Era ainda criança quando espetou –se num espinho de uma rosa vermelha. Seu susto fora grande, primeiramente por se perguntar como algo tão belo poderia machucar; E em segundo lugar, uma observação quase instantânea de quão curioso era o espinho fazer sair dela a mesma cor da rosa vermelha! Antes mesmo de concluir seu pensamento, sua mãe fora acudi-la. Explicou a ela que era sangue, que tinha que tomar cuidado pois as rosas tinham espinhos e, embora fossem belas, também tinham o direito de se defender daqueles que queriam fazer mal, mal à sua beleza tão delicada. Alessandra nunca tinha visto sangue antes, e com a explicação da mãe sobre os espinhos das rosas, sua primeira dúvida sanada ainda não saciara sua curiosidade quanto a harmonia da cor e, ao ressaltar este pensamento à mãe, ela ouviu uma risada que apenas disse ´´ tens enorme imaginação, criança! É apenas uma rosa vermelha, e por coincidência o sangue de todos nós também corre nesta cor, não é nada de tão sensacional, saia do mundo da lua!``.Esta informação ao mesmo tempo que explicou também incomodou, como sua observação era imaginária se ela vira com seus próprios olhos? E por isto, zangou-se.
Já estava na puberdade quando, mesmo sendo a aluna mais desinteressada da classe, interessou-se imediatamente na matéria de biologia, mais especificamente quando percebeu que estava prestes a sanar aquela ideia fixa, de que aquele momento fora mágico, ao ouvir a professora dizer com naturalidade ´´ iremos estudar sobre circulação sanguínea`. A professora começou toda a explicação partindo do coração, romântica e ingênua como era, sofreu chacota quando salientou empolgada que o coração tinha a mesma cor da rosa vermelha de seu quintal (que durava até então, sendo regada exclusivamente por ela e ,sempre admirada por minutos que estranhavam à sua mãe) que também tinha a mesma cor do sangue. Para não deixá-la ainda mais excluída da turma, não apenas por ser diferente, mas também por sempre se isolar num mundo só dela, a professora fez um paralelo com a literatura que valeu cada urro daquelas vaias : A professora explicou que na literatura lírica, o vermelho era cor do amor, da paixão, por isso, na literatura o sangue era sempre representante da vida, sem ele não viveríamos, portanto era uma homenagem muito grande quando seu grande amor lhe dava uma rosa vermelha, pois ele estava lhe dando a própria vida, então neste sentido, podia-se fazer alusão da paixão com a vida, dado que a paixão era o que nos impulsionava fazer tudo em nossa vida, desde os relacionamentos até nossos sonhos... A turma estupefata se calou, os zombadores perderam o sorriso, mas Alessandra naquele momento, vivera seu segundo momento mágico, só que agora não poderia ser mais taxado de imaginário, era real, o significado era real, era concreto e ela podia provar.
Foi crescendo com a obsessão sobre a circulação sanguínea, sobre as rosas vermelhas, que a este ponto inundavam o jardim da casa de sua mãe, agora falecida. No entanto diante de todos estudos chegou um momento em que teve de decidir: E agora? O que faria da vida? Os estudos convencionais já haviam passado, e não por coincidência, suas notas em português, biologia e artes se destacavam diante de todas as outras notas quase vermelhas, mas ela não se importava, era aquilo que ela queria, que a sua paixão fosse acentuada.
Este dia narrado acima, também fora fatídico: Seu pai estava morto, o único que restava em sua família. Era um corte acidental feito com a faca da cozinha, ao cortar carne para o almoço, e como estava sozinho, não fora atendido no momento correto. Alessandra tentou chamar ambulância, levou ao hospital mas nada adiantou, e explodiu os olhos em lágrimas. Agora não tinha ninguém, não conhecia outros membros da família, ficara com uma herança gorda que nada lhe importava, ela já não tinha ninguém que pudesse entender seu mundo, agora estava à margem deste, sem chances de volta. Contudo o que mais lhe enfureceu foi ver a traição que sofrera, afinal onde estava o sangue da paixão? O sangue da vida? O vermelho das rosas? Por que saiu de seu pai os sonhos e paixões por uma casualidade tão pífia? Ali tomou uma decisão instantânea: Já sabia qual caminho deveria seguir.
