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because I want to, because I feel || Small: Mattell
Desde sua saída do hospital, Adell não conseguira tirar Matthias de seus pensamentos um minuto se quer. A forma como o loiro cuidara de si, como se mostrou tão preocupado, lhe fez enxergar que aquele sentimento de um ano atrás ainda existia e que, principalmente, nunca morrera como pensara. Três anos era um bom tempo para que a bailarina sentisse o suficiente a presença do chef. Alguns dias haviam se passado desde o seu acidente, havia quebrado o pé e graças a uma grande fratura em seu tornozelo, tinha de usar uma tala preta até o joelho; a mesma era muito quente e incômoda, mas se quisesse ficar melhor logo, teria de usá-la sem reclamar. Em forma de agradecimento a Matt, Adell tivera a ideia de um jantar, não só de agradecimento, como também uma desculpa para poder vê-lo novamente. A tarde estava tranquila, mesmo depois do ataque surpresa, todos caminhavam calmamente enquanto conversavam e Adell logo saíra do táxi em que estava. Trajava um vestido florido e leve, junto a uma sapatilha e o cabelo semi-preso. Adentrou no restaurante com certa curiosidade; olhava tudo e agora observava com mais interesse tudo à sua volta quando esbarrara em um garçom. “Oh, me desculpe… Sou muito distraída.” Disse já com as bochechas coradas. “Aproveitando esse pequeno acidente, você poderia me informar se o Chef McCartney está por aqui?” Perguntou discretamente na tentativa de não mostrar sua ansiedade em vê-lo. “Sim, senhorita. Ele está na cozinha. Você quer que eu o chame aqui?” Sem conseguir conter o sorriso, Adell assentira, mas antes de responder ao rapaz tivera uma ideia melhor. “Isso seria incrível, mas se não for pedir muito… Eu poderia ir falar com ele? Não precisa tirá-lo da cozinha para isso. Te juro que não vou demorar e não irei falar que você me colocou lá dentro, é só que… É muito, muito importante que eu entre lá e fale com ele.” Pensativo, o empregado demorara alguns segundos até levá-la até a porta para a cozinha, pedindo-lhe segredo já que a entrada de outras pessoas na cozinha não era bem vindo. A bailarina, sorrindo de orelha a orelha, assentira e então adentrou naquele lugar que estava tão movimentado quanto o salão. Percorreu seu olhar pelo local e ao vê-lo, o brilho intenso rapidamente surgira neles. Matthias estava concentrado em seu trabalho, mas mesmo assim, Adell poderia ficar parada ali por horas; seu coração já pulsava tão rápido que era possível escutá-lo. Aproximou-se com cautela e manca por causa da tala. “Eu realmente queria saber flambar uma carne desse jeito, me deu até inveja.” Disse em tom de brincadeira atrás de seu amado.
Embora não estivesse confortável com a ideia de reabrir o restaurante tão cedo depois de todo o ataque ocorrido na cidade, Matthias não tinha muita escolha. Sua irmã e ele tinham funcionários, além de que, oito de seus alunos dependiam de que o local estivesse aberto para colocarem em prática as lições. Foi a contragosto que o loiro chegou no trabalho, mas depois de ver que estavam seguros, não hesitou em começar a fazer tudo com o gosto de sempre. Estar no restaurante era como uma terapia, um passatempo que nunca se cansaria ou deixaria de adorar; cozinhar foi sua paixão desde pequenino, um detalhe que compartilhava com a irmã, com as mães. Mesmo na infância, o contato com a cozinha fazia de Matt um menino mais centrado, diferentemente das outras crianças de sua idade. Tinha tido uma sorte imensa de que suas mães não eram pessoas desligadas dos gostos dos filhos, não fosse por elas, nunca teria dado ouvidos aos seus próprios sonhos. Não estaria ali agora, com o coração tão leve quanto uma pena, os pensamentos suaves mesmo que sua feição continuasse tão concentrada na atividade. Cada prato dava-lhe uma sensação e sentimentos diferentes; como se a diferença entre as receitas, de algum modo que não entendia, influenciasse em seu humor. Os alunos costumavam brincar e perguntar onde escondia o ratinho já que odiava usar qualquer coisa em sua cabeça, mas o loiro levava na brincadeira, na diversão. Isso quando não estava gritando horrores para os benditos alunos que o acompanhavam ali dentro. Em dias cheios demais, os pobrezinhos sofriam e o pedido de desculpa sempre era feito no finzinho da tarde. Os pedidos o estressavam, a agitação mais ainda, o único reflexo para isso era reclamar.
