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Andando pela Andradas
Eu via poesia
Luz e sombra intercaladas
Circulando na ciclovia
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Eu via poesia
Luz e sombra intercaladas
Circulando na ciclovia
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Primeiro cacho do rizoma da muda de Bananeira coletado na caçamba da rua Itajubá com Pitangui no Sagrada Família e plantado no Jardim do Espaço Comum Luiz Estrela no Santa Efigênia em BH.
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#caçador #coletor #plantador #caçamba #banana #bananeiras #estoria #okupa #belohorizonte #minasgerais
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Ystilingues
Não me lembro ao certo meu primeiro contato com o Ystilingue, Y primeiro por causa do som de i e depois pela forma da furquia que possibilita executar a função a qual se destina. Buscano na memória me vem imagens dos meninos mais velhos chegando das caçadas com o Ystilingue pendurado no pescoço como se fosse colar, tirando de suas capangas de barra de calça os passarinhos abatidos. Eu devia ter uns 4 ou 5 anos e também já estava com meu Ystilingue mambembe de câmara de ar de bicicleta na mão tentando acertar rolinhas, tirizis, papa-capins, sanhaços, pardais pelas nove ruas e quintais de as casas de Capivari dos Eleutérios.
Era fim da década de 80, a caça e a pesca supria uma lacuna considerada na alimentação de todo o pessoal de lá e hoje penso que a cultura do Ystiligue seria como uma preparação, parte de um ritual de passagem para a vida adulta naquele contexto, treinando o instinto, a mira, a coragem e desenvoltura para que posteriormente o pedaço de pau e goma que tem poder de abater apenas pequenos animais pudesse ser trocado por uma arma de fogo que daria maior sucesso no ofício do caçador. Foi assim que sucedeu com vários da minha família, grande parte das gerações antes da minha, desde a chegada da borracha. Alguns amigos e primos contemporâneos em diversos graus de parentesco também seguiram esse rumo.
Meus avós paternos mudaram para a cidade no êxodo rural dos anos 80 e na década seguinte meus pais decidiram ir também em busca de melhores condições de vida e estudo para eu e meus irmãos. Nas férias eu sempre voltava para a roça e ficava na casa de minha avó materna e num desses retornos, outro aspecto do Ystilingue me golpeou: arma de guerra. Estava havendo uma disputa de território entre os meninos da roça e filhos de fazendeiros que estavam passando férias nas fazendas próximas ao côrgo onde a gente passava a maior parte do verão. Em algum aspecto parecia brincadeira, polícia contra ladrão e no caso a gente era os ladrão. Durante as tarde de brincadeira no côrgo, quando a fome apertava era comum a gente atravessar a cerca de arame farpado e pegar milho, cana ou outro trem que desse pra comer nas plantações das fazenda vizinha.
Numa dessas pulada de cerca pouco antes deu chegar de férias minha turma levou uma emboscada dos filhos dos fazendeiros e suas espingardas de chumbinho e revólver de bolinha, então a guerra se instaurou naquelas férias. As armas que tínhamos eram o Ystilingue e a astúcia de conhecer melhor a área e as utilizamos bem, inclusive fazendo incursões de ataque bem próximas a sede de duas das fazendas para revidar ataques que sofremos quando estávamos nadando despreocupados. Durante todo o período de férias ficamos nessa brincadeira que hoje pensando acho bem simbólica, veno pelo viés da luta de classes, esses meninos eram descendentes das famílias mais rica da região, donas da maioria da terra onde boa parte de nossos parentes da roça trabalhavam em condições precárias. Não houveram grandes ferimentos em ambos os lados além de hematomas pelo corpo e alguns pontos na cabeça de um dos polícia. Não existia muita conversa, era algo meio animalesco, tribal, instintivo que permaneceu até minha despedida, depois fiquei sabendo que não demorou muito para as turmas se tornaram amigos.
Depois de explorar muitos territórios e não me sentir contemplado, voltei para a busca das minhas raízes e desempenhando o ofício de jardinagem, vez ou outra tive que podar algumas árvores e sempre que encontrava uma furquia me vinha na memória esse passado caçador e suas histórias. Depois de algum tempo apenas admirando comecei e juntar aquelas furquias como lembranças, pedaços de uma história que faz parte de mim. Certa vez em 2013 durante as obras da pista do BRT para a Copa do Mundo de 2014 em Belo Horizonte, passei pela avenida Cristiano Machado, altura do bairro Cidade Nova e me deparei com todas as árvores da pista central cortadas. Foi uma tristeza sem fim, naquele momento já estava claro o quão destrutivo seria e foi aquele megaevento. Coletei algumas furquias, fiz Ystilingues e botei na roda durante as manifestações de junho de 2014, na esperança que servissem como ferramentas na resistência contra a opressão que nos assolava.
