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@lolacorra
roupa que “galança” + sem lenço e sem documento
the one with the mamãe polícia e papai polícia
prazer, arrogante!
A primeira vez que me senti colocada na carapuça da arrogância foi ainda na escola, ali da infância para adolescência (é claro, avaliando isso já na vida adulta).
Naquela época o título de arrogância era maquiado de Raquel Justiceira, a que queria defender a gregas e troianos por qualquer razão que você me desse para brigar por você, qualquer coisa que achasse certo e desse match com seu problema. Briguei incontáveis vezes com professores, bedéis (auxiliares das turmas), alunos, e até com a Edinelza, coordenadora do fundamental no Diocesano.
Uma das formas de contornar o fardo de ser gorda na adolescência dos anos 1990 era impor respeito. Me sentia respeitada por ter a coragem de defender o que acreditava, mas sempre ficava triste de saber que as pessoas que não me conheciam tinham medo de mim. Desde a adolescência me sinto cercada por comentários (naquela época apenas externos) de que minha voz e minha forma de falar / comunicar despertavam medo nas pessoas, um certo receio de se aproximarem de mim. Na graduação foi a mesma coisa até mais ou menos a metade do curso, quando então começaram a perceber que eu ladrava muito, mas mordia só quem realmente merecia (uma fofa!). No Rio não tive esse problema na vida pessoal. Os cariocas de um modo geral não guardam nada pra eles, vociferam tudo que não tá bom, que não tá certo, que não flui, que não é legal. Os conflitos ficaram reduzidos a alguns ambientes de trabalho, onde meu gênero e minha idade eram descredibilizados. Sendo mulher e jovem não poderia estar tão munida de confiança, de argumentos e de certezas sobre o que é justo e o que era o melhor a se fazer. Voltar para Teresina depois de ganhar muita confiança sobre como penso o mundo, os contextos sociais e como percebo minha profissão foi e é um eterno conflito diário. Alguns dizem que assumo com elevada frequência o risco do sincericídio e que esse é o MEU problema. Dentro dos padrões culturais, familiares e profissionais que me cercam subo [ ou melhor, me elevam ] com muita facilidade ao patamar da arrogância. Uma filha / irmã / esposa / sobrinha / prima arrogante, uma arquiteta arrogante, uma professora arrogante, uma civil arrogante. Isso ainda mexe muito comigo. Alguns dias estou muito forte e saio ilesa. Outros estou mais vulnerável, e me abalo muito por ser quem sou. A pior sensação que você pode despertar em alguém é a de que ela não deve ser quem ela é, em termos de jeito, de modo, de forma de se expressar. É massacrante! Entenda aqui que estou falando de maneiras e não de conduta. O mundo ao meu redor (e falo bem mesmo do que me cerca e me tange hoje) espera que eu seja mais branda, mais mansa, mais delicada, mais suave, mais tranquila, mais obediente, mais subserviente, mais conivente nas minhas formas de explicar, de amar, de conviver, de me relacionar, de questionar, de discordar, de me colocar nesse universo.
Indo na contramão das poliverdades absolutistas sobre autocuidado que circulam no tribunal da internet, já tem um tempinho (pouco tempo, na verdade) que assumi pra mim mesma que vale mais hoje me indispor em algumas situações / com algumas pessoas do que deixar de questionar o que julgo necessário. É muito difícil pagar esse preço, pois nosso ciclo reduz muito. Não sempre por uma intolerância minha de conviver com o outro, mas sim (e na maioria das vezes) do outro não ser capaz de conviver com as questões lhe são colocadas.
