Bruno ainda dormia ao meu lado. Me levantei respirando o mais fundo possível e lavei meu rosto. Eram dez da manhã, o que significava que meu casamento começaria em 8 horas. Tentei convencer Bruno a levantar, mas ele simplesmente me puxou ali com ele e ficamos deitados, de olhos fechados.
- Hmmm – resmungou ele depois de um tempo. – Vamos ter que levantar uma hora, não vamos?
- É, a gente tem que estar no salão do casamento e tal... – respondi, aconchegando-me melhor em seu peito.
- Argh, Jason me espera pra eu colocar o terno e ajudar com os meninos – coçou os olhos. – Ou melhor, o menino. Sabe que Owen vem pra cá ajudar você e a Mary?
- Ah, é? – sorri. – Que fofo.
Meu celular começou a tocar e eu e Bruno bufamos juntos. Trocamos um beijo rápido antes de eu atender meu telefone. Sem culpa, sem confusões. Eu estava decidida sobre o que eu ia fazer, e eu ia me casar com Bruno. Ponto final.
- Quando eu chegar aí, é bom você estar na banheira. – disse Mary antes de eu poder cumprimenta-la.
Ri.
- Ok, ok...
- Ah, e Owen...
- Vem com você – completei por ela. – Eu sei.
- Estou a duas quadras do seu apartamento. Coloque a água pra esquentar! – gritou e desligou.
- Quando Mary chegar eu saio – Bruno me disse, vestindo uma camiseta qualquer. – Jase está com meu terno.
- Ok – falei e me pus de frente para ele. – Eu tenho que estar na banheira quando Mary chegar, então faça um favor e coloque água lá enquanto eu faço alguma coisa pra você levar pra comer.
- Não acha que eu consigo...
- Não – interrompi-o. – Você se queimou fazendo torradas, Bruno – ri, dando tapinhas em seu peitoral.
- E você vai lembrar disso até quando? – aproximou nossos rostos.
- Há, até eu ficar velha.
- Vish – suspirou ele. – Fui escolher passar o resto da minha vida logo com você... – falou brincalhão. Beijou minha testa e correu para o banheiro, enquanto eu revirava os olhos rindo e me encaminhava para a cozinha.
Deixei torradas e suco na mesa da cozinha para Bruno e fui largando minhas roupas pela casa. Nos cruzamos na cozinha e ele secou meus peitos – eu ainda estava de sutiã, mas... homens. Bati nele enquanto passava por seu caminho e terminei de me despir no banheiro. Entrei na banheira já quente e comecei a me lavar.
Mary adentrou o apartamento como um furacão, já gritando para Bruno sair dali. Eu ri enquanto ouvia os protestos de meu noivo, que provavelmente ainda estava com a boca cheia de torrada.
- Ys! – Mary gritou, sua voz passando pelas portas que nos separavam.
- Tiaaaaa – ouvi Owen dizer também.
- Na banheira, conforme o ordenado! – gritei de volta, e ouvi Mary batendo palminhas.
- Ótimo, eu trouxe seu vestido!
- Deixe no quarto! – pedi. – Em cima da cama!
- Ok. – ouvi a porta abrindo e sua voz ficou mais clara. – Acabe o banho logo – ela aparentava estar com a boca encostada na porta. – Owen e eu vamos te ajudar com a arrumação – falou, e Owen disse “é!” em resposta.
Terminei meu banho e saí do banheiro de toalha. Coloquei minha langerie branca e encarei meu vestido. Suspirei. Eu voltaria para casa depois para busca-lo; com o cabelo e maquiagem prontos – Mary insistira em marcar horário para mim num salão de beleza qualquer.
Coloquei um vestido mais casual verde claro – eu me sentia, por mais que as condições não fossem lá muito favoráveis, leve – e saí do aposento. Mary e o pequeno Owen brincavam com as mãos um do outro. Minha melhor amiga sorriu ao me ver, e Owen correu até mim.