Esse ano tive a oportunidade de trabalhar o aspecto imagético do Ystilingue, também como ferramenta de resistência mas em uma escala simbólica. Junto com meu amigo Daniel Carneiro usamos várias furquias e Ystilingue na identidade visual do Cinecipó - Festival do Filme Insurgente, foi um desafio enorme enfrentar minhas limitações em trazer algo tão pessoal para o público, respeitando a minha relação com a história que construí, sem ceder para linguagens e modos de trabalho pré-estabelecidos nesse meio, que no meu caso me soaria artificial. Coloquei algumas furquias numa vitrine no Cine Humberto Mauro junto com a logotipo que também desenvolvi e outros elementos que compõem a ferramenta Ystilingue, como num passo a passo caso alguém queira fazer o seu. Agradeço a produção do Cinecipó pela confiança e paciência, ao amigo Daniel Carneiro pela sensibilidade e compreensão e principalmente agradeço a Mãe Natureza que nos proporciona os meios de viver bem, ainda que nem todos enxerguemos
Ainda criança pequena, quando comecei a tomar tento das coisa, fiquei encantado com os passarim. Na época não sabia bem o porque, mas hoje refletindo sobre isso penso que naquele momento não era a beleza física ou dos canto que me chamavam atenção, mas a capacidade de avuá, deslizar daqui prali, de lá pracá por conta própria, carregando peso do próprio corpo. Me encantava o bailado das Andorinhas em bando ou suas acrobacias solitárias acima do açude da roça onde eu morava. Quando eu e meus amigos deitávamos na grama do campo de futebol pra ficar olhando os desenhos das nuvens eu prestava mais atenção nos Urubus, que vez ou outra apareciam como pontinhos pretos levitando na imensidão azul, aparentemente sem esforço algum. Ficava me imaginando em seu lugar e me vinha uma sensação maravilhosa de liberdade, me imaginava vendo lá de cima, com o olhos do Urubu, a terra lá em baixo, as casas, igreja e o campo de de futebol onde meu corpo descansava naquele exato momento.
Alguns anos depois, mudei com meus pais para um bairro da periferia de Pará de Minas onde a cultura do papagaio era muito grande. Nos meses de vento o céu ficava tomado por essas engenhocas coloridas que se misturavam com pássaros e aviões. Hoje pensando nisso acho muito simbólico, o bairro fica no alto e se chama Santos Dumont, o povoamento se desenvolveu muito em função do aeroporto municipal construído naquela área. Era um momento difícil na minha família, havíamos acabado de chegar da roça, meus pais procurando emprego, morando de aluguel e por mais que o bairro fosse numa periferia meio zona rural, o espectro da cidade pairava no ar.
Não tinha dinheiro pra comprar linha então o jeito era pegar sacos de linhagem e ir tirando pedaços de linha e emendar pra podê soltar nossos caixotinhos (tipo de papagaio sem vareta feito com papel dobrado). Nesse primeiro momento meus pais ainda não me deixaram brincar na rua. Algum tempo depois quando já havia conquistado o direito de perambular pelas ruas do bairro, comecei a pegar pedaços de linha 10 emboladas que os maiores descartavam. Era só desembolar e ir emendando pedaço por pedaço e tecendo a colcha de retalhos que levaria minha mutuca (cubúia, papagaio maltrapilho, ruim de vôo, mal feito) cada vez mais alto.
Mas quanto mais alto maior era um risco, o vento forte tencionava a linha cheia de emendas, quase sempre algum nó desatava e uma das regras da brincadeira era que papagaio torado não tem dono. Também sempre havia alguém mais velho com cerol, como uma ave de rapina esperando uma possível presa aparecer em seu território para atacar. Pela proximidade com o aeroporto, dependendo da posição do vento eram os aviões os maiores predadores, cortavam nossas linhas ao decolar ou pousar. Os meninos cujas casas faziam divisa com a área do aeroporto costumavam pular lá e soltar papagaio na pista dos aviões, era perfeito, sem fios e árvores que pudessem atrapalhar. Colei com eles muitas vezes, em diversos momentos o pessoal do aeroporto chamou a polícia devido ao risco de acidentes, mas quando ela chegava a gente corria e se escondia pra voltar assim que ela fosse embora.
