(task #1) i’ve got a war in my mind
Em um momento, Mitra ria e flertava com um dos professores ao redor da fogueira. No outro, a alegria havia morrido com a aparição de Mania.
Com um sobressalto, a semideusa se levantou. A primeira coisa que gritara foi seu instinto de defesa, mas antes que pudesse conjurar um feitiço de proteção, a daegron capturara toda a sua atenção. Aqueles olhos negros, a pele ebúrnea como neve e o sorriso doentio... Céus, ela se lembraria daquele sorriso durante anos! A visão quase fê-la vomitar.
E mais rápido do que podia imaginar, não estava mais no Acampamento. Por um instante, só havia a escuridão: medo, desespero, gritos por toda a parte... Alguém faça isso parar, pensou consigo mesma, mas aquilo não estava ao alcance de ninguém. Nem de um mortal, nem de algum deus.
Imagens se formaram. Mitra não conhecia o lugar onde tinha sido levada, mas lembrava-se dele pelas fotos de seu pai. Era Bangladesh, a terra de origem que nunca conhecera, com suas ruas lotadas, prédios amontoados e pessoas com vestimentas coloridas. Não havia alegria naquelas cores. Seu corpo tinha se transformado no de uma garotinha novamente e Leela estava a sua frente, repreendendo-a por qualquer bobagem que tivesse feito sem querer. “Garota burra”, ela vociferava em Bengali. “Nenhum homem vai querer se casar com você!” Eu não quero me casar, Mitra pensou em responder... Porém, aquela era uma criança e não ela de verdade, e para a Mitra criança, só restava chorar. “Se você pensa que vai ficar nessa casa por muito tempo e que seu pai vai te proteger, está enganada. Você vai se casar com o primeiro velho rico que encontrarmos e terá muitos filhos... E aí será responsabilidade dele.”
E como se a fala de Leela fosse real, a imagem mudara. Desta vez, Mitra estava em seu corpo atual.
Estava numa mesquita. As paredes eram brancas, ornamentadas, com luzes espalhadas e um belo tapete embaixo de seus pés. Estava sentada com um lindo sari dourado envolvendo seu corpo e as mãos pintadas de henna em desenhos, chamados de mehndi. Era uma cerimônia, Mitra percebeu. E ao olhar para frente e ver sentado, do outro lado da mesquita, um homem velho em vestes festivas, ela conseguiu compreender.
Lágrimas começaram a correr pelo seu rosto. Não, por favor, tudo menos isso. Clamava para a própria Afrodite que não se casasse a força, que tudo aquilo acabasse... Mas nenhum pedido adiantaria. Havia inúmeros convidados: seu pai estava sentado junto com seus irmãos, próximo ao seu “noivo”, e Leela a observava mais de perto. Brotara um sorriso satisfeito em seu rosto. Provavelmente, ela agradecia por finalmente se livrar de Mitra, a filha que na verdade não era dela.
O mawlana, a autoridade religiosa daquele casamento, se aproximou. Primeiro, ele virou-se na direção do velho. Não, não, não, não quero que isso aconteça, não quero me casar.
“Você aceita essa mulher como sua esposa?”
Por mais que Mitra rezasse, não havia como a resposta do homem ser diferente.
“Qobul”, ele respondeu. Eu aceito. Mitra engoliu em seco, com as bochechas já encharcadas pelas lágrimas. O mawlana agora a encarava, sério.
“Você aceita esse homem como seu marido?”
Um longo silêncio de expectativa pairou pelos convidados. Mitra não responderia: ao invés disso, seu choro tornou-se ainda mais incontrolável. Soluçava pela perda de sua liberdade, pelo futuro que jamais teria, pelo seu verdadeiro eu que morria dentro de si.
“Você aceita?” O mawlana voltou a perguntar. De repente, parecia furioso. Todos os convidados pareciam. Encaravam-na como se fosse suja, como se estivesse tomando uma decisão errada. E a face de todos no salão começou a desfigurar-se. Transformavam-se em horríveis monstros, com a pele roxa e milhares de dentes afiados. Vinham em sua direção.
Antes que um deles pudesse tocá-la, Mitra acordou. Estava no chalé de Afrodite, ensopada de suor. Era só um pesadelo. Quem havia a trazido ali? Não sabia... Mas a ideia de que continuava livre ajudava a aquecer seu coração. Pelo menos por enquanto.