- Tiiiiiiiiiia – cantarolou. – Tia, tia – pediu colo e eu tirei-o do chão.
- Ei, campeão – beijei sua bochecha e ele começou a brincar com meu cabelo.
Maryanne pegou a bolsa de cima do meu sofá e saiu me arrastando juntamente com seu filho mais novo para o andar térreo.
Fomos até o salão determinado e, enquanto Mary e eu éramos basicamente testadas com todo o tipo de produto químico, o pequeno Owen cortava o cabelo. Demorou bem mais do que eu achei que demoraria – até porque a maquiagem era bem simples, eu não queria casar com um pavão na minha cara. Fizeram meu cabelo, minha maquiagem e minhas unhas, e eu teria dormido se Mary não continuasse me incentivando a conversar com ela.
Por volta das quatro, saímos do salão. Fomos até minha casa e pegamos o vestido, mas decidi que me trocaria apenas um pouco antes do casamento. Dirigi cantando com Mary e seu filho, batendo palmas e sendo idiota. Entramos no local onde a cerimônia seria realizada e comuniquei a um segurança que eu era a noiva. Minhas outras madrinhas e minha mãe apareceram, todas arrumadas com exceção de Roxy, e me arrastaram para uma sala no segundo andar para esperar minha hora de entrar.
- Bruno chegou há uma hora – contou Joy. – Ele está com o marido de Mary e o filho mais velho deles no andar de cima – completou, e Mary sorriu.
- Já volto – falou, e perdeu-se no corredor, com o filhinho sendo levado por sua mão.
Minha mãe me deu algo para beber e beijou-me as bochechas, sorrindo com lágrimas nos olhos. Devolvi o sorriso e me sentei. Percebi que não contara para ninguém que Jake estava vivo, mas decidi deixar para depois. Talvez ele nem fosse ao casamento, mesmo.
O pensamento me deu calafrios. Não, ele vem, me obriguei a pensar.
Respirei fundo e tomei um gole de água. Me toquei de que, se vissem Jake no casamento, todos iam ficar pasmos, e alguém provavelmente desmaiaria. Ri fraco com meu pensamento, reuni as garotas e contei para elas. Mary voltou mais ou menos no meio da história, sem Owen nos braços.
Minhas madrinhas e mamãe me escutavam, boquiabertas, enquanto eu falava sílaba por sílaba. Quando eu terminei minha narração, Roxy se jogou para trás, Joy começou a sussurrar algo ininteligível e minha mãe me olhou meio horrorizada.
- Vai prosseguir com o casamento mesmo com Jake aqui? – perguntou Joy, finalmente falando com uma voz audível.
- Vou. – respondi, séria. – Eu não troquei Jake por Bruno no colegial e não vou fazer o oposto agora. Seria completamente injusto, e, além disso, meu relacionamento com o Bruno é ótimo, e estamos juntos há muito tempo.
- Ys – minha mãe me chamou. – Não é sobre razão – ela disse. –, é sobre o que você quer pra você, ou o que você sente.
- Isso é o que eu sinto, mãe. Jake está no meu passado, e Bruno no meu futuro. Ponto.
Roxy bufou, levantando.
- Vou colocar meu vestido, então – pegou um pacote e foi até o banheiro.
Franzi as sobrancelhas e coloquei meu copo na mesa. Verifiquei as horas. Faltavam cinquenta minutos. Suspirei.
- Quantos convidados já estão aqui? – perguntei, depois de uma pausa.
- Pouco menos que a metade – respondeu minha mãe. – A família de Bruno está aqui, e os amigos dele de escola também, em sua maioria... Da nossa família, falta o lado do seu pai – revirou os olhos. – Sempre atrasados... – reclamou.
- Papai ainda não chegou? – assustei-me.
A porta do cômodo se abriu.
- Não, ele está aqui – ouvi uma voz masculina dizer, e me virei.
- Pai! – exclamei, e pulei em seus braços.
- Ei, Thá. Ainda sem o vestido? – perguntou ele, rindo.
