Você sabe quem ele é, Taylor.
No fundo, você sabe quem ele é.
As palavras de Fritz não eram acusatórias — do tipo pare de fingir que isso é um grande mistério — mas pareceram apontar um grande holofote contra o rosto de Wright, ao tempo que puxava sem muita gentileza as cortinas que ele havia pendurado diante dos olhos. Fritz tinha dinheiro, mas Taylor jamais vira qualquer indício de atividade trabalhista. Fritz tinha cicatrizes e uma arma. Fritz também falava nomes de criminosos como quem cita um amigo da rua ao lado.
Taylor prestava atenção nele, via a forma tensa como ele se apresentava. Como escapou daquilo com o corpo, mas não com as palavras. Os gestos de Taylor pareceu afetá-lo, e em outro momento, o garoto teria se afetado por isso também. Mas ele não soube se mexer e reverter aquilo naquele instante imediato. Apenas estava com os olhos presos em Fritz, como se o estivesse reconhecendo através de cada marca em seu corpo e nos olhos apertados.
Não é como se você nunca tivesse me visto vendendo drogas em festas, o loiro falou; Taylor parou por um segundo. Ele nunca havia visto, de fato. Para ser honesto, nunca havia deduzido que eram as drogas o centro das atenções, sempre que deixava Fritz sozinho em alguma ocasião pública, estranhos se aproximavam como insetos serpenteiam até um ponto de luz. Havia sido estúpido de sua parte dar os créditos ao magnetismo do alemão, não era?
O tom de voz dele aumentava gradativamente, da mesma forma que se tornava mais evidente a forma carregada como ele podia falar. Sua naturalidade, em todos os espectros. As vezes em que ele sumiu da cidade? Era culpa do seu modo de vida. E aquelas marcas pelo corpo? Certamente heranças de histórias que, de acordo com o mais velho, despertariam raiva em Taylor.
Despertariam? Wright não teve muito tempo para ponderar os extremos daquelas verdades secretas, porque da mesma forma súbita como havia sido embalado pela excitação de um criminoso coagido por perguntas, Fritz se abrandou — começou com decepção, porque ele havia sido pego de surpresa no ato de intolerância na rua. Depois, vieram mais palavras sustentadas por culpa; e um carinho no cabelo que também trouxe um pouco de comodidade a September. Fritz gostava de brincar com o seu cabelo, era algo que ele fazia com frequência — identificar aquilo o fez perceber que havia um pouco de lucidez atravessando a dor.
Os rostos se aproximaram, com a promessa de um beijo que não aconteceu. Mas as testas se tocaram e os olhos estiveram tão próximos que Taylor se viu refletido ali dentro. Apesar das últimas palavras ditas ali, apesar de todo o trauma que cercava aquela noite de Fevereiro; Taylor sorriu com o canto dos lábios. “Bom… essa é a hora que eu vou embora.” Sussurrou, levando a mão para o rosto alheio, prendendo-o num carinho lento. “Compro um carro veloz, para fuga, então mudo um pouco o visual, providencio documentos com um nome falso e toda essa gente de merda que coma poeira.”
A risada não durou muito, porque rir lhe causava dor; e não parecia nada agradável rir e gemer ao mesmo tempo. Por isso, Taylor se conteve a apenas roçar a ponta do nariz com a de Fritz. Os pecados haviam sido colocados sobre a mesa. Ele sabia que havia muito a se pensar e prestar atenção, e que a situação era maior e mais problemática do que ele poderia imaginar, mas, ainda tinha convicção do que prometera ali. “Eu estou aqui.” Sussurrou, antes de tocar a ponta do nariz alheio com os lábios. “E ainda há muito para ser conversado depois, você sabe, isso requer que eu fique também.” Deu de ombros, como se houvesse certa obviedade na sentença que ele lançava ali — ir embora não era uma opção, exceto se ele fosse mandado embora. “Sem julgamentos, eu prometo. Você precisa de uns cuidados, e bom, eu estou por perto, não é péssimo?” Mais um sorriso, dessa vez, ele mesmo não resistiu roubar um beijo dos lábios de Fritz; estavam perto demais e ele poderia lidar com a dor agora.
