triggers: transfobia, violência, morte
Jeongjong jurou que nunca mais pisaria naquela casa. O lugar que só podia ser associado com dor, física e emocional, nunca pôde ser considerado um lar. JJ nunca se sentiu segura ali. Nunca se sentiu amada. E, ah. Como necessitava de ser amada.
Por oito anos, vivia no Acampamento Meio-Sangue, e não tinha plano nenhum de voltar para aquele lugar frio. Não, foi expulsa de lá. JJ se lembrava muito bem.
Entretanto, de repente, viu-se parada na sala de estar. Em oito anos, nada pareceu mudar. Os móveis no mesmo lugar. A mesma mancha na parede. O mesmo cheiro de bebida alcoólica e cigarro e o mesmo disco do David Bowie tocando na vitrola que sempre pareceu antiquada para a coreana. Tudo em seu devido lugar, como se JJ nunca tivesse saído de lá. As luzes estavam apagadas, e se não fosse o corpo da filha de íris brilhando levemente - habilidade que adquiriu após anos treinando -, seria um breu total.
Confusa e assustada, a Lee deu um passo a frente. Os olhinhos agora negros por causa do medo se encham de lágrimas. Ela podia se ver sendo jogada contra a mesa, literalmente. Podia ouvir o tapa no rosto que recebeu. Podia sentir os cortes causados por aquela garrafa quebrada contra seu corpo.
As cenas passavam diante de seus olhos de forma dolorida. A voz de Jeongjong não podia ser ouvida. Ela não conseguia gritar. O corpo, igualmente imóvel, tremia de frio, tremia de pavor. O estômago parecia revirar. As lágrimas que caiam sem esforço de seus olhos rolavam pelas bochechas da semideusa, fazendo cócegas suaves e melancólicas, porém, nem para limpá-las Jeongjong tinha forças.
“Eu disse para nunca mais voltar.” A voz tão conhecida veio de trás de si, causando arrepios e mais vontade de chorar e de sair correndo dali o mais rápido que podia. Todavia, tudo o que conseguiu fazer foi se virar em direção do som.
O pai estava perto. Mais perto do que a garota achava confortável. Ela sabia que era ele, mas sua imagem parecia um pouco destorcida. Os olhos estavam inteiramente pretos - não igual os dela, que apenas as íris tomaram tal coloração; Não, os dele não tinha nada além de escuridão, assemelhando-se a um buraco negro que Jeongjong não podia parar de encarar. E ela não enxergava vida naqueles olhos. Não enxergava compaixão. Não enxergava humanidade, empatia. Não enxergava amor.
Mas quanto a isso, JJ nunca enxergou.
“Eu disse para nunca mais voltar, Jeongjong.” Repetiu, mais forte e grave, parecendo um trovão. JJ não era fã de tempestades, mas depois delas vinha o arco-íris. Pelo menos, era a essa esperança que sempre tentou se agarrar.
“D-desculpa.” Ouviu a própria voz dizer. Fraca, falha, assustada.
A risada que recebeu em resposta foi cínica e alta, vibrando por todo o corpo esguio de JJ. Ela sentia como se fosse vomitar a qualquer momento, tamanho mal estar que sentia.
“Você é nojento, Jeongjong. Não tem direito de estar aqui de novo.”
O som do tapa veio antes do que o formigamento na lateral do rosto. Mesmo que já tivesse recebido vários desses, a mão do pai era sempre pesada e dolorida. Parecia até mais agora. Depois, a queimadura em seu braço se fez presente, proveniente do cigarro aceso encostando contra sua pele.
O ato era dolorido fisicamente, e nas lembranças de JJ, que desde pequena sofreu com essa violência e sempre que via o pai com um cigarro na boca, já se escondia, temendo o que podia vir. E como quando criança, sentia-se pequena e indefesa. Como se todos os anos no Acampamento fossem em vão; Não podia se defender. E exatamente como quando criança e se encontrava tão amedrontada como naquele momento, sentia as calças ficarem quentes, e o líquido descendo por suas pernas era desagradável e fedia. Agora além de medo, sentia vergonha também.
“Você ainda mija nas calças, Jeongjong? Patético.” O homem esbravejou, segurando o pescoço da filha, a levantando do chão. “Eu deveria te matar agora.”
As pernas balançavam freneticamente, e as mãos tentavam se livrar dos dedos que apertavam seu pescoço cada vez mais. Jeongjong sentia o o ar se perder de seus pulmões, e por mais que tentasse puxar, era inútil. JJ sempre, sempre teve medo de morrer, principalmente pelas mãos do pai, mas esse era o destino que se encontrava agora, inevitável. O corpo que antes se balançava em busca de livramento de repente ficou imóvel. A visão turva se apagou. JJ perdeu totalmente a consciência e foi jogada no chão.
Porém, sentiu o baque do corpo contra o piso duro e gelado. O breu agora era eminente, uma vez que o corpo não possuía mais brilho, mesmo que tentasse. Estava frio, escuro, solitário.
Então JJ gritou. Gritou com toda a voz que tinha. Gritou pela mãe, gritou por AJ, gritou por Seraphine, mas ninguém apareceu. É claro que não. Estava sozinha, no mundo inferior, e ninguém poderia lhe salvar agora.
Se nem o próprio progenitor seria capaz de amá-la, por que outra pessoa seria?
E assim ficou o resto da noite. Tremendo de frio, e escutando o próprio choro, sentindo-se sufocar pelas mãos que não estavam mais em torno de sua garganta, mas nunca antes pareceram tão reais.