- Quão especial ele seria se eu o usasse demais? – retruquei, brincalhona.
- Falta menos de uma hora pro casamento. Isso não é usar demais – ele cutucou minha bochecha.
- Tá, tá, daqui a pouco eu visto. – abanei a mão e voltei a me sentar no sofá. – Quer alguma coisa pra beber?
- Não – ele respirou fundo e sentou ao meu lado.
Roxy voltou à sala, vestida e colocando os brincos.
- Alguém viu meu perfume? – perguntou. – Ah, oi, sr. Kaylle.
- Ei, Roxy... – meu pai sorriu.
Continuamos nessas conversas furadas por mais vinte minutos antes de eu decidir terminar de me arrumar. Ao ficar totalmente pronta, encarei meu reflexo. Aquele vestido... Tão lindo. Havia um detalhe do qual eu não gostara – uma pequena e delicada listra verde água na alça –, mas que eu tinha certeza de Bruno iria gostar.
Mas e Jake, vai gostar?, minha cabeça ecoou. Ele vai me encarar quando eu entrar por aquelas portas, boquiaberto com minha aparência?
Me repreendi, apertando os olhos. Bruno, Thays. Eu ia me casar com Bruno, e era aquilo. Mas me peguei desejando que Jay estivesse presente. Mais que tudo, eu queria ele ali. Só ali, presente, junto de mim.
Não, não, junto de mim não, lembrei a mim mesma. Só presente.
Bosta. Percebi no que estava me metendo. Tarde demais para desistir.
Respirei fundo e pisquei, voltando à realidade.
- Buquê? – perguntei a ninguém em especial.
- Comigo! – Mary brotou de algum lugar e me deu as flores amarradas com uma fitinha branca.
Meus pais me elogiaram e minhas amigas me abraçaram, mas tudo o que eu queria era tirar um cochilo. Passar o casamento em velocidade rápida, apenas para me provar que eu teria coragem de me casar com Bruno, mesmo com meu namorado do colégio me encarando da primeira fila.
Mas não dava pra fazer isso, então eu tomei um gole de água e fiquei mastigando gelo e revendo meus votos até a hora de entrar no local.
Um homem engravatado com cara infantil entrou no quarto e disse que era hora. As garotas deram um gritinho e eu sorri para elas. Meu pai me levou com as mãos em minha cintura até o andar do casamento, um pouco depois que o resto das pessoas. Minha mãe entrou seguida das minhas madrinhas, e já era hora de eu entrar. Respirei fundo, e meu pai secou uma lágrima da própria bochecha.
- Pai... – sorri, abraçando-o.
- Vamos logo – murmurou ele, e me levou pelo braço. Um homem nos deu nosso sinal e entramos juntos, andando devagar.
Bruno foi o primeiro a me invadir a visão. Sorria para mim, segurando as mãos na frente do corpo, trêmulas. Sorri de volta e olhei para os lados do corredor pelo qual eu passava. Minha família por ali – sorri para Drake, que está lindo em seu terno –, a família dele por lá, alguns amigos que eu reconhecia vagamente... Tanta gente, mas não quem eu esperava. Respirei fundo e mirei Bruno, apenas ele.
Os momentos bons que passamos juntos invadiram minha mente, e meu sorriso alargou. Era a decisão certa, eu iria fazer aquilo.
Terminei meu trajeto e meu pai depositou minha mão no braço de Bruno, depois de um aperto de mão com ele. Bruno beijou o dorso de minha mão direita e me levou até a frente do ministro que nos casaria.
O ministro começou com seu discurso que antecedia os votos. Bruno apertava mais forte a minha mão em determinados momentos, e eu fiquei agradecida por seus constantes lembretes de que ele estava ali, comigo, ao meu lado, para sempre.
Ouvi alguns ruídos perto da porta, mas ignorei-os. Não, nenhum atraso iria me fazer desviar a atenção do que eu tinha que dizer. A porta se abriu rudemente e todos se viraram – e fui obrigada a olhar também. Ah, aquilo não era exatamente um atraso...
