(pov #1)
Naquela noite, Laurel sonhou com agulhas e bisturis.
Agulhas entrando debaixo de sua pele, tirando sangue e colocando outras substâncias que ela não conhecia. Bisturis rasgando sua barriga. Pessoas a costurando. Uma sala branca. Luzes fortes. Meia consciência.
Era o hospital de novo.
“O dispositivo está estabilizado”, dizia uma voz levemente familiar. “Ei, ela está acordada!”
Laurel mal conseguia entender o que falavam. Não estava totalmente desperta, mas também não dormia. Conhecia a sensação: estava drogada. Tentou piscar, embora os movimentos de suas pálpebras fossem muito lentos. Era um limbo.
“Rápido! Façam-na dormir novamente!”
Mais uma picada. Outra injeção, outra agulha debaixo de sua pele. Tudo ficou escuro novamente.
Acordou num sobressalto, com a roupa encharcada de suor e o coração retumbando em seu peito como um tambor. Christensen chegou a pensar que estivesse no hospital de novo, mas conforme olhou ao seu redor, percebeu pelos artigos religiosos que era a sinagoga. O ar fresco invadiu seu pulmões, trazendo com ele uma sensação bem-vinda de tranquilidade. Um pesadelo. Só um pesadelo.
“Lorbeer...” A voz sonolenta de Erik a chamou. Tinha se esquecido de que ele estava ao seu lado, deitado no colchão de casal surrado que acharam dias antes. “Você está bem?”
— Estou — murmurou em resposta. Só então percebeu que, se ele estava acordado, talvez tivesse visto alguma coisa. Droga, mais uma vez, não. — Eu projetei de novo, não é? Projetei em você de novo.
Seu tom de voz era culpado. Longos segundos de silêncio se instalaram até que Erik confirmou com a cabeça. Parecia hesitante em dá-la a resposta - ele já sabia que Laurel não gostaria. A telepata suspirou pesadamente, voltando a deitar-se de costas para Wagner, evidentemente chateada. Não com ele. Consigo mesma. Céus, ele sequer podia ter uma noite de sono tranquila ao lado dela.
“Veja pelo lado bom, Lorbeer...” a mão de Erik afagou levemente sua nuca. “Dessa vez, parece que foi só em mim.”
Depois de descobrir sua habilidade de projetar pensamentos e imagens na mente de outras pessoas, Christensen o fazia inconscientemente com seus pesadelos às vezes. Dias atrás, havia acontecido não somente com Erik, mas com o resto da comunidade presente na sinagoga - Fox, Hawk, Poe... Todos eles tinham visto. É claro, não é como se fizesse aquilo de propósito... Mas também não era como se não tivesse nenhuma responsabilidade.
— É, você tem razão. É melhor voltarmos a dormir agora — não tinha nenhuma emoção na voz, por mais que ainda se sentisse frustrada. O que lhe restava era esquecer a situação por ora.
Sentiu um incômodo na barriga, no mesmo lugar em que o corte tinha sido feito no sonho. Uma dor latente, como se algo ali ainda estivesse machucado - como se algo a cutucasse de dentro para fora.
É só a sua cabeça, Laurel, pensou consigo mesma.
E ignorando a dor em seu ventre, voltou a dormir.
the next morning, 10:43 am.
Laurel acordou com o barulho de alguma coisa caindo no chão, no andar de cima da sinagoga. Um palavrão seguiu o estrondo. Mesmo de longe, reconheceu a voz de Hawk e Poe. Sentou-se na cama, esfregando os olhos e piscando demoradamente, ainda meio sonolenta. A noite anterior tinha sido particularmente difícil, como várias outras noites nas últimas semanas. O pesadelo ainda a deixava confusa: era real demais. Mais real do que Bradcliff, mais real do que tudo que vivia agora.
E uma sensação familiar da madrugada anterior a invadiu outra vez: a dor em sua barriga. Levou a mão até aquela região, tentando sentir ali algo de diferente. Não havia nada. Só mais uma coisa da sua cabeça. Seu estômago estava embrulhado e, quando tentou se erguer, a paisagem ao seu redor girou.