Mas naquele dia seus movimentos se encontravam tão suaves que todos o olhavam torto ainda que discretamente. Desde o dia do acidente de Adell, Matt não conseguia tirá-la da cabeça. Antes achava que conseguira a esquecer, pois afinal, muito tempo havia se passado. Mas céus, como estava errado. Bastou vê-la para que o coração saltasse desesperado no peito. Estava tão distraído lembrando do modo tranquilo como a loira dormira no hospital descansando a cabeça em seu peito, que sequer notou a presença extra em sua cozinha. Quando o fez foi apenas por causa da voz. Matthias virou-se com rapidez, o fogo quase pegando na manga de seu braço direito. “Adell! O que diabos você faz aqui? Você deveria estar em casa descansando!” apesar do tom surpreso e incrédulo, não segurou o sorriso que brincou nos lábios rosados. O rapaz pediu que um dos alunos tomasse conta do restinho da receita e caminhou até a bailarina. “Não deveria estar de pé.”
As brincadeiras entre ambos era uma das coisas que Matthias mais sentia falta. Aquele tempo longe disso, da comodidade e simplicidade que havia em todo o momento quando estavam juntos, fizeram tanta falta que, mesmo depois de um ano, o loiro pegava-se, muitas vezes, preso às lembranças de cada um dos encontros divertidos e bem humorados. Não encontrara outra pessoa que houvesse conseguido fazê-lo sentir-se bem à vontade para falar sobre quaisquer que fossem os assuntos, apenas Adell parecia possuir aquele dom de o deixar tranquilo. Ali, com suas mãos lutando para puxaram a menina em seus braços e abraça-la contra seu peito; Matt ainda via-se incapaz de esconder o pequeno sorriso no canto de seus lábios. “Gordon sempre será o melhor do mundo.” rebateu pois por mais que gostasse da linha do pensamento alheio, seus alimentos nunca poderiam ser comparados com os dos melhores chefs que conhecia. “Eu comecei a ficar no restaurante com minha irmã e também a dar aulas na universidade.” Matt começou, a voz suave e baixinha para não atrapalhar o clima ameno que pairava no local. “Não tem sido tão ruim quanto achei, os alunos se mostraram empenhados desde o início ainda mais quando eu revelei que iria valer emprego no restaurante. Me senti a Keating e seus cãezinhos quando separei alguns.“ disse num tom de brincadeira, rindo levemente. Os olhos de Adell ainda tinham o poder de fazê-lo perder as palavras, mas antes que pudesse continuar no silêncio até que este se transformasse constrangedor demais, um barulho alto que julgava ser alguns tiros seguiu-se de gritos. Imediatamente, Matthias sentou-se na cama. A postura tensa do homem o entregava, estava assustado, confuso. Sendo um hospital, aquele lugar era seguro, não? Mas os gritos dentro do local o deixaram braços arrepiados e, apressando-se para fechar a porta sem sequer querer saber o que diabos acontecia lá fora, o loiro ignorou o bater acelerado do próprio coração e empurrou o sofá para a frente da única entrada da sala; não seria o suficiente para parar o que quer que estivesse acontecendo, mas ao menos ali estariam protegidos. “Que porra está acontecendo?” indagou a si mesmo mas voltou rapidamente para perto da loira. “Você está bem?” murmurou, tomando seu lugar deitado na maca. “Vem aqui, vamos ficar bem.” disse ainda com o volume diminuído, abrindo seus braços para oferecer-lhe algum tipo de segurança, de conforto. Os gritos do lado de fora, assim como as balas continuavam como em um filme de guerra; parecia irreal, mas estava mesmo acontecendo. Como uma noite que começara tão bem poderia estar indo de mal a pior, isso não sabia.
