Póstumo
Não foi com aviso prévio. A vida é assim: incerta, instável e não diz a que veio. Não podemos escolher o que vai acontecer e como vai acontecer, mas temos opções diante do inevitável: ou enlouquecemos, entramos em depressão, nos sentimos imobilizados pelo medo ou seguimos adiante com tudo o que temos e sentimos. Uma amiga me disse que estava esperando o dia que eu fosse pirar. Não aconteceu, não do jeito que ela esperava. Sou uma pessoa que gosto da intimidade para chorar, pirar, enlouquecer. Mas o mais importante, o crucial é o luto que deve ser feito [faz tempo que perdi o medo de sofrer as partidas]. Chorar as perdas e os mortos, enxugar as lágrimas e seguir em frente. Mesmo com a sensação, que às vezes nos assola, de que estar contente é trair os que já se foram. Mas “os mortos precisam de espaço para morrer” (Luft) e inevitavelmente estão dentro de nós, herança sem direito a devolução para o bem ou para o mal. Então o melhor é integrar, dialogar e ter compaixão: fomos o melhor que podíamos ser e tentamos aproveitar nossa estádia juntos. Reverenciamos a dádiva de ter vivido está existência compartilhada. Refúgio bom e com responsabilidade. Termino aqui com Adélia que diz da morte dos seus pais: que não foi visitá-los nem finados, nem aniversário “pra que se pra chorar qualquer lugar me cabe”.









