alceu valença não gosta de mim
acredito não exista um pernambucano que não seja fã das músicas de alceu valença, seja por seus inúmeros hinos carnavalescos (em parceria com jota michiles) ou por suas belíssimas canções e voz inconfundíveis. eu sou um desses fãs que sequer lembro quando comecei a gostar de alceu, porque suas músicas sempre fizeram parte da trilha sonora da minha casa (junto a roberto carlos e ney matogrosso). qualquer festinha que rolava, a primeira coisa que meu pai fazia era colocar música de alceu valença, fosse carnaval, são joão, réveillon ou um domingo qualquer. até quando a gente decidia tomar banho de mangueira na calçada de casa era motivo pra ligar bem alto o som de alceu. ele fez parte da minha vida desde que me entendo por gente e continuará fazendo pra sempre. porém, se tem uma coisa que tenho certeza é que ele não gosta de mim.
certa vez, num sábado, por volta das duas horas da tarde, combinei de conversar com um amigo do trabalho no calçadão da praia de boa viagem. ele vinha passando por maus bocados e sugeri pegarmos uma prainha pra conversarmos fora do ambiente claustrofóbico do trabalho. definimos um ponto de encontro: em frente a tal restaurante, no quiosque número tal. cheguei na hora marcada já o avistei à minha espera. enquanto mexia minha cabeça pra lá e pra cá em busca de uma vaga pra estacionar, notei um carro saindo do outro lado da rua, exatamente em frente ao restaurante que usamos como ponto de referência para o encontro. esperei o veículo sair e estacionei tranquilamente. melhor, impossível. ao descer do carro, assoviei pro meu amigo do outro lado da rua e acenei com a mão direita. ele fez uma cara de felicidade por me ver e se levantou com aquele sorrisão afável no rosto. comuniquei gestualmente que ele não precisava atravessar a avenida; eu já estava indo pra lá.
ao sair do carro, olhei para a esquerda e notei que o tal restaurante estava totalmente vazio, exceto por um único cliente que, pelo que parece, estava à espera do seu pedido chegar à mesa: alceu valença. não me aguentei de alegria e, pra não incomodá-lo justo na hora do almoço, apenas gritei “alceu!”, da calçada mesmo, e dei um tchauzinho. quando ele olhou pra mim, sorri como qualquer pessoa faria ao encontrar uma personalidade que admira e foi lindo ver que ele tinha me notado. no entanto, logo após ter me visto, ele virou o rosto super sério e nem sequer esboçou um sorrisinho, retornando a atenção para a tela do seu smartphone. cara, eu fiquei chocado. não era possível. será que eu tinha feito algo de errado ou sido desrespeitoso? me fiz diversas perguntas como estas e a resposta até hoje é “não”.
ao atravessar a rua e encontrar com meu amigo, o assunto principal ficou pra segundo plano. cheguei logo dizendo “bicho, alceu valença tá ali no restaurante, sozinho, olhou pra mim e quando dei um tchauzinho ele virou a cara! que bizarro!”. imediatamente meu amigo se levantou, me puxou pelo braço e disse “eu vou lá contigo e a gente tenta falar com ele de novo!”. preguei minha bunda no calçadão e de jeito nenhum que iria novamente levar uma virada de cara gratuita no mesmo dia. puxei meu amigo de volta pra se sentar e iniciamos a pauta principal.
anos depois, um grande amigo que reside no canadá veio para o casamento de uma das irmãs aqui em recife. a primeira coisa que ele me pediu ao chegar foi para darmos umas voltas por olinda, pra matar a saudade do sítio histórico. o mês era agosto e olinda não tinha resquício algum de carnaval. estava deserta, serena, colorida, com uma temperatura agradável de fim de tarde, do jeito que a gente gosta. por meu amigo ser sedentário, decidimos passear de carro pelas ladeiras e pararmos somente em determinados pontos pra tirarmos fotos, apreciarmos a paisagem, sentarmos pra respirar o ar fresco… essas coisas. num determinado momento do percurso, perguntei se ele sabia onde ficava a casa de alceu valença em olinda, pois todo mundo sabe que ele tem uma casa lá, mas poucos conhecem a localização exata. meu amigo era uma dessas pessoas que não sabiam. então, seguimos lentamente de carro em direção à casa de alceu.
ele ficou todo alegrezinho dentro do carro, dizendo que seria massa se alceu estivesse por lá, mas eu joguei logo o balde de água fria avisando que ele só fica por olinda quando é carnaval e épocas festivas. ele não mora realmente lá. só que, pasme: quando estávamos nos aproximando da casa dele, adivinha quem estava em pé na calçada do nosso lado esquerdo, pertinho de mim, só esperando nosso carro passar pra atravessar a rua?! isso mesmo, alceu valença! meus olhos esbugalharam na hora que o vi e comecei a sacudir meu amigo, dizendo “jogue na megasena este ano, porque olha alceu valença ali, porra!”. ele abaixou os óculos escuros, viu que era realmente o homem e ficou pulando no banco do carona sem saber o que fazer.
