Estava pensando em Gretel. A alemã que ele conseguiu manter longe para que nenhuma besteira fosse feita, para que ele não destruísse sua vida terminantemente como muitos príncipes um dia já o fizeram com outras camponesas. Louis podia ser uma criatura horrenda entre quatro paredes, um verdadeiro monstro que poderia pôr medo em todas as crianças, e até mesmo adultos, que alcançasse, mas não conseguia se desfazer de seu senso de honra. Não poderia tocar em Gretel sem que sua vida fosse destinada a um futuro sombrio, portanto optara por se afastar, por reprimir seus desejos, seus ímpetos, seus sentimentos – por incrível que parecesse, Louis os tinha. De certa forma, Whilhelmina o lembrava dela – não na aparência, eram completos opostos nesse quesito, mas quanto à personalidade, ao jeito e a impulsividade. Se fosse menos cínico, diria que tinha um tipo, o da destrutividade, que em tudo se assemelhava com sua própria personalidade, mas não o era, então preferiu manter aquelas suposições em aberto, ao menos por aqueles minutos.
Voltou à realidade quando a selecionada desfizera o aperto em seu braço, saindo do salão das mulheres com o restante das meninas, todas machucadas e ensanguentadas; repletas de sangue também – ele imaginou de quem seria todo aquele sangue, mas preferiu não descobrir, não naquele momento. Teria tempo suficiente para fazê-lo muito em breve, só precisava interrogar os rebeldes capturados. Dois era um número pequeno para o tamanho daquela operação, mas não iria reclamar; ao menos agora ele tinha algo o que fazer para não ter que lidar com o trabalho de reerguer o palácio da forma que era antes do ataque. Não, Louis teria um trabalho muito mais interessante. Hastings o chamou alguns segundos depois que Whilhelmina deixou a sala, incerto sobre o que fazer em seguida. “Limpem essa bagunça. Os feridos devem ser levados à enfermaria. Imediatamente.” Ordenou, sério demais até mesmo para seus padrões. Precisava sair dali, ignorar o que disse a morena. Não poderia encontra-la no corredor sul, apesar de estar deserto por conta da inspeção feita depois do que ocorrera com Stelian – outro assunto que ele preferiria classificar em uma caixa e pôr nos confins de sua mente para que não aparecesse em horas como aquela. “Tem certeza de que não precisa tratar isso, Tenente?” Hastings o perguntou, e Louis não percebeu sua aproximação, o que não era um bom sinal. Franziu os lábios, assentindo fracamente enquanto apertava o machucado no intento de verificar se a hemorragia tinha parado. Uma ideia estúpida, já que não tinha recebido os cuidados médicos que necessitava. Precisava ir a enfermaria, tratar daquele maldito rombo em seu ombro, mas não podia demorar muito – ele não podia esquecer a honra, podia? A impulsividade era um dos defeitos que ele estava começando a descobrir, portanto, controla-la era mais difícil para si, o que apenas o trouxera malefícios até então.
Hastings o acompanhou até a enfermaria, e Louis sentiu que poderia desmaiar a qualquer instante. Realmente detestava ter que passar por tudo aquilo, mas o médico responsável pelos guardas foi solícito ao ser rápido o suficiente para não o irritar mais do que devia, mais do que se sentia capaz de se irritar, no momento. A visão começava a se turvar, mas não podia dormir. Assim que Doutor Rupert terminou de tratar dos ferimentos mais drásticos – depois de muitos grunhidos em alemão, todos xingando até a quinta geração dos Lachowski, a família do médico –, Louis se levantou, cambaleando um pouco ao sair da sala. Ninguém se atreveu a acompanha-lo, mas tampouco ele se sentia forte o suficiente para obrigar os outros a continuarem onde estavam – teria que confiar em suas habilidades, no medo que sentiam do Tenente. Permitiu-se sorrir fracamente, caminhando de forma lenta pelos corredores. Assim que encontrou o local exato onde disse que ia se encontrar com Whilhelmina, Louis respirou fundo, levantando o relógio para verificar as horas. Ainda tinha cinco minutos – Rupert fora rápido, mas talvez sua rapidez se devesse a bala não ter se estilhaçado em seu ombro e apenas o ter trespassado. Não importava realmente.
