sobre a metade da tetralogia
faz 24 horas que finalizei o segundo livro da tetralogia napolitana e queria registrar alguns pensamentos (ou sentimentos, não sei) que tive durante essas duas leituras. esse texto não é uma resenha, apenas um relato pessoal de tudo que me surgiu ao longo do caminho.
comecei a ler porque gostava de ver a devoção de algumas pessoas que sigo para com a história. gostava do jeito que comentavam e os sentimentos que a leitura evocava nelas. fiquei curiosa. não lembro com precisão o que eu pensei quando li as primeiras páginas, acho que, num geral, é uma história que nos prende de imediato porque queremos saber afinal, por quê lila quis não apenas sumir, mas apagar os vestígios da sua existência.
tinha um certo preconceito com a capa da edição, não porque acho feia ou qualquer coisa assim, gosto bastante delas, mas pensava que elas não fazem jus à gravidade da história. hoje penso que elas são perfeitas. sempre penso quando estou lendo em público: "eles não sabem que por trás dessa capa alegre e até mesmo boba, está uma história dilacerante."
adoro o nome do primeiro livro: "a amiga genial". me emocionei muito quando ele surgiu num diálogo entre lila e lenu.
há algum tempo, houve uma discussão no twitter sobre leitura e suas facetas, e vi muitas pessoas questionando o papel da identificação nesse processo. o assunto começou quando, mais uma vez, mulheres alegaram que homens são incapazes de ler e compreender obras produzidas por e com protagonistas mulheres porque não conseguem se identificar. não que estivessem discutindo a sério, e isso não durou mais do que um dia, mas o que ficou do assunto foi que a identificação é uma maneira muito pobre de se relacionar com um texto. e eu até concordei. tempo depois, li um texto de vincent jouve para a aula de introdução aos estudos literários que reforçava a importância da identificação para a leitura. não que seja a característica principal, mas é imprescindível. hoje mesmo, li uma entrevista da meryl streep falando sobre como os homens nunca se identificam com suas personagens enquanto nós mulheres somos capazes de nos identificarmos com personagens masculinos, ela disse algo como "nós mulheres falamos todas as línguas, mas os homens não são capazes de falar a nossa." e fiquei pensando no peso da identificação durante a leitura dos livros da elena ferrante.
é muito fácil se identificar com as mulheres dessa história, em maior ou menor grau. durante a leitura desses dois livros, percebi que alguns temas emergiram em mim e viraram o centro dos meus dias. e isso ficou evidente nas últimas duas semanas. pelo menos foi quando tomei consciência disso, mas é certo que já vinha reverberando. de repente, eu comecei a sentir muito a falta das minhas melhores amigas. de repente o nome da júlia era mencionado em todas as sessões de análise. de repente a lacuna que a mayumi deixou quando foi embora, e numa nova configuração, criara um contorno. de repente eu me via muito nos desejos de lila e nas inseguranças de lenu. de repente a minha relação com todas as mulheres que me constituíram foi ficando mais clara, mais grave e mais forte.
de fato não parto do princípio da identificação por classe. não habito nem nunca habitei o mesmo estrato que as protagonistas, mas caminhei por ali. pensei na minha avó paterna e em seus espaços. ou a falta deles. minhas tias, também paternas, e as reinvindicações que jamais poderiam ser feitas. mas, como qualquer pessoa nascida e socializada enquanto mulher, todas as micro e macro violências dessa história são identificáveis. e as sutilezas delas.
a relação de lila e lenu com o estudo certamente é algo que toca muito em mim. quando criança, era péssima aluna, mais por ser peralta do que por dificuldade. a partir da quinta série, tudo desandou. quase reprovei. eu não conseguia mais estudar, vivia de recuperação e minha relação com os professores não era boa. algo que me custou muito a autoestima e perseguiria pelo resto da vida. até hoje, a relação que tenho com os estudos é consequência desse período. eu não consigo abrir mão de um diploma, mesmo que perca completamente o interesse ao longo do caminho, porque preciso provar pra mim mesma que não sou burra como me fizeram e também me fiz acreditar naquela idade. é como se esse diploma não servisse para me qualificar em uma área, mas sim um comprovante de que não sou burra. assim como lenu, sofro para me desfazer da ideia de uma "inferioridade constitutiva", uma incapacidade inata e genética e um medo de nunca superar nada. diferente dela, não tenho uma disciplina e diligência para com os estudos, me esforço à minha maneira, a de quem priorizava as brincadeiras e a criação de histórias na infância, o que me leva até a lila.
