Os cabelos esvoaçavam em torno do rosto. Essa talvez fosse a parte preferida de Thomas, fazia muito tempo que ele já não mais se importava com a ardência do sal cortando-lhe os lábios, nem com as tempestades agora corriqueiras. Várias pessoas haviam dito que ele fugiu, que não se importava e não queria encarar que já havia crescido — na dita época ele tinha acabado de completar apenas 21 anos —. Só que a maioria nunca entendeu que se ele continuasse ali, na “grande metrópole”, estaria fugindo do que mais importava.
Seu nome completo? Thomaz Lopez. Era fotógrafo, não exatamente famoso, nem exatamente profissional. No entanto sua profissão conseguia pagar a maioria de suas despesas sem atraso. Isso já era um começo. O moreno encostou-se na amurada olhando para o norte em direção exata a linha do horizonte. Se ele semicerrasse os olhos ainda conseguiria enxergar os contornos dos muitos prédios e o brilho fraco que eles, à essa distância emanavam. Estava em pleno alto mar há quase uma semana, o destino? Ele não sabia. O que deixara para trás? O motivo de todos os seus problemas.
Lembrava-se nitidamente de quando arrumou sua mochila com os poucos itens que iria levar, calçou seus sapatos e foi comprar todo o estoque de comida não perecível do supermercado — que o seu salário permitia—. Com tudo pronto, foi comprar seu barco. Alice, uma amiga da faculdade queria vender o barco do pai, que havia se acidentado no inverno passado. A garota fez um bom desconto por ele, e após barganhar um pouco mais conseguiu comprá-lo por uma quantia de “míseros” quinze mil reais. Realmente não sabia como navegar, mas ainda mantinha uma vaga memória de seu pai ensinando o básico a ele quando tinha 14 anos.
Quando chegou para seus pais dizendo que iria viajar no próximo final de semana e que não estava planejando voltar foi uma completa bagunça. Sua mãe surtou e seu pai continuara com o silêncio desaprovador que manteve desde o começo da conversa; Thomas suspeitava que ele mantinha esse silêncio desde que o garoto nasceu.
— Como você pode fazer isso comigo Thomas? — Falava sua mãe, com as lágrimas escorrendo pelo rosto — Que vergonha! Meu único filho larga a faculdade para se enfiar dentro de um barco e ir para Deus sabe onde. Perdeu o juízo?
— Ninguém deve ter falado assim de Colombo quando ele foi descobrir a América.
— No entanto, a mãe dele sabia que aquilo seria importante para ele! — Seus olhos começavam a marear, embaçando sua visão — Céus! Eu não quero descobrir um continente, quero apenas descobrir minha felicidade...
A conversa encerrara-se assim: com um silêncio miúdo, onde as palavras continuam ecoando pelo ar. Sabia que não conseguiria encarar mais seus pais por um bom tempo e que deveria antecipar sua viagem. Quando estava quase amanhecendo, saiu de sua cama, pegou sua mochila e escreveu um pequeno bilhete de despedidas que deixaria grudado na geladeira — o ímã em formato de sapo sempre fora o seu preferido — para quando acordassem.
Um solavanco do barco o tirou de seus devaneios, com o movimento brusco a água salgada respingou em seus olhos. Thomas chorou, por tudo que deixou para trás. Não sentia falta; mas sentia saudade das pequenas coisas que faziam sua antiga vida brilhar luminosa em meio a um mar de piche. Lembrou-se da vez em que a mãe beijara seus joelhos ralados depois de passar um ardido remédio. O dia de sua formatura, onde após a festa fora a um velho parquinho para se empurrar no balanço, lembrava-se de haver se impulsionado cada vez mais rápido, até o momento em que pensou ter tocado as estrelas. Da garota que sorria gentilmente para ele no refeitório, sem ao menos conhece-lo e sem cobrar o sorriso de volta. Chorou um pouco mais, até rir que mesmo agora, quando estava completamente sozinho ainda tinha vergonha de mostrar os próprios sentimentos e usara da ardência da água que atingiu seu rosto como justificativa para que pudesse colocar tudo o que estava incomodando-o para fora.
Thomas suspirou, aliviado. Talvez não estivesse completamente sem rumo como pensara. Ao sul, no horizonte, se via um contorno fraco de uma pequena cidade, o farol brilhando com o que talvez não fosse um brilho totalmente seu.