Erik não estava mais lá. Àquele horário, provavelmente já tinha levantado, junto dos outros. Christensen decidiu fazer o mesmo, ignorando o mal-estar repentino. O chão debaixo de seus pés parecia sumir, mas prosseguiu caminhando, subindo as escadas da sinagoga até o andar de cima. Por mais fraca que pudesse se sentir, precisava parecer normal.
Assim que terminou os lances da escada, viu as figuras dos amigos e do namorado surgirem no horizonte. Estavam dividindo a comida, conversando distraídos. A primeira a notar a presença de Laurel foi Fox, que ergueu o canto dos lábios num sorriso.
"Good morning, sunshine" ela brincou. Laurel manteve-se quieta, sentando-se no chão ao lado de Erik. A feição da amiga pareceu mudar. "Você está bem?”
Christensen simplesmente assentiu com a cabeça.
"You sure, Edward Cullen? Você está mais pálida do que uma folha de papel.” — Agora, Poe tentava provocá-la.
— Sim, eu tô bem. Só tô com um pouco de dor de cabeça — mentiu, esperando que seus amigos não fossem insistir no assunto. O incômodo na sua barriga continuava, latejando, espalhando-se de dentro para fora.
"Você deveria comer um pouco" Erik levitou uma lata de metal até a direção de Laurel.
— O que é isso? — Ela perguntou, já com a lata em suas mãos.
“Salsicha enlatada. É daquela casa que saqueamos semana passada.” Wagner explicou. “Eu preferi ficar com isso aqui” ele chacoalhou uma conserva de tomates.
— Wow, que saudável — com o tom de voz zombeteiro, Laurel abriu a lata. O cheiro de salsicha subiu até suas narinas e imediatamente a fez sentir vontade de vomitar. Imediatamente levantou-se. — Não tô com fome, podem comer.
“Deixa pra mim!” Exclamou Hawk, já praticamente voando para cima da lata.
“Você já roubou duas salsichas da minha lata, Horse. Essa é minha agora!” Poe tentou intervir.
— É toda de vocês, mortos de fome. — Laurel voltou a caminhar na direção das escadas, querendo deitar-se novamente. Conforme andava, a briga de Poe e Hawk ficava mais distante. O barulho alto era suficiente para fazer seus ouvidos zumbirem. Antes que pudesse começar a descer os degraus, no entanto, uma mão enrolou-se ao redor de seu braço. Olhou para trás, vendo Erik diante de si, com uma expressão preocupada.
“Lorbeer, tem certeza de que você está bem? Se quiser conversar sobre o que aconteceu ontem... Eu entendo, não é culpa sua.” Seu tom de voz era compreensivo, calmo. Acolhedor. Por alguns segundos, houve uma ponte visual entre os dois e Laurel quis confessar que não estava tudo bem porque tinha pesadelos todas as noites, porque ele nunca conseguiria dormir bem se estivesse ao lado dela, que estava alucinando com uma dor incômoda e específica em sua barriga por culpa daquele pesadelo e que jamais se sentiria bem novamente sem seus remédios.
Ela respirou fundo, deixando-se levar pelas órbitas de Wagner e reunindo um pouco de sinceridade pela primeira vez naquele dia.
— Tem alguma coisa de errado — começou, vacilante. — Algo de errado comigo. Não sei o que é, mas tem.
A constatação saiu quase desesperada, quase um pedido de ajuda. Me ajude, Erik, ela quis implorar. Me ajude a descobrir o que tem de errado em mim.
Erik expirou longamente. Envolveu seus braços ao redor das costas de Laurel, puxando-a para perto de si e depositando um beijo no topo de sua testa. Sentia-se segura, mas seu ventre ainda doía. Essa merda não vai passar nunca?, pensou, impaciente.
"Não tem nada de errado com você. Você está há muito tempo sem comer, só isso. Deveria ter aceitado as salsichas, mas agora acho que já é tarde demais.”
Ambos viraram-se para olhar para trás, onde Poe e Hawk dividiam avidamente a lata, ainda tentando lutar por ela. Fox tentava remediar a confusão, embora não conseguisse conter o riso. Uma pontada de inveja surgiu no coração de Christensen: queria ser como eles. Queria ser normal, rir das coisas banais, sentir-se feliz. Mas aquilo não era para ela.
Ela desvencilhou-se do abraço de Erik. Olhou para o rosto do namorado, forçando um sorriso.