Apoiou-se na parede, respirando calmamente enquanto tentava se convencer de que ela estaria bem; de que ela não atenderia suas ordens, também – ele já começava a se arrepender de o ter feito. Não tinha sido exatamente ele quem queria se manter distante de Whilhelmina? Exatamente, mas não pôde deixar de entrar em um estado de pânico quando a viu daquele jeito no Salão das Mulheres, o que acarretara não só em seu ímpeto impulsivo de ter ditado o horário e o local para ela, mas em sua própria transgressão em ir para o mesmo lugar. Não era um encontro, assegurou-se. Ele só queria checar se estava bem – se teria que ser mais impiedoso com os rebeldes capturados. Era isso, apenas isso, convenceu-se, fechando os olhos por breves segundos enquanto mantinha o braço direito preso em uma tipoia improvisada – a enfermaria do palácio nunca precisara de tantos suprimentos.
Whilhelmina não demorou a chegar – bom, ou era ela ou algo desfocado, Louis não tinha certeza. Os remédios provavelmente estavam começando a fazer efeito, e ele tentou manter a cabeça no lugar, pelo bem dos dois. Assim que finalmente se pôs a frente dele, começando a falar, permitiu-se respirar fundo – se estava falando tão eloquentemente, nada demais acontecera, mas seus pensamentos foram interrompidos pelo vislumbre de seu rosto. Manchas roxas começavam a despontar na bochecha da selecionada, e ele sequer queria começar a pensar nas partes cobertas do corpo dela. Por um momento, Louis contraiu o maxilar, encarando-a de cima e se ajeitando da melhor forma que conseguia. Eles pagariam por aquilo, era evidente, mas Louis tinha acrescentado outros juros à dívida dos rebeldes que resolveram atacar o palácio justamente no momento em que ele não estava presente. Ela estava do outro lado do corredor, e Louis simplesmente não poderia transpor aquela distância. Era errado demais fazê-lo. No mesmo momento em que ela se aproximou, entretanto, ele sentiu um certo alívio simplesmente pela proximidade – decerto misturado com o nervosismo que Whilhelmina causava nele, mas preferiu, naquele momento, culpar o enjoo causado pelo tiro e outras escoriações. Não podia responde-la, entretanto. O que diria? Que estava preocupado com ela; que precisava ver se não tinham a machucado muito? Não, não podia falar nenhuma daquelas coisas – ele mesmo disse que não a queria por perto, que não se importava com ela; seria contraditório, logo agora, perguntar por coisas assim, portanto negou, incapaz de responde-la. “Eu já fui.” Afirmou monossilabicamente enquanto tentava não mudar a expressão para uma de dor quando Whilhelmina passou a verificar a atadura recém posta – mas já empapada de sangue. Louis realmente precisava descansar, mas não conseguia se mover da forma que desejava. Era irritante. “Não adiantou de muita coisa.” Acrescentou ironicamente, sentindo que o ombro doía cada vez mais que a morena mexia ali. “O que você está vendo aí?” Perguntou, por fim, vencido por conta de sua curiosidade mórbida. Não sabia nada de Whilhelmina, e era egoísmo aprender sobre ela logo naquele momento, mas não pôde se conter, tampouco sua besta interior, que parecia sinceramente interessada na selecionada. Franziu os lábios, soltando o ar lentamente assim que inalou seu aroma novamente – um pouco de suor, cheiro de sangue adicionados, mas ainda assim era o aroma característico de Whilhelmina.
Permitiu-se revirar os olhos, sentindo a proximidade da morena cada vez mais ameaçadora. Precisava se afastar, mas simplesmente não conseguia. Soltou todo o ar que tinha nos pulmões depois de mais uma de suas acusações, cansado de ter que escutar aquele tipo de coisa. “Durão?” Um sorriso irônico despontou em seus lábios, mas Louis o apagou logo em seguida. Não queria que Whilhelmina pensasse que estava se divertindo ali com ela. Já verificara que estava bem, podia ir embora, voltar a enfermaria e terminar de tomar os remédios que acabariam com a dor, mas Louis estava se mostrando não um sádico naquela situação, mas um masoquista – aparentemente ele gostava de sentir dor. “Apenas faço meu trabalho, Whilhelmina. Nada mais.” Encarou-a, sério. Talvez não fosse inteligente que continuassem ali – talvez não, realmente não era, mas ele não se moveu para sair daquele corredor. Não enquanto estivesse olhando em seus olhos. “Eles te machucaram?” Perguntou, falando baixo o suficiente para que apenas ela pudesse escutar. Queria poder tocar em seu queixo, obriga-la a falar, mas não estava em posição de interroga-la sobre nada, além do que, a resposta era mais do que óbvia – ele simplesmente precisava de uma confirmação dela, nem que fosse um aceno de cabeça.