Ele parou no meio do corredor com um violão na mão, me encarando.
- Jake, o que está fazendo? – perguntei, meio desesperada, em falsete.
Não sabia o que sentir. Parte de mim se sentia leve, outra se sentia pesada. Mas todas as minhas partes estavam feliz em ver aqueles olhos azuis.
- Te impedindo de cometer o maior erro de sua vida. – falou. – Do jeito mais clichê possível. Eu ia esperar o ministro dizer – alterou a voz. – ...“se alguém tem algo contra esse matrimônio, que fale agora ou cale-se para sempre”, mas entrei em desespero e aqui estou.
Encaixou os dedos nas cordas do instrumento e começou a cantar.
I am not the kind of boy
Who should be rudely barging in
On a white veil occasion
But you, are not the kind of girl
Who should be marrying the wrong boy…
Ele olhou de esguelha para Bruno, e voltou novamente o olhar para mim.
I sneak in and see your friends
Acenou para Roxy, que estava segurando o riso.
And his snotty little family,
All dressed in pastel
Voltou a olhar para mim e continuou cantando até o refrão:
Don’t say yes,
Run away now
I’ll meet you when you’re out of the church
At the back door
Don’t wait, or say a single vow,
You need to hear me out, and they said speak no-ow.
Percebi que estava segurando a respiração e a soltei. Como eu queria agarrá-lo, como eu queria pular em seus braços e esquecer tudo ao meu redor. Apertei meus olhos e escondi o rosto no buquê por um momento, me recompondo. Coloquei a barreira de volta e voltei a encarar Jake.
A parte que mais me marcou depois do primeiro refrão foi o clímax da música:
I hear the preacher say
"speak now or forever hold your peace"
There's the silence
There's my last chance
I stand up with shaky hands
All eyes on me
Jay olhou para o “publico”, que realmente olhava meio horrorizado para ele, e então para mim.
Horrified looks from everyone in the room
But I'm only looking at you
Recomeçou a cantar e finalizou com o refrão. Eu apertava os olhos e respirava fundo várias vezes para controlar a respiração e as lágrimas que pareciam querer sair.
- Vem. Comigo. – pediu ele uma última vez.
Imagens dos anos de minha vida enevoaram minha mente e eu pisquei rapidamente, tentando afastá-las. Mas memórias e mais memórias me invadiam, deixando-me confusa. Jake, Bruno. Bruno, Jake. Jake? Bruno?
Finalmente, respirei fundo.
Dei o buquê para Mary sem encará-la e andei até Jake. Ele sorriu para mim, o sorriso que eu tanto amo. Ofereceu a mão para mim.
A abaixei.
- Jake – falei, baixo, tentando evitar que toda aquela gente ouvisse o que eu tinha a dizer. – Eu tomei minha decisão – lambi os lábios. – Sinto muito, mas eu vou me casar com o Bruno. A vida mudou, Jay, e eu não posso abandonar tudo por um capricho.
- Vai chamar nosso amor de capricho? – cuspiu a palavra, me olhando incrédulo.
Apertei novamente os olhos.
- Jake Louis, tente entender, ok? Eu sei que você consegue se tentar. Eu vou casar com Bruno e vou manter meu casamento. – fiz uma pausa para respirar. – Como você se sentiria eu tivesse terminado com você quando Bruno parou de falar comigo?
- Eu... – engasgou com as próprias palavras, e vi um brilho de compreensão em seus olhos. Depois de alguns longos momentos, Jake respirou fundo e me beijou na bochecha.
Sem se despedir, saiu do local.
Murmúrios dominaram o salão.
Eu me sentia prestes a desmaiar. Uma parte de mim gritava, perguntando o que eu tinha feito. A outra me congratulava, dizendo que eu era madura. Eu não conseguia prestar muita atenção a nenhuma, mas a primeira parecia bem mais energizada e convencida do que dizia.
