Dorme que passa
Sempre tivemos uma piada que dizia ādorme que passaā.
āCansou de mim? Dorme que passa.ā
āQuer se separar? Dorme que passa, amanhĆ£ Ć© um novo dia.ā
Sempre gostei dessa nossa interação, ela me passava segurança ao mesmo tempo que me fazia sentir um quentinho dentro de mim, como se fÓssemos sempre eu e você contra o mundo.
Em algum momento da vida, por uma razĆ£o ou vĆ”rias, ou nenhuma especĆfica, na guerra da vida, viramos eu contra vocĆŖ, vocĆŖ contra mim. NĆ£o querĆamos, nĆ£o consentimos. Mas nĆ£o fomos maduros, nem espertos, nem rĆ”pidos o suficiente pra voltar a lealdade pro lugar certo. Quando vimos, jĆ” tinha acontecido, e talvez o rumo tivesse que ser tomado.
E eu ficava presa no ādorme que passaā. Eu pensava āo que aconteceu com nosso combinado?ā, quando percebi outra coisa. NĆ£o havia parado pra pensar no outro ponto de vista. No ponto de vista de dormir sozinho, oficialmente sem sua parceira, sozinho com seus pensamentos, questionamentos, medos e suas vontades. Nesse ponto de vista que queremos desesperadamente que passe, porque Ć© uma dor tĆ£o excruciante que nĆ£o desejamos a ninguĆ©m.
191 noites passaram desde então. Mal dormidas para mim, e mal dormidas para você, porque você me conta, vez ou outra, que não estÔ dormindo bem, como se fosse sua forma de passar um recado fazendo uma curadoria delicada de quais palavras usar.
Toda noite, sonho com você. à como se meu cérebro tivesse encontrado uma forma de me dar conforto, jÔ que, durante o dia, eu corro atrÔs dele, mas ele corre mais rÔpido, então eu fujo pro meu mundo por algumas horas, onde menos coisas me machucam, onde eu não perdi totalmente o controle, e onde eu e você ainda somos nós.
A dor ameniza, claro. Mas a maldita nĆ£o passa. E nĆ£o acho que ameniza no sentido de āficar mais fracaā, acho que Ć© só tĆ£o grande, que nĆ£o temos escolha a nĆ£o ser acostumar, como se fosse uma doenƧa crĆ“nica que o paciente sabe que existe, que nĆ£o tem nada a ser feito e que a vida continua com ou sem a dor. Sofro de saudade crĆ“nica, e sei disso porque nos momentos que me permito sentir e pensar sobre, vejo que a dor tĆ” aqui, preservada em Ć¢mbar, intocada, imutĆ”vel.
Só que eu cansei dessa estrada que estamos seguindo hĆ” tanto tempo. A paisagem nĆ£o me agrada, o destino, menos ainda, e o trajeto estĆ” horrĆvel. Eu sigo em frente atenta Ć s placas, buscando um retorno, uma rotatória ou, sinceramente? Uma mureta baixa o suficiente pra passar por cima e fingir que era um caminho aberto.
Vejo sinais de coisas que só ganharam significado ao seu lado, leio palavras que se encaixam feito peƧas sob medida na nossa situação, e leio seu comportamento como se fosse o livro mais importante do mundo. Rio lembrando de conversas, mesmo sĆ©rias, que seriam cĆ“micas se nĆ£o fossem trĆ”gicas, como aquela em que vocĆŖ perguntou āpor que vocĆŖ insiste tanto na gente?ā, e eu respondi āprimeiro, porque eu sinto certeza de um futuro pra nós. Segundo, porque, com todo o respeito, vocĆŖ nĆ£o me passa a impressĆ£o de estar confortĆ”vel com a sua decisĆ£oā, e vocĆŖ riu, respondeu ānĆ£o mesmoā e chorou. TambĆ©m revivo o passado na minha memória, assistindo nossos melhores momentos como se fosse uma apresentação de slides, e te pedindo desculpas por cada vez que te fiz sofrer, torcendo pra vocĆŖ sentir, aĆ onde estĆ”, que essas desculpas foram verbalizadas, mesmo que nĆ£o diretamente a vocĆŖ.
Te prometi que cuidaria de mim, e nĆ£o estou quebrando essa promessa. Te fiz prometer muitas coisas tambĆ©m, e frequentemente me pego pensando āserĆ” que ele lembra? serĆ” que ele cumpre? serĆ” que ele ainda se importa?ā.Ā
O que me machuca mais, Ć© ter essa certeza tĆ£o grande da nossa história, da nossa conexĆ£o, do nosso amor e do nosso potencial, mas nĆ£o poder ter certeza se vocĆŖ sente o mesmo. Eu acho que sim, mas nĆ£o cabe a mim. E talvez, vocĆŖ tambĆ©m saiba que sim, mas nĆ£o sente que esteja pronto pra deixar algumas crenƧas de lado e se permitir viver, tentar de novo, ver onde dĆ”. Acreditar que nosso desencontro foi pra algo maior, melhor, um reencontro de almas e destinos que só vĆ£o existir corretamente por terem passado por esse perĆodo difĆcil.
EntĆ£o, meu amor, eu encerro esse desabafo te perguntando. 191 dormidas depois, passou?Ā
PS: Pra mim, não. Sigo, mas permaneço. E te amo, sempre.











