Ystilingues
Não me lembro ao certo meu primeiro contato com o Ystilingue, Y primeiro por causa do som de i e depois pela forma da furquia que possibilita executar a função a qual se destina. Buscano na memória me vem imagens dos meninos mais velhos chegando das caçadas com o Ystilingue pendurado no pescoço como se fosse colar, tirando de suas capangas de barra de calça os passarinhos abatidos. Eu devia ter uns 4 ou 5 anos e também já estava com meu Ystilingue mambembe de câmara de ar de bicicleta na mão tentando acertar rolinhas, tirizis, papa-capins, sanhaços, pardais pelas nove ruas e quintais de as casas de Capivari dos Eleutérios.
Era fim da década de 80, a caça e a pesca supria uma lacuna considerada na alimentação de todo o pessoal de lá e hoje penso que a cultura do Ystiligue seria como uma preparação, parte de um ritual de passagem para a vida adulta naquele contexto, treinando o instinto, a mira, a coragem e desenvoltura para que posteriormente o pedaço de pau e goma que tem poder de abater apenas pequenos animais pudesse ser trocado por uma arma de fogo que daria maior sucesso no ofício do caçador. Foi assim que sucedeu com vários da minha família, grande parte das gerações antes da minha, desde a chegada da borracha. Alguns amigos e primos contemporâneos em diversos graus de parentesco também seguiram esse rumo.
Meus avós paternos mudaram para a cidade no êxodo rural dos anos 80 e na década seguinte meus pais decidiram ir também em busca de melhores condições de vida e estudo para eu e meus irmãos. Nas férias eu sempre voltava para a roça e ficava na casa de minha avó materna e num desses retornos, outro aspecto do Ystilingue me golpeou: arma de guerra. Estava havendo uma disputa de território entre os meninos da roça e filhos de fazendeiros que estavam passando férias nas fazendas próximas ao côrgo onde a gente passava a maior parte do verão. Em algum aspecto parecia brincadeira, polícia contra ladrão e no caso a gente era os ladrão. Durante as tarde de brincadeira no côrgo, quando a fome apertava era comum a gente atravessar a cerca de arame farpado e pegar milho, cana ou outro trem que desse pra comer nas plantações das fazenda vizinha.
Numa dessas pulada de cerca pouco antes deu chegar de férias minha turma levou uma emboscada dos filhos dos fazendeiros e suas espingardas de chumbinho e revólver de bolinha, então a guerra se instaurou naquelas férias. As armas que tínhamos eram o Ystilingue e a astúcia de conhecer melhor a área e as utilizamos bem, inclusive fazendo incursões de ataque bem próximas a sede de duas das fazendas para revidar ataques que sofremos quando estávamos nadando despreocupados. Durante todo o período de férias ficamos nessa brincadeira que hoje pensando acho bem simbólica, veno pelo viés da luta de classes, esses meninos eram descendentes das famílias mais rica da região, donas da maioria da terra onde boa parte de nossos parentes da roça trabalhavam em condições precárias. Não houveram grandes ferimentos em ambos os lados além de hematomas pelo corpo e alguns pontos na cabeça de um dos polícia. Não existia muita conversa, era algo meio animalesco, tribal, instintivo que permaneceu até minha despedida, depois fiquei sabendo que não demorou muito para as turmas se tornaram amigos.
Depois de explorar muitos territórios e não me sentir contemplado, voltei para a busca das minhas raízes e desempenhando o ofício de jardinagem, vez ou outra tive que podar algumas árvores e sempre que encontrava uma furquia me vinha na memória esse passado caçador e suas histórias. Depois de algum tempo apenas admirando comecei e juntar aquelas furquias como lembranças, pedaços de uma história que faz parte de mim. Certa vez em 2013 durante as obras da pista do BRT para a Copa do Mundo de 2014 em Belo Horizonte, passei pela avenida Cristiano Machado, altura do bairro Cidade Nova e me deparei com todas as árvores da pista central cortadas. Foi uma tristeza sem fim, naquele momento já estava claro o quão destrutivo seria e foi aquele megaevento. Coletei algumas furquias, fiz Ystilingues e botei na roda durante as manifestações de junho de 2014, na esperança que servissem como ferramentas na resistência contra a opressão que nos assolava.
Esse ano tive a oportunidade de trabalhar o aspecto imagético do Ystilingue, também como ferramenta de resistência mas em uma escala simbólica. Junto com meu amigo Daniel Carneiro usamos várias furquias e Ystilingue na identidade visual do Cinecipó - Festival do Filme Insurgente, foi um desafio enorme enfrentar minhas limitações em trazer algo tão pessoal para o público, respeitando a minha relação com a história que construí, sem ceder para linguagens e modos de trabalho pré-estabelecidos nesse meio, que no meu caso me soaria artificial. Coloquei algumas furquias numa vitrine no Cine Humberto Mauro junto com a logotipo que também desenvolvi e outros elementos que compõem a ferramenta Ystilingue, como num passo a passo caso alguém queira fazer o seu. Agradeço a produção do Cinecipó pela confiança e paciência, ao amigo Daniel Carneiro pela sensibilidade e compreensão e principalmente agradeço a Mãe Natureza que nos proporciona os meios de viver bem, ainda que nem todos enxerguemos