#lolanaocorra (em Aperoland) https://www.instagram.com/p/CKpxKC8jJfqgoEKpU7NXROaMsIjj0yMHMFqaC40/?igshid=1v7kwew4v52ut
apesar de me sentir profundamente diferente (e muitas vezes incompreendida) pela minha mãe e minhas tias, as admiro de todo coração. suas vidas e histórias reforçam o poder de seus afetos e o quanto o cuidado é revolucionário. observo minha vó, suas histórias, e percebo os caminhos fluviais por onde sua vida tem fluído. quando perdeu velocidade e quando ganhou força. onde a água parou e onde desceu naturalmente a caminho do mar. minhas tias - suas filhas - são essa água a jusante, que mesmo de nascidas a montante do ventre de minha vó, a levam hoje em direção à sua foz, que é o amor. o mar. sempre flertei com o privilégio visionário do estágio de vida de minha vó, que quando me dei por gente ela já compreendia tudo o que tinha vivido com graça, mas também com crítica. realizada, mas se permitindo pensar o que mudaria. sempre achei isso muito humano e muito inteligente nela. aquela que aceita, mas contesta. respeita, mas contraria. querer ter essa coragem de percepção ainda jovem faz eu me sentir compreendida por minha vó. sempre admirei sua resiliência e seu poder inconsciente de contestar sua geração e a de suas filhas, à seu modo. sem tratores, apenas com o dom da observação e a acolhida do tempo. não posso encerrar aqui todos os sentimentos e percepções recentes que me fazem pensar reticentemente sobre o cuidado, sobre as mulheres, sobre a família, sobre o patriarcado e tantas formas de existirmos e sermos mais um grão de areia nesse mundo. mas finalizo por agora pensando com jorge drexler que a alma dessas mulheres filhas - que são mães e avós e tias - tem a mesma idade que a idade do céu. https://www.instagram.com/p/CKIQ7gXD5PMxACDDKwRncqhIggc7k-7WetA_0k0/?igshid=1qampi93m3y60
comunista! https://www.instagram.com/p/CJ1cyJrDP-9yqqz1AlifIkb0W6gvKOn_oSdGqw0/?igshid=t5wbni8l7ofx
vulva https://www.instagram.com/p/CJ1cAPjjVzjJDnGYlfgpzOO13sApZ0YK1wWQgU0/?igshid=1vtgqt60crjis
“minha grandeza, inadiável coração” https://www.instagram.com/p/CIuWQLfjb1wANOztwcjznxRH2NxO71PCjEDv1I0/?igshid=x6gk5d3v58xr
vó,
PARTE I
vó, hoje são quinze de dezembro de dois mil e vinte. meus dedos polegares, indicadores e médios começam a refletir às vinte e duas horas e sete minutos, horário de brasília, sobre a fragilidade do sagrado nessa dimensão física. aqui desde o apartamento b nove o ar condicionado faz um frio de vinte graus celsius e faz um barulho que não soube quantificar em decibéis. a tv de aproximadamente vinte e seis polegadas está muda, ligada apenas para iluminar e dar movimento ao quarto a cada flash de cena, a cada plano de corte. pela porta do banheiro semi-aberta entra mais uma luz, a quinze graus de abertura no sentido do quarto. a senhora ronca. fazem aproximadamente cento e quatro horas de seu apagão cerebral. fazem aproximadamente cento e quatro horas e dez minutos da nossa última conversa verbal. nessa escala centesimal de horas já foi possível gastar algumas dezenas revendo nossas curtas conversas gravadas. já foi possível queimar o medidor milesimal do tempo da memória pelo qual repasso os diálogos estendidos que o celular não gravou. entre os registros, reencontro e me apego ao comentário de um amigo que diz: “vó é um pedacinho de céu”. desde então penso reticentemente sobre a distância - em metros, quilômetros, milhas, léguas - desse plano terreno onde estou até sua grandeza, minha vó, esse céu azul e branco e vivo que me sobrevoa. lembro de estudar isso na quinta série, para uma prova de ciências, mas a única coisa que guardei dessa matéria, cursada no ano de mil novecentos e noventa e oito, foi que a poluição causava o aquecimento global, que levava ao derretimento das calotas polares. estava numa página ímpar, à equerda, no canto inferior de um livro espiral pesado e de páginas brilhantes. então fui ao google e busquei por camadas atmosféricas da terra, para descobrir a que altura o céu está de mim. por ali, entre cinco camadas metafísicas e metafóricas, te encontrei, vó. te explico.