— Não se preocupa comigo, Magneto. Vou voltar a dormir e quando acordar, provavelmente já vou me sentir melhor.
Dando as costas para ele, desceu as escadas, com a mão inconscientemente na área de sua barriga que doía.
Tem algo de errado algo de errado algo de errado, a voz na sua cabeça ecoou.
Ela fingiu não escutar.
later, at 19:25 pm.
Tira isso daí tira isso daí tira isso daí
O reflexo no espelho falava com ela. Tinha se trancado no banheiro da sinagoga há meia hora, procurando ficar sozinha quando as vozes ficaram insuportáveis. Como esperado, seu mal-estar não havia passado e sim, piorado. Havia alguma coisa em sua barriga: algo que pesava, como uma pedra. Algo que a fazia se sentir podre por dentro. Errada.
Tem algo de errado algo de errado algo de errado
A Laurel no espelho voltou a falar. Fechou os olhos fortemente, tentando não ver nem escutar, mas era mais forte do que imaginava. A mão pousada em cima de sua barriga tremia e apertava a pele, procurando por algo de diferente, desejando cravar as unhas na tez suada e arrancar sua carne com as próprias mãos.
Tira isso daí tira isso daí tira isso daí
Não é nada, Laurel, pensou consigo. É só coisa da sua cabeça. Você está passando mal. É só coisa da sua cabeça.
Tem alguma coisa dentro de você.
Tire daí.
O reflexo no espelho agora falava diretamente com Laurel, dando-a ordens. E ela sabia que estava certa. Que era aquilo que queria.
Tira isso daí tira isso daí tira isso daí
Revirou os bolsos de sua calça. Tinha trazido para o banheiro sua navalha, já prevendo o que sentiria vontade de fazer. Ergueu a camiseta, olhando para o espelho sujo. A mão que segurava a lâmina estava trêmula, mas Laurel não hesitou: dirigiu a parte afiada até seu ventre, exatamente na parte onde doía, e sentiu a ardência da pele se separando. O sangue começou a escorrer como uma cascata de rubis. Imediatamente, ficou aliviada; era a coisa certa a se fazer, no fim das contas.
Christensen continuou a cortar quase sem perceber. A consciência já estava nublada - seria pela dor ou pelas alucinações? Seu reflexo no espelho ainda falava, firme e insistente.
Tira isso daí tira isso daí tira isso daí tem algo de errado algo de errado algo de errado
Todo o resto do ambiente era um borrão. Laurel só continuava a passar a navalha pelo ventre, determinada a encontrar o que tinha de errado. O que tinham colocado nela. O sangue já havia empapado sua calça, pingado na pia, escorrido pelo chão. Nem percebia o quanto sangrava até desmaiar, com a navalha em suas mãos.
O mundo enegreceu por alguns segundos.
Quando abriu os olhos novamente, havia gritos.
"Erik! Erik, pelo amor de Deus, vem cá!” Era a voz de Fox. Parecia desesperada. Laurel conseguia vê-la parcialmente ao seu lado, um borrão debruçado no chão com um chumaço de cabelos loiros. Nada fazia muito sentido. “É a Laurel!”
Christensen ouviu passos apressados. Em questão de segundos, outro borrão adentrou o banheiro.
“Scheiße! O que você fez, Laurel?” A telepata tentou abrir a boca, mas não conseguiu. “Precisamos fechar esse corte!” Havia urgência na voz de Erik. Laurel sentiu sua mão se levantando, indo em direção ao ferimento.
Não não não
Tira isso daí tira isso daí tira isso daí
“Ela tá alucinando?” Fox fazia pressão em seu ventre com algo peludo. Uma toalha.
“Parece que sim. Eu preciso de um kit de primeiros socorros, preciso fechar isso... Que merda!” Ele parou, evidentemente perdido. Laurel não conseguia captar muita coisa, mas as vozes eram claras. “Poe! Hawk! Tragam um kit de primeiros socorros, rápido!”
“Ela tá perdendo muito sangue, Erik! Eu não sei se consigo curá-la...” Fox tinha uma entonação chorosa. Sentiu as mãos delicadas da amiga entrando em contato com seu ferimento.
