— * 𝐋𝐄 𝐃𝐄𝐒𝐓𝐈𝐍 ... 𝑇𝑅𝐴𝐺𝐼𝑄𝑈𝐸𝑀𝐸𝑁𝑇 𝐹𝐴𝑀𝐼𝐿𝐼𝐸
❝ Parabéns, MANNON MONTAGNE! Você recebeu uma carta de aceite no programa Una casa per 1 Euro e agora uma casa aos pedaços com uma vista bonita demais para desistir lhe espera em Monteluna. Seu registro diz que você tem 23 ANOS e veio de PARIS/FRANÇA. Seus antigos vizinhos dizem que você é alguém INQUIETA, mas também INSTÁVEL, talvez seja justamente isso que te trouxe até aqui. Por enquanto, tudo que sabemos é que você se parece muito com ALVA BRATT, será que já podemos te chamar de NONO? ❞
— 𝐂𝐍𝐍𝐒 • 𝐏𝐈𝐍 • 𝐏𝐋𝐀𝐘𝐋𝐈𝐒𝐓
Histoire • Mannon Montagne nasceu sob o palco do teatro francês, filha de um dramaturgo, Louis Montagne, e da atriz Sophie Duvant. Cresceu nos bastidores das tragédias que seu pai escrevia e nas memórias instáveis da juventude flamboyant de sua mãe. Desde pequena, Mannon mostrou uma sensibilidade fora do comum para as emoções humanas — e as encenava com intensidade assustadora. Ainda criança, já era conhecida pelos diretores de teatro como “a filha do Louis”, mas logo se tornou mais do que isso: passou a ser “a menina que faz chorar só com o olhar”. Sempre ao lado do pai, Mannon acompanhava não apenas os ensaios e as estreias, mas também as brigas impulsivas nos bares de Paris e os silêncios longos entre tragos de absinto. Levou alguns anos até compreender que o pai, seu ídolo, era também um alcoólatra. E que sua mãe, antes musa dos palcos, havia trocado os scripts por escândalos, pulando de amante em amante, invariavelmente escolhendo os maridos de suas amigas. Eles não eram pobres — mas a instabilidade era constante, e cada centavo parecia medido para garantir as aulas de teatro da filha prodígio. Mannon era esperta. Estudiosa. E de um talento cru, magnético. Sempre escolhida para os papéis principais, encantava plateias, mas também enfrentava o lado mais sombrio do mundo artístico. Não era incomum ter que fugir discretamente pelos fundos de teatros para escapar de diretores com mãos e intenções erradas. Ainda assim, não cedia. Nunca. Seu sonho era maior do que o medo. Ela queria ser atriz. Uma grande atriz. A adolescência passou como um vendaval. Mannon, agora mais madura que os próprios pais, virou a confidente e cuidadora do pai, mesmo enquanto ele se perdia cada vez mais em seus vícios e lembranças. Quando finalmente foi aceita na faculdade de artes cênicas, ela já era quase uma adulta desde muito antes. Trabalhava meio período — fazia de tudo: garçonete, figurante, dubladora, animadora de festas infantis. Não vivia, apenas resistia. E aos poucos se afastava do pai, que ligava bêbado, carente, deixando mensagens confusas e doces em sua caixa postal. Mas tudo valeu a pena. No dia de sua formatura, Mannon já estava escalada para uma peça importante. O sonho finalmente parecia ao alcance. Mas foi uma ligação de madrugada que destruiu tudo. Louis Montagne havia sido encontrado morto em seu apartamento. Silencioso, sozinho, vencido por um câncer de garganta que escondeu de todos — especialmente de Mannon. O choque foi avassalador. Ela perdeu o chão. Não havia ninguém no mundo que ela amasse mais do que seu pai. O velório, conforme desejo deixado por Louis, foi uma peça teatral. Literalmente. Ele queria ser celebrado no palco. Queria cortinas, música, monólogos, lágrimas verdadeiras. Coube a Mannon organizar tudo, enquanto Sophie, sua mãe, dormia embriagada num dos bancos do teatro. Após a cerimônia e as despedidas, Mannon chorou como nunca antes. Horas inteiras de soluços profundos, do tipo que parece quebrar o corpo por dentro. Até que sua mãe se aproximou e, sem dizer uma palavra, lhe entregou uma carta do pai. Era uma carta longa. E estranha. Nela, Louis deixava uma lista de dez coisas que Mannon deveria fazer ao longo de um ano. A primeira delas? Mudar-se para uma casa velha e abandonada no interior da Itália, que ele dizia ter comprado por um euro. Mannon riu, ainda com lágrimas no rosto. Achou que só podia ser uma piada de mau gosto. Ou um último roteiro do pai, tentando fazê-la viver uma de suas tramas absurdas. Mas no fundo, uma voz sussurrava que aquilo poderia ser o início de algo. Uma última peça escrita por Louis — e protagonizada por sua filha. O palco estava montado. E a cortina ainda não havia caído.

