Peguei o buquê de volta e me coloquei a frente de Bruno. Respirei fundo e me concentrei em seus adoráveis olhos verdes, mas eu não conseguia parar de pensar nos olhos azuis de Jake.
Jake.
Jake, Jake, Jake.
Jaaaaaaaaaake.
Jay.
Jay Jay.
Jaaaaaaay.
Jake Louis.
Quando percebi, estava rindo das minhas divagações.
- Podemos prosseguir? – perguntou o ministro.
Os murmúrios cessaram, e eu assenti.
Mas Bruno ergueu a mão.
- Não, não podemos.
- O quê? – olhei para ele, inconformada.
- Eu é que o digo – respondeu Bruno para mim. – Você é louca pelo cara – apontou para a porta. – O que está fazendo aqui, comigo? – bagunçou os cabelos. – Olha, odeio admitir, mas ele é o cara certo.
Demorei alguns segundos para entender o que estava acontecendo. Balbuciei algumas palavras ininteligíveis. Bruno apenas me abraçou e sussurrou em meu ouvido:
- Vá. Antes que o perca.
Um sorriso se abriu, maior que meu rosto, e tirei a aliança de noivado dos dedos. Entreguei a Bruno, e as lágrimas começaram a sair de meus olhos. Larguei os saltos no meio do corredor quando percebi que eles estavam me atrapalhando.
Desci os andares ansiosa demais. Era tarde, não era? Ele tinha saído. Ah, Deus. Se não fosse no calor do momento, como eu iria encará-lo? Eu teria coragem? Não, Jake tinha que estar lá embaixo ou tudo estaria predido.
As portas do elevador se abriram. Larguei o véu de noiva dentro do elevador e saí gritando por Jake.
O carro dele estava arrancando quando ele me viu correndo e gritando por seu nome.
- Jay! – berrei, e ele saiu do carro atordoado. – Jay, eu... – não sabia como explicar a situação.
O homem caminhou até mim calmamente, e tomou minha mão. Não encontrou o anel, e nos olhamos, cúmplices.
Pulei em seu pescoço e vi quando Mary aparecia detrás de nós, com um sorriso bobo e lágrimas no rosto. Roxy gargalhava logo depois dela.
Jay me empurrou até seu carro e acenou para as pessoas de fora.
Gargalhando, dirigimos.
- Dakota, termine seu café da manhã de uma vez – falo, e Dakota revira os olhos.
Um vulto usando um tutu rosa para ao meu lado e coloca as mãos na cintura, me imitando com desdém:
- Dakota, termine seu café da manhã de uma vez – diz, e minha filha mais velha ri.
- Tá pegando o jeito – Dakota bate as mãos com Ramona, que ri orgulhosa de si mesma por impressionar a irmã mais velha.
- Ah, vocês duas... – sorrio, virando o omelete na frigideira.
Ramona puxa a barra da minha calça e a pego no colo. Logo estará grande demais para isso. Encaro seus olhinhos azuis e seu cabelo castanho. A mistura perfeita entre eu e Jake, ali na minha frente, balançando as perninhas.
- O que quer para comer? – pergunto, e ela se agita.
- Cereal doceeeeeeeeeee! – grita, se jogando do meu colo e correndo em círculos.
Ouço uma porta de carro do lado de fora.
- Mãe, Conner chegou – Dakota fala com a voz falha. – Não tô pronta, não tô pronta – surta.
Dakota tem 16 anos agora. É mais parecida comigo do que Ramona; tem meus olhos e meu cabelo, embora tenha alguns traços do pai no rosto e seja muito mais bonita do que eu um dia fui. Falamos de jeitos muito parecidos, e gostamos quasedas mesmas coisas. Quase.
Hoje, ela está vestida quase toda de preto por causa do friozinho que faz; gosta de combinar a cor das roupas com o clima. Tem um piercing na sobrancelha – colocado sem permissão, que fique claro –, e usa brincos em forma de máscaras de teatro – sua paixão.
