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CHARACTER DUMP.
pode parecer completamente impossível machucar alguém que ainda tem feridas abertas jorrando sangue, e diversos ossos que já foram quebrados e remendaram errado de novo & de novo. porém, sempre vai haver um pedaço intocado de pele, uma costela pristina ou ideia tola da infância inocente que nunca perdeu sua mágica. august tinha ficado bom em desviar dos mais diversos golpes, mestrado várias artes de luta com a população plural da floresta - a maioria acredita que são todos brutamontes com dentes afiados e isso os protege , contudo a verdade tem muitas camadas - mas nada podia ter o preparado para aquele embate. não porque era incapaz de devolver ou esquivar-se dos socos e chutes que avermelhavam a complexão pálida , mas o homem esperando por sua captura , alguns metros longe demais para que sua visão tivesse alcançado antes , esta era uma verdade que rompia cada ligação nervosa e torcia todos os músculos, assim como as entranhas. uma briga é uma briga, e o herdeiro de castle of dreams sempre foi bom em escapar delas , fosse com as palavras encantadoras , o rosto etéreo , sua simples agilidade e inesperada força , mas daquele conflito nunca esperou sair ileso. e no final, não saiu. era brincadeira de criança pensar em razorskull e seus capangas quando frente a seus olhos , ele descia da carruagem em sua coroa mais singela , e ainda sim imponente o suficiente para fazer com que os mercenários parassem sua baderna , e deixando august completamente sem reação. rei florian, o pai, o algoz, ali - parado com o queixo erguido diante deles , suas botas bem polidas fazendo ranger as folhas de outono. ele deu um passo, dois, três, august perdeu a conta , e parou a meros centímetros de si, encarando para algum lugar dentro de sua alma, ordenando que os outros se afastassem do príncipe - mesmo sem saber qual a conexão entre os dois - e sussurrou: ' quanto tempo. ' deixando o jovem sem reação, engolindo o pouco de sangue que se acumulava debaixo da língua, pois sem perceber começou a quebrar a pele do interior da bochecha em sua descrença.
‘ eu disse que só poderia te proteger enquanto estivesse na torre, ’ os bandidos , agora claramente imbecis plantados ali para capturar não a princesa mas o menino dos snow, pareciam curiosos sobre o que alguém da nobreza teria a dizer para um meliante, mas não ousavam se aproximar ou tentar ouvir. ‘ devia deixar que te dessem uma surra por me desobedecer . . . mas o coração de um pai quebra ao ver seu filho em perigo. ’ o príncipe deixou um arfar descrente escapar por seus lábios e apertou com mais força a coroa que segurava , as joias cavando pequenos cortes nas palmas. ‘ vamos, volte comigo. já chega dessa rebeldia. ’ foi só então que parou e REALMENTE olhou para o pai . estava muito mais velho do que se lembrava, com linhas de expressões profundas, e os cabelos grisalhos, a velha cicatriz de onde malévola queimou sua mão em forma de dragão permanecia ali e era claro enquanto ele se segurava na bainha da espada para se manter centrado - certamente ninguém mais iria perceber, mas ele tremia. tinha perdido peso , e embora parecesse mais baixo do que um dia foi , sempre seria mais alto que august ; não há explicação para o fenômeno de como sempre vemos nossos pais em um pedestal.
‘ sua mãe não tem mais muito tempo, ’ a única coisa que não sabia, única noticia que nunca chegava até os ventos daquele lugar - o que houve com branca de neve ? ‘ logo vai poder voltar para onde sempre pertenceu. ’ parecia tão simples quando ele falava daquela maneira branda , a voz calma que o mais jovem snow jamais esqueceu , mas estava longe de ser. ‘ fique na torre por alguns anos, três , eu estimo , dois se os curandeiros estiverem certos. ’ um suspiro , e pensou que quando a mãe morresse , seu pai nunca deixaria de chorar , tão apaixonado que era, mas supôs que ele tinha se resignado a realidade. ‘ depois vai poder tomar seu lugar de direito, castle of dreams é seu, eu cuidei de tudo , todos esses anos . . . fazendo acordos com sofina , e esses malditos vermes para que você pudesse reinar em paz . está tudo pronto. vamos voltar, august. ’ finalizou com um aperto em seu ombro e um sorriso doloroso para os dois , que embora lhe causasse revolta , tinha certeza ser genuíno.
e o que mais assustava - pensou em ir.
august snow tinha muito bravado e coragem , mas não existia sem medo , melancolia e saudade. quis por tanto tempo que alguém lhe dissesse para colocar os braços na mesa, deixar de segurar o peso do mundo. queria acreditar que no momento em que se cansasse tudo não iria desabar , mas felizmente não acreditava. portanto, a ideia de voltar a sua prisão vem e passa rapidamente. ❝ isso é uma ordem do rei ou o pedido de um pai ? ❞ pergunta cabisbaixo, olhando para a queimadura, e então para o chão, de volta ao homem que lhe jogou fora na tenra idade de doze anos , assiste enquanto ele diz cansado :
' um pedido. '
❝ sinto muito, minha resposta é não. ❞
' entendo. ' concede o rei e outro suspiro escapa de seus lábios rachados. mas é um barulho engasgado, florian já não consegue mais o encarar. august percebeu com horror que o pai estava prestes a chorar e não pela mãe como sempre imaginou, mas pelo filho - porque não podia mais o proteger, pois o futuro da rapaz estava fora de suas mãos & o passado nunca voltaria. porque um único olhar no semblante do homem que august se tornou lhe dizia que não conheciam mais um ao outro, e aquele jovem a sua frente não tinha intenção de fazer as pazes ou reinar. ' venha ver sua mãe quando puder, a luz da sua casa sempre vai estar acesa para quando quiser voltar ' , naquele momento , enquanto o rei retirava sua mão dos ombros dele, o príncipe sentiu que também podia chorar. não era um adeus , quem sabe um dia encontraria o caminho, mas podia muito bem ser que nunca se veriam novamente naquela vida e o pai entendia agora finalmente o que sacrificou. os anos que não pertenciam a si , e a felicidade da única pessoa sã que ainda o amava.
' deixem ele ir, ' gritou florian para o grupo de mercenários , assim como sua própria guarda embora metade das pessoas ali não soubessem deste detalhe. ' o show acabou. ' august não se surpreendeu quando os homens acataram suas ordens sem pestanejar , não se surpreendeu quando o rei lhe deu as costas , não se surpreendeu quando ele não olhou para trás - lembrava de ficar na janela da torre fitando sua figura desaparecer entre o caminho de flores, ele nunca se arrependia de partir. ou talvez, nunca teve coragem de ver os olhos do filho implorando para que ficasse.
gotas de sangue cobrem a tiara agora, escorrendo da palma de sua direita por toda extensão das joias , e pingando no cascalho. os mercenários se vão com olhares tortos para si, levando a carruagem de corona, e depois o pai, levando consigo qualquer esperança infundada de que um dia seriam uma família de novo. no final, august é deixado sozinho, entre as árvores que não faziam barulho algum, e com a mente que nunca deixava de o sabotar. sozinho - sozinho como sempre.
voltou para casa lentamente, ainda perdido em devaneios sobre o encontro que teve - não sabia quanto tempo havia se passado ou sequer se estava indo na direção certa , apenas andou, cambaleando graças a uma ou duas costelas quebradas , sentindo muito levemente o formigamento na mão e o latejar de seus pés. quando cruzou o mar de begônias morango, o céu ainda não estava escuro , mas o sol tinha deixado de punir e uma brisa fresca corria entre as folhagens . abriu a porta automaticamente , sendo recebido pela voz furiosa da outra e olhou ao seu redor, como se tivesse que recordar onde estava, e que ainda existia. era óbvio em sua expressão que algo de muito errado havia acontecido, mas tornou-se impossível ignorar quando em um movimento relapso, desimportante, distraído - desalojou da carne da palma direita a ponta da tiara , o sangue fresco voltando a fluir da ferida ao que a peça fazia um barulho odioso contra o chão de madeira, caindo jogada entre os dois. "sua preciosa tiara, vossa majestade, sugiro que lave antes de usar de novo." as palavras podiam parecer típicas para si , mas não havia nenhuma da mordida espirituosa comum ao ladrão. pela primeira vez, gostaria de não estar na presença de viola e não fosse seu primeiro amor , uma vez melhor amiga, teria a expulsado e deixado que achasse um caminho sozinha ; já tinha feito o suficiente. ❝ vou alertar seu irmão, fique aqui com . . . ❞ só então percebeu a dama de companhia atirada no pequeno sofá e revirou os olhos. ❝ enfim, fique aqui. ❞ tentou subir as escadas, o plano era simples: limpar-se e trocar de roupa , ir até o mensageiro que conectava seu grupo com pessoas de alto calão , e esperar até o próximo dia no máximo para que o resgate viesse, mas ao chegar talvez no terceiro degrau , teve que se dobrar contra o próprio corpo ao tentar respirar profundamente. ❝ droga. ❞ murmurou entre dentes.
Não bastasse o medo de ser sequestrada, ou morta, por um mercenário sanguinário, e escutar mais que gostaria sobre a Maga Vermelha, Viola ainda estava tendo de aturar a arrastada espera até o retorno de seu suposto salvador. Nem sequer sabia se poderia confiar naquele rapaz — que apresentava galanteios e a conhecia com uma intimidade que não imaginava de onde poderia ter —, mas não tinha opção mais agradável, então correr até o local que lhe fora indicado fora a sua única alternativa. Estava sozinha, já que não acreditava que uma dama de companhia desmaiada menos de vinte minutos depois da chegada era de muita ajuda, e saber que ele pretendia chamar o seu irmão a assustava por dois motivos: ele ter contato com Lance não deveria ser algo normalizado, e o questionaria até o último minuto quando eles se encontrassem; e, pior ainda, não acreditava que a sua vida estava nas mãos de um ladrão e O Idiota. Lance não era confiável nem para se lembrar de atar os cadarços das próprias botas, e agora precisava salvá-la? Era quase o mesmo de estar sendo condenada à morte.
No instante em que escutou passos adentrarem o ambiente, o coração acelerou tanto que beirou pular para fora de seu peito. Viola, munida de uma tampa de panela velha que deixaria a sua mãe orgulhosa por utilizar como arma, se aproximou a passos lentos da porta, mas, ao perceber que era August, quase o atingiu da mesma forma por deixá-la esperando. Sequer percebeu que ele estava cambaleando, muito mais preocupada com a sua paciência esgotada e o pavor que lhe tomara o corpo inteiro naquelas horas escondida na casa, e estava prestes a desatinar a falar quando viu a sua belíssima tiara sendo atirada ao chão. Pior ainda: repleta de sangue. “Só pode estar de brincadeira…” murmurou, os traços do rosto se moldando em uma careta enojada. Não queria nem saber por onde aquela tiara havia andado, para a usar novamente teria de mandar uma das fadas fazer um serviço geral ali. Tão ocupada com todas suas preocupações mundanas, as mesmas das quais achava que estava muito superior, se vendo como uma pessoa de índole inquestionável e que enxergava os verdadeiros problemas com muito mais aptidão do que Lance, não se dava conta do que estava bem diante de si: um homem machucado por salvar a pele de uma ingrata.
