Embora não estivesse confortável com a ideia de reabrir o restaurante tão cedo depois de todo o ataque ocorrido na cidade, Matthias não tinha muita escolha. Sua irmã e ele tinham funcionários, além de que, oito de seus alunos dependiam de que o local estivesse aberto para colocarem em prática as lições. Foi a contragosto que o loiro chegou no trabalho, mas depois de ver que estavam seguros, não hesitou em começar a fazer tudo com o gosto de sempre. Estar no restaurante era como uma terapia, um passatempo que nunca se cansaria ou deixaria de adorar; cozinhar foi sua paixão desde pequenino, um detalhe que compartilhava com a irmã, com as mães. Mesmo na infância, o contato com a cozinha fazia de Matt um menino mais centrado, diferentemente das outras crianças de sua idade. Tinha tido uma sorte imensa de que suas mães não eram pessoas desligadas dos gostos dos filhos, não fosse por elas, nunca teria dado ouvidos aos seus próprios sonhos. Não estaria ali agora, com o coração tão leve quanto uma pena, os pensamentos suaves mesmo que sua feição continuasse tão concentrada na atividade. Cada prato dava-lhe uma sensação e sentimentos diferentes; como se a diferença entre as receitas, de algum modo que não entendia, influenciasse em seu humor. Os alunos costumavam brincar e perguntar onde escondia o ratinho já que odiava usar qualquer coisa em sua cabeça, mas o loiro levava na brincadeira, na diversão. Isso quando não estava gritando horrores para os benditos alunos que o acompanhavam ali dentro. Em dias cheios demais, os pobrezinhos sofriam e o pedido de desculpa sempre era feito no finzinho da tarde. Os pedidos o estressavam, a agitação mais ainda, o único reflexo para isso era reclamar.
Mas naquele dia seus movimentos se encontravam tão suaves que todos o olhavam torto ainda que discretamente. Desde o dia do acidente de Adell, Matt não conseguia tirá-la da cabeça. Antes achava que conseguira a esquecer, pois afinal, muito tempo havia se passado. Mas céus, como estava errado. Bastou vê-la para que o coração saltasse desesperado no peito. Estava tão distraído lembrando do modo tranquilo como a loira dormira no hospital descansando a cabeça em seu peito, que sequer notou a presença extra em sua cozinha. Quando o fez foi apenas por causa da voz. Matthias virou-se com rapidez, o fogo quase pegando na manga de seu braço direito. “Adell! O que diabos você faz aqui? Você deveria estar em casa descansando!” apesar do tom surpreso e incrédulo, não segurou o sorriso que brincou nos lábios rosados. O rapaz pediu que um dos alunos tomasse conta do restinho da receita e caminhou até a bailarina. “Não deveria estar de pé.”
Entrar em uma cozinha profissional era algo que jamais pensara em fazer, já havia visto algumas, porém em programas que assistia em sua casa no fim dos domingos. Sabia como era aquela agitação e principalmente como o chef tinha de se ressaltar diante todos para que pudesse manter o equilíbrio de tudo, mas não conseguia imaginar Matthias daquela forma. Esperava aquele pequeno susto do loiro, mas não imaginara que aquilo poderia quase ter causado um acidente, um pouco constrangida, apenas riu fraco. “Ué, você foi me ver trabalhar e eu fiz o mesmo.” Sorriu novamente e sem conseguir, nem querer controlar, seus olhos imediatamente foram de encontro aos dele. Céus, como o amava. Ao tê-lo próximo, seu sorriso se tornara ainda mais especial e inundado com aquele sentimento tão bonito que carregava em seu coração. “Eu sei, mas está dando para fazer algumas coisas e além do mais, precisava vir te ver.” Sua mão estava próxima a dele e em um movimento espontâneo, encostara o dedo mindinho ao dele. “Vim também para te fazer um convite bem especial. Eu adoraria que você fosse até a minha casa para um jantar, não tive tempo de te falar sobre isso, mas sim, estou morando sozinha.” Riu e ajeitou sua bolsa no ombro, sem se quer desviar a atenção dele; não queria, não podia. “Eu vou cozinhar, nada tão extraordinário quanto seus pratos e ao que está acostumado, mas vai ser com carinho e muito... Amor.” Se amor fosse algo material, literalmente, Adell inundaria todo o jantar com tal. Pegou então sua bolsa e tirou da mesma um pequeno bloco de papel e uma caneta, anotando em alguns segundos o endereço para Matthias. “Não aceito ‘não’ como resposta e este aqui é meu endereço. Estarei te esperando as nove.” Pegou a mão do loiro que estava próxima e colocou o papel na mesma, fechou-a e a segurou por alguns instantes, logo depois se aproximara o suficiente para selar seus lábios a bochecha macia do ex.
As horas passaram voando enquanto Adell se desdobrava para fazer o tal jantar. Havia achado a ocasião perfeita para preparar o espaguete de sua avó, totalmente caseiro, desde a massa até o molho. Não queria impressionar, queria apenas que Matt lembrasse daquilo com carinho. Sua casa não era grande, haviam dois quartos, um banheiro e a sala era conjugada com a cozinha, portanto, não tinha nenhuma sala de jantar; havia um jardim florido e muito bem cuidado entorno de toda a casa, e aos fundos uma varanda bem aconchegante; o local escolhido para aquele jantar. Colocara duas velas flutuantes sobre a mesa, um pequeno vaso com flores, os pratos, talheres e taças. Depois de tudo pronto, fora vez de se arrumar para o encontro. Trajava um vestido branco com listras pretas e de alças medianas em seus ombros, o cabelo estava amarrado em um rabo de cavalo bem feito e com alguns cachos na ponta, uma maquiagem leve já que optara no batom rosada um pouco mais forte, mas nem tanto. Calçava apenas a tala, adorava sentir seus pés no chão, então assim ficaria. Estava sentada em sua penteadeira, colocando o par de brincos quando sua pequena gata pedira carinho. “Calma Willa, agora mamãe está se arrumando, logo te darei carinho, ok?”