2 de miopia e 1,5 de astigmatismo
Este não é um texto sobre saudades. Não é sobre sentir falta. É sobre o oposto disso. É sobre todas as coisas e situações pelas quais eu passei ao teu lado – e que me caíram como uma luva, como uma luz no fim do túnel, como o conserto e a limpeza de uma lente esférica num óculos velho e sujo. Eu sempre fui uma criança sonhadora, apaixonada. Fui mais um do clichês femininos que cresce vendo filmes de princesas, lendo histórias de amor, sonhando com o dia que um cara iria chegar pra me salvar de alguma situação perigosa. Apesar de todos os clichês, cresci também em um lar feminista, e que sempre puxou meus pés de volta pra a realidade ao ponto de entender que tudo isso não passava de pura utopia. Mas apesar, também, de toda essa dicotomia, eu acredito que esse meu lado apaixonada e sonhadora sempre esteve comigo, e que, de alguma forma, isso tenha influenciado, mesmo que inconscientemente, a minha forma de enxergar o mundo e os relacionamentos amorosos. Eu sempre fui uma pessoa apaixonada. Eu não gosto de admitir, mas eu preciso, pela primeira vez em quase vinte e um anos de vida, assumir uma verdade pra mim mesma: eu sou uma pessoa que se apaixona fácil. Eu me apaixono fácil. Nunca existiu um período de toda a minha vida em que eu estivesse de coração livre, sem realmente sentir rien por ninguém. É tão fato que eu lembro de me apaixonar aos quatro anos. Arthur. Lucas aos seis. Outro Lucas aos sete. Henrique aos nove. Fernando aos onze. Guilherme aos doze. E aos treze, João. Aos treze eu te conheci. Por você eu me apaixonei perdidamente, de uma forma que todos os anteriores nunca teriam visto, se pudessem. João foi daquelas paixões que ardiam, queimavam dentro de mim. E por sorte ele me correspondeu de volta. Ele chegou com tanto amor pra mim, tão cheio de sentimento em suas mãos pra me dar, que eu não tive nem tempo de pensar, raciocinar tudo o que estava acontecendo. Eu só aceitei. Mergulhei de cabeça. Mergulhar assim talvez seja um pouco de quem eu sou. Eu acho, não tenho certeza – ainda estou me descobrindo. Mas naquele marcante ano de 2012 ele apareceu na minha vida, eu apareci na dele, e a gente começou a se amar, juntos. Sem nem entender nada da vida, do que era a vida, do que significava o amor, do que significava amar. Éramos muito novos para o amor mas só conseguíamos pensar sobre isso. E eu achava que era lindo. Me sentia imersa em muita beleza. Mas como todo túnel, a gente não enxerga o fim; como todo óculos arranhado, a gente não vê. Ou vê embaçado – mas isso é uma metáfora e tanto, que só eu e você conseguimos compreender. Tudo começou em 2012. Parecia coisa de cinema e foi, porque, como sabemos, começou justamente nele. Como cinematografia, passei gargalhando de um filme ao seu lado e você me viu. Completamente por acaso. Tudo se desenrolou como todo mundo sabe e por muito tempo eu não soube quem você era. João foi chegando de mansinho. Tão de mansinho que nem o nome dele eu tive o direito de saber – a propósito, hoje eu me questiono o porquê da manutenção do anonimato e entendo que muita coisa se explica a partir disso. Mas um dia em cima do asfalto, sob céu azul, você me beijou e, em meio a gritos e aplausos, a gente começou a se amar. E eu o amei muito. Amei tanto. Amei ao ponto de seguir a vida com feridas abertas, não só uma, mas diversas vezes. Quantas vezes fui deixada de lado, como nada, como ninguém, e continuei a acreditar nesse amor, te colocando por cima de mim e de tudo o que eu acreditava. Eu amei João tanto que deixei de amar a mim mesma, fazendo com que, com o tempo, eu já não me reconhecesse mais. Hoje, oito anos depois daquele beijo no asfalto, carrego ainda em mim muitas cicatrizes. E só foi possível enxergá-las com muito esforço. Hoje te agradeço, João – não fraternamente. Obrigada por consertar os meus óculos, ainda que você tenha sido, por muito tempo, o vendedor da loja tentando me convencer a jogá-lo fora e comprar um novo. Isso porque a verdade, a qual nunca lhe disse, mas que eu sempre soube, apareceu pra mim ainda em 2016: você