Sobre Ovelhas, Lobos e Cães
Analogias são um recurso tão velho quanto eficaz pra ilustrar uma idéia (sim, com acento, foda-se essa reforma inútil), relacionando um contexto bem conhecido para introduzir algo que muitas vezes não é tão óbvio assim. Uma versão mais detalhada e culta do “entendeu, ou quer que eu desenhe?”. A alegoria que vou usar aqui ilustra uma percepção pessoal muito antiga, mas que teve sua perfeita vivência.
Em uma das centenas de viagens de ônibus intermunicipal que eu já fiz, houve um incidente durante uma viagem entre Santa Cruz do Sul e Porto Alegre. Dentro de um ônibus com janelas vedadas, devido ao ar condicionado, o ambiente começou a esquentar, e depois de alguns minutos, a minha namorada alegou sentir um cheiro de fumaça. Não dei muita atenção, até que segundos adiante (sim adiante, pra engenheiro tempo é coordenada) avistamos fumaça saindo do painel que fica acima dos bancos, onde estão as luzes e saídas do ar condicionado. É aí que começa minha alegoria, é quando se apresenta uma situação crítica que surgem as ovelhas, os lobos e os cães.
Posto o problema na mesa, começa a sugestão de soluções, num processo que, nas situações em que vivi, é uma chuva de sugestões idiotas, prejulgamentos equivocados do que está ocorrendo, e pânico. Veio uma pergunta do banco ao lado: “É curto?!”. Seguiu-se um idiota me xingando: “Desliga essa merda seu idiota!”. Senhoras e senhoritas, ainda vindo da cultura da geração passiva de nossas mães e pais, se perguntavam “o que é isso, alguém faça alguma coisa!”. Essa profusão de interjeições, frases retóricas, pedidos à alguém indefinido por ajuda, são a personificação do rebanho de ovelhas. Não entendo a língua das ovelhas... quando me aproximei de um rebanho, apenas ouvia inúmeros “mééessss”. Se eu não entendesse o que as pessoas ao meu redor diziam, soariam pra mim como um rebanho de ovelhas, e de fato, elas o são.
Voltando à história... Tentei definir o que estava acontecendo. Logo vi que o problema não era elétrico, não havia calor no painel, e a luz funcionava perfeitamente, portanto, a fumaça vinha pelo duto. O problema em si, não estava ali, estava em algum lugar muito fora do meu alcance, não havia o que fazer para combatê-lo da minha posição. Pois eis que surgem dois bombeiros. Sim, haviam dois bombeiros dentro do ônibus, e isso me pareceu, a princípio, o surgimento de uma liderança pra lidar com o problema e organizar as coisas... Pois então veio a primeira idéia dos mesmos:”Fechem as saídas de ar!” - meu amigo... não sai ar apenas pelos buraquinhos acima dos bancos, tem saídas abertas em todo o bagageiro superior, e dali vinha a maior parte da fumaça. Mas eis que surge mais uma idéia vinda dos bombeiros: “Me dá espaço, vou chutar o vidro!” - Mas amigo... se queres abrir a janela, tem a alavanca de emergência ali mesmo... tu vais chutar a janela, pode jogar o vidro sobre um carro vindo no sentido oposto, vai matar alguém assim.... Foi vendo essa falta de pensamento rápido vindo de um profissional das situações de emergência, que me deparei com o seguinte: não é porque tu tem uma farda, que tu não é uma ovelha também, até entre as ovelhas há líderes, tem aquele carneiro territorialista que grita e ataca quem perto do rebanho chega. Mas ainda é uma ovelha, e nada mais que uma ovelha.
Aquela péssima idéia operacional tinha um objetivo, retirar a fumaça do ambiente, e aí sugeri que um dos bombeiros abrisse a saída de emergência que fica no teto do ônibus, lá na frente do ônibus, e enquanto ele fazia isso, eu abri a porta do banheiro e a janela dentro do banheiro, criando assim uma entrada e uma saída de ar, formando um fluxo que levou a fumaça pra fora do ônibus. Já avisado do problema, o motorista encostou assim que pôde, abriu o capô do motor, e viu que o motor do ar condicionado havia pegado fogo, e que a fumaça vinha dali. Retirada a fiação, desligado o motor do ar condicionado, e não tendo sido afetado mais nada, pôde-se seguir viagem até o destino final, sem problemas.
O rebanho de ovelhas pôde chegar ao seu destino. Essa experiência me deixou chocado com a incapacidade de reação das pessoas em geral. Elas não conseguem raciocinar, elas não pensam no que está ocorrendo, e agem de forma intempestiva sem avaliar o resultado de suas ações, e tudo isso é muito perigoso numa situação de emergência. Mas o que também chama atenção é que assim elas são no dia a dia. As ovelhas pastam sem se preocupar com o que pode vir do bosque que está a alguns metros de distância. E nos bosques “da vida” existem lobos.
Algumas pessoas naturalmente possuem liderança, possuem capacidade de raciocínio rápido, reagem de forma ideal em situações de risco. Outras aprendem isso por viver em um ambiente perigoso. Esses dois tipos de pessoas podem agir na sociedade de forma honesta ou desonesta. Voltando à analogia do rebanho de ovelhas, o que faz o fazendeiro que se preocupa com o lobo, ou no nosso caso do hemisfério sul, a raposa, graxaim ou gato do mato? Ele cria cães, cães de grande porte, que se sentem responsáveis por cuidar do território e dos indivíduos que ele identifica com sendo dali pertencentes.
E quem é quem na sociedade em geral? O cara que te assalta na parada de ônibus, com certeza é um lobo, seja por necessidade ou opção, mas tu ali parado, falando no celular, precisava ser uma ovelha com tanto afinco?
O policial foi criado, dentro da minha alegoria, para ser um cão. Alerta, vigilante, protetor, e com a ferramenta para enfrentar o lobo. Essa foi a idéia, acredito eu. Mas a maioria são apenas ovelhas de farda, são aquele carneiro violento que dá uma cabeçada em quem não gosta, seja nos filhotes de lobo (porque com um lobo de verdade ele não teria chance), seja em uma ovelha que tente se distanciar do rebanho (hoje chama-se o rebanho de “cidadão de bem”).
O cidadão que está sempre alerta dos perigos que o cercam (assaltos, segurança no trânsito, no trabalho), que se atenta o que faz o político que recebeu seu voto, e que até reage à um assalto quando nota que este é apenas um blefe, pode se enquadrar na alegoria como um cão. Em diversas situações de risco (assalto, briga generalizada em bar, acidente de trânsito, entre outras), assumi posição de liderança na crise, e já ouvi de amigos elogios do tipo: “Quando todo mundo congela, tu age.” - “Se tu não tivesse notado que isso ia acontecer, todo mundo tinha se dado mal.”. Isso é intrínseco da minha personalidade, e foi muito ampliado ao estudar e treinar artes marciais. Mas noto que esse comportamento é muito, muito raro na sociedade.
No dia a dia, o que você é?
Uma ovelha?
Um cão?
Ou um lobo?...
Ps: Você que é ativista da internet, não é cão, você é aquele carneiro berrão que queria ser o carneiro que dá cabeçadas, mas tem muito medo de agir.