Não, gritou sem perceber. Não não não tira isso daí tira isso daí tira isso daí tem alguma coisa dentro de mim
“Não tem nada aí, Laurel! É só a sua cabeça!” Alguém afagou seu cabelo, num gesto de conforto. A julgar pelo timbre anterior, era Fox, mas não podia ter certeza.
De repente, os gritos pararam. O desespero cessou. Houve um longo silêncio, como se algo tivesse mudado. Algo que nenhum deles esperava.
A telepata não tinha percebido o toque de Erik em sua barriga, os dedos longos repousando na pele fria.
"Não é só a cabeça dela.”
“O quê?” A entonação de Fox era um fio agudo, cheio de confusão.
“Não é só a cabeça dela” Erik engoliu em seco, meio incrédulo, quase hesitante. “Tem alguma coisa aqui dentro. De metal. Eu posso sentir.”
Tira isso daí tira isso daí tira isso daí
“Meu Deus, como ela sabia? Precisamos tirar” Fox voltou a pressionar a incisão, tentando diminuir o fluxo sanguíneo. “Laurel, fica calma, ok? Nós vamos te ajudar, só fica calma.”
“Eu tenho que ver isso antes! Cadê a merda do kit de primeiros socorros?” Erik gritou. O desespero do alemão era quase palpável - Laurel chegou a pensar que, se não trouxessem logo as ferramentas, ele tentaria estancar o sangue com as próprias mãos.
Num instante, mais passos pesados ecoaram. Eram Hawk e Poe.
“Que merda... Porra, eu vou vomitar!” Poe exclamou.
“O que tá acontecendo?” Hawk entregou o kit de primeiros socorros para Erik, já sentando-se ao lado do corpo de Laurel, assim como os outros.
“Eu vim ao banheiro... A porta estava trancada e eu sabia que a Laurel estava aqui há um tempo... Tentei chamá-la, mas ninguém respondia, até que abri a fechadura com um grampo de cabelo e encontrei ela assim” a explicação veio de Fox. “Tem alguma coisa de metal dentro dela. Ela está desesperada pra tirar, não sabemos o que é.”
Laurel sentiu a frieza de algum objeto metálico encostando em sua pele. Uma pontada de dor se seguiu. Pareceu gritar, pois enfiaram um pedaço de pano em sua boca.
“Vou dar uma olhada nisso aqui e tirar o que tem dentro dela. Fox, preciso que você me oriente se tem alguma coisa... Alguma veia, artéria ou algo do tipo no caminho.
Mais pontadas de dor. Algo rasgava sua carne, vasculhando-a por dentro. Mordeu o tecido com força.
“Fica calma, Lorbeer. Estou tentando encontrar.”
Erik repousou a mão em sua barriga de novo. Provavelmente tentava sentir o metal, em busca de uma direção para seguir.
A dor lancinante voltou. Laurel não fazia ideia de como Wagner progredia em procurar pelo objeto: seus sentidos já estavam nublados há muito tempo. Mesmo que tentasse prestar atenção, estava fraca demais.
“Achei!” Havia uma partícula de entusiasmo na exclamação dele. “Agora só preciso retirar com a pinça.”
Houve um puxão, Algo lentamente se desprendendo de seu organismo, com muita cautela. Christensen tentou gritar mais uma vez, com uma das mãos agarrando firmemente na camiseta de Fox, ao seu lado.
Mais silêncio.
“Aqui está” o namorado levantou a pinça. No meio, tinha um implante. Estava coberto de sangue e era muito pequeno, mas era suficiente para incomodá-la.
O alívio tomou conta de Laurel e seu corpo pesou. Seus olhos fecharam-se e, novamente, ficou inconsciente.
later, at 1:43 am.
Quando acordou, suas costas repousavam na superfície confortável do colchão. A primeira coisa que viu foi o teto adornado da sinagoga: precisou piscar algumas vezes para a visão duplicada se fundir. As coisas ainda pareciam confusas, turvas, e sua cabeça doía um pouco. Chegou a esquecer do que tinha acontecido horas atrás, até virar-se para o lado e enxergar Erik, sentado, com a expressão preocupada de volta no rosto.
“Pensei que só fosse acordar amanhã” apesar do semblante consternado, ele parecia calmo. Era difícil ver Erik num estado de espírito que não fosse tranquilo: até mesmo após algo... Complicado como aquilo, ele ainda mantinha-se estável. “Você ficou inconsciente depois que retirei o implante. Acho que foi pela perda de sangue.”