Algum tempo depois, um pouco mais velho e com a técnica do feitio de papagaios apurada, me pego num fim de tarde soltando um papagaio estilo foguetinho (cumprimento maior que a largura) aerodinâmica que lhe dava mais agilidade nas acrobacias já que a resposta aos estímulos do soltador era mais rápida, me veio à lembrança aquele sentimento antigo da infância. Naquele momento o tempo parou e me senti fundido com o pedaço de plástico e bambú, amarrado por uma linha de algodão que desafiava a gravidade bailando pelo céu, pra cima, pra baixo pros lado e pra frente. O papagaio e eu éramos um só, ele era a extensão de mim e eu a dele, essa sensação foi mágica e indescritível em sua totalidade por mais que eu tente. Até porque naquele momento o que me interessava era viver aquilo, assim como a maioria daqueles meninos que como eu se fundiam com seus papagaios, muitas vezes sem saber.
Papagaio sempre foi uma das brincadeiras de infância que mais me fascinou, além do que descrevi aqui existem muitas outras questões e reflexões que no momento não são pertinentes, mas todo ano quando o vento sopra mais forte e constante, traz consigo esses sentimentos da infância que permanecem em mim. Então dou um jeito de fazer um papagaio e revivê-los, por outro prisma já que não sou aquela criança de outrora mas ela ainda é parte relevante da minha construção. Também sempre gostei de trabalhos manuais, autonomia e reaproveitamento, a engenharia popular empregada nos papagaios é maravilhosa, embora perceba cada vez mais a coisa se rendendo ao capital.
Na minha época não tinha muita graça soltar papagaio que não foi você mesmo que fez, havia um ritual de sair atrás do bambuzal, colher o bambú, fazer as varetas, reaproveitar um plástico e empenhar seu tempo, sua força, seu conhecimento e intento naquele ser. Essa era a mágica e quando ficava pronto e ele subia ao céu correspondendo todas ou grande parte das qualidade que você desejou era magnífico, momento de gozo e realização. Hoje é comum varetas de inverga de plástico e até linha com cerol ultrapotente de fábrica, o capitalismo não sabe brincar.
Dia desses acordei querendo fazer um papagaio, sureco (sem rabiola) que é considerado um papagaio mais difícil de se fazer e tem uma dinâmica diferente de soltar, sempre foi o meu preferido. Registrei o processo de feitura e quando ia botar ele no céu tive a notícia que Raul meu afilhado havia pousado em Belo Horizonte, depois de um tempo longe. Aí fui lá encontrar com ele e aproveitamos pra soltar juntos. Claudinha, Angela, Vanessinha e o pequeno Antônio também estavam lá, além de Sílvia que emprestou a laje da Galena e participou da brincadeira.
Belo Horizonte, Julho de 2019
~ A feitura do sentido
Ystilingue da Copa - 2013
Produzidos com forquilhas coletadas de árvores cortadas para as obras de implantação do BRT-Move (Bus Rapid Transit), na avenida Cristiano Machado em Belo Horizonte em 2011 e comercializados no centro de BH durante as manifestações da Copa das Confederações em 2013.
A obra viária vendida como solução para o trânsito durante a Copa do Mundo Brasil 2014 e que supostamente ficaria de legado para a cidade se mostrou uma dor de cabeça pra quem antes pegava um ônibus e chegava em casa e que depois do Move passou a fazer até três baldeações além dos vários acidentes fatais envolvendo este serviço.
Das vinte duas mil árvores cortadas para as obras de infraestrutura do mundial, foram replantadas dezoito mil, embora não se tenha informações de quantas tenham sobrevivido as adversidades da cidade.
~ Bicho da poda do Jasmim de Claudia.
~ Pegada de folha de Pata de Vaca no cimento da calçada. Avenida Silviano Brandão, 1271 Sagrada Família - BH/MG
~ Ç Vermelho com amarelo perto, fiquisperto Vermelho com preto ligado, pode ficá sussegado...
Bicho da poda da Goiabeira de Fernanda 1.
~ Bicho da poda do Limoeiro de Ana 2.
~ Bicho da poda do Limoeiro de Ana 1.