Conner é seu namorado há dois meses e eles passarão o dia fora. Ela aparenta realmente gostar do garoto – fica nervosa toda vez que ele aparece. Ele, por sua vez, não parece ser um mau menino, e faz minha filha feliz. Melhor para ele.
- Acalme-se, Dakota – falo, olhando o vidro perto da porta. – É Owen, ele vai ficar de babá pra Ray hoje.
- Por quê?
Estou prestes a responder quando Ramona para sua correria subitamente e grita:
- Papai!
Observo-a indo até as escadas, onde meu Jay a espera de braços abertos. Ele abraça-a gentil e brincalhão, e fala:
- Bom dia, princesinha.
Ramona sorri ao ser chamada desse modo. É um de seus apelidos preferidos.
- Bom dia, rebelde – Jake belisca Dakota de leve, que retruca:
- Bom dia, velho – e bate no braço dele.
Jake mostra-lhe a língua, provando que a acusação é falsa, enquanto murmura algo como “é mesmo filha da sua mãe.” Meu marido coloca nossa pequena no chão e vem até mim.
Me gira de frente para ele e me dá um beijo de verdade, com direito a mordida em lábio inferior e tudo, enquanto Ramona faz sons de nojo e Dakota ri, andando até porta. Puxo de leve os cabelos de Jake e o abraço enquanto ele sussurra:
- Feliz 20 anos.
De casados, é claro. Deixei de ter 20 anos há muito tempo. Beijo sua bochecha e ele serve-se de suco de laranja enquanto Dakota e Ramona cumprimentam animadas “tio” Owen, que de bom grado bagunça os cabelos de ambas e beija-lhe as bochechas. Termino meu omelete e Owen beija minha bochecha e aperta as mãos com Jake. Está com uma camiseta polo azul marinha e calças jeans largas. Lembro de quando esse garoto tinha dois anos e assistia Tartarugas Ninja ao lado do irmão mais velho.
- Tia Ys – diz ele, sentando no sofá com Ramona no colo. – Desculpe ter aparecido tão cedo – ri. – Mas tinha que ver se Ray estava animada antes de leva-la para onde pretendo – olha com um sorrisinho para minha filha que me deixa preocupada.
- Sem loucuras, por favor – peço, sentando ao lado de Jake. – Sei que não vai adiantar nada, mas estou pedindo do mesmo jeito – completo, e Jay solta uma risada.
- Fique tranquila, é só banguee jumping.
Reviro os olhos, antecipando a piada. Jake ri mais um pouco. Ramona está perguntando o que é banguee jumping quando subo para me trocar, seguida de Jake. Cada um preparou uma parte do dia, como fazemos todo ano. Até as três da tarde, os planos são meus. Daí em diante, são dele.
Estou quase no fim da escada quando Dakota passa por mim correndo e murmurando “Chegou, chegou, chegou, cadê minha bolsa, meu batom, minha escova de cabelo, eu tô gorda? Dane-se, não dá tempo de emagrecer, foi mal mãe”
Eu e Jake nos entre olhamos e rimos. Lembro quando eu agia assim e suspiro, com um sorriso bobo no rosto.
Depois de alguns minutos, lá estamos nós, eu e Jake, comigo no banco do motorista e ele no de carona. Vamos ao parque, ao cinema e fazemos um piquenique no terraço do prédio que uso de estúdio fotográfico. Ele me leva então para patinar – dois na casa dos quarenta com o resto dos jovens foi muito engraçado –, passear pelo centro e, à noite, vamos a outro parque e ficamos olhando as estrelas.
Momentos como esse me fazem ficar tão feliz com minha vida; minhas filhas, minha melhor amiga, meu marido – não sei, tudo parece perfeito. Jake, com seus olhos azuis, sempre melhorando as coisas pra mim, com pequenos gestos no dia a dia. E eu sei, ah, eu sei: Vai ser assim para sempre.