Iria deixá-lo subir sozinho, entre um resmungo e outro que o praguejava até a décima geração, quando escutou um som e voltou o seu olhar para ele. Vê-lo dobrado contra si mesmo não era o que imaginava que aconteceria, tão concentrada em si mesma, e uma certa culpa corroeu a si; era um ladrão bastante presunçoso e desalmado, um traiçoeiro de primeira categoria, mas fora a única pessoa a tentar ajudar a Fitzherbert e sua tola dama de companhia. “O que houve?” indagou, franzindo o cenho e andando até ele a passos rápidos. Uma análise rápida dele, então, fez o seu rosto ferver. “Como acha que vai subir essas escadas ferido assim? Espera que eu te arraste até lá em cima, ou quer outro fisgão só pelo esporte? Você é maluco?”
foi impossível evitar um suspiro de alívio quando ela concordou & a vendo abrir a porta completamente, engoliu em seco. os olhos fecharam apenas por um instante, uma batida irregular de seu coração acelerado, enquanto assentia com a cabeça levemente como se ao menos a primeira batalha estivesse ganha. logo começou a segui-la para o carro, guardando seu distintivo e tirando as chaves do bolso da jaqueta de couro, destrancando o veículo que não foi deixado aberto devido a costume — chame de ossos do ofício. ❝ ele tem nove anos, trinta e dois quilos, todas as vacinas em dia. ❞ começou. ❝ perdeu o olfato quando tinha três trabalhando na força policial e mais tarde foi diagnosticado com transtorno de pânico e ansiedade de separação, ❞ as palavras caiam de sua boca com facilidade, de forma direta e sem hesitação, afinal era um detetive a mais de dez anos e explicar cenas de crimes tornou-se segunda natureza, impedindo nervosismo em situações como aquela — fora que conhecia o cachorro melhor que alguns de seus antigos amigos. certamente mais do que a família que deixou em londres. ❝ toma amitriptilina e começou ansitec um pouco antes de nos mudarmos, eu li que pode causar efeitos colaterais como vômito e falta de apetite . ele não vomitou mas como eu disse, não come. ❞ ao terminar sua explicação , percebeu que já tinha começado a movê-la do caminho com delicadeza, mãos levemente trêmulas, e alcançava o corpo do melhor amigo no banco de trás, fazendo o que lhe foi pedido. apesar dele ser um tanto pesado, elijah não teve problema em tirá-lo do carro para seus braços, o mantendo enrolado no cobertor qual não soltava nos últimos dias. ❝ pode fechar a porta e trancar o carro ? ❞ se aproximou rapidamente para passar as chaves a veterinária e logo em seguida estava andando em passos largos para dentro da clínica.
seria seguro dizer que o interior era muito diferente do que estava acostumado. um lugar tanto quanto pequeno mas suficientemente limpo, ao menos na recepção. olhou para os lados e respirou mais profundo, tentando ver ou sentir qualquer coisa que pudesse estar errado — como o cheiro metálico de sangue — , felizmente não encontrando nada. virou-se para onde esperava que a mulher fosse estar depois de inspecionar seu local de trabalho, o que faria de novo no consultório. suas opções eram quase inexistentes naquele fim de mundo mas preferia pegar um avião na madrugada e perder o emprego a deixar seu fiel companheiro nas mãos de algum açougueiro que só se importava com dinheiro. não havia desculpas no seu olhar quando as orbes escuras pousaram nela, esperava simplesmente que a outra pudesse entender seu desespero e como era mais importante que tudo — mesmo educação — se certificar que não estava comprometendo ainda mais a saúde de majors. ❝ posso ver seu crachá ? uma identificação ? ❞ pediu, apertando o cachorro mais próximo como instinto. ❝ não me leve a mal, mas não conheço ninguém na cidade então . . . ❞ deixou que as palavras morressem na ponta da língua, mais uma vez torcendo que ela fosse entender a posição qual ele se encontrava. provavelmente sabia que não tinha para onde correr se não fosse ali, mas pediu aos céus — para um deus que já há muito não acreditava, se pudesse o ouvir — que ela lhe desse alguma graça e aliviasse quaisquer preocupações sobre estarem sendo atendidos por uma charlatã. ❝ depois que me mostrar, levo ele 'pro consultório. ❞ uma das sobrancelhas arqueou e virou seu corpo para poder a encarar melhor.
As informações vindas do policial eram absorvidas com o máximo de velocidade que a sua mente era capaz naquele momento. Não o conhecia, e era uma novidade alguém chegar àquela hora da noite para uma consulta — a última vez fora em fevereiro, com a chegada repentina de Justine Harris com um de seus schnauzers —, mas tinha de se ater ao profissionalismo mesmo com o susto que ele havia dado na sua aparição repentina. A bem da verdade, acreditava só ter falado duas outras vezes com a polícia: as duas sendo por ser acusada de um excesso de velocidade ao acordar atrasada para o trabalho. E sequer estava indo tão rápido assim. Em todo caso, não fazia a menor ideia de que estavam contratando novos policiais para uma cidade tão parada. “Faz muito tempo que se mudaram?” indagou, voltando o seu olhar para ele enquanto dava espaço para que tirasse o cachorro do carro. “Na minha experiência, um cachorro com ansiedade de separação pode ter problemas até com mudanças em que você esteja com ele. São muitas coisas e… Ele pode não estar processando muito bem a mudança na rotina.” tentou explicar, buscando em sua mente as explicações vindas dos livros da faculdade de veterinária, e de sua própria experiência atuando naquela pequena clínica desde a formatura. “Ah, sim. Claro.” não hesitou, apesar de ter piscado algumas vezes ao escutar aquele pedido.
Após trancar o carro, saiu andando rapidamente atrás dele e fechou a porta da clínica ao passar para o seu interior, empurrando para o lado o taco de beisebol — ainda em seu campo de visão, porque nunca se sabia o que passava na mente de homens desconhecidos. Em um gesto nervoso, ajeitou os seus fios castanhos, presos em um rabo de cavalo, começado a andar em direção ao consultório, mas percebeu o rapaz ainda no mesmo lugar e parou de andar também. Por que ele continuava ali? “Um crachá?” ela repetiu, quase incrédula com o repentino pedido. Ele não estava desesperado com o cachorro? Como é que ainda tinha tempo para questionar a sua índole? Estavam em uma clínica veterinária, não fazendo alguma neurocirurgia, pelo amor. “Pode, mas já guardei as minhas coisas.” suspirou, olhando para o outro por um último momento e indo atrás do armário em que a sua mochila estava. O abriu, tirando a sua carteira de identidade e o jaleco surrado que usava em consultas, com o seu nome bordado junto de uma identificação ali de médica veterinária. Então, voltou até ele, alcançado a carteira e vestindo o jaleco, já que estava com ele em mãos. “Olha, é o máximo que eu tenho. Aqui a gente não… Sei lá, todo mundo já me conhece, não tenho crachá.” ergueu brevemente os ombros. “Podemos ir agora?”
Fabien Frankel & The Cast of House of the Dragon Try A Spelling Bee
Nothing in life worth having comes without a little danger. THEO JAMES as EDDIE HORNIMAN in THE GENTLEMEN S1 (2024) Created by Guy Ritchie
Aubri Ibrag as LIZZY ELMSWORTH The Buccaneers (2023–)│ 2.03 "Get Her Out"
naquele ponto, a água do banho estava, na melhor das hipóteses, morna, mas ele permaneceu imóvel, ouvindo um dos discos que tocavam no canto de seus aposentos. por um instante, charlie pensou na praia antes de ser tomada por lixo tóxico e em como flutuar sobre o líquido cristalino era suficiente para afastar todas as suas preocupações. agora, o príncipe submergia a cabeça na espuma e permanecia sem respirar, pensando no que aconteceria se ele ficasse um segundo a mais debaixo d'água, se deixasse encher seus pulmões e se despedisse deste mundo cruel. ele imagina isso com frequência e, ainda assim, quando a falta de oxigênio começou a lhe causar uma forte dor interna, mortimer se levantou, tossindo e ofegando, molhando o chão de mármore e tentando acalmar o coração. quando pegou a toalha e se levantou da rica porcelana, suas costas estavam cobertas de cicatrizes que nem mesmo sua mãe jamais vira. apenas o médico da família e, claro, o homem que as causou: seu pai. não sente mais nada nas costas; anos de abusos com chicotes e facas deixaram aquela parte do corpo dormente, e agora se fala em um casamento, um casamento arranjado com a filha de mulan. o rei cobiça o poder militar deles para realizar o que muitos sabiam ser uma antiga ambição: derrotar sofina. ele sabe que phillipe não se importa com o bem estar do povo e que poderia estar de olho em auradon apenas por seu ouro, sem ver problema em massacrar os civis se fosse necessário. às vezes, charlie quase deseja que sofina parasse de ser tão indiferente aos seus ataques e simplesmente fizesse um exemplo de seu pai. mas então a imagem da mãe com o coração partido lhe vem à mente, e charles se arrepende desse pensamento, cravando as unhas nas palmas das mãos, observando o sangue se acumular ao redor das marcas em forma de lua crescente e sob as unhas, apenas para as lavar quase obsessivamente. ele queria escapar daquele corpo que era perfeito em todos os sentidos, se você fizesse o que todos faziam, ou seja, olhar vagamente com um desejo velado, vendo seus belos olhos azuis e os braços fortes, mas nunca se aproximando o suficiente para pedir que ele se virasse. encarar a verdade daquela brutalidade. casar ? que piada.
ele estava de roupão, secando o cabelo com um tecido felpudo, quando bateram na porta e o disco foi desligado. um suspiro pesado o precedeu em sua lenta caminhada até a porta; é claro que ficar em seu quarto não era uma opção, havia reuniões estratégicas para comparecer e orçamentos para supervisionar. embora seu pai esperasse apenas que ele mantivesse a boca fechada até que uma votação fosse necessária. pelo menos ele era bom com números e legislação, podia ficar sozinho no escritório, fingindo cumprir seu papel. que, francamente, não era de muita importância. o governante de rosevale deixava isso incrivelmente claro sempre que podia, aguardando qualquer chance de colocar seu filho no que ele devia acreditar ser ‘ seu lugar ’. havia fechaduras na porta para que ele se sentisse seguro, e aurora nunca entendeu, mas também não era de negar-lhe nada. depois de tanto tempo tentando conceber um herdeiro e falhando, para a rainha, charles era um milagre. se ao menos ela soubesse que seu marido o via mais como um mal necessário. ❝ sim ? ❞ a criada do outro lado da porta, doce lucy, corou ao perceber que ele não estava vestido adequadamente e se virou, cobrindo os olhos. eles tinham a mesma idade, e ainda assim, ela nunca conseguia falar com ele sem gaguejar. ❝ eu estou decente, sabe. ❞ brincou ele, e se fosse possível, jurava conseguir ver até suas orelhas ficando rosadas. ‘ aquela moça está aqui, aquela que você estava esperando. ela se encontrará com a rainha em duas horas. ’ ela pareceu ter dificuldade para articular as palavras e as disse apressadamente, saindo assim que terminou. charles a observou partir. em outra vida, talvez, pensou ele, e sorriu com melancolia. mas logo desapareceu quando ele fechou as portas e foi até o closet escolher as peças de roupa mais finas, supondo que alguém que fazia um trabalho como o dela apreciaria um pouco de esforço. não que ele fosse menos que impecável em qualquer outra situação.
o príncipe desceu os degraus com cuidado e lentamente, encontrando-a esperando no pé da escada, sem prestar muita atenção ao que a rodeava. bem, a essa altura, o que mais havia para ver da entrada ? ele leva um minuto para analisá-la, mesmo que tudo o que consiga ver seja seu perfil, mas mesmo isso a faz parecer um ser etéreo. claro que sim, ele não imaginaria que as fadas de pixie hollow fossem algo além de belíssimas, especialmente as que tinham acesso ao castelo de vidro e comiam a mesa com fada madrinha. puras de coração, livres de desejos profanos. pelo menos era o que ele ouvira. charlie não tinha certeza se acreditava. ❝ briar, certo ? ❞ sua voz parece assustá-la um pouco, mas o rapaz mantém a compostura, com uma expressão neutra. ❝ o que você está fazendo aqui ? melhor ainda, o que você tem feito aqui durante o último ano ? ❞ e, claro, ele sabia, ou achava que sabia, mas gostaria de ouvir dela. ❝ salvar o mundo ? ❞ ele debocha, aparentemente ‘ pura de coração ‘ não significa ’ incapaz de esquivar-se de perguntas de forma inteligente e bastante absurda ’.
❝ entendo. ❞ com as mãos atrás das costas, ele desce o resto da escada e caminha até que estejam frente a frente, embora, por ser muito mais alto, precise esticar o pescoço para admirá-la completamente. ela é realmente de uma beleza sobre-humana. ❝ venha comigo. tenho certeza de que você nunca viu os jardins. eu lhe mostrarei e podemos discutir seu plano para salvar o mundo por lá. gosta de chá ? fadas tomam chá ? ❞ sem esperar por uma resposta, o príncipe simplesmente começa a caminhar em direção ao jardim.
A familiaridade ainda a estava alcançando quando se tratava daqueles castelos luxuosos e requintados, agora que era enviada com cada vez mais frequência no lugar de Cleo — que sofria de uma doença tão misteriosa quanto uma poça de água, e Briar desconfiava ser apenas uma gripe jogada como desculpa para não aturar mais os chiliques da realeza — em suas missões de embelezamento e manutenção para os nobres, mas não o suficiente para ter dominado os modos da fada. Ainda arregalava os olhos breves segundos após enxergar algum lustre cobrindo um espaço com metade do tamanho de muitos casebres espalhados pelo reino, e se atrapalhava com as palavras quando falava com determinadas rainhas. Não estava atinada ao ponto de não cometer um deslize verbal diante de Cinderella — nunca benevolente o suficiente para deixar despercebido —, mas para a sua felicidade existiam beldades bondosas como a Rainha Aurora.
