havia uma doçura na maneira de dylan agir que muitas vezes faziam as pessoas pensassem poder se aproveitar de sua boa disposição. os pais certamente pensaram isto - quando nasceu, sua melhor aposta para mudarem de vida , ele percebeu não ser mais que um acessório para compensar o existir miserável da família . não havia espaço para ele em seu próprio mundo , até que mais tarde ele esculpiu seu lugar com trabalho duro e a inteligência nunca rivalizada. ser um grande mestre de xadrez significava muitas viagens para diferentes torneios , mas uma situação financeira estável , do qual os pais não podiam tirar vantagem como pensavam - como todos pensavam - pois tinha podado suas mais fúteis esperanças de viver as custas dele. alguns diriam que era egoísta , não cuidar dos dois mas a verdade é que eles nunca cuidaram de si , e não lhes devia nada . quando o pai levantava a mão , o garoto apenas pensava : um dia ele vai ser velho & fraco , vai agradecer porque você ligou. realmente, hoje sabia que esta era a verdade , por isso, não ligava .
stella, no entanto, não era uma dos muitos que achavam confortável abusar de seu temperamento ameno e bondoso. ela apenas tinha um fraco para péssimas decisões . era talvez patético que ainda atendesse as ligações no meio da noite, em seus poucos finais de semana de folga ? sim ! mas o que mais poderia fazer ? a abandonar para sua má sorte ? percebeu quando chegou na casa enorme que ainda parecia não conter todos os presentes, enquanto ela gritava com algum homem terrivelmente rude que a chamou de nomes horríveis, que jamais poderia não atender o telefone , não entrar no carro as primeiras horas da manhã e ir ao seu resgate . não era um complexo de herói, era apenas o que devia fazer por uma amiga , e ela era a mais querida de todas . sabia que se pudesse, a outra faria o mesmo por si , mas o máximo de interações sociais que ele participava era a ocasional degustação de vinhos com os amigos do xadrez, e as partidas no parque com os idosos que não sabiam que jamais poderiam o vencer, e apostavam quase as aposentadoria toda para tentar.
⸻ ❛ sim, ainda estou aqui. ❜ tentou não se deixar abalar pelo seu tom, a mulher não fazia por mal - provavelmente só estava envergonhada & de ressaca. ⸻ ❛ sua geladeira 'tava quase vazia , fiz o melhor que pude. ❜ ele disse com um sorriso terno enquanto ia atrás dos pratos para colocar os ovos mexidos com bacon . ⸻ ❛ tudo bem, eu não tinha nem dormido ainda. ❜ essa parte era verdade. com os anos de insônia , aprendeu que se tornava mais alerta a noite, e reservava algumas , sem os remédios , para praticar , ler, até mesmo jogar vídeo games. ⸻ ❛ você bebe cinco copos de que exatamente ? ❜ inquiriu de bom humor, deixando na bancada da cozinha a refeição modesta para ela. ⸻ ❛ quem era aquele cara de ontem ? infelizmente não pude defender sua honra , sabe que sou péssimo em brigas que não envolvam argumentos sólidos . ❜ outra verdade. foi o presidente do clube de debate na faculdade ! mas usar os punhos não era seu forte , sabendo que provavelmente levaria uma surra.
⸻ ❛ não me deve nada, ella. ❜ usou do apelido carinhoso , cruzando os braços e se sentindo um tanto derrotado . será que ela não sabia que cruzaria o deserto se fosse o que quisesse dele ? como podia alguém tão esperta e brilhante, ser tão cega a seus sentimentos ? ⸻ ❛ agora come, eu faço o chá. ❜ se ofereceu, indo para o fogão para assistir a água ferver. ⸻ ❛ sabe que pode contar comigo, não ? ❜ desta vez, sua pergunta foi tímida . em nada suas vidas se assemelhavam , e de forma alguma devia se apaixonar pela mais velha. mas parecia tarde demais para seu coração tolo.