pensei muito na júlia porque também nos fizemos amigas na infância e, pela primeira vez, refleti sobre pontos de segundo plano dessa amizade. pensei, pela primeira vez, nas pequenas rivalidades. no quanto eu a via como o que eu queria ser mas jamais conseguiria. no quanto me comparava fisicamente com ela. em como achava que estava sempre à sombra da beleza dela, que eu estaria para sempre fadada ao papel de amiga feia. pensei nas coisas, as mais importantes, que nunca foram faladas, embora tenham sido vistas, e que precisavam ser ditas. em tudo que não sabíamos sobre a outra. pensei na primeira história que criei, a primeira, mais longa, mais complexa e mais importante. pensei que criei essa história com a ajuda da júlia. pensei na seriedade dessa história, que não passava de um enredo para nossa brincadeira de barbies. pensei que só com o tempo, com maturidade, o espaço de mais de 20 anos, me fez entender o que estava por trás dessa brincadeira. pensei na profundidade e na forma sistemática que brincávamos, como nos entendíamos. pensei no fato de eu não brincar de barbie com mais ninguém. pensei em como, na feitura de um eu, cabe tanto, e só é possível, através de um pedaço do outro, e é o de júlia que carrego em mim. lembrei, pela primeira vez, de um fato. conheci a júlia no dia da sua festa de aniversário, vi minha colega de sala chegando na casa dela, e fiz de tudo para chamar a atenção dos que ali estavam para ser convidada. lembrei que, nessa época, na primeira série, eu me separava pela primeira vez das minhas amigas da escola infantil, com quem estudei, até ali, a vida inteira. essa colega, que naquele momento era uma das poucas amigas que tinha, era amiga da júlia pois estudaram juntas. certa vez, quando eu e júlia já tínhamos virado amigas, a minha escola promoveu um evento para alunos levarem um amigo que passaria o dia com você ali. essa colega chamou a júlia e eu não levei ninguém, porque não tinha quem levar. a júlia era minha única opção e ela estaria lá enquanto amiga de outra. essa lembrança estava guardada num lugar tão profundo que, quando chegou à superfície, me espantei. me perguntei "por quê me lembrei disso?" e a verdade é que fui uma criança muito solitária. era muito tímida, só conseguia estabelecer vínculos com a rotina e convivência da escola e, mesmo ali, nem sempre eram relações boas. constantemente sentia que eu não era querida pelos pais de minhas colegas de classe por não ser um bom exemplo, por não ser boa aluna, por conversar demais durante a aula, por me meter em encrenca, por ser meio moleca. percebi que, por muito tempo, a júlia foi minha única amiga. e ontem, numa das últimas páginas do segundo livro, quando lenu vai até a fábrica em que lila está trabalhando, depois de tanto tempo sem vê-la, a passagem em que ela diz "sentia por dentro a dificuldade de deixá-la, a velha convicção de que sem ela nada de realmente importante jamais me aconteceria" me fez pensar nisso. me fez pensar agora em como eu chorava em segredo quando a júlia ia embora da minha casa, porque tinha medo de que cada vez pudesse ser a última. pensei no quanto eu chorei e sofri sozinha, escondida e em silêncio quando ela se mudou da casa ao lado da minha. vivendo uma espécie de luto em segredo. quando criança, eu nunca permitia que me vissem chorar que não fosse por apanhar ou ser colocada de castigo. ninguém podia saber que eu também sofria, que eu ficava triste, porque achava que não tinha esse direito.