Implante.
A lembrança do objeto de metal banhado de sangue na pinça invadiu sua mente.
— Eu quero ver — começou, agitada. — Quero ver o implante.
Com a mão direita erguida, o dispositivo flutuou do bolso da jaqueta de Erik. Estava envolto num saquinho de plástico, agora limpo e esterilizado. Laurel pegou-o nos dedos e examinou através do plástico transparente: era muito parecido com um chip, projetado especialmente para ficar despercebido em seu organismo.
"Ainda não sei como você fez pra sentir isso dentro de você.”
De repente, algo se encaixou dentro da mente de Laurel e o pesadelo da noite anterior fez sentido. Foi só depois do sonho, afinal, que ela começara a sentir o incômodo em sua barriga, justamente na área em que foi operada.
O dispositivo está estabilizado.
A boca de Christensen secou. Parecia impossível, se não soubesse que seu subconsciente agia como uma armadilha às vezes.
— Erik... Você se lembra do meu pesadelo de ontem?
O alemão assentiu, curioso para saber em que ponto ela queria chegar.
— Nesse pesadelo, eu estava no hospital psiquiátrico, passando por uma cirurgia... Um corte na minha barriga, exatamente no mesmo lugar — os dedos passearam pela pele em seu ventre, sentindo o ferimento suturado. — E tinha uma enfermeira falando de um dispositivo. Um dispositivo colocado em mim. Não era um pesadelo... Era uma lembrança.
Erik ergueu as sobrancelhas, surpreso. Ninguém esperava que, de repente, aquilo fosse surgir como uma memória. Nem mesmo a própria Laurel notara a diferença.
"Então você já está com isso há anos, sabe-se lá quantos. Eu já tinha sentido antes, mas pensei que fosse algum procedimento cirúrgico... Algo que você sabia que estava aí.”
A telepata negou com a cabeça.
— Pra ser sincera, nem faço ideia do propósito dessa coisa.
Ele passou a língua pelos lábios, umedecendo-os
“Dei uma olhada depois que retiramos de você. Parece algo feito pra te monitorar: frequência cardíaca, temperatura, rastreamento...”
A última parte chamou a atenção de Laurel. Ela franziu o cenho, exasperada, como se tivesse acabado de concluir algo. Algo que estava errado.
— Rastreamento? — Ela interrompeu o namorado. — Se colocaram isso em mim no hospital, foi um procedimento autorizado pelo meu pai.
Imediatamente, sua corrente sanguínea gelou. A possibilidade de Odysseus a perseguindo, sabendo onde ela estava a cada segundo era terrível o suficiente para que seu coração começasse a acelerar novamente. Será que ele nunca a deixaria em paz?
— Ele sabe onde eu estou, Erik. Vai vir atrás de mim. — O tom de voz de Laurel era desesperado, assustado. Pensar em ver o pai mais uma vez parecia como um verdadeiro pesadelo, um dos mais cruéis que sua mente poderia maquinar. Como ele ousou achar ter direito de monitorá-la? Observá-la como se fosse um experimento, um rato de laboratório...
Christensen cerrou os punhos sem perceber. Céus, se algum dia o encontrasse outra vez, não pensaria duas vezes antes de matá-lo - antes de colocar um fim à existência podre e miserável dele. Era o que tinha prometido, anos atrás, e cumpriria se ele quisesse vir atrás dela.
Wagner também pareceu surpreso e até preocupado por poucos momentos, mas qualquer resquício de agitação sumiu do rosto dele quando a tomou em seus braços. Laurel respirou fundo, sentindo o cheiro familiar de seu namorado invadir suas narinas.
“Ele não vai vir até aqui, Lorbeer. Se vier, não vai acontecer nada com você. Agora durma mais um pouco, você precisa descansar.”
Os dois deitaram no colchão: Erik, ao lado da telepata, que aninhou a cabeça em seu peito. Pela primeira vez naquele dia, Laurel sentiu paz, e finalmente sentiu-se pronta para repousar. Suas pálpebras pesaram por conta da exaustão, obrigando-a a pegar no sono.
Mas a paz nunca duraria muito para ela.