stella era complicada. seus pais sempre lhe diziam isso, seus amigos diziam, seus professores, ex-namorados. era seu temperamento explosivo, sua forma de evadir quando não se sentia confortável, sua forma de não ligar para os outros; de tanto que doou a si mesma em troca de nada, nem mesmo as migalhas de atenção que queria ter em sua infância. ela era complicada? porra, sua mãe era uma prostituta não remunerada e seu pai um golpista ━ e ainda tinha o irmão mais velho burro como uma porta! ao menos, essa era sua visão do mundo, pois ela nunca teve nada mais que isso. ela sabia que merecia mais do mundo, mas o mundo era capaz de lhe dar algo mais que aquilo? e era onde dylan entrava. ele era a exceção de muita coisa e justamente quando ele lhe mostrava que ela merecia mais, stella evadia… fala sério; quantas vezes ela ligou para ele pedindo ajuda por tomar más decisões? e ele voltava. as vezes ela sentia vontade de gritar na cara do rapaz para ele ir embora antes que ela o destruísse. para sobreviver a toda essa insanidade era mais fácil colocar a máscara de que era maior que isso, que todos eles. ela definitivamente não dormiu com várias pessoas, como sua mãe, ou roubou alguns babacas idiotas, como seu pai. não… ela era melhor que isso. sua cabeça latejava tanto com a voz ecoando em sua mente ‘ele ainda está aqui’ quase um mantra. olhou para o café da manhã, só agora se tocando que o cheiro bom vinha de sua cozinha miserável e não de algum vizinho. “ ah, merda…” sussurrou. ela tinha vomitado nos sapatos dele um dia, mas ele ainda estava ali lhe preparando café da manhã sem esperar nada em troca. isso não acontecia nem com os idiotas que um dia chamou de namorados, mesmo que estes lhe prometessem o mundo apenas para foder. “ você deveria ir no médico ver essa sua insônia. ” o tom era casual, mas nas entrelinhas havia a preocupação, pois ela prestava atenção nele. riu com a pergunta, dando de ombros. “ é mais fácil dizer o que não bebo. água. ” brincou, aproveitando o momento para encher um copo com água da pia e bebendo em um gole que deveria ser rápido, mas ele tinha feito a maldita pergunta… quem era aquele cara? fingiu desatenção, olhando em volta enquanto segurava aquele gole de água como se estivesse bebendo os sete mares de canudo. era pior se não respondesse. “ meu ex. e não se preocupa com a minha honra… eu furei os quatro pneus do carro dele ontem. e provavelmente risquei a porta do motorista. ” ela jamais pediria para dylan cair no braço com aquele brutamontes. tentou parecer o mais tranquila possível. não sabia se seria uma boa ideia entrar em detalhes daquela briga idiota. era o clássico: ele queria uma nova chance e ela ainda não tinha esquecido da imagem da amiga dela pagando um boquete pra ele debaixo d’água. a vaca era talentosa, precisava admitir. havia algo na forma que ele pronunciava seu apelido, de um jeito tão dele que ela se derretia e quase pensava que a barbie falava a verdade sobre príncipes encantados. “ certo, só porque eu ainda ‘to um zumbi. ” se inclinou para deixar um beijo na bochecha do rapaz, indo se sentar na banqueta, começando a comer. há quanto tempo não comia algo que não tivesse sido feito por suas mãos apocalípticas. sorriu com a pergunta dele. ela sabia. claro que sabia. “ eu liguei pra você ontem, não foi? ” em seu pior estado pensou nele, sabendo que ele seria o único a ajudá-la sem esperar algo em troca. “ e você pode me ligar também. ” havia algo ali, naquela manhã, que ela não sabia explicar… mas era aquilo que esperava de um homem. não o café da manhã, mas aquela sensação de confiança de que dylan não iria quebrar seu coração. bom… conhecendo a si era mais fácil ela quebrar o coração dele. sua expressão suavizou de felicidade para algo morno e ela abaixou a cabeça para mais uma garfada do café. “ está de folga hoje ou estou te atrasando? ” puxou um assunto qualquer. “ quer fazer algo hoje? eu só preciso de comprimidos pra dor de cabeça e o chá pra estar nova em folha… e talvez óculos escuros. ” a claridade ainda parecia um crime para sua ressaca.