O príncipe, porém, era alguém com quem nunca tinha trocado uma palavra; na realidade, sequer havia passado em sua frente. Era óbvio que bobagens iriam escapulir de sua boca ao ser chamado por ela, as palavras mais estúpidas escapariam de seus lábios em uma tentativa tola de demonstrar inteligência em aumentar o significado de seu trabalho. Talvez pudesse desenvolver o seu dom como outras fadas, que o dominavam ao ponto de avançar na cura de alguém com o toque de seus dedos, mas Briar apenas era capaz de melhorar rugas, mudar cores de olhos e cabelos, e rejuvenescer um rosto — nada além de retoques para mudar a aparência de alguém. No máximo, acreditava que conseguiria mudar a aparência de alguém caso necessário, mas quem gostaria disso? Apenas foras da lei e fugitivos, e Briar estava tão disposta a evitar problemas mundanos que preferia não explorar sua magia como poderia. E nenhuma de suas amigas queria assumir o posto de cobaias, temendo a permanência de uma magia que custava a ser lapidada.
Empertigou-se, ajeitando a sua postura conforme o rapaz descia as escadas, e juntou suas mãos frente ao corpo — em um posicionamento contrário ao dele, por mais que não se desse conta disso. Quando a voz dele soou novamente, quase realizou a proeza de conter um arregalar breve de olhos. “Eu, Vossa Majestade?” quem mais, sua imbecil? Um dos seus gambás falantes, que veio fazer visita para o príncipe e ganhou um convite para o chá da tarde?
“Bom, tem razão. Nunca vi os jardins… Admito que sempre tenham me chamado o interesse, e talvez seja um grande clichê ao dizer isso, mas sou apaixonada por flores. Uma fada com os meus dons que não tem muita criatividade, eu sei, é algo muito deprimente, mas a Fada Madrinha sempre diz que todos temos os nossos pontos fortes. E esse talvez seja o meu fraco.” junto com a tagarelice, pelo visto. “E… Bom, sim? Acredito que só em quem falte paladar não exista o amor por um bom chá, melhoram qualquer humor… E…” mas que droga, nunca iria parar de falar? Até embora ele já estava indo. Deu uma corridinha até alcançá-lo. “Posso perguntar a razão do convite, Vossa Majestade?” | @senhoradanoite
pensou em recusar como tinha feito com a ideia de um hotel , porém estava frio & a chuva vinha no horizonte como algo ruim que não tinha os atingido ainda — normal em nova york mas desesperador quando ela pensava em passar uma noite sozinha nas luzes impiedosas de um aeroporto frio. mesmo assim, hesitou. alex nunca teve escândalos na carreira , ela sabia bem por acompanhar de perto e sempre foi pego pelos flashes inesperados sendo cortês o suficiente. no entanto, essa era sua imagem pública e a percepção de uma admiradora. como saberia suas intenções uma vez que estivesse dentro de um lugar fechado com ele sem ter para onde correr ? parecia um medo razoável e a fez olhar para os lados com incerteza enquanto mordia o lábio inferior. mas quando seus olhos acharam os dele novamente, algo quente se espalhou pelo peito e o desespero claro no olhar escuro lhe deu a sensação de segurança , e percebeu o quanto aquilo tinha se tornado forasteiros nos seus dias na cidade. podia ser loucura, mas olhou para as mãos daquele homem e teve a insana certeza : aquelas mãos nunca iriam machucá-la. portanto, concordou e rezava para amelie jamais saber da loucura que provavelmente estava cometendo. iria embora o mais rápido possível — apenas uma noite , quão ruim podia ser ?
ela descobriu no momento qual pisou no chelsea que seria, ao menos, um choque de realidade. ficou parada frente a portaria do prédio por um instante , o coração querendo sair pela boca e engoliu em seco antes de pisar para dentro. tudo era perfeitamente iluminado e ainda sim, com a atmosfera glacial de um lugar onde não existem lares, apenas casas. derya entendia em partes, pois há muito tempo não conhecia o conforto de um lugar para chamar de seu, com o abraço de alguém que a amava e lhe recebia quando voltava das horas difíceis de trabalho. ao entrar no apartamento do mais velho , teve a vaga sensação que ele também não tinha tal plenitude.
tirou os sapatos no corredor da entrada e esperou que o outro fechasse a porta antes de avançar. seus passos eram lentos e medidos enquanto observava cada pequeno detalhe do lugar com curiosidade. as janelas na sala permitiam que a luz perolada da lua começasse a permear os móveis e pintar a atmosfera com um tom melancólico, haviam livros & mais livros, revistas, discos de vinil, todos exibidos de forma metódica — nunca tinha imaginado como seria a casa de alexander crain, mas de certa forma era exatamente o que esperava. derya tirou o cachecol devagar , passando os dedos entre as madeixas de cabelo macio e escuro como a noite sem estrelas, girando nos calcanhares para cometer cada pedaço a memória. não foi até ele falar novamente, quebrando o que tinha sido um silencio tenso, que ela percebeu o quão surreal aquele situação realmente era.
❝ eu . . . ❞ raramente se encontrava sem palavras mas teve de balançar a cabeça para se livrar da névoa nublando seus pensamentos atordoados e finalmente dizer algo que fazia sentido. ❝ é muito bonito aqui. as janelas devem receber tanta luz quando faz sol. ❞ sorriu docemente e voltou a explorar o apartamento, apertando nas mãos o linho grosso do cachecol. ❝ você, uh, mora . . . sozinho ? ❞ de repente as sirenes soaram em sua cabeça. e se houvesse uma namorada ou namorado que iria se ofender com sua presença ali ? ele não estava em um relacionamento aberto para mídia, disto sabia, mas talvez preferisse sua privacidade. ❝ digo, eu realmente não quero atrapalhar, se alguém for se chatear por eu estar aqui então prefiro não estar. ❞ foi sua forma sutil de perguntar se devia esperar visitas que fossem lhe colocar para fora aos tapas e lhe causar um processo pois jamais apanharia sem se defender.
contudo, não teve tempo de ouvir sua resposta antes de um miado soar pelo apartamento, fazendo a atriz se virar rapidamente e seguir o som sem pensar, deixando a bolsa no chão. acabou na escada de incêndio, onde um pequeno felino procurava chamar a atenção. o sorriso da mulher alcançou seus olhos e se aproximou do gato com cuidado, oferecendo uma de suas mãos para que ele sentisse seu cheiro e lhe desse permissão para tocá-lo. quando o pequeno começou a se esfregar contra sua palma, tomou como sua deixa para começar a fazer carinho na bola de pelos cinzenta. ❝ oi, pequeno. eu sou derya, qual seu nome ? ❞ disse em uma voz melosa antes de voltar seu olhar para alex, o sorriso largo e brilhante pela primeira vez desde que começaram o caminho até a casa dele. ❝ ele é seu ? ❞ seguiu fazendo carinho no animal enquanto encarava o diretor. ❝ sempre quis um gato, mas minha mãe dizia que eles eram um desperdício de dinheiro. ❞ algo triste cruzou sua expressão delicada por um momento rápido, ainda doía falar de asli, especialmente quando pensava que ela devia estar esperando a filha de volta com o orgulho estilhaçado e pronta para pedir perdão. ❝ depois eu vim 'pra cá e não tinha tempo 'pra cuidar de um. mas eu alimentava um gatinho laranja que as vezes aparecia no beco perto do meu prédio. ❞ deu de ombros. ❝ ele desapareceu depois de um tempo, eu passei várias noites procurando ele, mas não achei. ❞ seu nariz franziu, foi logo depois de terminar com jake e nunca se sentiu tão sozinha.
A residência refletia em muitos aspectos a essência de uma pessoa; os seus gostos, as prioridades que eram escancaradas pela organização dos cômodos e, em caso de homens como Alexander, até seu lado tão neurótico com organização. Pinturas ordenadas entre as paredes do apartamento de três quartos, os prêmios exibidos com certo orgulho em uma estante próxima à lareira e uma parede de tijolos à vista o apresentavam como alguém que se importava mais com o apelo visual que a praticidade, embora não tanto que poderia ser confundido com um acumulador — apenas não entendia como algumas pessoas viviam de forma tão minimalista. Entretanto, nada disso transformava aquilo em um lar. Não era um apartamento aconchegante, repleto de vida, mas uma materialização de suas ambições em vários metros quadrados do Chelsea. Entrar em seu apartamento nunca significaria conhecê-lo intimamente, desvendar quem era Alexander Crain em seu íntimo. Provavelmente era justamente esse o motivo — junto de muita, mas realmente muita culpa em sua consciência pelas suas ações tão grosseiras anteriormente — que levava Alex a convidar uma atriz que praticamente não conhecia para ficar lá, em seu território, por saber que as chances de Derya perturbar a ordem natural de sua casa eram mínimas. Menos ainda, a sua vida.
Um aceno de cabeça foi a resposta inicial as palavras dela, distraído em colocar a chave no gancho e já tirar a jaqueta grossa que estava usando. “É bem desagradável durante as tempestades, te garanto. Parece que as janelas vão ser arrancadas do prédio.” em seus primeiros dias lá, admitia apenas para si mesmo que isso o havia assustado em certa medida. “Mas quando tem um dia bonito… Não tem nada mais bonito do que a vista da sala.” os cantos dos lábios se curvaram brevemente, e Alex começou a regular o termostato de aquecimento. No entanto, quando escutou as palavras dela, teve de responder de imediato, com uma risada nasal: “Moro, então, se escutar qualquer outra pessoa além de mim aqui, recomendo que me avise pra chamar a polícia. Ou um exorcista.” não morava com ninguém desde o término com sua ex-namorada, Caitlyn, há dois anos e meio.
Só percebeu que ela não estava mais ali, indo até a escada de incêndio, quando foi perguntar se queria um copo de água, ou tirar o casaco para não derreter com o calor que o aquecimento central traria para o apartamento. A observou acariciar — ou algo muito semelhante — o gato cinzento que habitava sua escada, estreitando o olhar levemente, e se vendo quase imóvel onde estava. Por alguma razão que não conseguiria explicar tão brevemente, exista algo de magnético naquela mulher; até mesmo algo muito pequeno conseguia captar a sua atenção. Ela havia mesmo nascido para ser uma estrela... Existia uma coisa que nem todo dinheiro comprava: carisma. Isso, Derya tinha de sobra. Era inexplicável o fato de ela ainda estar se apresentando em porões certamente repletos de mofo de boliches, com tanto talento correndo por suas veias.
