Contrato Inviolável - Capítulo XVII
Fogo na chuva
Eu olhei através da janela do grande carro negro da família dos meus namorados que mais parecia uma vã e sorri ao ver as montanhas surgirem na linha do horizonte.
Eles tinham conseguido, meus pais aceitaram aquela pequena viagem e eu tinha que dar credito à família deles. Eles tinham sido bem convincentes apesar de todas as estranhezas iniciais.
No fim, o almoço foi um sucesso e meus novos primos e cunhados estavam todos muito empolgados, me empolgando também.
Acampamento parecia o sonho de consumo deles. Era até engraçado.
Então suspirei ao olhar discretamente para o banco da frente e ver o perfil de Chin conversando com um dos tios dele. Depois daquele susto que Bianca me deu, ela não falou mais do tal plano de “abrir os olhos do Chin” e internamente eu até agradecia aquilo, seria loucura, muita, ele parecia tão... Adulto!
Meus pais jamais deixariam, já foi um sufoco com o JYJ!
Tinha que tirar aquilo da minha cabeça. O fato dos meus namorados entenderem não significava nada, ainda assim parecia injusto para mim. Eu não devia agir assim, era errado. Era errado com todos eles, JYJ, Bianca e o Chin.
Assim, decidido a colocar uma pedra no assunto, eu me escorei no ombro de JYJ e apontei para fora da janela:
— Já estamos chegando? Será que vão ter muitos pernilongos?
Senti, mais do que vi ele se curvar e me puxar para o seu colo com cuidado, para onde fui totalmente envergonhado, mas ninguém, ninguém mesmo nem se querer se mexeu a não ser a Bi, que se sentava do outro lado meu e que se virou para nós apenas para segurar uma das minhas mãos.
— Eu não vou deixar eles te morderem, prometo! - JYJ sussurrou no meu ouvido e então me abraçou – E temos repelente, ainda não somos totalmente selvagens.
Ouvi alguns risinhos ao redor e fechei os olhos, mas na minha mente a proximidade com ele era muito mais importante do que alguns pernilongos malvados. Eu estava no colo no meu namorado, com as mãos dele na minha cintura, com a pele dele próxima a minha... Eu podia ser mais sortudo?!
— Você vai gostar, Yutie, tenho certeza.
Bi falou e eu assenti. Ok, eu ia gostar, claro que ia...
— Ou talvez não.
Sussurrei para mim mesmo quando vi eles todos animados montando barracas, levando e trazendo coisas, amarrando outras em árvores e sei lá mais o que. Meus namorados e sua família eram escoteiros? Faziam parte da equipe daqueles programas de aventuras na selva? Só podia para parecerem um mini exército organizado no meio daquele nada onde sim, tinha pernilongos!
Era oficial, eu era uma pessoa urbana, um sub de família urbano e civilizado que o mais próximo de vida livre que curtia era passear na grama na margem do rio Han. Então assisti meio que hipnotizado, chocado, melhor dizendo, Chin voltar de deus sabe onde que ele se meteu desde que levou o carro para “Um cantinho plano”. Duas horas atrás.
Nisso os tios dele também sumiram e então quem ficou responsável por aquela expedição rumo ao pico da montanha e em busca de uma clareira “aconchegante” foi minha cunhada. Bárbara.
Não que ela tivesse dado alguma ordem, eles pareciam estar em uma cena habitual. Parecia até algum filme doido de perdidos na selva, by minis soldados!
Mas o fato era, Chin trazia... Coelhos mortos no ombro.
Minha reação foi a mais imbecil, ridícula e absurdamente mimada urbana possível. Eu gritei e sai correndo, mesmo, super rápido, com o pouco de prática de Le Parkour que eu tinha, desviando de galhos, troncos e buracos. Eu corri ouvindo vozes chamarem meu nome a distância, galhos sendo quebrados, sons de corrida, mas eu não parei, como um louco assustado e continuei montanha abaixo até tropeçar em alguma coisa e sair rolando como uma bola desengonçada em fuga alucinante.
Quando tudo parou, eu olhei um monte de folhas sobre mim e um céu já escuro sobre minha cabeça e então, eu apaguei, mesmo, da maneira mais idiota possível.
Sendo picado, óbvio, por um bando de pernilongos.
Acordei sendo carregado por um corpo forte e encolhido como um tatu bola, com muita dor nos joelhos e no punho. Choraminguei e fui colocado sentado em um tronco de árvore e vi os olhos do meu salvador. Kim Chin, claro. Porque passar vergonha era minha especialidade e eu fiz uma idiotice imensa dessa vez...
— Me Desculpe, ahhh me desculpe, eu nem sei... E-eu...
— Tudo bem bebê, tudo bem, não imaginávamos que teria essa reação, mas deveria ser esperado de alguém que nunca saiu da cidade. Aqui, evite de se mexer, deixe que eu veja isso – Ele tocou com gentileza meu punho e eu gemi alto de dor. Ele me olhou sério e depois mexeu em uma das minhas panturrilhas onde eu tremi, mas ali nem doeu tanto - Vamos ter que ver isso, e mal saiu de um ferimento no cotovelo... Ah! Yuto... – Ele fechou os olhos e eu me senti mal, puxa, mas eu era um dramático mesmo! Porque tive que reagir como um louco? - Muito bem, vamos para uma área aberta, vou passar um rádio aos outros para avisar que te encontrei.
Ele voltou a me pegar com cuidado e foi minha vez de suspirar, alguém se metia mais em confusão do que eu? Não, óbvio que não...
— Sua cabeça dói também?
— Não, ela não...
