Aaron repousava à beira do lago encantado, rodeado por garrafas vazias, testemunhas silenciosas de sua busca por embriaguez. A luz da lua pintava a água com reflexos tranquilos, um contraste com a tempestade interna do vampiro. Entre sombras dançantes, percebeu a aproximação de Lucius.
A garrafa quase vazia indicava que Aaron não tinha intenção de interromper sua jornada alcoólica. Ao erguer os olhos para Lucius, seus olhos injetados de sangue captaram o caçador. — Ah, o valente caçador. — a voz de Aaron tinha uma cadência levemente arrastada, e a influência da bebida era evidente. — Defendendo os fracos e oprimidos. Será que você, por um momento, parou para questionar a justiça que tanto procura?
Os pensamentos de Aaron flutuavam entre as sombras do passado, relembrando a execução de sua mãe e a injustiça que ela enfrentara. A raiva borbulhava dentro dele, alimentada pela dor persistente. — O falso moralismo da humanidade, essa ilusão de superioridade e justiça, é o que mais me incomoda. As mesmas pessoas que julgaram e condenaram minha mãe eram as que ela curava, as que ela protegia. — ele apertou os punhos, uma mistura de raiva e tristeza refletida em seu rosto, rindo sem alegria. — Eu só não entendo por que estou falando todas essas coisas para você. Você nem mesmo vai entender. Você é o justiceiro da humanidade, e eu sou o monstro.
Após uma pausa, Aaron olhou para a garrafa vazia em suas mãos. — Mas, sabe, eu me pergunto… qual é verdadeiramente o monstro nesta história? Na minha época, tantas pessoas inocentes morreram, foram sacrificadas e até mesmo queimadas vivas apenas por serem quem eram. E sabe o mais irônico disso tudo, caçador? — outra risada sem alegria escapou de seus lábios ao encarar Lucius. — Depois de mil anos… mesmo depois de tanto tempo… ainda há inocentes morrendo pelo amor e o bem maior. Até porque… — Aaron fez uma breve pausa, lutando contra a embriaguez que tentava tomar conta de si. — Não foi isso que aquele seu tio fazia? Condenava os outros apenas porque não conseguia reconhecer seus próprios demônios? Ele não era muito diferente de um bispo que conheci. — raiva e nojo permearam sua voz ao lembrar do assassino de sua mãe.
Desviando o olhar de Lucius, Aaron focou no lago. As palavras fluíam de sua boca, como se escapassem de sua consciência embriagada. — Eu não me arrependo das minhas ações, sabia? Mas me pego lamentando que elas tenham sido necessárias. Por que estou compartilhando isso com você? Talvez porque, por um breve momento, eu queira que você entenda. Ou talvez seja apenas a maldita garrafa falando mais alto do que minha sanidade. O que você acha, caçador? É possível que um monstro e um homem possam entender um ao outro?