vó,
PARTE II
pelo meio-dia do dia onze, a senhora estava um pedaço aqui no chão comigo, na altura da cozinha (nosso lugar predileto), só que nessa hora sentada na sala de estar. e um outro pedacinho seu tava ali no céu, no seu lugar de vó, a uns vinte quilômetros do nível do mar, aposto que bem na altura das árvores com chocolate e jujubona e dos rios com cobertura de morango do bernardo. é bem provável que as crianças também sejam um pedacinho de céu com toda essa imaginação. daí que assim, sem avisar, você fez uma viagem inesperada. pelos meus cálculos, seu pedacinho de céu ascendeu muito depressa até a dita exosfera, a quinta e última camada atmosférica, a mais de quinhentos quilômetros das jujubas, dos chocolates e dos morangos do bernardo, como quem vai virar estrela sem pedir licença e sem dar tchau. mas, para felicidade dos seus filhos, netos e bisnetos, seres meramente terrenos, ainda não era seu momento de ser sideral.
vó,
PARTE III
vó, hoje são dezoito de dezembro de dois mil e vinte. estamos na madrugada, rezando. hoje percebi que tenho rogado por tua saúde, mas que no fundo estou impregnada de uma profunda descrença da tua recuperação. enquanto todos rezavam por tua melhora, eu resolvi fazer uma prece e pedir a deus e todas as deusas que me permitissem acreditar. enquanto isso, continuei te calculando e acompanhando tua rota de descida até o céu. no trajeto, você fez uma parada na quarta camada, a termosfera, só para brincar por dois dias de ser aurora austral, em plena linha do equador. que audácia, hein? presa em um sono profundo, quando parecia que você não ia mais conseguir respirar, teu peito surpreendentemente se encheu de poeira interestelar, você respirou como um anjo, sem um chio, e por um surpreendente milagre acordou. seguimos enxergando através do teu olhar, vó. como uma tempestade solar, foi só você abrir os olhos que fomos impelidos a testemunhar com alegria a tua energia matriarcal, anunciando desde muito longe e em tons de amarelo-alaranjado-cor-de-rosa, que você seguiria rota baixando até o céu.
vó,
PARTE IV
vó, hoje são vinte de dezembro de dois mil e vinte. agora estamos no apartamento b quatro. esses últimos dois dias você cruzou a mesosfera na velocidade incrível da sua luz, e está nesse momento baixando altitude na estratosfera, buscando pouso no céu, a parte mais alta da troposfera, onde estaremos novamente apenas a vinte quilômetros de ti. me pego essa noite envolvida com outras questões. tenho me perguntado por que que lá na fatídica quinta série (do livro pesado de ciências), ou qualquer outra série da formação - na época - de ensinos fundamental e médio, nunca discutimos verdadeiramente sobre morte e sobre enfermidades. aprendi tanta matéria de livros e livros que muito rapidamente se esvaíram de mim, fico pensando em alguns aprendizados essenciais para nossa formação como pessoa, aos quais seria indispensável sermos naturalmente envolvidos para uma construção mais impassível de nós mesmos, mais firme frente a adversidades tão comuns, mas sobre as quais não discutimos, não aprendemos, não descomplicamos. queria estar mais preparada para tudo isso, vó. o momento atropela as fragilidades pessoais. a matéria vida tão fina e seu requerido cuidado urgem soberanos sobre qualquer intenção de lágrima.