Sussurrei baixinho.
— Que bom.
Ele caminhou por mais um tempo e então eu ouvi som de água. Arregalei os olhos:
— Água?
— Sim, tem um rio aqui perto. E onde tem rio, tem área aberta, vamos!
Ele andou mais rápido e eu fechei os olhos tentando não ficar encarando o peito dele. Eu tinha problema? Sub mal... sub mal!
Ralhei comigo internamente e pouco tempo depois fui colocado em uma pedra achatada onde o som de água era mais forte.
Ele se sentou no chão diante de mim e rasgou a blusa. Eu ofeguei e fechei os olhos. Meu deus, me leva!!! O que ele ia...?
— Vou enfaixar seu punho antes que inche demais, voltando para o acampamento eu trato direito esse ferimento, tudo bem? Aparentemente é só um mal jeito. Teve sorte.
Eu assenti e ele riu, riu pela primeira vez, um riso divertido, suave e amável e eu acabei abrindo os olhos para encarar os deles sobre mim, quase pequenas meia luas devido ao sorriso:
— Olhe para o céu, vai ajudar, hun? Não tenha medo, não vai doer... Olhe, veja essas estrelas todas, tenho certeza que poucas vezes viu algo assim na cidade, não é?
Chin me disse sentando-se na pequena pedra ao meu lado e fazendo de tiras a camiseta e começando a enfaixar meu punho. Eu ofeguei, não porque de fato o céu estava todo lindo e estrelado, mas porque eu estava com ele, sozinho, em algum lugar daquela montanha isolada e depois de toda a cena absurda que eu causei, fui encontrado justamente por ele, meu crush proibido.
Vida ao ar livre não me pertencia, não mesmo... Mas puxa, eu precisava exagerar?
— Nunca vi, na verdade.
Respondi sem graça abaixando os olhos para ver suas mãos rápidas cuidar da minha com a praticidade de quem fez aquilo milhões de vezes.
— Espero que goste, vai ter boas oportunidades agora, vida ao ar livre é uma paixão da minha família.
E ele me soltou fazendo com que eu exibisse um bico chateado antes que me controlasse. Ergui meus olhos e ele me olhava de um jeito que eu poderia morrer só em pensar. Seu olhar todo estava sobre mim – Começava a achar que aquilo era um talento da família deles – Negros, profundos, atentos, pacíficos... Lindo!
— Tome mais cuidado no futuro, Yuto, se você se machucar, vai machucar meus primos. Eu gostaria de estar em todos os lugares para protegê-lo, mas nem sempre vou estar...
— Então esteja.
Sussurrei e quase gritei em pânico em seguida comigo mesmo, arregalando os olhos como um retardado. Eu fiquei louco? DEUS ME LEVA!!!
Chin sorriu e tocou o indicador na ponta do meu nariz com um sorriso assassino.
— Te prometo que vou fazer o meu melhor.
— C-chin...
Gaguejei e então fiz a maior loucura da minha vida, eu devia estar possuído aquela noite, não tinha outra explicação, mas eu nem cogitei naquele segundo, eu apenas fiz, sai do meu cantinho seguro de meio metro de distância e fiquei diante dele, olhos nos olhos, só sendo possível porque ele estava sentado e eu de joelhos – Ignorando o desconforto, claro - Prostrado naquele canto distante da montanha, eu o encarei firme, do meu jeito tremulo, claro:
— Jura?
Ele assentiu e eu... Eu fechei os olhos, me curvei sobre ele e o abracei repousando minha cabeça no peito largo e me encolhendo ali naquele calor gostoso e seguro.
— Eu juro, para sempre.
Senti os braços dele ao redor de mim e ali perdi o medo da noite ou dos insetos e descobri que ele não era apenas um crush para mim, ele era o meu terceiro dom.
Ele tinha meu coração. Para sempre.
Agora definitivamente já era a minha boa vontade de esquecer dos meus sentimentos... Mas e ele?
E ele, deus!?
Percebi que dormi quando abri meus olhos e me vi deitado em um cobertor grosso, coberto por uma manta macia e fechadinho em uma barraca espaçosa. Ergui meu punho e vi uma tala e uma nova bandagem além de curativos nos meus joelhos. Juntando meu cotovelo enfaixado eu quase parecia o Frankenstein. Torci o nariz e fiz cara feia para a porta da barraca fechada.
Eu ia dormir sozinho? Não que eu não merecesse, mas... Poxa!
Então me senti quente com aquele pensamento inapropriado ao mesmo tempo em que o zíper da entrada da barraca se abriu e Bianca entrou me encarando atenta:
— Como se sente, Yutie?
— Uma múmia – Resmunguei e então escondi meu rosto com as mãos – Desculpa Bi, eu sou um tonto!
— Você nos deu um susto, mas não é um tonto, você é nosso coração. Só mais frágil. Um pouquinho... - Então as mãos dela cobriram as minhas e eu ergui os olhos para vê-la. Ela sorria – Precisamos cuidar melhor de você, meu baby, só isso. Agora me diga se está com fome, hun?
— Eu não vou comer coelhos!
Disse aflito e ela assentiu:
— Sem coelhos, que tal sanduiches da tia Jess?
Eu suspirei aliviado e ela riu baixinho, me deixando um pouco hipnotizado. Porque eles eram tão entorpecentes para os meus sentidos?
— Vamos sair e comer? Se não vai dormir com fome. Depois voltamos e prometo te fazer carinho até que durma, combinado?
Nós íamos dormir juntos? JUNTOS? AHHHHHHHHHH!



