Aos 20 anos Alessandra entra na faculdade de medicina, aos 25 se formou como clínica geral, aos 35 como cardiologista, e o motivo não poderia ser mais óbvio: Não deixaria ela, alguém perder a vida, em especial seus sonhos, suas paixões, suas rosas interiores, por causalidades que não poderiam ser explicadas de forma científica e concreta. Aos 45 já estava cansada, cansada de todo lirismo, cansada de perder tantos pacientes, cansada de todo romantismo, cansada de ficar sozinha, cansada de tudo que a levara até ali e, embora racional, sua característica impulsiva a precedia: e foi aí onde tudo começou, quando retirou seu jaleco, deixou seus materiais a míngua assim como seu dinheiro por direito.
Aquela obsessão pela paixão unida aquelas rosas vermelhas, que já não davam espaço para nenhum ser humano entrar dentre elas, pelo sangue que via todos os dias, não podia continuar, era demais, ela sabia que era demais, por isso não explicitava, pois a primeira vez que explicitou para sua secretária, novamente, o deboche, as risadas, das quais ela não mais se prontificaria a receber. Sua raiva fora tanta neste dia, que demitiu sua secretária sem qualquer motivo, mesmo assim injustamente, por justa causa, assinando um termo de que a secretária reiteradamente usava de deboche com os pacientes, o que evidentemente não era verdade, apenas conveniente.
Em sua casa a fúria lhe tomou, não quis saber dos espinhos, se emaranhou dentre as rosas, se rasgou inteira, destruiu todas as pétalas vermelhas sem ver que estava colocando-se em risco, era para ela um absurdo muito grande dedicar toda sua vida solitária para combater algo que jamais findaria, sabendo ela que todos um dia morreriam e pior, sabendo que este tal sangue cheio de flores, sonhos e paixões nada mais passaria a ser que ossos, brancos, nulos, fétidos, sem qualquer poesia, sem qualquer explicação, indiferente, sem paixões, o verdadeiro significado de tudo que era branco: O limbo dos excessos de cores, que do tudo (vida) se tornava nada (morte). Quando percebeu que estava excessivamente machucada, logo se socorreu, pois apesar de muitas, eram feridas superficiais, que uma médica a nível de Alessandra, cuidaria sem quaisquer problemas. O que realmente lhe despedaçou foi lembrar do que sua mãe lhe disse um dia, de que era um meio de defesa para não atacarem a delicadeza da flor, e ela naquele momento, em sua antagônica paixão, deixou escapar a fúria, fez com que elas tentassem, inutilmente, defender-se, de sua própria criadora. Chorou, chorou e chorou, entrou em desespero, não eram apenas rosas destruídas, era o trabalho de plantio duma vida inteira, que iniciara com sua falecida mãe!
Passados dias, se dopando com morfina, caindo pelos cantos da casa, num momento de sobriedade, disse chega! Ela tinha que fazer algo, pois a obsessão não findava, e para esquecer se drogava, aproveitando da sua condição de médica, mesmo que não em exercício.
Num momento de sobriedade percebeu que precisava ir muito mais a fundo para descobrir onde nascera sua obsessão e não, não era um analista que descobriria isso, não, não era possível uma obsessão ter nascido de uma situação tão casual na infância, não, não era possível uma obsessão ter nascido em seu exercício de médica ou em suas notas altas no que lhe interessava. Então começou a investigar-se, desde fotos, a escritos, tudo que tinha em sua casa fora revirado e nada, dias passavam e nada, parecia algo inexplicável, e ela, em sua concreta paixão, jamais aceitaria subsídios de seu inconsciente não acessível.