por já ter passado pela experiência do restaurante, eu decidi ser cauteloso e, ao invés de passar reto sem falar com alceu, parei o carro bem no centro da rua, em frente a ele, abri as janelas e, fazendo um movimento de reverência com o braço, disse: “por favor, queira atravessar, majestade”. juro a vocês, ele olhou como se o carro estivesse sendo pilotado por um homem invisível, atravessou a rua e sequer agradeceu pela gentileza de termos parado pra ele atravessar, quem dirá dar um tchauzinho pro fã? naquele exato momento pensei comigo mesmo: ou ele é muito chato ou não gosta de mim. não pode ser que alguém despreze um fã tanto assim. e olha que nunca pedi autógrafo, nunca tentei tirar selfie… nada. fui um fã bem respeitoso.
quando olhei pro meu amigo do meu lado, a cara dele parecia ter visto uma assombração de tão chocado que ficou com a reação de alceu. ou melhor, com a falta total de reação. ele só conseguia repetir a frase “não acredito nisso, bicho… não acredito nisso, miguel… não acredito, mermão… como assim o cara nem sorriu?!”. foi nesse momento que contei a primeira situação, do restaurante, e ele ficou ainda mais incrédulo, dizendo que não acreditaria se não tivesse visto com os próprios olhos. na tentativa de retomar o clima gostoso do passeio, eu disse com um sorriso amarelo: "pelo menos vimos alceu valença e agora tu sabe onde fica a casa dele". até hoje esse dia significa um trauma na vida do meu amigo.
no entanto, a vida parece que gosta de me colocar em frente a alceu valença sempre que ele está indisposto a falar com fãs, porque, acredite se quiser, houve um terceiro encontro. dessa vez eu tinha ido deixar meu irmão no aeroporto e ele estava super atrasado para um voo. eu corria pra lá e pra cá na tentativa de agilizar algum processo pra ele, ia no carro pegar um documento, voltava no estacionamento pra pegar outra papelada... uma correria danada que no final deu tudo certo e ele conseguiu embarcar apesar do atraso. me despedi do meu irmão no salão de embarque, desci a escada rolante e adivinhe quem estava sentado sozinho numa das cadeiras de espera do saguão do aeroporto? sim, sim, sim: alceu valença. eu o vi de longe e confesso que meu instinto protetor foi dar a volta no aeroporto inteiro só pra não passar pela frente dele novamente, causando o desprazer de fazê-lo me ver. mas minha mente começou a dizer que era bobagem minha, que as duas situações anteriores tinham sido apenas coincidências, que eu devia ir até ele e confessar minha admiração, afinal, um aperto de mão não custava nada e ele já estava ali mesmo, sentado, provavelmente esperando dar a hora do voo. era a situação perfeita. respirei fundo e fui.
alceu estava sentado de pernas cruzadas lendo uma revista que não faço a menor ideia qual era. eu fui me aproximando lentamente, analisando e calculando friamente toda a situação, pra ter certeza de que não seria invasivo. a ideia de levar outro fora do meu ídolo era dolorosa demais pra mim. pelo muito que observei no meu lento caminhar em direção aos bancos em que ele estava sentado sozinho, sem mais ninguém ocupando os outros assentos, senti que não havia momento mais propício e tranquilo do que aquele no aeroporto. não tinha como ele fingir que não estava me vendo. mas nesse dia descobri que alceu valença não é apenas um cantor e um compositor geniais, ele é um mestre dos disfarces, pois na hora exata em que percebeu que eu estava me aproximando, ele rapidamente fechou a revista, colocou um chapéu sobre o rosto (como quem vai tirar um cochilo) e cruzou as mãos sobre a barriga.
não era possível! aquilo não estava acontecendo pela terceira vez! e eu jamais seria o responsável por atrapalhar o cochilo de alceu valença! vai que ele ficava com tanta raiva de mim que convocaria jota michiles pra criarem o frevo:
“um diabo moreno faiscou na minha frente
com cara de gente, chato pra carai…
chegou de bobeira, gritando meu nome no meio da praia,
depois na minha casa, isso não se faz…”
deus me livre!
depois desse dia do aeroporto nunca mais vi alceu valença em lugar nenhum fora dos palcos, mas fiz uma promessa a mim mesmo que nunca mais tentaria uma comunicação afetuosa, caso voltasse a encontrar com ele por aí. em compensação, a vida me deu um presente especial: minha amiga kika latache, produtora de cinema, trabalhou no documentário em homenagem ao principal parceiro de composição de alceu valença: jota michiles. o filme foi exibido na 27ª edição do festival de cinema cine pe, onde pude não só fazer uma selfie com o próprio michiles, como também conheci e tirei foto com sua esposa, musa inspiradora do frevo clássico diabo louro.
continuo sendo um fã desse gênio da música popular brasileira, mas, se você ainda não o encontrou pelas ruas, já sabe o que não deve fazer se encontrar.