Mais aliviado por ver a porta sendo aberta, Matt mordiscou o cantinho do lábio inferior ao balançar a cabeça para negar. “Não, você não precisa fazer isso.” dizendo isso, aproximou-se da garota. Era fácil ver a mentira por trás da frase, por trás do sorriso. “Eu não conto para ninguém.” prometeu, usando a falange distal do indicador para bater levemente na pontinha do nariz da menor. “Só me perdoe por isso.”
Ela encolheu os ombros, tentando desviar os olhos dele. Mas quando o mesmo se aproximou, ela desfez o sorriso e assentiu pra ele —Não precisa se preocupar, não tem algo pelo qual eu tenha que te perdoar — ela sorriu levemente. Apoiou o rosto na parede ao seu lado — Eu.. acho que eu devia ir dormir. E você devia ir pra casa. E agirmos como se essa bobeira não tivesse acontecido
"Tem sim. Eu não deveria ter tocado no assunto." corrigiu-a, de frente para ela imitou sua posição. "Ou você pode ir comigo lá em casa e eu te sirvo um bello gelato, sì?"
a-llyxx
Ela balançou sua cabeça e logo que ele lhe fez a oferta, sorriu brevemente, dando uma risadinha — Acho que eu não posso recusar uma coisa dessas ne? Ainda mais quando vem de um vizinho tao chato.
"Não se acostume com isso." ao aconselhar, deu-lhe uma piscadela com o olho direito enquanto abria um sorriso. "Estou fazendo isso na vã tentativa de que você de ser uma das vizinhas mais irritantes que já tive."
Eu só não quero engordar — disse revirando os olhos, balançando a cabeça — Okay, senhor sabe tudo, me de açúcar então — risse com um sorriso, observando-o com a cabeça apoiada no sofá — Está decepcionado? Então vamos ver se te orgulho — disse pegando a colher, rindo baixinho — Posso?
"É para isso que existem os exercícios, para que você coma como um porco e queime todas essas calorias." a sugestão foi dada com um sorriso divertido nos lábios e Matt logo se colocou ao lado dela no sofá. "Sì, me orgulhe então." provocou-a, arqueando as sobrancelhas num gesto sugestivo.
a-llyxx
—Eu trabalhei por 21 horas, mas ja estava acordada ha muito tempo. Faz umas 37 horas que eu to acordada — disse revirando os olhos, indo até o apartamento do rapaz, entrando devagar, pedindo licença e logo jogando-se no sofá dele — Hm.. isso está mega confortável. E eu estou fazendo dieta, então pouco açucar.
"Dieta para quê? Virar um palito de fósforo?" bufou um riso, vagando para a cozinha. "Pouco açúcar, pouca energia." revirou os olhos em desaprovação àquela palavra, mas então abriu o freezer, tirando de lá um pote de gelato que fizera um par de dias atrás, recuperando duas colheres para ambos. "O que vira até um pecado, sabia? Estou decepcionado."
Nem vem, você é o irritante, não eu — disse dando risada, logo sorrindo de modo doce pra ele, cruzando os braços — Vamos logo então, Matt, eu preciso dormir ja ja.
"Dormir? Quantos anos você tem? Sua energia deveria durar por pelo menos quarenta e oito horas, sabia?" ele começou a divagar, andando de volta para o próprio apartamento permitindo que a porta ficasse aberta para que a vizinha entrasse também. "A não ser que seu nível de açúcar no sangue esteja baixo, ou talvez o de ferro. Eu posso te dar algumas dicas do que comer para melhorar isso é nem mesmo dobrar a noite acordada ou tomar muita cafeína vai te deixar drenada."
