Era mais uma tarde qualquer. Os sentimentos haviam se esgotado, o sangue já havia secado, e lá estava eu, encurralado em um canto escuro do quarto, enquanto ele dormia tranquilamente. Não sei pedir ajuda. Não tenho forças para gritar. A voz, presa no fundo da garganta, está morrendo. A saliva amarga enche minha boca, enquanto minha alma parece ter abandonado o cômodo.
Eu sei que isso não é justo comigo. Não é justo que, após tanta entrega, não me reste nada além de uma sombra de mim mesmo: fraca, permissiva, submissa. Não quero colocar todo o peso do mundo sobre ele. Ele não é uma pessoa ruim, mas nossos caminhos não se cruzam mais nos risos; estamos sempre presos. Sempre nós, atados em nós, apertados até sufocar.
O que restou de mim está aqui, mudo, consumido por essa coexistência que não sei mais como suportar. E, ainda assim, permaneço.