vó,
PARTE V
vó, hoje são vinte e um de dezembro de dois mil e vinte. já estou em casa, mas não menos mexida que quando estive contigo horas atrás no b quatro. possivelmente mais. guardo todas as emoções para quando dou as costas para o lado de fora da porta do apartamento. quero parar de escrever e filtrar todos esses sentimentos. olhar para frente. agradecer pela tua vida, pela tua recuperação e aceitar as tuas sequelas. com isso, me deparo com o fato de que gastei muitos anos em intensa adoração à língua portuguesa, e agora descubro que mal sei me comunicar sem ser através dos canais ler, escrever, falar e escutar. como um arrebatamento, me veio à mente uma frase que encontrei alguns anos atrás, em um blog ou livro. que bom que guardei num registro, diz assim: “um dos indiretos modos de entender é achar bonito. do lugar onde estou de pé, a vida é muito bonita. entender é um modo de olhar. porque entender, aliás, é uma atitude. o que a gente não entende, se resolve com amor.” me deparar com essa anunciação me permite compreender a ternura do teu gesto com as mãos, vó. uma nova e temporária (ou não) forma de nos comunicarmos, através de um carinhozinho de mão para mão. eu entendi o que você quis dizer. entendi porque achei isso a coisa mais linda de todas as conversas que já tivemos nos meus trinta e três anos. vó, não fica triste. deus te quer sorrindo.
que me mate no estácio
tenho em mim incontáveis embriões de palavras que não conseguem nascer. também, pudera, se não posso gestá-las, como poderei parí-las? pelo cordão umbilical que me liga ao feto-linguagem não tem passado nenhum sentimento. eles estão entalados entre o coração e a boca. não pulam pra fora nem escorregam por dentro.
esse pré-natal tem sido como o peso de um pássaro morto, que por sua qualidade de vivo sustentar o ar - leve, invisível, sereno de vento - morto pesa mais que todos os firmamentos que sustentam o chão.
aqui dentro faz uma estranheza lunar não segurar alegria genuína por muitos dias. pra ser precisa, por 4 meses. no mercado das insignificâncias da vida, isolamento e distanciamento social tornaram-se palavras sombrias que valem o quanto pesam. melodia sussurra: por isso reza, minha filha, pois lesa. e lesa de ferir. respondo: quê? to tentando entender. melodia berra: ai de ti!
vinte e dois de julho amanheceu há 17 dias, mas o sol-estrela ainda não nasceu. melodia defende: o sol não advinha, beiber.
com menos ódio do sol que tirou férias sem dar tchau que da lua que prontamente entrou em regime melancólico e urgente de trabalho, retruco: tente passar pelo que estou passando. vai você não contar o curioso caso dos seus sobrinhos esticarem e sua avó encolher! vai você não contar as porções de vida que residem nos imperceptíveis deslocamentos pros grandes ínfimos acontecimentos do dia a dia! vai você não contar sobre a magia das transitoriedades que se insinuam nos vãos entre as permanências! a aridez de emoções mata, melodia. nos deixa farrapo humano.
melodia insiste: solta o ódio, mulher! mata o amor! e me aconselha: fica mansa e amansa a dor. e me cuida: deita aqui nessa banheira, acalma os sentidos do erro, que vou botar o feijão preto pra cozinhar.
tic tic tic [...]
eita, melô! a bolsa estourou, acabei de parir. natural induzido, sem anestesia. doeu mas foi bom sentir cada contração de palavra dopada só de pérola negra.
tá, então já posso ir.
não, fica! estácio, eu e você. fica!
não, filha. a pérola é de todos, tem que circular. deixa elaí.
ela aqui?
não, ela ir. deixa ela ir.
tá. brigada, super homem! por tudo. por toda umidade. por toda fertilidade.
beiber, eu fui só super eu.
por isso mesmo: te amo. e sei que te amo.
que haja de me matar no estácio e me nascer em mim.
a palavra recém nasceu: abundantemente (br)eu.
—
com luiz melodia.
obrigada, pérola negra!
coração-pimentão
“
amar la trama, más que el desenlace
“
até que encontre a paz, anime-se!
(my mister)