“Não exatamente.” respondeu, o que ocasionou uma careta própria. “Não, não é meu, mas acha que é.” respondeu brevemente, uma risada fraca deixando os seus lábios. Tinha gostado muito daquela senhora divertida, que vivia sozinha desde o falecimento do marido. Estreitou o olhar ao escutá-la contando da mãe, imaginando que seria uma pessoa consideravelmente desagradável. Depois Alex que era o esnobe… “Não acho que nada que tenha vida seja um desperdício de dinheiro, mas quem sou eu pra opinar.” deu de ombros, encostando o corpo no parapeito da janela que levava até a escada de incêndio. O ar frio que vinha o lembrava de que havia recém tirado o casaco, mas estava um tanto vidrado no que se desenrolava ali. “Comigo, é praticamente o mesmo com esse marginalzinho. É o Robert Redford. Ele morava com a senhora do segundo andar, até que ela faleceu e, desde então… Fica por aí. Entra aqui quando quer, sai e passeia quando convém. Eu deixo a janela aberta pra ele.” comentou. Agora não poderia ser acusado de ser um ogro insensível por sua futura estrela. “A senhora Atkins dizia que queria, uma vez na vida, poder dizer que teve o Robert Redford pra ela. Ela faleceu tem um ano, e eu não teria coragem de chamar ele de outra coisa.”
luto tem o poder de levar alguém a loucura caso dado a chance & foi o que aconteceu com elijah nos primeiros meses vivendo em um mundo sem sienna. era difícil distinguir real do mundo imaginado ou seus sonhos onde era ele a morrer , onde ela acordava do seu lado, onde a casa desabava sobre os dois e saiam ilesos dos escombros — tudo que fez foi dormir , negar seu corpo de quaisquer sustância até estar perto o suficiente de desmaiar para não poder racionalizar a decisão de se punir com a fome e a fraqueza nos membros. durante aquele período de tempo agonizante, qual foi apenas um fantasma assombrando a si mesmo , teve apenas um compromisso que não pode deixar de lado — manter majors vivo, bem alimentado e saudável. em grande parte, foi o que lhe manteve vivo quando nada mais fazia sentido. o pastor alemão tinha sido parceiro da noiva em seu tempo na segurança nacional, mas perdeu o olfato depois de uma missão miseravelmente falha e porcamente planejada que se tornou a razão para a mulher viajar até a inglaterra e criar raízes ali, o animal, naquela época ainda novo, seguindo logo atrás. quando começaram a morar juntos , o detetive já era a pessoa favorita de seu novo melhor amigo com quatro patas e jamais considerou se desfazer dele , embora fosse uma clara e talvez a mais visceral memória da amada. eram uma família que tinha ficado menor — em realidade, apenas os dois pois o kwon cortou contato com todos os amigos — mas eram uma família mesmo assim.
talvez fossem argumentar ser um pouco ridículo que a família de um homem em seus trinta anos não envolvia uma esposa e filhos, mas um cachorro com ansiedade e problemas no estômago. porém, elijah não ligava para os comentários alheios ou as ligações de julgamento velado da mãe sobre como o tempo estava passando para ele. ' é uma pena que ela morreu, mas vai achar outra mulher ' , não deixava de notar como ela parecia quase feliz em falar da tragédia ou que sempre enfatizava a palavra ' mulher ' , parecendo dar um aviso qual o filho ignorava. contudo, não se imaginava amando outra pessoa nesta vida e portanto, deixava que a mais velha sentisse sua pequena vitória mesquinha ao dizer : ' claro, mãe. ' . não mencionava que jamais voltaria para casa mesmo se tivesse uma companheira para apresentar. novamente, não dava espaço a ideia , e também nunca sentava em silêncio com seus pensamentos, medos ou pior — esperanças. amor provou-se doloroso e breve , a dor de perder alguém com quem imaginou passar toda a vida nunca valeu a pena o pouco tempo tendo os amado . talvez fosse sua culpa. quem sabe o coração tinha crescido muito cínico e calejado ; não sabia mais amar sem se resguardar. ironicamente, no entanto, ainda o assustava a ideia de estar completamente sozinho. mas nunca estava, majors um fiel escudeiro contra as ideações de escapar da própria mente e deixar esse corpo que sentia dor para um lugar esperava que melhor. não iria, no entanto. não enquanto o monstrinho estivesse vivo e contando consigo. como naquele momento.
colocou a mão no bolso interno da jaqueta e tirou o distintivo, segurando frente a seu corpo rapidamente, pois imaginava que seria no mínimo suspeito um policial aparecendo a esta hora em uma clinica veterinária. ❝ sou o novo detetive da delegacia, ❞ e com certeza, em outra ocasião estaria interessado em fazer perguntas sobre ' medicamentos importados ' , mas se encontrava desesperado demais para ligar. ❝ mas isso não importa, só disse isso 'pra você abrir a porta. as luzes estavam acesas mas a placa . . . ❞ fez um gesto com a cabeça para a placa de ' closed ' , escolhendo ser brutalmente honesto, afinal não tinha tempo para inventar histórias. ❝ meu cachorro 'tá no carro, preciso de ajuda. ❞ confessou em uma respiração só, apontando para o veiculo. ❝ o nome dele é majors, ele tem um transtorno de ansiedade e separação e eu não consegui ninguém ainda 'pra cuidar dele quando estou no trabalho , eu acho — eu acho que acabou sendo estresse demais e engatilhou os problemas no estômago. ele não come e quase não bebe água. pode o atender ? eu pago qualquer preço. ❞
Não se considerava particularmente paranóica, mas Safiye havia elaborado uma série de possibilidades que justificariam a vinda de um policial até ali — incluindo uma série de identidades que poderiam ter decidido usar a apresentação de um como fachada, e, na verdade, planejavam assaltar a clínica. Claro, não encontrariam nada se desejassem fazê-lo, pois estavam sempre beirando a falência e o seu chefe se recusava a aprender a guardar dinheiro; era como se rabugento Senhor Edwards comesse aquelas notas de café da manhã. Entretanto, o distintivo que era erguido em sua direção a fez estreitar os olhos e dar uma leve inclinada para lê-lo com mais clareza. Bom, pelo visto apenas tinha de se preocupar com a tal história dos medicamentos importados, ou se estavam tentando encontrar algum fugitivo lá. A Kavas pigarreou e, apoiando o taco de beisebol no chão, disse: “Disponha?” não fazia a menor ideia do que levaria aquele rapaz ali, mas, francamente, nem achava que a força policial da cidade poderia ter uma atividade de noite que não se resumisse a separar brigas de bêbados perto do Bar do Franklin ou achar os arruaceiros mirins que estariam em atividade.
Moveu o olhar para a placa, assentindo com a cabeça, e logo voltou ao rosto do desconhecido. “Bom, a clínica fecha às nove, mas eu normalmente continuo para cuidar da burocracia…” a sua voz foi morrendo, conforme ele mencionava a verdadeira razão de estar ali, e o coração de Safiye se apertava. A ideia de um bichinho sofrendo e necessitando de sua ajuda era suficiente para amolecer qualquer das partes que existiam dentro de si e, de imediato, assentiu com a cabeça e voltou as orbes castanhas ao carro estacionado junto ao meio fio. “Claro, atendo,” respondeu rapidamente, recuando um passo em busca de destravar a porta com a correntinha que ainda estava ali, e a abrir por completo. Então, saiu e começou a caminhar a passos rápidos em direção ao carro, falando como se tivesse a certeza de que o rapaz estaria vindo ao seu alcance — um bom tutor o faria, ao menos, tal como um homem consciente de que, dependendo do tamanho do cachorro, não conseguiria carregá-lo sozinha para dentro. “Deixou o carro aberto? Pode me falar do histórico do Majors? Ele já teve episódios assim antes, ou é a primeira vez em que precisa de cuidados médicos pela ansiedade?” indagou, testando abrir a porta enquanto falava. Quando conseguiu, se enfiou para dentro do carro para ver o cachorro deitado ali, um tamanho considerável se escondendo por baixo do cobertor. “Consegue carregar sozinho ele lá para dentro? Ao menos até o consultório! Preciso examinar ele.” indagou, girando o corpo em tempo de olhá-lo de frente. Logo o diria, mas não cobraria um centavo por um atendimento como aquele, nem sequer era o horário de funcionamento da clínica, e só estava ali por escolha própria.
matilda podia fingir ser santa agora, mas muitos meses, algumas mortes e várias décadas atrás, ela não passava de uma vigarista. antes disto, uma menina da fazenda em liége, procurando qualquer vendedor ou anciões das propriedades próximas que poderiam ter livros que falassem sobre a vida & a morte. rituais de embalsamento, mumificação e os mistérios além daquela existência mortal para sociedades antigas. antes de sequer conhecer lester , todos os textos que a igreja não tinha conseguido queimar já haviam passado por suas mãos. quando james a pediu em casamento e a levou para londres , tornou-se infinitamente mais interessada pelo oculto. com o que sobrara da herança de seu futuro marido , participaram de clubes e cultos exclusivos , nunca ficando para ver o final daquelas tragédias . terminavam na cadeia ou em morte , e os dois queriam algo inteiramente diferente . estavam perto de vender a mansão da família , nas portas da falência quando o vampiro passou pela soleira com uma solução. iriam entregar suas vidas para ele e os faria ricos pelo resto do tempo. nem sequer hesitaram — james cego pela possibilidade de tornar-se infinitamente mais poderoso , e matilda fascinada, como sempre, por tudo que vinha depois do fim. alguns diriam que seu caminho foi sitiado pelo diabo, mas ela o escolheu — de novo & de novo. não teria feito diferente nem mesmo hoje.
os três imortais passaram anos dando golpes em duques moribundos ou viscondes infelizes. mas todo o dinheiro e status, adquiridos ilegalmente, não puderam os poupar dos horrores da guerra. um médico, um advogado e a dona de uma livraria ; todos chamados a servir. os homens se tornaram soldados sem quase nenhuma preparação , enquanto as mulheres como matilda, foram mandadas para hospitais de campanha ou se refugiaram com maridos ricos que tinham o dobro de sua idade em lugares como amsterdã e suíça. fairchild havia se separado da família há muito tempo , mas as vezes ainda chorava em pensar no pobre pai que devia estar grisalho e cansado tendo que se apresentar nas trincheiras onde o cheiro de carne podre queimando era tudo que alguns dos soldados conseguiam se lembrar. ainda sim, seus dias agindo como boa samaritana ficaram no passado & não mudavam o que ela era no cerne : uma mentirosa. porém, permanecia uma mentirosa muito esperta.
❝ engraçado que fossem te dar recomendações 'pra sobreviver o caminho até uma cidade que sequer está no mapa, nem nunca apareceu em nenhum veículo de mídia. ❞ tombou a cabeça para esquerda e o acessou dos pés a cabeça , os lábios antes moldados em um belo sorrir agora desenhados em uma linha tensa enquanto trancava seu olhar no dele como se pudesse farejar as mentiras. mas não tinha realmente porque acusá-lo, certo ? theodore apenas pediu para que ficasse de olho no forasteiro. ❝ mas coisas mais estranhas já aconteceram. especialmente por aqui. ❞ lhe deu uma maneira fácil de evadir sua insinuação com um tom doce , palavras pingando mel quente e voltou a seu sorriso gentil, mostrando os dentes sem presas aparentes, apenas a face ingênua & contente de uma bela mulher.
❝ vai conhecer pessoas muito melhores, esteve aqui por apenas três dias , certo ? a menos que esteja mentindo 'pra mim. ❞ provocou de novo , um jogo perigoso de meias palavras sendo apaziguado por suas pequenas risadas que vinham antes do outro poder responder. ❝ brincadeira, ❞ disse divertida , tirando as mãos dos bolsos e as colocando para cima como quem se rendia. ❝ o prazer é meu. ❞ seu tom parecia perfeitamente genuíno, em partes supunha que poderia ser — talvez com a ameaça de lúcifer pairando sobre a cabeça de todos , não fosse a melhor hora para alguém de fora aparecer, mas era uma novidade interessante . theodore gostava de situações fáceis com respostas claras, já matilda — preferia mistérios.
❝ só os corvos, eles tem boa memória. ❞ respondeu de forma enigmática, entrelaçando os dedos atrás das costas. ❝ não exatamente. ❞ foi tudo que compartilhou. o pescoço ainda contorcido para o lado, e ela franziu o nariz de modo adorável quando disse: ❝ talvez vir 'pra esse lugar fazer pesquisas não tenha sido sua ideia mais brilhante, doutor. parece fora de seu elemento. ❞ matilda confiava em poucas pessoas no mundo , nem mesmo todos de seu clã, qual fazia parte para honrar os pedidos de seu salvador — mas ela era especialmente desconfiada de homens que queriam saber demais e ao mesmo tempo, fascinada com a curiosidade cientifica de cada um naquela cidade. parecia, as vezes , por meros instantes que não estavam todos tentando se matar na calada da noite. ainda sim, a ameaça no tom foi apenas levemente velada. ❝ da alemanha ? não sei nada sobre ele que você não saiba também. embora tenha ouvido dizer que o futuro chanceler foi morto. uma tragédia. ❞ desviou do assunto com um suspiro , voltando sua cabeça para os eixos e olhando além dele com o canto dos lábios erguidos em um gracejo sarcástico. ❝ mas você não saberia de quem eu realmente falo , certo ? está aqui a três dias. ❞ voltou seu fitar para o homem mais alto e deu de ombros. ❝ eu não insisto, mas você perguntou como poderia me agradecer. não temos que ir, ❞ ergueu o relógio de pulso para sua linha de visão. ❝ tenho que voltar ao laboratório em menos de uma hora de qualquer forma.❞
Curvou os cantos dos lábios em um sorriso, tal como se achasse as palavras dela interessantes e muito humoradas. Se era aquele o jogo que ela queria jogar, infelizmente para Matilda, não havia muito que o pudesse surpreender ao ponto de entregar informações de mão beijada para alguém; ao menos, não o tipo que deveria guardar apenas para si. “Coisas estranhas acontecem no mundo todo. Sempre digo que é só saber onde procurar entre elas.” deu de ombros, respondendo com uma simplicidade que o intrigava se ela iria escancarar o quão insatisfeita a fazia. Duvidava que a outra não estaria desejando a informação por trás de sua vinda, da forma como atravessou as barreiras da cidade, ou a identidade do homem que o havia ajudado; alguém que estivera incontáveis vezes lá, um necromante com negócios e conhecidos por todo o mundo, sempre com um acordo com quem pagava mais alto. Os Dumitrescu já não tinham vergonha de molhar a mão de terceiros com notas verdes há muitas décadas. Todavia, faria a postura de fingir estar alheio às intenções dela.