A loira observou a tensão e como Matt havia ficado nervoso com aquela pergunta. Não o julgou pois também ficaria, não havia feito aquela pergunta para jugá-lo, mas porque o loiro poderia dar várias outras desculpas para a enfermeira que lhe perguntara, estranhamente a palavra noivo fizera um fio de esperança que não deveria surgir, apontar dentro de si. A bailarina então levou as mãos até o rosto e limpou as lágrimas sujas de rímel antes de respondê-lo. “Ei, está tudo bem, eu te entendo… Faria o mesmo se estivesse no seu lugar, por você.” Respirou fundo e olhou para seu pé antes de voltar sua atenção para o loiro. “Eu não sei bem o que pensar em relação a isso tudo. A noite perfeita que terminou em uma tragédia dessas.” Resmungou consigo mesma, logo olhando seu vestido branco e rodado que usara na apresentação. Tudo o que acontecera naquela noite, seu encontro inesperado com Matt mostrara que nada era em vão, se estavam sozinhos ali, aquela era a oportunidade para conversarem. “Você está tão diferente, seu cabelo…” Está maravilhoso, você está maravilhoso. Pensou. “Combinou muito com você… Mas não estamos aqui para falar de cabelo não é?!” Riu sem graça. O que falaria? O que faria? Só queria abraçá-lo, segurar firme sua mão, mas apenas lhe pediu uma pequena coisa. “Senta aqui do lado pelo menos, assim não vai ficar tão estranho conversarmos nessa distância toda.” Sorriu fraco para ele e antes que pudesse voltar a falar novamente, uma enfermeira adentrou o quarto com alguns comprimidos e um copo de água. “Senhorita Mooser, esses são os analgéticos para a dor, se sentirá um pouco mais fraca mas a dor passará.” Adell assentiu, tomando o copo em sua mão e colocando os comprimidos na boca, engolindo-os junto a água. Assim que entregara o copo para a enfermeira, a mesma saira da sala, novamente deixando-os sozinhos.
Bastante envergonhado por ter sido pego em sua mentira impulsiva, Matt mordiscou o cantinho do lábio em um reflexo de sua súbita timidez. Com a mão direita coçou a nuca, acabando por bagunçar um pouco dos fios mais curtos perto do que já escapavam daquele coque frouxo. “Sim, mas eu deveria ter perguntado.” falou ainda sem graça, uma leve queimação o incomodando na região das maçãs do rosto por causa da vermelhidão no lugar. Ele então a fitou teimosamente lutando consigo mesmo. Precisava lembrar que era apenas Adell à sua frente. Depois de um ano e meio distante da mulher, sim, mas ainda era Adell. “Acho que te dei um baita azar, sinto muito por isso. Se eu soubesse, não teria passado nem por perto do teatro.” tentou fazer um pouco de humor, encolhendo os ombros ao abrir um sorrisinho. Matthias assentiu então, conscientemente passando ambas as mãos nos cabelos dourados. “É, quando eu vi, estavam maiores do que o normal e ai eu já tinha me acostumado.” admitiu o descuido que acabou virando uma nova parte de si. Depois do término surpresa, o loiro parou de perceber algumas coisas sobre si e o cabelo foi uma dessas. Por sorte, não ficara tão ridículo quanto pensou no início. Embora o coração houvesse saltado ao ouvir o convite, sentiu um tanto de receio de aproximar-se. E se a machucasse sem querer? Se esbarrasse no pé ferido e piorasse ainda mais? Porém, sem conseguir resistir, levantou-se da cadeira e sentou na beirada da cama; Matthias não teve tempo de se arrumar no novo lugar pois a porta foi aberta e o chef arregalou discretamente os olhos, achando que a mentira tinha sido descoberta e ele teria de ser posto para fora. Mas, por sorte, isso não aconteceu. Somente respirou tranquilamente quando a enfermeira saiu, podendo assim subir de um modo mais confortável na cama estreita. Seu ombro esbarrou no de Adell e ele sorriu. “Oi.” murmurou. “Será que você vai ficar falando besteiras por causa do analgésico? Vai ver unicórnios e me falar sobre duendes e fadas?” perguntou com um tom divertido, usando sua mão direita para limpar uma manchinha pequenina do delineador que escorreu pela face dela mais cedo; o polegar roçou na bochecha da mais nova até que a sujeira saísse, baixando-a assim para o colo novamente.
