Sobre ouvir e ser ouvida
Durante toda minha infância e adolescência a habilidade de silenciar uma família grande em torno da mesa sempre esteve comigo.
Qualquer pergunta ou comentário que fizesse pareciam soar como um toque de recolher de todas as falas.
Comumente ouvia o cricrilar dos grilos após qualquer consideração que fizesse, boa ou ruim, leviana ou inteligente.
Era uma coisa que eu observava só, pois ninguém percebia esse tal dom, claro! Ninguém me ouvia pra nada, porque alguém me ouviria sobre isso?
Quando fiquei mais velha comecei a namorar, e me sentia um pouco mais ouvida, então, comentei sobre esse fato. A princípio, o dito cujo me ouviu e riu, achou uma grande bobagem. Mas com tempo, viu que era muito real. Percebeu inúmeras vezes, e assim como eu, validou aquele raro fenômeno.
Durante os anos, essa coisa pareceu mudar um pouco, ou se tornou menos óbvia. Pois dentro de uma sala de aula da faculdade, ou com pequenos grupos de amigos ou ainda em uma reunião profissional, ignorar o posicionamento de alguém não era lá uma constante.
Já mais adulta, em uma fase que parecia que minha infância e adolescência estavam muito presentes, comecei a me atentar como, na verdade, eu ainda permanecia sem ser ouvida.
Percebi que diversas vezes, pessoas que julguei amigas, não estavam nem perto de abrir seus ouvidos para minha fala, mesmo estando muito próximas a mim.
Percebi entre masculinidades tóxicas, muita falta de respeito e consideração por posicionamentos técnicos ao desenvolver trabalhos.
Percebi também, mesmo em grupos de mulheres, quantas vezes precisei falar e pedir licença para ter espaço de escuta, que na verdade, ninguém interiorizava informações importantes.
Ou seja, percebi que já não tinha mais a habilidade de silenciar pessoas, e talvez eu nunca tivesse realmente tivesse tido essa habilidade.
Talvez a grande questão estivesse fora.
Pessoas que não ouvem, não respeitam e não se importam. Até mesmo quando perguntam sua opinião, e mesmo assim, não o fazem.
A humanidade tem um grande problema de ouvidos. Cada ser humano tem dois, que podem funcionar muito bem. Mas será que desejam ir de encontro ao som da voz alheia?
Um desejo muito sincero que tenho nessa vida é de que eu consiga projetar minha voz para enfim ser ouvida. Não sei se será possível, pois não depende apenas de minha fala, depende também do ouvinte.
Mas sigo, a cada dia reforçando minha habilidade em mostrar para o mundo minha voz em sua melhor versão.
Quem sabe um dia?