Hah, um sopro deixou os seus lábios com as palavras de Matilda, como se uma anedota muito curiosa houvesse sido pronunciada por ela. “Exige um pouquinho de coragem extra mentir para quem pode salvar a sua pele de um prédio em queda… E os registros da cidade me impedem de mentir.” ao menos, supunha que existia algum; era um jeito indireto de se descobrir se havia mesmo algum controle de quem estava lá ou não. Teria de retornar à biblioteca, não tinha dúvidas de que aquela garota do balcão seria a pessoa ideal para aquilo. Dois acadêmicos sempre encontravam um ponto em comum, e Neslihan não parecia impossível de dobrar com isso. Um aceno de cabeça se moldou como a resposta para as palavras dela, assim como um sorriso simpático em seus lábios.
“Interessante.” respondeu, e realmente o era. “Vocês tem muitos animais aqui? Não sei se estende o conceito de pets para Arcanum, mas estive me perguntando, porque vi alguns cavalos em uma fazenda… Ou algo parecido… Bom, talvez um palacete com dois hectares de terra em volta, com uma senhora cuidando deles.” do jeito que as coisas eram ali, os animais subiriam de pets para serem pessoas amaldiçoadas a servirem as bruxas daquela forma — como amantes que as rejeitaram —, ou a sua verdadeira função seria a de corcéis do inferno. Manteve as sobrancelhas erguidas com a resposta de Matilda, mas seria suficientemente suspeito insistir, então apenas assentiu. “Talvez seja, mas não é justamente essa a graça? Pesquisar sobre o desconhecido? E criar materiais sobre algo que não é muito falado, é mais notável no meio acadêmico que acrescentar à pilha de fontes repetidas. Não existe comparação entre escrever sobre Richard III, e conversar com alguém que o conheceu.” as pesquisas eram somente uma forma de encobrir o seu trabalho, embora não significasse que toda a sua curiosidade ao conversar com seres ancestrais não era genuína. Apenas não relataria que Stephen mais desejava saber sobre as criaturas e o modo de vida de Arcanum do que qualquer parte da história. “Eu ouvi, sim.” assentiu, fingindo não perceber a súbita mudança de sentido na conversa. “O aeroporto de Munique estava uma confusão por conta disso, enviaram mais policiais do que se vissem uma vítima de sequestro em uma lanchonete.” a morte de um político rico era muito mais relevante que a vida de uma pessoa comum e inocente, segundo voto popular. “Três dias, e ainda aprendendo muito sobre aqui. Ouvi dizer que tem até um Drive In’.” comentou, falsamente impressionável. “Bom, o tempo é suficiente pra uma limonada. Eu nunca enxerguei justiça em não agradecer a uma ação importante de outra pessoa. Vamos, é por minha conta.”
safiye & elijah ──── @manvscript.
sabia que a clinica devia estar fechada nesta hora da noite — bem, quase madrugada — porém não havia mais o que fazer. tentou dar os remédios de sempre e majors não mostrava melhora, continuava chorando e dormindo mal, o que por sua vez significava que elijah simplesmente não estava pregando os olhos por mais de alguns minutos. acabou tendo que tirar alguns dias de folga, o que certamente não iria agradar o xerife , porém pouco se importava , nem queria estar ali para começo de conversa, se ele o demitisse talvez pudesse voltar a londres e sua posição de direito. jamais mostrou remorso e era parte da razão pela qual foi mandado até aquele fim de mundo onde cercas quebradas eram o maior problema de segurança. ainda sim, recusou-se a abaixar sua cabeça e se desculpar , nunca iria. o assassino era aquele homem, não ele e se a lei não o puniria por causa de seus privilégios , não podiam também esperar que ele assistisse de longe. alguns trocos no bolso e metade dos colegas viraram o rosto para a injustiça do caso de sienna e o noivo da mulher se viu sem nenhuma outra solução além de sujar as mãos com o sangue podre daquele verme. estava pronto para passar o resto da vida na cadeia, curta como fosse ser. contudo, o impediram antes que pudesse dar um golpe letal e pelo preço de abandonar o processo contra o filho de uma das famílias mais influentes da inglaterra, foi dado uma segunda chance. esta sendo, esse pequeno inferno no meio do nada, américa do norte. ❝ hang in there, buddy. ❞ disse fingindo calma, escondendo o pânico crescendo dentro do peito, afinal, o cachorro e melhor amigo, era um ex cão treinado da polícia e sentiria seu desespero , tornando tudo pior enquanto ele o colocava no banco de trás da suv com uma manta sobre seu corpo. entrou no lado do motorista e afivelou o cinto, antes de sair da garagem com pressa. o gps lhe dizia que chegaria em quinze minutos e seus dedos tamborilavam contra o volante em cada sinal vermelho — quais considerou cruzar depois de perceber que não tinha mais ninguém na rua — , o tempo se arrastando até que chegou frente o veterinário, estacionando de qualquer jeito. ❝ wait for me here, okay ? ❞ saiu do carro em passos rápidos, vendo as luzes acesas apesar da placa dizer ' closed ' . não pensou muito sobre e apenas bateu os punhos contra porta. ❝ excuse me ! is there anyone here ? ❞ bateu com mais força e finalmente perdeu a paciência , dizendo: ❝ it's the police, open up. ❞ tecnicamente não foi uma mentira.
Já deveria ter voltado para casa, mas o serviço a chamava, e Safiye estava elétrica demais após tomar o último energético para se resignar em retornar à casa de sua tia — que ainda não havia se acostumado a chamar de sua, mesmo mais de um ano após a sua morte. Organizava a papelada da clínica, revisava a evolução dos pacientes de quatro patas daquele dia, e se ocupava em verificar como estavam aqueles que passariam a noite ali. Haviam dois, Old Earl e Franny, que não eram exatamente pacientes pagos, seu colega, Ian, os tinha resgatado duas e três semanas antes, e desde então estavam desesperados para encontrar alguém que pudesse ficar com eles, mesmo que em um lar temporário. Talvez conseguiriam alguém para adotar Franny, ela era jovem e estava se recuperando de uma lesão na pata, mas Earl tinha pelos brancos e apresentava catarata nos olhos — e Safiye, encantada pela maciez de seu pelo e toda a doçura de seu comportamento, acabaria o levando para casa se as coisas continuassem daquela forma.
Escutava música baixo em seus fones de ouvido, para escutar caso algum dos animaizinhos lhe desse o mero sinal de desespero, e as melodias de um álbum da Holly Humberstone a acompanhavam. Apesar de ser uma garota do rock, para todos os efeitos, às vezes tudo o que precisava era de pop para colorir uma noite cansativa. Fazia planos em sua cabeça, para quando chegasse em casa: fora às seis e meia lá para alimentar os seus animais, encher os potes de água e comer um sanduíche rápido, mas já tivera de voltar à clínica, e faria questão de comer algo mais decente quando chegasse. Distraída consigo mesma e seus pensamentos, não se deu conta de que alguém se aproximava da clínica, até o momento em que escutou alguém esmurrando a porta, e a polícia sendo anunciada enquanto tirava os fones. Sentiu o coração sair direto por sua sua boca, dando um pulo em sua cadeira, e apoiou a mão sobre o peito num instinto mais forte do que tudo. Nervosa, consideravelmente desesperada pelo susto, levou seu celular consigo e foi à porta — parando apenas para pegar o taco de beisebol de seu chefe, o Senhor Edwards, no caminho. Vá saber se não era um ladrão criativo. “Boa noite?” exclamou, abrindo a porta apenas o suficiente para colocar o rosto para fora, e tentando disfarçar que estava tremendo praticamente como uma vara verde. “O que aconteceu, policial? Recebeu alguma denúncia? Olha, se for dos medicamentos importados de novo, eu posso garantir ao senhor que está tudo em ordem. Era só historinha pra descredibilizar o Senhor Edwards.”
amar luke anderson sherman — alguém no seu mais intimo cerne incapaz de ser conhecido — era como visitar uma casa assombrada. seus ossos eram um cemitério para tudo aquilo que ele não se tornou, e as cicatrizes em sua pele tinham formas de palhaço, gritando: ' mãe, me perdoe por te decepcionar. ' halloween era sua estação mais ocupada — por halloween , ele quer dizer o mês do aniversário da morte — e muitos o visitariam. sua arquitetura tão minimalista — havia rasgos em cada canto. que bom era , não se sentir vazio uma vez ao ano — por isto ele quer dizer alguns lhe manteriam companhia mas jamais entenderiam sua dor , novamente incapaz de ser conhecido. quando a temporada de festas passava — por temporada de festa, é claro, ele quer dizer o final dos olhares piedosos de seus colegas — todos tentaram enxergar além de sua aparência e sustos aleatórios, mas era assustador demais, então fecharam os olhos e escolheram melhores atrações cheias de adrenalina e vazias de melancolia podre e desmerecida. ele ficava sozinho novamente. afinal, quem faria de uma casa velha, empoeirada e assassina seu lar ?
quando tinha quatro anos, quebrou o braço & lucia jurou que podia sentir a dor também, como se estivessem conectados , como se estivessem fadados a serem os únicos sobreviventes da chacina . rebecah se trancou no quarto por meses e o pai não saia do estúdio para se juntar aos dois em refeições, a vó voltou para paris , supostamente sofrendo em privacidade , educada com sua dor e o avô nunca sequer lhes ofereceu companhia , apenas retornou um ano depois, esperando que todos tivessem superado — mesmo quando era tão claro que ele não havia. ainda sim, foi isto que os tirou da inércia , luke voltou a faculdade , lucia abriu seu ateliê e embora os pais nunca houvessem lhes prestado a mesma atenção depois que mudaram para o apartamento com vista para o rio hudson , tinham um ao outro. ela sentia a dor dele , como sempre sentiu. porém, era apenas sua maldição a carregar — ninguém nunca saberia de verdade quem ele era e portanto não poderia jamais ser amado com sinceridade, com o tipo de amor que faziam os outros desafiar suas famílias e cruzar oceanos para viver. seria sempre ele, as pílulas e estranhos entrando e saindo de sua vida , sem jamais cogitar ficar para sempre. no meio de tudo isso, existia lucia, que um dia começaria uma família feliz e ele seria o único carregando os pesos do passado, a dor incompreensível. não ressentia tal fato, não gostava dele, apenas aceitava que era a verdade & nada poderia mudar a lei de todas as coisas. alguém sempre sai perdendo.
