidade e para o que Athos dizia; Seus olhos se focaram novamente ao ver que existia alguma possibilidade, ainda era possível. “Foco, Kangjin você é melhor do que isso”, pensou, respirando profundamente. “Nós somos enganosos? Eu não uso de poderes pra tirar o que eu quero das pessoas.” Sentindo-se novamente dentro de sua capa protetora, apoiou um dos braços na mesa ao lado do laptop e apertou algumas teclas. Uma janela se abriu com centenas de milhares de nomes que corriam em um banco de dados. “Não subestime a força do ódio, garoto. Se a pessoa que você procura não estiver aqui, eu vou dar um jeito de encontrá-la”.