ainda não sei quase nada sobre a vida, mas recentemente colecionei algumas lições valiosas sobre milagres, sobre inevitabilidade e sobre o fim. sei que você está há tão pouco tempo no mundo que parece injusto te comunicar que tudo foi feito para acabar, mas não me leve a mal. é inevitável, também, que o seu cérebro te proteja para que não ande por aí todo o tempo cheio de despropósitos e ideias de fim. não é fascinante a nossa aptidão para viver? digo isso mesmo tendo consciência da finitude, aliás, digo isso sobretudo por ter consciência da finitude. continuo achando "aquarelável" a palavra de mais deliciosa pronúncia, mas depois de tantas escolhas provisórias, descobri a minha palavra favorita definitiva: resiliência. soa tão bem, não acha? ela sempre esteve lá, quietinha no dicionário, e finalmente agora nos encontramos; não faz diferença que há muito eu soubesse de seu significado, a resiliência só passou a existir quando eu resolvi vivê-la. quando eu precisei vivê-la. por isso falo de forma tão serena sobre a inevitabilidade do fim: acredito imensamente em nossa capacidade de encontrar forças e continuar. descobri há pouco que o corpo humano é a mais impressionante das máquinas e que, ainda que tudo pareça absolutamente perdido, nosso coração insiste, insiste e insiste em bater. até que, quando chega o fim, ele para. uma única vez e para sempre.
parece trágico, eu sei, mas até nisso existe uma lição: a consciência da hora exata de parar e aceitar que acabou. como disse, aprendi algumas coisas sobre a vida, mas ainda não entendi o porquê de demorarmos tanto para admitir o fim de coisas que já acabaram faz tempo. não é como se eu não acreditasse em milagres (você já parou só um pouquinho para pensar em como tínhamos tudo para não ser e mesmo assim a gente é?), no que realmente não acredito é na covardia de prolongar o sofrimento; viver é pura intensidade, não há espaço para ter medo. só por isso te escrevo sobre a inevitabilidade do fim, porque espero que você aprenda bem cedo a ter coragem para aceitá-la na hora certa (a gente pode até fingir que não, mas sempre sabemos quando ela chega). infelizmente não posso te poupar da dor da perda - e às vezes dói tanto, tanto que você vai achar que não dá para aguentar, porém prometo que a resiliência vai te dar a mão e acompanhar a novos e bonitos começos.
veja só, falei tanto sobre o fim e esqueci de te contar sobre a minha parte favorita: os inícios. o mundo está começando a cada segundo. isso já não é um motivo bonito o bastante para toda a gente acreditar em milagres? espero que você acredite. e aproveite, também, pois ainda é novo o suficiente para enxergar o deslumbramento natural de cada início. sabe, quando a gente envelhece vê cada vez menos começos. aliás, as pessoas sempre dizem que queriam viver cada momento como se fosse o último, e eu, que sempre fui meio do contra, fico aqui pensando que preferia vivê-los como se fossem o primeiro. lembra da emoção da primeira vez que você conseguiu ler uma placa na rua sem a sua mãe te ajudar? ou do dia em que marcou o primeiro gol no seu campeonato de futebol e achou que aquele era o melhor dia da sua vida? ou de quando sentiu um frio na barriga ao estar perto de uma menina e não soube muito bem explicar o que estava acontecendo? é exatamente nesse estranhamento encantado que eu preferiria viver, como se o mundo fosse um grande mistério a ser diariamente desvendado.
talvez ele seja mesmo. não sei, ainda não sei quase nada sobre o mundo, mas tenho pensado muito sobre ele e chego a ficar com lágrimas nos olhos toda vez que me ponho a analisar como é perfeito o encaixe de cada uma das nossas infinitas e minúsculas peças. cada vez mais entendo a vida como um tremendo milagre; está certo que um milagre que muitas vezes dói, um milagre que sabemos que acaba, mas que é o mais lindo dos delírios enquanto dura. ainda não sei quase nada sobre a vida, acho que muito eu nunca saberei, mas aprendi que por ela vale a pena ter a coragem para insistir, insistir e insistir. espero que isso eu consiga te ensinar - é a mais importante das lições.