❝ sim, parece que enquanto os outros se desdobravam 'pra aliviar minha carga, ele ficava me enfiando em mais e mais casos. ❞ suspirou e coçou a testa com as unhas curtas. ❝ acho que ele pensa que o modo de cooperação mais saudável é se jogar no trabalho. ❞ conseguiu lhe poupar um sorriso fraco, longe de atingir os olhos e claramente cansado mas verdadeiro. ❝ não, pode ficar, é muito cedo 'pra dormir de qualquer forma, ia acordar de madrugada. ❞ não ia, os remédios iriam se certificar disso mas ela não precisava saber, nunca. ninguém precisava. ❝ fica tranquila, pode até dormir aqui se quiser, o quarto de hóspedes vagou depois que a cunhada da lucia finalmente parou de se rebelar e voltou 'pra casa. ou seja, não estamos mais abrigando uma fugitiva. ❞ tentou brincar com um riso que era metade diversão e igual parte escárnio. ❝ deram a viagem 'pra dubai 'pra menina mesmo sem passar na faculdade depois que a lucia e o namorado conversaram com os pais dele. ❞ sua irmã era sempre desta forma, coração mole, incapaz de ver alguém sofrendo e não querer concertar — tinha sido, sem dúvidas, a mais gentil com alice e luke ainda se lembra do mês que ela jurou silêncio a todos da casa até que o gêmeo se desculpasse com a mais nova pelas palavras cruéis que gritou , quais ele sempre lembraria . pediu desculpas, a intenção genuína , a recepção sarcástica e machucada. nunca realmente fizeram as pazes , mas esse era apenas um dos seus muitos arrependimentos. ❝ acha que vamos ser assim quando formos pais ? ❞ perguntou sem perceber, enquanto procurava por um dos sapatos confortáveis que usavam dentro de casa e jogava sua toalha na cesta de roupas. ❝ otários ? ❞ riu, mais forte desta vez, e olhou finalmente para eva , as palavras que proferiu meros instantes atrás finalmente alcançando a parte racional do cérebro e o fazendo balbuciar qualquer coisa semi compreensível: ❝ digo, quero dizer, quando você e eu tivermos filhos — não, digo, quando você tiver seu filho com seu marido e eu tiver meu filho com , uh, não sei, alguém. não quis dizer que nós, porque , bem . . . ❞ finalmente deixou que as palavras morressem na língua , soltando uma respiração exasperada. ❝ eu tô cansado. eu vou — eu vou ir pedir sua pavlova. ❞ praticamente correu do walk in para o quarto , pegando o celular e se apressando para fechar a porta atrás de si antes de andar pelo corredor até as escadas.
não havia muito a ser organizado na cozinha, tudo havia sido deixado em pristina condição pelo chef e outros que trabalhavam ao redor da casa antes de saírem pelo dia, portanto apenas foi até a geladeira e pegou um dos energéticos em uma das portas , tomando um gole generoso antes de se sentar em um dos bancos ao redor do mármore e colocar encima da bancada a lata já quase vazia. não tinha mais muito efeito em si, todos no departamento a um red bull de distância do burn out nos piores dias , mas se acostumou ao gosto e a leve carga de energia que sentia correndo por suas veias como um choque fraco, passando antes de totalmente o acordar. por isso pediu os dumplings da amiga, duas pizza de algum lugar novo em soho, indicado pelos antigos colegas do departamento de emergência e vários doces do magnolia’s , cookies, cheesecakes, cupcakes e claro, a pavlova. sequer percebeu quanto tempo havia passado encarando a lata — agora vazia — como se tivesse o ofendido. o que tinha sido aquele pequeno momento de desespero constrangedor antes de descer ? logo depois dela falar sobre casar-se com alexander crain ? algo que ele nem se deu ao trabalho de comentar , pois um homem com admiradores em todo o país, especialmente nova york , devia ser um conquistador barato nas horas vagas. não diria isso, no entanto — mas porque ? seria apenas uma brincadeira entre amigos, certo ? não lhe incomodava a ideia de que um dia ela conheceria alguém e tudo mudaria. certo ? ao ouvir um barulho vindo da sala de jantar, fingiu estar ocupado com o telefone, e disse baixo, tentando esquecer oque aconteceu : ❝ pedi algumas coisas, uns 40 minutos. ❞ então finalmente olhou para ela — grande erro — e a melhor amiga estava com os cabelos secos — pensou ter ouvido o som do secador em algum momento mas tinha outras preocupações — e usando um de seus moletons . ❝ nyu , huh ? ainda triste de não ter escolhido ? ❞ tentou soar zombeteiro mas a imagem que ela conseguiu pintar em sua mente — nada sacra — o fez limpar a garganta e ir buscar outro energético.
Embora os seus superiores e os clientes gostassem de fingir que sim, Eva era extremamente agradecida por não estar exercendo uma profissão que exigisse de si a solução entre a vida e a morte, e que não tinha uma carga horária maluca. Várias vezes, já havia ido almoçar com ele no hospital simplesmente por ser a única forma de se verem. “Já ouvi falarem que a diferença entre um cardiologista e um neurocirurgião, é que enquanto o cardiologista acha que é Deus, o neurocirurgião tem certeza.” respondeu simplemente, com a entonação de quem tinha certeza de que o chefe do amigo se aplicava naquele caso. “Se ele encher muito o seu saco, o Robbie jura que tem um primo que consegue fazer alguém cair na malha fina se precisar.” não queria nem saber como, pois, vindo de seu colega de trabalho, estava certa de ser estranhamente verdade, mas achava até muito reconfortante ter aquela possibilidade. Sequer precisava perguntar que horas ele iria sair, já conhecia a sua rotina muito bem. Ergueu as sobrancelhas conforme ele contava sobre a garota, os lábios se expandindo para que uma risada saísse conforme a conversa se desenrolava. Eram mesmo o grande clichê de famílias ricas: a adolescente fugitiva que ia para Dubai, tal como Eva a pobre-menina-rica, já acostumada com a frieza que vinha de pais que se mantinham juntos pelas aparências. “Se faz questão da minha presença taaaanto assim, então eu fico. Mas, se eu cair no sono, você quem vai ter que me carregar pra lá. Se eu dormir mais uma vez nesse sofá, vou ter que operar o pescoço pra não sentir mais dores.” dramatizou, por uma experiência desconfortável de dois meses antes.
As palavras dele chamaram a sua atenção de imediato, e, entreabrindo os lábios para respondê-lo, Eva travou. Não somente por ver Luke expandir aquela mera sentença em algum turbilhão de palavras, aquela risada saindo com estranheza, mas por tudo o que despertava dentro de si ao imaginá-lo encontrando alguém com quem teria filhos, que amaria o suficiente para isso, e que teria de por um ponto final definitivo naquela paixonite. Era até patético, ela reconhecia, a forma como entregou seu coração para o primeiro homem que teve a chance de conhecer, mas o que poderia fazer? O afastamento pela ex-namorada dele a havia ajudado, a mágoa que dividiu apenas com Lucia e Indira serviu o seu propósito, mas não a curou por completo. Talvez conseguisse quando tomasse um outro chá de realidade. E, quando iria respondê-lo para não deixar aquilo no ar, dar uma risada esganiçada, Luke simplesmente foi embora. Restava a Eva se questionar apenas uma coisa: o que diabos havia acontecido?
Tentando tirar aqueles pensamentos confusos de sua mente, negou com a cabeça algumas vezes e saiu atrás do que precisaria para o banho. Não queria demorar muito, mas precisava lavar o cabelo, usando o shampoo e o condicionador da amiga, e a sua playlist não ajudava em nada a ser mais ágil; depois de tanta chuva, precisava de água quente do chuveiro para recolocá-la em seu eixo. Bom, chuva e o Sherman resolvendo falar daquela forma que a deixava com mil e um pensamentos inúteis em sua mente. Tentou lavar a alma, esfregando com força o corpo e o cabelo para se ocupar com algo mais produtivo, e, quando viu, já haviam passado vinte minutos, portanto, fez o seu esforço para secar o cabelo rapidamente e retornar à companhia de Luke. Quando acreditou que estava pronta, inevitavelmente olhou a si outra vez no espelho antes de sair, conferindo se estava apresentável para quem já a tinha visto de formas bem piores, e foi à cozinha.
“Imagino que a gente tenha comida pra um batalhão?” ergueu as sobrancelhas ao aproximar-se, os lábios se curvando em um sorriso divertido. Se não tivessem fome, arrumariam, ou comeriam apenas pelo tédio e em aproveitamento do fato de estarem juntos. O questionamento dele ocasionou de Eva o revirar de olhos de quem não o levava a sério, e gesticulou com desdém com a destra. “O que eu teria ganhado, trocando a Columbia? Você me atazanando dia sim e dia também, nos dormitórios? Já teria enjoado de mim muito tempo antes.” apoiou as mãos sobre o balcão, e impulsionou o corpo de forma a subir no banco em frente ao de Luke. “O roxo não fica tão bem quanto o azul, mas até que dá pro gasto.” deu de ombros, como se não estivesse muito mais confortável em uma das peças dele. Deveria apreciar o próprio sofrimento. “Já pensou em que desculpas vamos usar pra não ir no aniversário da doida? Eu preciso que estenda a sua pra mim.” a doida em questão era uma conhecida inconveniente de ambos e Lucia, e Eva era terrível demais dando desculpas. Acabaria indo na festa e ainda se convidando para a próxima.
JACOB & CASS — @senhoradanoite
“Why do anything unless you’re willing to go one step further than anybody else?” o Sutherland questionou, com o tom cansado de quem estava considerando o que era pior: enfrentar alguns anos de cadeia por jogar um interno incompetente pela janela, ou aguentar o restante do mês com um adolescente — se recusava a enxergar alguém assim como um adulto funcional — que reclamava dos horários de plantão e usava o Chat GPT como uma fonte para retrucar o que Jacob tentava ensinar. “Espero que ele não tenha interesse em neurocirurgia pra valer, ou a primeira operação dele vai ser a que eu vou fazer pra procurar onde enfiaram o cérebro.”
era verdade em toda sua injustiça que os pecados da mãe são pagos pelas mãos da filha ── marcella aprendeu essa lição tarde demais, era óbvio. quando deu por si , havia sangue na boca , preenchendo lentamente os pulmões mas a irmã nunca pediu perdão . thomas a encontrou encostada na parede com um traço de sangue a suas costas, manchando o branco da pintura que jamais seria pristino de novo e queimaria em algum tempo, ela o olhou com ternura pela primeira vez desde a infância , e ele entendeu que dizer as palavras ' eu te amo ' ou ' sinto muito ' fariam de sua morte sem sentido , portanto o mais novo se agarrou ao corpo dela , esperando pelo último suspiro , e deixou que mante-se a dignidade em sua partida. mas ele sabe , com certeza veemente, que a mais velha se arrependeu da brutalidade insensível com qual tratou o mundo ao seu redor , o que deixava seu irmão furioso. furioso com ela, com o maldito que a matou, com o universo & deus, apesar de começar a acreditar que este estava morto . a argent cometeu muitos erros , mas ser sacrificada daquela forma cruel , era isto que chamavam de justiça divina ? pois se fosse, ele rejeitava inteiramente. deixou de rezar a noite para que a presença no céu cuidasse de sua alma se ele não acordasse no outro dia, sentia apenas um vazio ── feito cada vez mais profundo por sua estadia naquela cidade ── onde sua fé costumava estar. apesar de nunca ter sido criado com quaisquer religião , ainda gostava de pensar que existia alguém ou alguma coisa maior que eles. porém, talvez seu pai estivesse certo em dizer que apenas covardes temiam algo qual não podiam ver ou tocar, e o real perigo não era o inferno mas as criaturas escondendo-se na noite. ' matá-los, ' , ele dizia , ' é o nosso propósito, não alcançar o céu ' .
agora estava ali, frente ao risco que sua família procurou erradicar da terra por gerações e se encontrava rindo baixo e melódico , um pouco encantado com quão sincera ela podia ser. quem sabe era o único presente na vida imortal , ser desinibido e completamente descarado em suas opiniões. ele não saberia, escondia segredos demais para arriscar dizer a coisa errada. ❝ eles levam apenas aqueles diretamente conectados a pessoa que fez o contrato. filhos e netos. sabe, crianças inocentes morrem nessa bagunça. ❞ crispou os lábios e franziu a testa , olhando para as próprias mãos por um instante. quase podia as imaginar pingando com sangue. ❝ acho que seria mais justo levar apenas quem vendeu a própria alma, geralmente buscando poder. ❞ ergueu seu olhar para ela, voltando a sorrir brando e dizendo suavemente: ❝ mas não vou arriscar minha cabeça e dizer a um demônio como fazer seu trabalho. ❞ deu de ombros e lançou um fitar rápido para as prateleiras de livros, buscando se livrar daquele assunto. era sempre sua desgraça: o coração tolo que não deixava de apertar ao pensar naqueles cuja as vidas eram perdidas por brigas mesquinhas entre o céu , o inferno e o ódio no coração dos homens, inigualável em seu próprio direito.
❝ não é exatamente direito trabalhista, ❞ respondeu com diversão brilhando nas íris escuras que focaram nela mais uma vez. ❝ é mais, se não nos derem alguns dias 'pra descansar vamos enlouquecer ou morrer, talvez os dois. eu trabalho o dia e a noite toda as vezes. ❞ imaginou que não tinha sempre sido assim, mas os anjos ficavam mais paranoicos a cada dia , sem saber dos planos de lúcifer, e não podiam arriscar ficar muito tempo sem seus guardas pessoais. apesar de ter alguém em seu lugar no momento, a divindade da morte não confiava em ninguém além do argent. fazia com que se sentisse estranho, não tinha certeza se o imortal devia colocar qualquer esperança nele.
❝ acho que a biblioteca deve ter algum tipo de proteção, um feitiço talvez, seria terrível se uma anomalia transformasse milhares de anos de conhecimento obscuro em , sai lá, uma lanchonete. ❞ tombou a cabeça para o lado, e mordiscou seu lábio inferior, pensando nos covens da cidade. ❝ as bruxas do whispering woods teriam colocado alguma medida de segurança, não diz a lenda que foram elas quem começaram a biblioteca de ossos 'pra manter seguro os grimórios ? ❞ era óbvio que aquele lugar tinha seu charme especial , e uma história que só os mais velhos saberiam , afinal, nem mesmo os membros do covem compartilhavam informações sobre seus primórdios, supostamente jurados a segredo quando iniciados. ❝ enfim, acho que pode ficar tranquila. ❞ assegurou, embora não pudesse fazer promessa alguma. aquele lugar ficava mais instável a cada momento.