Fritz realmente achava que Taylor levantaria e sairia dali a partir do momento em que terminou de falar todas aquelas coisas. O alemão, melhor do que ninguém, já estava habituado com partidas e virares de costas num geral, então não seria nada que o surpreenderia no final das contas; doeria, claro que doeria, mas não poderia exigir nada de Wright em se tratando de aceitá-lo daquele jeito, sendo como era e sendo quem realmente era: o alemão calado, pouco sociável, mas sempre avistável pelos corredores daquele prédio, no vizinho ou pelos estabelecimentos daquela avenida. Um homem que apesar de conhecer muita gente, se permitia a ter laços com pouquíssimas pessoas simplesmente porque não sabia por quanto tempo continuaria nos Estados Unidos, morando naquele lugar, convivendo com as mesmas pessoas...
Bem como não sabia por quanto tempo mais elas continuariam por perto.
Porque, bom, isso era bem incerto. Com o passar dos anos, ele aprendera a não contar com a permanência de ninguém. Por isso se surpreendeu tanto ao ouvir o que Taylor disse a seguir -- como se surpreendeu ao ouvir Natasha há alguns anos atrás, Valerie, Hans, enfim, seus amigos num geral que, em algum momento haviam-no questionado sobre o que ele fazia para ganhar a vida. Não imaginava que alguém que estava há tão pouco tempo em sua vida, considerando os outros nomes mencionados, fosse aceitá-lo naqueles termos, manter-se disposto a tê-lo por perto sabendo do nível de pessoa que teria ao seu lado. Claro, Fritz não havia dito nada sobre o sangue que carregava nas mãos, as negociações esdrúxulas que tinha de fazer em prol de manter seus fornecedores por perto e organizações criminosas rivais mais perto ainda, a parte do financiamento de casas noturnas e, consequentemente, da exploração de homens e mulheres que trabalhavam nelas...
Mas isso parecia ser um tipo de detalhe para depois.
No momento, Friedrich apenas sorriu. Fraquinho, quase de maneira imperceptível, mas sorriu. Estava ligeiramente constrangido por ter falado tão abertamente -- sem falar tanto assim, exatamente -- sobre sua vida, mas ficara feliz ao perceber que aquilo agregara alguma coisa naquela relação meio complicada entre os dois.
“Nem parece que eu sou o mais velho aqui.” Brincou, rindo baixo, referindo-se ao fato de Taylor ser sempre mais útil em se tratando de cuidar dele. Atentava-se aos seus resfriados, tendia a reclamar da quantidade de cigarros que ele fumava seguidamente quando estavam juntos e agora estava disposto a cuidar dos ferimentos em seu corpo que até o próprio Zweibrücken havia se esquecido por um instante. Lembrou-se deles no momento em que Wright falou aquilo e, em seguida, voltou a beijá-lo. Um gemido dolorido por entre o beijo foi inevitável porque o alemão moveu um dos braços, em seguida, de modo que pudesse segurar com cuidado a cintura alheia, mas assim que o movimento foi concluído, ele sentiu os fisgões em seu abdômen e em um dos lados de suas costelas. Ainda assim, continuou ali, com a boca contra a de Taylor, só até o momento em que sentiu um gosto de ferrugem invadir o contato.
Sangue. Seu nariz ainda estava péssimo.
“Merda.” Resmungou, afastando-se alguns segundos depois, procurando por mais algumas gazes que pudesse usar para voltar a limpar aquela tragédia. “Desculpe.” Acrescentou, antes de voltar os olhos para a gaze em seus dedos, bem avermelhada agora. Então, foi tomado pela necessidade de conferir novamente o curativo que colocara sobre o corte no pescoço do moreno, tocando-o gentilmente com a ponta dos dedos, bem como fez com o que colocara sobre os outros ferimentos, menos piores, espalhados pelo rosto de Taylor. “Eu só preciso de um pouco de gelo e vou ficar bem.” Anunciou enfim. Ainda não processava muito bem o fato de ter alguém querendo cuidar dele, mas ficava agradecido pela atenção do Wright. “Nada que você por cima de mim daqui a pouco não resolva. Vai ser o melhor jeito de alinhar a minha coluna de novo.” Brincou. Imaginava que ele não deveria estar no clima para o que estava sugerindo, mas ainda assim, era uma maneira de aliviar um pouco a tensão e a tristeza que cercava o momento.