Num dia decisivo, quando já iria desistir de todas suas buscas para se entregar aos vícios, achou debaixo do colchão de sua falecida mãe seu relatório de nascimento, não era uma certidão, era literalmente um relatório afirmando que Alessandra nascera com um coágulo no cérebro e que isto poderia desenvolver alguns quadros psiquiátricos como picos de psicose. Ela nunca soube disse, nunca fora alertada, vivia fora da realidade por completo, à margem, e tudo porque sua mãe lhe negara a verdade, viveu uma vida de obsessão graças à omissão de sua mãe, ela, Alessandra não passava de uma doente, que duma forma inexplicável, tinha um corpo que tentou lhe avisar tantas e tantas vezes insistentemente.
Agora era hora de tirar a prova, sua fúria de anos perdidos precisava duma resposta real, que coubesse em suas mãos.Consultou-se num neurologista que após exame disse a ela que apenas parte do coágulo poderia ser retirado, mas que por sorte, ele teria misteriosamente se movido a uma parte onde era possível fazer tal cirurgia, que não reverteria os danos, mas tiraria sim o coágulo, e por isto mesmo o médico não entendeu quando ela insistentemente pediu para que a cirurgia fosse feita, se nada mudaria em sua condição de doença, em sua vida. No entanto era direito, como paciente, de pedir aquela retirada. E depois de tudo isso aproveitou-se novamente da sua condição de médica e disse ´´ sou cardiologista, gostaria de saber se vocês poderiam retirar o coágulo e congelá-lo para que eu pudesse levar para casa, já que convivi tanto tampo com ele e sequer sabia de sua existência`, apesar do estranhíssimo pedido, ele não teria nenhum problema em realizá-lo.
O dia chegou, em resumo, a cirurgia foi feita, o pote com seu coágulo congelado em suas mãos despertou um sorriso maníaco e sincero em Alessandra. Como uma bruxa, há muito tempo tentava reunir seus ingredientes: o início de sua obsessão, o objeto da obsessão, o motivo lírico, a relação existencial da própria vida...
Com os anos em um freezer, Alessandra sempre observando a situação do coágulo, surgiu-lhe um insight que a permitiu não dar um motivo, mas um final para aquela insanidade. Chamou um técnico, pediu que tirasse todas as rosas e todas suas raízes, que deixasse a terra revirada, o mais pura possível, e assim foi feito.
Era manhã de sol, quando descongelou seu coágulo apenas o suficiente para carregá-lo até seu jardim, chegando lá abriu um buraco, pequeno mas suficiente para plantio, ali o plantou, ali o aterrou e pôde, de alguma maneira, senti-lo explodir junto às batidas de seu coração, sentiu alívio, sentiu que havia enterrado seu passado e que poderia seguir em frente agora, se tratando, vivendo propriamente. Mas algumas coisas estranhas começaram acontecer, ela via pessoas, ficou tonta, caiu na terra, ainda sorrindo. Alessandra estava morta, causa: parada cardíaca.
Desalentador era saber que seu sonho era sua destruição, que as batidas que a mantinham viva eram as mesmas que poderiam matar-lhe, que sua paixão era outra face de sua fúria, que suas rosas nem sempre conseguiriam defender-se com os espinhos. Era trágico perceber que a sua leitura deixara de ser lírica, passara a ser racional demais, concreta demais para justificar a razão de ser. Era, indubitavelmente inexpressiva a injustiça de morrer para que tivesse vida, de viver no círculo de sangue, que por pouco, lhe negaria a existência de nascer.
Alessandra, Alessandra, por que naquele dia, conhecer a imaginação; Alessandra, Alessandra por que subordinar sua idealização ao limite real e indiscreto; Alessandra, Alessandra por qual motivo enfiara uma faca em suas costas ao saltar no abismo marginalizado do concreto? É Alessandra, seu decreto era seu atestado de óbito na sua certidão de nascimento.
MorganaDeAvalon