A gente desperta, o coração já pesado,
A casa suja, o calor que invade,
As tarefas que esperam, o cabelo por cortar,
E o mercado, uma visita sem vontade.
A filha adoece, garganta inflamada,
Sem plano, sem jeito, no hospital público a cura é procurada.
E o pensamento vagueia, entre contas a vencer,
Dívidas antigas, o peso de tudo a crescer.
Os óculos quebrados, minha visão turva,
E a filha, também, na mesma curva.
Inseguranças compartilhadas, medos a dois,
Nosso reflexo no espelho que já não brilha mais.
O pet já idoso, precisando de atenção,
Mas onde encontrar recursos? Fica a interrogação.
A mãe, tão idosa, com ela os conflitos,
Família é terra que às vezes se faz labirinto.
Mas o dia exige, é preciso andar,
Resolvo três ou quatro coisas, antes de o sol se deitar.
Pago as contas, tomo banho, corto o cabelo,
E compro novos óculos, sem luxo, mas com zelo.
Alguns anos atrás, a vida parecia melhor,
Moradia, bairro, passeios, um ritmo maior.
Mas a maré mudou, como as marés sempre fazem,
O mundo mudou, e com ele, nossas bases desfazem.
Pandemia, recessão, e o clima a rugir,
Líderes perdidos, o futuro a se extinguir.
Mas há lições nas sombras e na luz que nos guia,
Nos bons e maus momentos, na escassez ou na alegria.
Tudo é fase, como a onda que vem e vai,
Nem o conforto, nem a miséria, aqui ficam pra ficar.
A tristeza também passa, como passa o sol,
E o que resta é o que aprendemos, nossa alma em farol.
Hoje é um dia novo, amanhã será também,
Dormir não resolve, ignorar é vão além.
A raiva, a reclamação, a desesperança que pesa,
Nos acorrentam ao problema, e a solução se despreza.
Mas andar, seguir, é o que traz a mudança,
Um passo depois do outro, a vida em dança.
O banho agora, o cabelo cortado,
Aos poucos, a rotina vai sendo moldada.
Um quarto limpo, um banheiro brilhando.
Cada ato é um avanço, um passo adiante.
E assim se vive, nas ondas da maré,
Tirando lições, crescendo, sendo o que é.