❝ percebi mesmo, uma parte da cidade parece que ainda vive na época vitoriana e a outra em um futuro muito distante. ❞ fez um som descrente , o ar escapando por seus lábios ao que os olhos arregalavam como se não acreditasse no que ouviu . ❝ combates ? tipo . . . ❞ hesitou. ❝ gladiadores ou acordo entre cavalheiros de quem atirar primeiro vive ? ❞ chegava a ser risível mas acima de tudo, inacreditável como muitas coisas na pitoresca cidade. ❝ jura ? não eram uma febre quando você era jovem ? drive ins e sorvete na praça ? ❞ brincou com um sorrir charmoso, haviam comentado sobre o fato dela ter mais de cinquenta anos, mas nunca especificado o numero. ❝ se você for muito mais velha que meu tataravô, vou ter que repensar minhas intenções com a sua pessoa. ❞ começou a tamborilar o dedo indicador na madeira, assistindo cuidadoso cada uma de suas reações. ❝ ou pelo menos a forma como me aproximar de você. ❞ por interesse, claro ── embora o tipo permanecesse um mistério até para si mesmo. ❝ nunca insinuaria isso, você é muito mais encantadora. poderia até acreditar que você brilha no sol. ❞ os vampiros ali se ofendiam com aquela interpretação também ? ele ficaria horrorizado. ❝ sobre a outra acusação , temo que seja verdade. eu vim preparado 'pra te tirar daqui e fazer você aguentar uma noite inteira do meu lado. chamamos isso de encontro, como chamavam na sua época ? cortejo ? ❞
“Não houve um momento na humanidade em que o elo mais fraco não saiu prejudicado, por um problema que nada tinha a ver consigo. Quantas crianças não foram mortas junto dos pais, para que não crescessem e se vingassem dos seus assassinos?” não apoiava a ideia, e violência tendia a se mostrar um problema em seu extremismo. Entretanto, Neslihan não era mais tão idealista quanto antes, em sua vida anterior, e entendia melhor que às vezes era a única maneira de salvar a própria pele. Não justificava os atos de barbárie cometidos até entre os membros de Arcanum, mas significava que ela já não arriscaria a própria existência em nome de acreditar nas boas intenções de outra pessoa. Todos que habitavam aquela cidade eram um perigo em potencial. “Nem tente, está para ser criada ainda um tipo de criatura tão infernalmente tagarela quanto um demônio. E os da encruzilhada são os piores.”
Ergueu as sobrancelhas com as palavras dele, juntando os lábios para evitar um riso leve. “Se alguma hora quiser uma folguinha, eu posso implorar a quem quiser ouvir entre os seus supervisores, de que estou precisando de alguém pra me ajudar com carregamentos aqui dentro. Ao invés de sair pra trabalhar, pode tirar um cochilo aqui.” se lembrava muito pouco do que era ter um corpo frágil, propenso à doenças e ao esgotamento físico, mas se compadecia da situação dele. E aqueles olhos que a fitavam tinham muito pouco a ver com isso. “Não só seria terrível, como iria ser o suficiente para que eu surtasse com absolutamente todos os envolvidos. O descaso que existia nesse lugar era… Sinceramente, vergonhoso, considerando tudo o que existe aqui.” negou com a cabeça, indignada. A maioria dos seres em Arcanum só estavam preocupados com ação, ação, ação, mas não deixavam os planos mirabolantes de lado, para tentar manter o conhecimento intacto. Mais uma vez, o erguer das suas sobrancelhas marcou a sua expressão. “Sabidinho você, não?” o que nem sempre era algo bom, mas Neslihan não tinha motivos para estar paranóica, por isso apenas riu curto. “Temos muito o que agradecer às proteções que existem em volta da biblioteca.”
“É um contraponto meio notável, não? Alguns construíram prédios e moram em apartamentos, e outros trocaram dez favores com demônios para terem os seus castelos. Eu sempre preferi uma roupa mais moderna, mas nem todos se adaptaram aos tempos.” se inclinou um pouco, como se as suas palavras seguintes fossem parte de um segredo confidenciado: “Uma vez, usei uma minissaia na frente da Suprema de um certo coven, e fui chamada praticamente de vagabunda.” lembrava-se, de forma tragicômica, de sua tia, que era uma mulher ainda mais tradicional que os seus pais e teria até infartado se visse que as saias dos anos cinquenta eram os menores problemas que as vestimentas do século vinte teriam. “Depende muito de quem você esteja falando. Existem seres muito antigos na cidade, e Roma Antiga é como voltar para casa.” deu de ombros. Não conteve uma risada com suas perguntas, e estendeu o braço para lhe dar um tapa em seu braço. “Desaforado, eu não sou tão velha assim. A minha idade nem chega em três dígitos.” ainda assim, a maneira como ele tinha dito aquilo chamava a sua atenção, e a vampira mordiscou o lábio inferior enquanto observava o batucar do dedo sobre o balcão. Aguardou que ele desenrolasse aquela conversa, demonstrasse quais as suas intenções do momento eram, e avaliou se valeria à pena uma quebra em sua rotina. Ele era bonito, e Neslihan não confiava nem em humanos, muito menos em homens, mas não era de ferro, e fazia um bom tempo desde a sua última relação, com um necromante metido a erudito.
“O jeito de encantar uma mulher não é se apegar em esteriótipos ridículos, Thomas. Eu não brilho no sol, só pra sua informação, é uma propaganda muito enganosa.” suspirou, negando com a cabeça e abandonando a indignação. A continuação dele, contudo, foi o suficiente para que mordiscasse mais uma vez o lábio e o fitasse. Mal não faria, certo? “Cortejos aconteciam muito antes da minha época. Eu fiz até universidade, sabe, sempre fui uma mulher muito moderna.” embora a incentivassem a largar o trabalho de professora, assim que arrumasse um marido. “Podemos ir hoje, mas com uma condição: se o filme for tão ruim quanto eu espero, vai ficar me devendo uma, e eu escolherei o próximo.”
ALEX & DERYA — @senhoradanoite.
“Você pode vir comigo ou ir e ficar lá, infeliz." Alex tinha dito em sua mente, no momento em que os dois começaram a se distanciar, cada um seguindo o seu caminho — ele, para um apartamento caro no Chelsea, e ela, para o aeroporto —, até que uma força maior se apoderou de si e o fez chamá-la ainda na calçada. Ali praticamente implorou que ela não o matasse do coração, de preocupação, e que preservasse o seu bem estar dormindo em seu quarto de hóspedes, ao menos por uma noite, em retribuição a todo o transtorno ocasionado com o impedimento de sua viagem para a Turquia. O resto? O resto era história, apesar de muito recente, envolvendo um homem arrogante, uma mulher com sorriso radiante e um gato cinzento que habitava a escada de incêndio do apartamento. “You can think whatever you want. It’s a free country.”
PARA UMA CRIATURA PRÉVIA A TODOS OS MISTÉRIOS DO MUNDO e eternamente engrenhada com seu próprio folclore , deus nunca significou salvação . caso fosse , então theodore seria deus. apenas uma menina perdida no final da primeira grande guerra chocando todos os cantos do mundo , coberta no sangue da matrona em uma canto escuro qual escolheu por fim aos seus castigos depois do cessar fogo ser oficializado , ele veio até si como um anjo — ou aquilo que então acreditava ser divino — oferecendo um lenço e uma nova vida. um capitão da marinha com muitas identidades, desistindo de pertencer a um lugar que seguia lhes cuspindo para fora de seus privilégios não importava quanto tentassem , o vampiro ofereceu levá-la para um paraíso seguro , mas ela tinha um assunto não terminado . o homem seguiu sua liderança em silêncio , acompanhou a nova amiga até as ruínas da fazenda dos pais , perto dos corpos deixados para apodrecer nos arredores da linha de fronte . reconstruíram o que puderam , e viveram ali em quietude confortável durante alguns anos. ela foi grata por cada segundo, ainda era & eventualmente , partiram sem nunca mais voltar . deixando seus erros e sonhos para trás , os inimagináveis pesares e o inferno de cada bomba, cada bala , cada perda. não fosse por ele , matilda sequer estaria viva até hoje — algo que acredita piamente. portanto, fazia sua barganha e ia onde devia ir , onde ele queria que fosse , existia como uma boneca vivendo confortavelmente na casa de paredes opalina qual ele construiu . nunca viu problema nisso, tinha sobrevivido sozinha e sem propósito por tanto tempo, blackthorn lhe deu uma segunda chance — é claro que iria seguir suas palavras como gospel.
porém , aquela tarefa em particular parecia diferente, sentia-se pisando em um território desconhecido. uma rixa antiga que não pertencia a si . mas pensava em theodore como deus & claro que seguiria cegamente obedecendo , apenas uma fiel adoradora aos seus pés. teria de matar este homem que não lhe deu nenhuma razão para desconfiar de si , ou soar um alarme de perigo ? se tivesse, se fosse essa a vontade de deus , o faria mas até agora, não via nenhuma razão para o categorizar como ' mais perigoso que nosso presidente ' , a descrição que lhe foi dada. parecia um tolo como qualquer homem . ❝ oxford ? interessante. oque estuda ? ❞ perguntou apesar de saber exatamente a oficial razão de sua visita , que segundo registros era completamente inofensiva — até segunda ordem. ❝ ah isso ? todo dia praticamente. tem que ser cuidadoso. ❞ sorriu docemente , fingindo uma simpatia que não sentia. ❝ não vou estar sempre por perto 'pra te salvar então deve ficar alerta. certamente foi difícil o suficiente sobreviver a viagem até aqui, não ? ❞ inquiriu despretensiosamente, ainda interessada em como tinha conseguido passar pela barreira sem um arranhão visível , embora theo lhe tivesse dito para não focar nesses detalhes irrelevantes .
❝ fairchild. matilda fairchild. ❞ provavelmente não lhe daria seu nome real , nem mesmo podia saber se stephen era como se chamava desde nascimento ou se como eles teve muitas vidas. um simples humano com nenhum traço especial sobrevivendo em arcanum ? simplesmente impossível no seu livro. cessou o aperto de mãos , e escondeu as suas nos bolsos do casaco feito sob medida . ❝ não se preocupe. qualquer um teria feito o mesmo. ❞ outra mentira. talvez soldados da guarda de miguel lhe salvassem, ou até mesmo membros da cidadela . mas não não eram todos , os servos do demônio e tinha de admitir , muitos vampiros, o deixariam morrer . as pessoas ali não gostavam de forasteiros, e alguns simplesmente faltavam a capacidade de se importar o suficiente para sair do lugar ao encarar uma tragédia prestes a acontecer. porém, ela não era assim. mesmo se ele fosse só mais um no esquema de todas as coisas peculiares acontecendo naquela cidade, ainda teria o salvo. seu coração não batia mais , e ainda sim, sangrava quando via uma morte que não pode impedir.
❝ estava olhando o corvo , não ? ❞ pergunta retoricamente a vampira , e então faz um gesto com a cabeça apontando para um ponto atrás deles onde o mesmo animal agora completamente recuperado os assistia. ❝ agora ele vai ficar olhando 'pra você por um tempo. são feitos com o propósito de observar tudo. ❞ pelas mãos cuidadosas, e ela odiava dizer, habilidosas de nikolai. ❝ parece que nosso presidente vai estar de volta logo mais. um de seus contratos acabou. ❞ deu de ombros , ele não era sua preocupação no momento. ❝ eu estava tomando limonada , quer me comprar outra ? aceito como sua gratidão. ❞ sugeriu , o mesmo sorrir gentil agarrando-se ao canto dos lábios rosados.