Quando ela o puxou, entretanto, pegando na sua mão, Louis foi incapaz de não a puxar de volta, fazendo com que se mantivesse no mesmo lugar, próxima demais a ele. Por um momento, fechou os olhos, respirando fundo o suficiente para que ela não o irritasse mais ainda, para que ela não o tirasse toda a paciência que ainda restava – mesmo que pouca. Manteve sua mão colada na dela, incapaz de alienar aquele detalhe. “Eu não precisava disso, exatamente.” Afirmou, mas ainda não conseguia falar com todas as palavras que simplesmente precisava checar se estava tudo bem com ela. “Sei cuidar de mim, Whilhelmina. Não é o primeiro, sequer o último tiro que vou levar.” Bufou, os olhos cravados nos dela. Já tinha sido baleado antes, quando com o pai em uma das caçadas – quase perdera uma perna, mas mesmo assim não conseguia se desfazer da vontade, da urgência por aquilo tudo. Era arriscado para um príncipe, mas Louis realmente não se importava. Nasceu como o filho do general suíço, de toda forma, e não como o herdeiro ao trono. Estava acostumado com aquilo tudo. “O que aconteceu com você, entretanto… Certificarei-me de que será a última vez em que algo assim acontece.” Prometeu, desfazendo a mão esquerda da mão da morena, levando-a ao seu queixo, fazendo-se o favor de levantá-lo para que ela não tivesse outra escolha a não ser encará-lo. “Tem minha palavra.” Afirmou seriamente, engolindo em seco enquanto a encarava. Não sabia mais o que fazer dali em diante. O certo seria se afastar, fingir que aquilo não aconteceu, mas cumpriria com sua palavra.
Whilhelmina nunca mais iria se machucar daquela forma.
--- Ótimo. Então deveria estar descansando. --- soltei, assim que ele falou que já havia passado na enfermaria, levemente irritada por não me sentir mais útil. Era doentio da minha parte pensar assim, mas sentia como se Louis dissesse que não precisava de minha ajuda. Que não precisava de mim. Mas poderia ao menos repreendê-lo, como fazia com os pacientes de Hondurágua que se mostravam resistentes ao tratamento. --- E não vai adiantar se você continuar se movimentando e mexendo com a ferida. --- ri um pouco de sua teimosia. Se eu fosse seu médico ele certamente já estaria amarrado em uma maca. --- O recomendado seria que não desempenhasse suas atividades por uma quinzena, pelo menos --- frisei, revirando os olhos em seguida --- mas sabemos que isso não vai acontecer. --- Deixei o ferimento de lado assim que o ouvi puxar o ar, como se algo o estivesse machucando. Ele havia se sacrificado por muitos naquele dia e não iria torturá-lo com minhas inspeções. --- Ela em breve começará a cicatrizar. Se você permitir, é claro. --- Será que as pessoas só queria o seu bem? Talvez não todas, claro, mas eu queria. Era quase como se os machucados do guarda estivessem em minha própria carne. Eu tinha de me afastar para que a dor não se intensificasse. --- Fizeram um bom trabalho na enfermaria, mas os médicos – digo com segurança – contam com a colaboração de seus pacientes. --- Deixei de acrescentar que ele era um péssimo paciente; ele devia saber.
Não pude deixar de me surpreender com o sorriso de Louis; era como se eu estivesse vendo-o pela primeira vez, como se ele tivesse deixado cair sua armadura impenetrável. Uma pena que o momento tenha passado tão rápido que quase duvidei se, de fato, havia acontecido, pois ele logo abandonou o sorriso, o substituindo por sua expressão usual. Percebi que queria ver mais vezes aquele sorriso, e me esforçaria para obtê-lo, por mais que fosse errado permanecer por mais tempo na presença do guarda. Eu não podia sequer ser sua amiga, já que nunca o veria como tal. Seria uma relação fadada ao fracasso, então, tinha de me contentar apenas em ser sua conhecida. Mas até mesmo isso estava me custando muito, pois eu tendia a interpretar de maneira errônea cada palavra que saía de sua boca.