As lágrimas já não mais se encontravam nos olhos de Adell, porém, sua tristeza ainda era nítida, mas graças a presença de Matthias ali, aquela sensação de tudo desabar diminuíra. Respirou fundo após ser colocada na cama para o exame e antes do médico entrar naquela sala, a loira levou seu olhar mais uma vez para o rapaz que ali estava. Não entendia como ele conseguira entrar ali, mas não queria perguntar, se sentia bem em tê-lo por perto. Os olhares cruzados falavam por si, sem necessidade alguma de pronunciar qualquer palavra que fosse, e ali, seus olhos falavam até demais que aquele amor de um ano atrás permanecera vivo em si. O médico que adentrara no local era bem novo, mas sério o suficiente para ser levado com sensatez. Quieta sobre aquela cama, Adell observou tudo o que o doutor fazia. O homem tocou algumas vezes o pé da loira. “Você consegue sentir meu toque?” Com o coração doendo, ela negou com a cabeça. “Muito bem, me diga então onde dói e o que houve.” A bailarina olhou rapidamente para Matt antes de responder ao médico, por algum motivo não conseguia deixar de olhá-lo. “Sim… Hoje foi uma das minhas apresentações de ballet e quando fui fazer um pouso que era parte de um salto, acho que firmei o pé de uma forma bem errada né?” Tentou rir fraco para amenizar a situação, mesmo que não conseguisse. “Meu tornozelo está doendo demais, algumas fincadas fortes e um ardor difícil de aguentar.” O médico ouvindo tudo aquilo, apenas assentiu com a cabeça. “Certo, vamos fazer uma bateria de exames e de tar alguns analgésicos para a dor enquanto isso. A senhorita terá de passar a noite aqui para que amanhã bem cedo possamos fazer os exames.” O homem à sua frente virou sua atenção para o loiro. “Uma enfermeira me disse que você é o noivo dela, pois bem, se quiser passar à noite aqui está tudo bem, me parece que o produtor da senhorita Mooser já deixou este quarto reservado para ela.” Adell não ligara muito para o que o doutor dissera, já que a palavra noivo lhe fizera fixar seu olhar no ex. “Vou passar a medicação para uma das enfermeiras que ficará a par do seu caso senhorita Mooser, amanhã nos vemos novamente para os exames.” Disse o profissional para a loira antes de sair daquele quarto e deixar a mesma sozinha com Matt. “Noivo?”
Correto era afirmar que Matthias não ligava para o que o médico fazia, mas isso não significava que ele não estava ouvindo-o. Cada palavra, cada pergunta feita à garota, ele escutava e processava a resposta para ver se conseguia segurar algum traço de mentira nas palavras da mesma. Como tudo parecia estar em perfeita ordem, sua postura relaxou um pouco mais, os ombros não se fizeram tensos; mas seria um eufemismo dizer que tinha sido tranquilizado. Adell ainda sentia dor e isso o preocupava, logo, suas sobrancelhas continuavam franzidas e o olhar fixo. A tentativa frustrada de fazer piada dada a situação não agradou-lhe, mas sabia que a bailarina fazia aquilo apenas para não demonstrar o quão nervosa estava, muito menos o tamanho de seu receio quanto ao futuro. Tudo o que desejava era poder garantir que, ao passar de tudo, ela estaria de volta aos palcos para brilhar como sempre. Mas o médico falando consigo, finalmente, o fez desviar o olhar. Assim que percebeu a sua mentira sendo jogada no ar, Matthias sentiu sua face esquentar por consequência de uma onde de timidez que o pegou desprevenido. Sem responder verbalmente, apenas assentiu para o médico, esboçando um sorriso sem graça que, para um desconhecido, poderia facilmente parecer como apenas cansado. Estando sozinho com a loira, ele coçou a nuca somente para ter a desculpa de encarar o chão. “É que a enfermeira… ela queria, ela ia me tirar daqui e eu… eu não…” suas tentativas de completar a frase foram vãs e ele percebeu, soltando um suspiro pesado, nervoso.“Mio dio, eu entrei em pânico, vabbé? Não sabia o que dizer mais para ela me deixar aqui, eu não podia te deixar aqui sozinha!”