@manvscript
“História medieval.” Stephen nunca seria tolo o suficiente de não vir com respostas verídicas, pois as chances de ser identificado eram grandes mais para arriscar que uma mentira comprovada até com um uso da Internet, o prejudicasse em sua missão. “Manuscritos, textos, rituais e crenças da época. Um pouco de heresia.” atualmente estava de licença das salas de aula, completamente focado na pesquisa. Os seus mestrandos, enquanto isso, estavam encarregados de repassá-o semanalmente como as suas matérias estavam sendo repassadas, e atualizá-lo de qualquer tentativa de sabotagem por um de seus colegas do meio acadêmico. “Um pouco mais de cuidado talvez me salve a cabeça. Ou o coração, de um desses corvos.” tentou atrelar um pouco de humor e ironia em sua fala, o que estava sendo um tanto complicado no momento. Queria olhá-la melhor, tentar confirmar o quê a mulher seria, mas não era tolo de fazer isso sem uma abertura. Apenas manteve a postura, com o autocontrole de não estreitar os olhos com as palavras que direcionava a ele. Como se fosse lhe dar de mão beijada a história do necromante que o cobrou uma série de ossadas e outros dois favores que seu primo iria assumir. “Nada que não tenha conseguido aguentar. As recomendações indicavam tantos riscos que me fizeram acreditar que fui até sortudo.” sorriu com falsidade.
Fairchild — o sobrenome lhe vinha como um alerta vermelho, mas não conseguiria ter acesso à razão até retornar à segurança de casa na cidade. Não existia nada mais agradável que saber que vampiros se obrigariam a pedir para entrar, antes de invadirem a sua paz. “Muito prazer, Matilda.” o seu sorriso não chegava aos olhos, mas ela dificilmente saberia o motivo específico para isso. Levou a destra até o cabelo, rindo nasalmente. “Uma pena que não vai estar sempre perto, ainda não conheci ninguém aqui com a metade da sua gentileza. Ou em qualquer lugar.” inclinou a sua cabeça para a esquerda, fingindo cordialidade e o tamanho de seu agradecimento. Não colocava fé em ninguém em Arcanum, nem mesmo sabia se os humanos que ali estavam poderiam ser confiáveis ou já haviam vendido suas almas para as criaturas, mas não escancararia isso à ela. Não, achava mais confortável tratar a pequena ação como o auge da benevolência. “Todos os animais aqui revivem depois de parecerem que estão no último círculo do inferno, ou apenas os corvos? Adoraria saber das chances de acabar tendo o meu próximo susto por causa de um coelhinho purulento.” purulento, sim, a palavra perfeita para descrever aquele corvo asqueroso. “Ele morre… Para servir de espião?” ergueu as sobrancelhas, os olhos indo da ave ao semblante delicado de Matilda — que não deveria ornar com a podridão que ele conseguia sentir que existia dentro dela. “Como sabe tanto do presidente?” indagou. “Bom, se você insiste… Acho que também estou precisando de algo refrescante agora.” e, em um gesto falsamente cavalheiresco, estendeu a mão para que ela seguisse em sua frente. Não seria tolo de deixar uma possível vampira às suas costas.
com apenas vinte e dois anos, luke conheceu uma mulher que talvez tenha sido sua introdução ao amor e a como ele só funciona até te destruir. ela confundiu a boca dele com um cinzeiro e deixou marcas de queimadura no seu rastro. eles brigavam ou transavam, nunca nada no meio. ela não se importava com a família dele ou com o fato de alice estar definhando lentamente e, como não havia ninguém com quem conversar durante os dois anos mais solitários de sua vida, ele a deixou apertar o pescoço até que perdesse o fôlego, amarrá-lo, marcar suas costas com um chicote e dizia a si mesmo que, pelo menos, estava sentindo alguma coisa. era melhor que a dormência nas mãos quando tinha de dizer a uma família que seu filho não havia sobrevivido e imaginar seus pais ali algum dia, esperando ouvir ‘ ela está bem, nós a curamos, tiramos a coisa ruim do coração dela e agora ela vai ser feliz ’ , em vez de um frio: ‘ fizemos o nosso melhor ’.
medicina de emergência era um inferno e definitivamente não era para ele. sherman não tinha certeza de como tinha ido parar na neurocirurgia, mas tinha sido a última vez que tentaria. antes disso, tinha sido pediatria, cuidando daquelas crianças na UTI neonatal, tendo que dizer na frente de um pequeno ser humano, cheio de promessas e sem sorte, que o câncer tinha se espalhado. ele não conseguia fazer aquilo — não tinha vocação para tal crueldade. e então voltava para casa, para aquela mesma namorada, no apartamento que ele pagava, apenas para ouvir um discurso cínico sobre como ‘ esse tipo de merda acontece ’ e finalmente, a noite decisiva, quando ela brincou: ‘ talvez seja melhor morrer antes que eles se tornem incels ’. lucca desabou naquele momento e pegou apenas algumas coisas, dizendo que o aluguel estava pago até o final do mês seguinte, mas depois disso ela estaria por conta própria. ela riu, chamou-o de covarde como se estar ali pudesse provar que ele tinha estômago para este mundo e tinha falhado na prova de fogo. naquela noite, chorou pela primeira vez em dois anos. não porque sentia falta dela, não porque se arrependeu do término ; ele estava aliviado e infinitamente desolado por ter permitido chegar àquele ponto. luke finalmente ligou para eva, as conversas entre eles eram raras por causa do ciúme infundado daquela mulher. ele nunca veria sua melhor amiga daquela forma, mas não importava falar de novo & de novo. naquela noite, passaram horas acordados ao telefone, ele dizendo que talvez fosse hora de desistir e pedir demissão, e ela — adorável e gentil mesmo quando devia ter desligado na sua cara — dizendo que ele sempre poderia desistir amanhã.
e assim, luke se apegou às palavras doces dela, no dia em que o sr. collins faleceu, quando perderam eunji, o adolescente com a overdose de fentanil — venderam a droga como se fosse um sedativo — ao fazer parte da caminhada de honra enquanto ele era levado do quarto do hospital em estado vegetativo. só se lembrou das palavras de eva: ele poderia desistir amanhã.
haviam infinitos amanhãs nos anos que ele passou voltando àquele lugar, fazendo o trabalho e, quando ficava difícil demais, apenas esperando. parecia suficiente até o dia em que encontrou o corpo de alice na banheira, o cheiro nauseante de ferro que ele podia sentir debaixo da língua e o vapor em todas as paredes, os lábios dela num tom azul repugnante, os pés dele encharcados em água turva. não se tratava mais de amanhã, era sempre ‘ hoje ’. ia levando um dia de cada vez, esperando que não terminasse com ele morto. esqueceu o nome da ex-namorada, mas sabia que ela diria que o mundo continua girando e ele nunca teria coragem de admitir: ‘ não para todos ’.
por mais triste que seja, é o que ele responde quando perguntam sobre a irmã e sente a nitidez do sorriso daquela mulher, cinco anos mais velha, se misturando ao seu.
❝ eu não sei, não entro muito na cozinha mas duvido que tenha sobrado algo. lucia adora seus chás. ❞ deu de ombros, pensando nela no memorial provavelmente sentindo-se iguais partes traída pelo próprio gêmeo, por fazê-la enfrentar aquilo sozinha e incapaz de culpá-lo por não conseguir encarar fotos de alice por mais de alguns minutos sem vomitar. ❝ eu já tomei o remédio, logo passa. ❞ fechou os olhos sem querer enquanto ela passava as mãos por seus fios escuros que estavam levemente úmidos do banho, mas recuperou os sentidos rapidamente e os abriu, limpando a garganta e se afastando do toque. não se sentia digno de qualquer conforto. ❝ entendi. ❞ não acreditou por um minuto em qualquer uma daquelas palavras — bem, talvez no fato de que foi atrás de ingressos para o pocket show de selphia, ela era provavelmente uma das maiores fãs em nova york — pois sabia que lucia teria mandado mensagem. as vezes se perguntava sobre os medos da gêmea, se temia que da próxima vez fosse ela a achar um corpo. todos podiam ver claro como o dia que lucca não era o mesmo fazia muito tempo . ❝ não precisava ter vindo, pode dizer 'pra lucia que não vou cortar meus pulsos hoje. só ia dormir, tive o turno da noite. ❞ existia muita intimidade entre os dois para que ele andasse em círculos sobre o que tinha a dizer. ❝ mas. . . ❞ hesita e lança um sorriso cansado para uma amiga. ❝ obrigada mesmo assim. ❞
arqueou as sobrancelhas, piscando rápido como se não tivesse percebido ela encharcada mesmo depois de ouvir que havia pego chuva. ❝ porque não toma um banho ? pode pegar qualquer coisa no guarda roupa. sabe onde ficam as toalhas. eu vou descer e arrumar a bancada da cozinha 'pra gente comer . acho que quero uma pizza também, então vou fazer uns pedidos em lugares diferentes. ❞ gesticulou para fora do walk in , na direção da suíte onde ela sabia bem o caminho do banheiro. ❝ tem coisas suas em alguma gaveta, você sabe onde deixa. fica a vontade. ❞ passou por ela ainda descalço e usando apenas o moletom com a camiseta branca que nunca tiraria na frente de ninguém por medo de perguntarem sobre as cicatrizes. por vergonha de dizer que deixou alguém machucá-lo para evitar o eco cruel da própria mente.
Para uma pessoa tão exteriormente contida, o turbilhão em sua mente às vezes lhe soava ensurdecedor; seu coração acelerava com uma frequência que seus exercícios de respiração nem sempre funcionavam para acalmá-la, e as olheiras que vinham das noites mal dormidas cobravam o seu preço — de maneira até literal, ao gastar rios de dinheiro em bons corretivos para manter a aparência perfeita para o trabalho. Ver o nome de um de seus pais, ou de sua irmã, em uma ligação nova em seu celular, era até suficiente para fazer os batimentos se assimilarem à de uma presa sendo perseguida em uma caçada, já que Eva não era mais ingênua ao ponto de achar que não estariam querendo algo. .
Ainda assim, guardava tudo para si. Ou a maioria disso. A fortaleza que havia construído ao redor de si mesma, e de seu coração, tivera os tijolos recolhidos um a um para a sua pilha. Diziam que nenhum homem era uma ilha, mas Eva não era um homem, e a ideia de ser tão mesquinha ao ponto de reclamar de dificuldades pontuais com outras pessoas lhe dava pavor. Não poderia simplesmente se dar ao luxo de abrir o coração e despejar tudo que a atormentava no colo de outra pessoa, como deixava que fizessem consigo — e, com uma atenção às vezes desmerecida, os escutava —, porque no fim, tinha medo de descobrir que não tinha metade da relevância para os outros, que eles tinham para si. Colocava um sorriso no rosto, fingia que o seu otimismo era inabalável, que comportamentos egoístas não faziam o seu coração se partir mais a cada vez, e que não percebia as disparidades entre o que era dado, e o que era recebido. Afinal, há muitos anos fora convencida de que o único jeito de ser amada, era ser alguém que praticamente não tivesse necessidades.
Assentiu com a declaração dele, juntando os lábios de leve. Não tinha vivenciado um luto próximo, nunca sabia o que dizer que não soasse completamente mecânico, e pensava que, às vezes, o melhor era não dizer nada e apenas estar ali. Um franzir de seu nariz entregou a careta que surgia com as palavras do amigo, e Eva bufou. “Sutherland andou tirando o seu couro, é?” o que não era nenhuma novidade. “Se preferir dormir, eu posso voltar outro dia, mas eu realmente vim porque quis. Não posso pôr um pé pra dentro de casa até as amigas de sororidade da Indira vazarem, e eu me recuso a usar o meu dia de folga escutando sobre a Kappa-Kappa-sei-lá-que-merda.” não era mentira, por mais que quisesse que estivesse inventando apenas para justificar a sua presença. Retribuiu o sorriso dele, com um mais doce que a maioria dos que teve em toda a semana — tentando acalmar chiliques de atores e modelos —, e do jeito que nunca conseguiria deixar de oferecer a ele — o ponto mais fraco que existia em Evangeline, sentimentalmente falando.
“É, pode ser. Eu tô me sentindo meio… Pegajosa. Nojenta.” mais uma careta, dessa vez para si mesma, com o cabelo todo bagunçado e a jaqueta em dois tons mais escuros do que deveria. “Mas ou ia ao vivo comprar os ingressos, porque, pelo visto, voltamos aos anos oitenta, ou ficaria só com lives, e todo mundo jura de pés juntos que o Alexander vai com a atriz da peça nova dele. E eu não posso perder isso. Se não, como ele vai me conhecer, se apaixonar por mim e me pedir em casamento?” pela grande ironia da vida, a sua paixonite platônica por um produtor bem famoso era mais fácil de ser alcançada que a por alguém que estava em sua frente. “Ah! Aproveita e pede uma pavlova da Magnolia’s também. Tive que exigir seis pro mesmo camarim, eu preciso saber se valeu toda a dor de cabeça que o Dorian Rhodes me deu.”