quando lila tem o filho e quer deixar tudo para cuidar dele mas teme que lhe falte qualquer coisa, pensei em minha mãe e em todas as concessões que fez por medo. no quanto ela aguentou por medo. a que se subjugou por medo. pensei no meu pai. pensei em cada agressão sofrida dentro de casa. da minha e de outras.
pensei na mulher que me criou quando ninguém sabia que ela me criava e que soube de tudo antes de todo mundo. pensei na aguimara e como ela foi a primeira a saber que um dia eu queria escrever uma história e que ouvia tudo que eu tinha a dizer. e pensei no porquê ela teve que ser a primeira. pensei no quanto eu me sentia respeitada por ela. querida por ela. defendida por ela. e, por isso, confiava à ela tudo que levaria anos para confiar até mesmo à minha mãe. pensei em como ela foi a primeira adulta em quem confiei.
pensei em quando me apaixonei pela última vez. no quanto o via como lenu via nino, e depois lila. pensei que eu também li ulysses porque alguém que eu conheci leu. e que foi nessa relação, sem nome nem definição, de constante excitação mental, que me despertava o desejo insaciável de saber mais, conhecer mais, entender mais, que uma porta para um novo universo se abriu. pensei em como eu gostava de enxergar o mundo de outra forma, com as descrições de alguém que tinha tido mais do que eu pude ter. pensei em como quando isso, que nunca começou, se acabou, eu sentia que a porta estava aberta mas eu jamais poderia entrar. tudo que podia fazer era observar de longe, porque aquele mundo não era meu. pensei agora em como ser uma rio pretense te impõe certas limitações.
pensei que, mesmo não habitando o lugar de lila e lenu nesse mundo, eu também passaria a vida me comparando com aqueles que pareciam ter nascido sabendo e conhecendo de tudo, simplesmente por não serem os primeiros de uma geração de descendentes emergentes. pensei na crueldade desse pensamento, do quanto nunca chegarei aos pés de alguém que teve avós com diplomas. pensei que nasci em desvantagem. que o que eu gostaria de ser exige que outros antes de mim tivessem sido.
pensei nos abusos sofridos. por mim e por outras, de nomes e sem nomes, amigas ou não. pensei na violência das palavras, dos que amamos e dos que odiamos. nas coisas que fazemos quando não queremos fazer.
pensei no horror de nos tornarmos nossas mães e de repetir seus passos, especialmente os claudicantes. pensei nas mães.
pensei no que a lenu disse, que amar alguém não é algo que se diz no bairro, mas algo que se esconde.
pensei na vergonha de lenu. pensei nisso associando ao livro a vergonha, de annie ernaux, que não li, mas quero ler em breve. pensei no quanto esses dois universos, da ernaux e na ferrante, se interligaram nessas duas semanas através da minha própria leitura de ambas, quando decidi ler paixão simples e me reconhecia nos livros da francesa. lenu falaria da vergonha de si alguns capítulos depois e eu falaria sobre esse sentimento que me acompanha desde cedo na sessão de terapia dessa semana.
pensei em como essa leitura foi abrindo e fechando feridas e como essa é a primeira vez que um livro me afeta tanto. muitas vezes tenho raiva de lenu, por ela não enxergar o óbvio, por não dizer o que precisa e então me dou conta que, eu, enquanto leitora, sei de coisas que ela não sabe, e me fascino com esse mecanismo do livro.
estou sempre com os livros para lá e para cá, leio no caminho para a faculdade, leio na biblioteca, na igreja, no ônibus. por muitas vezes, tive vontade de perguntar às professoras se elas leram, e se sim, se gostaram e se sim, por quê gostaram, mas então fico tímida. no momento, estou esperando o terceiro volume chegar, então quis fazer um texto para elaborar tudo que pensei durante o processo. não finalizarei esse, porque não sei se ele está finalizado. acho que todos esses pensamentos estavam mais frescos ontem, talvez teria saído melhor mas não consegui escrever. deixo o fim em aberto, envio para minha amiga amanda, que queria saber minha opinião. se eu pensar em mais alguma coisa, retorno, senão, fica o convite à leitura.