O sonho de Adell desde muito pequena, era ser uma das melhores bailarinas que New York já poderia ter visto. Queria conquistar o mundo com toda a sua delicadeza e expressão de sentimento em cada passo que dava em sua dança, mas em meio a sua jornada, conhecer Matthias fora essencial. Não havia terminado aquele namoro por causa dele, muito pelo contrário, havia terminado por não querer prendê-lo em uma relação a distância. Começaria a viajar com frequência e então teriam muito pouco tempo para que ficassem juntos; não terminara com ele por falta de sentimento, não mesmo. Aquele sentimento estava mais vivo do que pensara e olhando-o diante de si naquela ambulância, Adell teve a certeza. Seu coração arfava na vontade de gritar por cada toque tão delicado e intenso do loiro. A loira fechou os olhos e respirou fundo na tentativa de controlar as lágrimas que saiam tão depressa e escorriam em direção aos seus lábios, era incrível como a voz e as palvras de seu ex-namorado lhe faziam tão bem e lhe trazia uma grande paz. Ao abrir os olhos novamente, observou o mesmo levar sua mão até os lábios e selar-lhes ali. Um toque sútil, mas de grande valor. Ah como queria que aquele beijo fosse em seus lábios, como queria matar toda aquela saudade que ardia tanto agora. “Obrigada… Eu nunca vou me cansar de te agradecer.” Assentiu apertando seus dedos contra a pele dele, com convicção. “Matt… Eu nunca deixei de confiar em você.”
Em alguns minutos a ambulância já estava chegando ao hospital. Ao estacionarem em frente a porta daquele prédio. Os para-médicos ágeis retiraram a maca onde Adell se encontrava deitada rapidamente e antes disso, a loira levou a mão do ex aos seus lábios e fez o mesmo toque tão carinhoso que o dele. Empurraram aquela cama de rodas barulhentas por um grande corredor até entrarem rapidamente na sala de exames. Graças a Philip, tudo já estava ajeitado no hospital. Agora era apenas esperar pelo resultado.
A confiança sempre foi algo que Matthias prezou. Desde pequenino, aprendeu cedo demais que pessoas boas e confiáveis são difíceis de encontrar. A troca de lares adotivos até que finalmente achasse as duas mulheres que dariam-lhe o amor necessário, foi árdua em o mostrar que não, nem sempre se pode confiar em alguém somente porque parece viável. Sendo uma pessoa insegura, levava um bom tempo para que outro viesse e conseguisse o feito de Matt, cegamente, confiar. Mas isso, quando obtido, demorava para se desgastar. E com Adell, ainda que o fio estivesse frágil, continuava presente e tão visível quanto antes. Tanto que ele sequer hesitou em correr o polegar numa carícia suave a pele pálida e gelada da mão da mesma. “Não, não é preciso me agradecer.” a garantia firme presente na voz dele era apenas o sinal de que a confiança mútua o agradava e aquecia seu coração. Em meio a tanto pesar e receios do momento, se fez mais que bem-vindo; todavia, não foi o suficiente para aguentar a expressão preocupada de sua face.
Seus pedidos explícitos no olhar não foram atendidos, os para-médicos, claramente, não tinham o que fazer para apaziguar a dor que a loira sentia e, à cada lágrima derramada pelos olhos de íris clarinhas, Matt sentia uma furada em seu peito. Mas o beijo suave, uma breve imitação do seu gesto anterior fez com que isso diminuísse, afinal, talvez a sua presença ali não fosse tão indesejada. Para a sua surpresa, ao seguir para dentro atrás da maca, ninguém o parou. Uma enfermeira disse-lhe algo sobre acompanhantes e familiares, mas o loiro não compreendeu corretamente, acabando por murmurar um desajeitado noivo que deveria ter dado certo pois a mulher assentiu e afastou-se, deixando-o permanecer. Prontamente, colocou-se ao lado da ex, suas pernas inquietas balançando enquanto o médico entrava na sala para iniciar os procedimentos. Não que ele prestasse alguma atenção a isso, seus orbes estavam atentos, fixos em cada movimento e reação da bailarina, mas quietinho em seu canto para que não atrapalhasse já que assim poderiam sair logo dali.
imnotyour-trophy
Claro, se for o que vocês quiserem, meu marido tem alguns contatos que eu posso tentar conseguir algo. A sua companhia também é ótima, mas eu não posso passar tanto tempo longe de casa, tenho coisas para arrumar e fazer, fico cozinhando na maior parte do tempo ou apenas olhando para a janela, agora vou começar a passar pelo restaurante, quem sabe eu não aprendo alguma coisa.