“Eles te machucaram?”, perguntou o moreno, de repente, o que me obrigou a encarar seus olhos, apenas para me certificar que a preocupação era genuína; que ele se importava com o meu bem estar --- e não do jeito que um guarda qualquer do palácio se importaria, mas de uma forma real ---, contudo seu olhar não deixava transparecer qualquer resquício de sentimento. Era o melhor. Seria doloroso se eu percebesse que ele estava fazendo aquela pergunta porque esteve preocupado comigo durante o ataque. Não queria pensar na possibilidade de que, enquanto lutava contra rebeldes, Louis se perguntava se eu estava segura. Ao mesmo tempo, era exatamente isso que eu desejava, à minha maneira masoquista de ver o mundo. Talvez por constatar que ele não queria saber aquilo só porque era responsável por minha segurança, respondi da maneira mais sincera que pude. --- Não tanto quanto você. --- meu tom era baixo, mas era como se eu estivesse gritando as palavras, e não precisava de maiores explicações para que ele entendesse, eu esperava. Muito mais que os ferimentos superficiais causados pelos rebeldes, as palavras de Louis ditas naquela noite em seu quarto me faziam agonizar por dentro. E, não sabia por que, mas eu tinha de dizer para alguém, e só ele poderia ser essa pessoa. Nem mesmo Bridget sabia sobre isso ainda, por mais que ela fosse seguramente a pessoa que eu mais confiava em Angeles.
Constatei que Louis não afastara sua mão, mesmo tendo todos os motivos para fazê-lo. Assim como eu, ele queria mantê-la ali, seus dedos quase que entrelaçados aos meus --- mais um pensamento masoquista de minha parte, mas eu os tinha com frequência em sua presença. --- Então do que precisava, exatamente? --- perguntei, reproduzindo suas palavras. Realmente estava intrigada; necessitava saber quais eram seus motivos antes que enlouquecesse. Era como se o moreno me afastasse, para então puxar novamente sem maiores justificativas; e eu estava vivendo por estes momentos. Concordei com a cabeça quando ele disse que aquele não seria o último tiro que levaria, cerrando os lábios antes que dissesse que não era esse o meu desejo. Louis não era tão mais velho que eu, se se considerasse sua aparência, mas parecia ter um senso de responsabilidade que exigia uma maturidade que eu não tinha. Ainda assim, não me sentia confortável ao pensar que em algum momento ele poderia ser atingido por um tiro e... Nunca mais se levantar. No entanto, não podia dizer a ele que não queria que fizesse aquilo; não dizia respeito a mim. Minha opinião era irrelevante; ele mesmo ressaltaria se eu ousasse fazer qualquer observação acerca disto.
Não estava preparada para suas palavras seguintes. Era mais um daqueles momentos em que ele puxava, me fazendo crer que tudo o que dizia de forma rude não passava de fingimento. Fiquei boquiaberta por um momento, até que ele colocasse sua mão debaixo de meu queixo, exigindo que o encarasse. Pela primeira vez naquele dia me preocupei com os machucados que cobriam meu rosto, em parte por vaidade, porque ele estava olhando fixamente para eles e eu não podia fazer nada para escondê-los; noutro tanto, porque eles estavam dando motivos para que Louis se preocupasse comigo, e esse não era o objetivo. A culpa era inteiramente minha se os rebeldes haviam provocado aqueles ferimentos. Eu havia escolhido por aquilo momento em que decidi afrontá-los. --- Não cabe a você essa responsabilidade. --- falei séria, encarando-o de baixo, já que sua altura era muito superior a minha. Ocorre que eu não me importava realmente com o fato de ele parecer superior, por mais estranho que isso pudesse parecer. --- Eu te libero da sua promessa. --- respirava com dificuldade, em razão da proximidade. Era como se Louis subtraísse todo o ar para ele mesmo, o que chegava a ser doloroso, se não fosse tão bom. --- Já disse, mas posso relembrá-lo: não preciso de nada da sua parte. --- Juntei todos os resquícios de forças que me restavam para proferir estas palavras. Conversar com o guarda me esgotava mais do que lutar contra uma turba de rebeldes.