Sentia falta dele. Não gostava de admitir, de permitir que as ervas daninhas de suas emoções tomassem conta do perfeito jardim de sua racional sanidade. Ainda assim, como a correnteza violenta batendo, gritando, arranhando a represa do rio dos sentimentos, a saudade vinha em ondas descontroladas, que teimavam em quebrar na praia dos olhos, escorrendo pelas maçãs do rosto: edifício de encanamento defeituoso, cheio de goteiras, buracos e rachaduras. Tentava tapá-las, rebocá-las, colocar a fita adesiva do concreto, da realidade que vivera e que vivia sobre elas, mas nada parecia adiantar.
O buraco negro do tempo em que gravitou em torno dele, como um planeta protegendo-se do frio sideral com calor de seu sol, era um peso insuportável. Buraco negro este que engolira as estrelas do som do sorriso dele, o ronronar de seus suspiros, as luas que presenciaram suas confissões e risinhos madrugadas adentro. Buraco negro que, agora, ameaçava engoli-la por inteiro.
Onde será que ele estava? Será que seu coração já havia se tornado o ninho de outro passarinho? Será que ela poderia, ao menos, ter certeza de que um dia ele realmente havia cedido o espaço entre os átrios e os ventrículos para que ela fizesse o seu ninho? Ela não sabia os pensamentos planetários que habitavam o interior da Via Láctea de sua mente, se o amor dele havia sido miragem, ilusão, distorção do tecido do espaço-tempo ou um fato. Mentira ou não, pelo menos a memória das pupilas dilatadas daquele que ontem havia sido o seu amante, tornando-se a poeira estelar da supernova de sua paixão, quando sorvia os abraços dela ao chegar desmontado pelo decorrer do dia na noite era real. A lembrança das palmas quentinhas dele em suas bochechas no frio dos ventos invernais também era. (In)felizmente, as tardes em que passara enroscada, aconchegada, como um gatinho em seu colo estavam lá ainda, batendo sob sua caixa torácica, latentes, ameaçando explodir suas veias.
Quando as flores da infinita primavera de sua adoração haviam murchado?
Ultimamente, esquecia de tudo, menos do orgulho. Podia se afogar, ter a alma, uma coisinha frágil e fina, igualzinha a uma folha de papel, desmanchada pela enchente do afeto inevitável que tentava desesperadamente controlar, porém não diria o nome dele novamente. Com o tempo, remédio fajuto, não veio a cura, a dor permaneceu, e ela se decidiu, só de birra, que, mesmo que fosse acariciada pela oportunidade, nunca mais encostaria as têmporas nos pulmões dele para ouvir a sinfonia de sua respiração, nem se derreteria, tal qual uma vela ao queimar o querosene noturno, caso seus sôfregos e sedentos tímpanos bebessem do cálice do timbre da voz de seu desencanto, de seu carinho.
No fim daquela interminável meia-noite, quando o Sol beijou o horizonte em que cantavam os sonolentos pássaros que acordavam o amanhecer, decidiu que carregaria nas costas, de passo em passo, o chumbo do amor que ele abandonara ali, com ela, de mansinho, na ponta dos pés, pacientemente, para que, talvez um dia, conseguisse caminhar para bem longe, tão longe, mas tão longe, que a distância percorrida fosse capaz de levar sua inquietação para as terras do alívio do esquecimento do céu aquoso das fronteiras do olhar daquele que um dia havia sido seu eterno lar.