Se isso não for pedir muito, ia ser fantástico. Nós não conseguimos muito avanço nos últimos meses e, sinceramente, eu estou quase desistindo. Mas a Jus tem procurado me ajudar e eu não quero decepcioná-la. E ah! Se você quer aprender, definitivamente tem que vir às quintas. É o dia que separo os alunos para virem aqui, então sempre acabamos fazendo algo novo e eu não fico gritando, então é o melhor dia.
nathanxbeaumont
Depende. Se considerar o meu talento em transformar qualquer tipo de comida em pedra, então sim….Eu cozinho. Minha avô não, infelizmente quando nasci ela havia falecido e nunca consegui as receitas dela. Porém, tenho uma tia que cozinha extremamente bem, apesar dela nunca ter abrido um restaurante a casa dela vive cheia de pessoas querendo comer a comida dela. Os gregos são figuras peliculares. Do jeito que sua irmã é, acho que não será necessário muito para acabar convencendo-a.
Ahn, então me desculpe. Realmente não conheço nada quando o assunto é comida, apenas degustar é claro. Claro. Pode testar quantas receitas quiser.
Isso foi ofensivo para até pensar. Mas sinto muito por isso, as minhas avós sempre foram legais e as comidas delas… céus. A Jus e eu vamos adorar conhecer sua tia e roubar receitas dela, e sim, você está certo. O difícil vai ser conseguir arrumar alguma folga para ir, mas as férias de dezembro estão se aproximando então quem sabe.
Mas tudo bem, só comer é muito bom. Ainda demais de saber sobre esse seu talento que quase se assemelha ao Midas. Quanto tempo você tem? Porque eu poderia fazer mais coisas ao invés de somente sobremesa! E ainda posso tentar fazer algo dos especiais? Ou melhor, sobre alguns que vão para o especial.
adellnotadele
Não observara Matt entrar daquela ambulância pois no momento em que isso acontecera, seus olhos estavam fechados na tentativa de não gritar com aquelas fincadas tão fortes em seu tornozelo. Ao abri-los novamente, Matt já estava próximo o suficiente para poder sentir aquele perfume, não era o mesmo de antes, mas se encaixava bem com a imagem madura que o loiro lhe passara. Por alguns segundos sua mente vagou nos momentos que tiveram juntos, eram tão próximos, parceiros e amigos, eram um encaixe certo que foi quebrado por ela. Acordou de seus pensamentos quando o ouviu e antes de assentir, tentou olhar para o próprio pé, mas era impossível na posição que estava. “Matt… Você sabe o que isso significa? Eu não posso e não quero pensar que isso pode ser o fim de todo o meu trabalho. Não…” Sussurrou a última palavra com o suspiro triste que soltara de seus lábios. A vida era mesmo muito engraçada, Adell havia terminado com Matt para seguir sua carreira no ballet e agora ali, dentro daquela ambulância após seu acidente, estava ele, seu grande e primeiro amor, pois era isso que ele sempre fora em sua vida. Matt havia sido o primeiro em quase tudo o que pudesse dizer e ser em relação a loira, então, sem pensar duas vezes ou no que ele teria em mente, a loira levou a sua mão a dele e a segurou firme, mesmo que a sua estivesse tão gelada. “Por favor, não me deixa sozinha… Não agora. Se você está aqui comigo, não é por acaso Matt. O tempo passou, muita coisa mudou, mas preciso do agora…” Disse olhando-o nos olhos.