não me amava. Quando você, mais uma vez, quis voltar correndo pra mim, eu soube. Eu sempre soube. E ali eu me prometi: – vou mergulhar nesse amor, mas eu sei que vai ter um fim. E quando esse fim chegar, terá sido o bastante. Por todo esse tempo eu soube que o dia da despedida chegaria. De novo. Mais uma vez. Ciclicamente, pois era típico de você. Era mais um verão, quando as ondas quebravam e o vento batia nos nossos cabelos. Eu lembro que te olhei e jurei a mim mesma, não obstante tantos machucados, tentar te amar, mais uma vez, mas não me submeter mais aos teus caprichos. E assim entrei nessa aventura de amar alguém com uma data de validade, cujo rótulo não era possível ler, não era possível decifrar. Jesse e Celine, personagens que você mesmo me apresentou e que você tanto gosta, se questionaram do porquê das pessoas acharem que os relacionamentos precisam durar pra sempre. Celine bem diz, “isso é besteira”. Ela estava certa. O nosso pra sempre durou até três anos depois disso. E hoje, nove meses depois da nossa data de validade, eu compreendo tudo o que aconteceu. João me deixou marcas profundas, as quais enfim compreendo e que as levarei pra vida. Marcas que enfim consigo enxergar e mais ainda: outras que eu, talvez, não tenha sequer encontrado. João foi daqueles relacionamentos que eu não imaginaria nunca ter. Que meu eu de criança gritava tentando me alertar da realidade na qual vivia. Algo que não era possível enxergar pois, enquanto meu lado sonhador vociferava pela falta de carinho e de amor de sua parte, meu lado independente dizia que tudo isso não passava de um mero conto de fadas, e que os homens da vida real seriam assim mesmo. Afinal, sou uma mulher moderna e independente. Que tipo de mulher contemporânea, livre, precisa de amor e carinho? Ternura e romance são coisas do século passado. Careta. Antiquado. E assim, caindo nessa armadilha, foi que eu me deixei levar numa relação medíocre por sete anos. Um amor sem toque, sem cuidado, sem proteção, sem zelo, de uma pessoa que jamais valorizou o tanto de sentimento que ardia dentro de mim. Que não fazia questão de partilhar a minha vida, de me ver feliz... de me respeitar. Depois de tantos anos numa relação como essa, me sinto extremamente culpada e arrependida por submeter uma menina tão jovem à situações tão tristes. Nenhuma mulher merece passar por isso. Muito menos uma adolescente de 15 anos merece passar por isso. Meu eu do passado não merecia ter passado por isso. Se eu pudesse voltar no tempo, eu me daria um abraço e me pediria perdão. Desculpa por não ter sido honesta com você. Desculpa por não ter te amado acima de tudo. Desculpa por ter deixado tudo acontecer. Te grito por desculpas, porque carrego demasiada culpa dentro de mim. Mas apesar disso tudo, eu sei que se você pudesse viajar no tempo e vir me encontrar no presente, você me perdoaria e me suplicaria para que eu não me culpe tanto. Não me cobre tanto. E é verdadeiramente isso que eu estou tentando fazer. Eu sei que você me perdoa, mas entenda, tudo é um lento processo de uma grande aprendizagem. Esse dia vai chegar. A paz e a felicidade são caminhos, não destinos. E é por isso que, por outro lado, me sinto tranquila e feliz de poder sair desse relacionamento e finalmente enxergar o mundo como ele é. Hoje, de lentes novas, vejo que a vida é muito mais do que convenções preestabelecidas sobre o certo e o errado. Sobre o bonito e o feio. Sobre a dicotomia que me assola desde que eu sei o que é amar alguém. Que o amor, de fato, não é um conto de fadas, mas pode, sim, ser doce, tranquilo, repleto de carinho, romance e ternura. Como eu disse, este não é um texto sobre saudades. Não sinto sua falta. Não sinto falta de nada. Te quero longe. Por fim, eu finalmente consegui sair dessa. E a melhor parte é: não foi necessário fazer o menor esforço. Eu demorei pra compreender, mas você fez todo o trabalho duro e difícil por mim. Você sempre faz, você sempre fez. Portanto, muito obrigada. Fico feliz de ter ido ao oftalmologista: descobri que fico muito gata de óculos.















