preterimento do afeto - ou as escolhas que fazemos para sobreviver
Mesmo com o fortalecimento das identidades raciais negras, pretos, pretas e pretes continuam lidando com o sentimento de insuficiência em todos os âmbitos do viver, inclusive no campo afetivo (VIANA, 2019). A solidão afetiva dessas corpas não está restrita apenas às relações românticas, do tipo namoro e casamento; ela ultrapassa relações privadas e entra em um campo mais aberto: político, social e cultural.
Historicamente, o Brasil foi um dos países que mais recebeu pessoas africanas, sendo um dos mais negros fora do continente africano e o último a abolir o sistema escravocrata no mundo (DA SILVA; DA SILVA, 2021). Em seu livro, “Outlaw culture: Resisting representations”, bell hooks (2006) chama atenção sobre como a prática de separação das famílias negras, no período da escravidão, acabou forçando uma configuração de afeto bem particular nessas famílias:
“Num contexto onde os negros nunca podiam prever quanto tempo estariam juntos, que forma o amor tomaria? Praticar o amor nesse contexto poderia tornar uma pessoa vulnerável a um sofrimento insuportável. De forma geral, era mais fácil para os escravos se envolverem emocionalmente, sabendo que essas relações seriam transitórias. A escravidão criou no povo negro uma noção de intimidade ligada ao sentido prático de sua realidade. Um escravo que não fosse capaz de reprimir ou conter suas emoções, talvez não conseguisse sobreviver.” (hooks, 2010)
Em “Tudo sobre o amor: novas perspectivas”, hooks relaciona a teoria do amor com os principais problemas da sociedade e enfatiza a importância de seu entendimento como ação política e prática da liberdade (hooks, 2020). Segundo a autora, a cultura da dominação que existe no mundo há muitos anos é anti-amor, e enquanto nos recusarmos a abordar plenamente o lugar do amor nas lutas por libertação, não seremos capazes de criar uma cultura de conversão na qual haja um coletivo afastando-se de uma ética de dominação.
“Sem uma ética do amor moldando a direção de nossa visão política e nossas aspirações radicais, muitas vezes somos seduzidas/os, de uma maneira ou de outra, para dentro de sistemas de dominação — imperialismo, sexismo, racismo, classismo” (hooks, 2006).
As escolhas afetivas entre todas as pessoas, independente de gênero, raça ou classe, movem-se no contexto social em que são estruturadas, por fatores culturais e históricos. Para Geertz (1989), a cultura é construída por diversos “mecanismos de controle” os quais também governam seus atos e suas experiências emocionais:
“Nesta abordagem, a preferência afetiva está condicionada por um conjunto de dispositivos duráveis (habitus) que tem haver com a cor, com o sexo, com a geração, com a classe, etc. Estes dispositivos são interiorizados pelos indivíduos ao longo de suas histórias e exteriorizados e rearranjados de acordo com o espaço social em que estes estão inseridos. Sendo assim, os indivíduos fazem escolhas já condicionadas pela sua cultura que depende, também, do jogo de interesses (e das estratégias) dos agentes posicionados no determinado campo social, assim, como depende do grau de investimento dos vários tipos de capitais.” (Bourdieu, 1996)
Através da afetividade, pode-se desvendar como determinados códigos culturais expressam diferenças sociais historicamente construídas, incluindo desigualdades de gênero e raça expressas, também, sob a forma de sentimentos (PACHECO, 2003). A repressão dos sentimentos se constituiu como estratégia de sobrevivência do povo negro durante o período de escravidão e, por isso, falar sobre as relações afetivas entre pessoas pretas, sejam elas pais, filhas, irmãs, namoradas, ou até sobre auto afeto, passa por entender a solidão da mulher e a masculinidade imposta aos homens, os estigmas, estereótipos e muitos outros atravessamentos sofridos no passado e presente (BUENO; CESAR, 2016).
No livro “Pele negra, máscaras brancas”, Frantz Fanon (2020) discorre sobre a experiência vivida do negro e nos alerta sobre como, em nossa sociedade, é preciso parecer branco para ter um mínimo de reconhecimento, pois o branco está sempre se referenciando. Espera-se, portanto, que o amor e as formas de amar ideais sejam aquelas narradas e vividas por pessoas brancas.
É preciso produzir afeto, autocuidado e carinho, por pretes e para pretes, derrubando, como Silvio Almeida (2019) aponta em seu livro “Racismo Estrutural”, o imaginário social que construiu e determinou o lugar do negro na sociedade, até no que diz respeito às suas relações interpessoais, e escancarando o afeto preto, que é diferente do branco, mostrando que ele existe, é real, e também pode ser lindo.
Que nossas histórias sejam de luta, de enfrentamento, de aprendizado, mas também, e principalmente, repletas de amor.
ALMEIDA, Silvio. Racismo estrutural. Pólen Produção Editorial LTDA, 2019.
BUENO, Winnie; CÉSAR, Caio. A Consciência Negra pressupõe auto-amor. Auto-amor pressupõe refletir sobre preterimentos afetivos. 2016. Publicada em Portal Geledés. Disponível em: https://www.geledes.org.br/consciencia-negra-pressupoe-auto-amor-auto-amor-pressupoe-refletir-sobre-preterimentos-afetivos/. Acesso em: 30 maio 2021.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução Raquel Camargo, Sebastião Nascimento, São Paulo: Ubu, 320 p, 2020.
hooks, bell. Love as the practice of freedom. Outlaw culture, Resisting Representations. Nova Iorque: Routledge, p. 243–250, 2006.
hooks, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas; tradução Stephanie Borges. São Paulo: Elefante, 272 P, 2020.
VIANA, Matheus Da Rocha. Decolonizando afetos: A presença do colonialismo na construção de afetos da população negra e a decolonialidade do ser. Revista Eletronica Gestão & Saúde, v. 5, n. 1, p. 69-84. 2019
PACHECO, Ana Cláudia Lemos. Raça, gênero e escolhas afetivas: uma abordagem preliminar sobre a solidão entre mulheres negras na Bahia. Tematicas, v. 11, n. 21/22, 2003.
HOOKS, Bell. Vivendo de amor. O livro da saúde das mulheres negras: nossos passos vêm de longe, v. 2, p. 188-198, 2010.
DA SILVA, Ana Carla de Moraes; DA SILVA, Beatriz Araújo. Educação, Artes e os Saberes Ancestrais no combate ao racismo: afetos, memórias e resistências. Filosofia e Educação, v. 13, n. 1, 2021.
BOURDIEU, Pierre. Razões práticas: sobre a teoria da ação. Papirus Editora, 1996.
GEERTZ, Cliford. A Interpretação das Culturas, Rio de Janeiro: LTC, 1989.