Matthias tentava lançar olhares rápidos para os para-médicos na tentativa de fazê-los entender que a garota precisava de algum remédio. Mas como ele entendia apenas de cozinhar e não sobre o bem estar de pessoas feridas, talvez estivesse somente deixando-se envolver-se emocionalmente na situação. Não gostava de ver a expressão de dor tomando conta do rosto de Adell, doía-la demais, possivelmente mais do que um ferimento em si mesmo. Porém não havia muito o que pudesse fazer, nada se encontrava ao seu alcance. “Não, não pense nisso agora.” ele pediu, a voz soando mais fraca por finalmente poder tê-la ouvido falar seu nome depois de todo aquele tempo. Ainda que o timbre usado para isso houvesse partido o seu coração. Mais uma vez. Bastou que ela segurasse sua mão para que o loiro percebesse que, naquele instante, o passado não importava. Ele estava ali, agora, e era exatamente disso que a menina precisa. “Eu não vou sumir.” tentou usar o tom mais suave que conseguia, desejando assim poder passar um pouco de tranquilidade para ela. “Estou aqui, vai ficar tudo bem.” se era apenas aquilo que poderia dizer, então repetiria quantas vezes fosse necessário para que tornasse uma verdade. Entrelaçando seus dedos aos delas, ignorando prontamente o salto que as batidas de seu coração deu, Matthias trouxe-a até seus lábios para deixar um beijo nos dedos alheio. “Não sei se vou poder entrar com você na sala dos exames, mas vou estar lá assim que você sair.” a promessa foi feita em um tom mais baixo para que apenas ela, e somente ela, a escutasse. Um segredo sussurrado como antes faziam não importando caso estivessem numa sala cheia. “Ainda confia em mim?”
Você... faria isso? Olha, acho que seria bem mais do que eu e minha irmã já conseguimos. Só temos os nomes mesmo e nem sei se são os verdadeiros. Mas olha, eu adoro ter você aqui por perto. Quando estiver sozinha, pode bater na minha porta e se eu não estiver, sempre tem o restaurante. Eu me escondo na cozinha às vezes quando não tenho aulas para dar. Até posso pensar em deixar você atacar o que guardo na geladeira.
Abrindo a boca para rebater, foi surpreendido pela fuga da mais jovem e seus olhos foram arregalados em reflexo. “Não, não, não.” murmurou, arrependido por ter entrado num assunto como aquele. “Vamos, Ally, abra a porta.” ele pediu, batendo algumas vezes. “Me desculpe, eu não queria falar coisas assim.”
A garota ficou encarando a porta fechada, com as lágrimas caindo. Ela odiava relembrar aquilo tudo. A escola toda havia sido um lixo. E a faculdade uma ilusão, ja que só haviam nerds. Ela abriu a porta novamente, respirando fundo, secando as lágrimas com um sorriso forçado — Na verdade desde o começo planejei essa saída dramática, sabe?
Mais aliviado por ver a porta sendo aberta, Matt mordiscou o cantinho do lábio inferior ao balançar a cabeça para negar. "Não, você não precisa fazer isso." dizendo isso, aproximou-se da garota. Era fácil ver a mentira por trás da frase, por trás do sorriso. "Eu não conto para ninguém." prometeu, usando a falange distal do indicador para bater levemente na pontinha do nariz da menor. "Só me perdoe por isso."
Fitá-la sem poder a tomar em seus braços e murmurar palavras que a acalmassem era, de fato, uma tortura. O rosto pálido da loira estava molhado por tantas lágrimas e a tensão que a mesma irradiava chegava até Matt, revirando todos os seus órgãos, colocando sua mente de cabeça para baixo. A garganta apertava, os olhos ardiam e as mãos formigavam na vontade que tinha de segurá-la; mas não era apenas isso que o fazia sentir-se tão, mais tão impotente. Mas sim por não poder fazer nada para ajudá-la. Se pudesse, tiraria aquela dor e a colocaria em si poque bem, ele deveria ter feito algo de errado para que a bailarina o deixasse. Então merecia. Merecia a dor, não ela. No entanto, Adell o surpreendeu com a resposta positiva e o homem entrou na ambulância, sentando-se no local indicado para que pudesse rapidamente ir embora dali. “Vai ficar tudo bem.” foi o que disse, prendendo o cabelo num coque desajeitado. “Céus, não tem nenhum analgésico que posso amenizar isso?” a pergunta foi solta para os para-médicos ali presentes, mas o olhar não deixava o rosto atordoado da bailarina. Ele agarrou o colchão fino da maca, apertando os dedos para conter o impulso de segurar na mão da ex."Você continua assim e eu vou chorar também, sabe disso, não é?"