Pagú - musa da antropofagia
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Pagú - musa da antropofagia
Mas, como todo artista, sou uma esponja, assimilo, chego no palco e boto pra fora. Foi isso que aconteceu no panorama cultural daquele período. Depois, não melhoramos muito. Saímos desses anos negros para cair numa cilada perversa de causar danos iguais ou maiores. Como eleger aquela quadrilha que nos deseducou, desnorteou e tirou tudo do lugar.
Maria Bethânia sobre a afirmação de que não mistura arte e política e a sua participação no Opinião, em entrevista à Playboy em 1996. Disponível em: http://www.mariabethania.com/mlp.php?ID=169
MARIA BETHÂNIA, musa do Brasil
Maria Bethânia nasceu na Bahia em junho de 1946. Seu nome, hoje tão simbólico para o povo brasileiro, foi escolhido por seu irmão Caetano Veloso, na época com apenas quatro anos. Maria e Caetano são apenas dois dos sete filhos de Dona Claudionor Vianna Telles Velloso (Dona Canô) e Senhor José Telles Velloso (Sr. Zezinho ou Zeca), mas o talento dos dois foi mais do que suficiente para cantar e encantar o Brasil.
Em 1960 a família se muda de Santo Amaro para Salvador. Assim, em 1963, Caetano foi chamado para musicar a peça Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues e Maria Bethânia subiu ao palco pela primeira vez para cantar. No mesmo ano os irmãos conheceram Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé e outras grandes personalidades, e com eles participaram da montagem de espetáculos, como o famoso Nova Bossa Velha, Velha Bossa Nova e Mora na Filosofia, em 1964.
Em fevereiro de 1965, Maria Bethânia chega ao Rio de Janeiro para substituir Nara Leão no espetáculo Show Opinião, já que esta teria que se afastar por problemas de saúde. Assim, Maria ficou marcada como voz da canção de protesto, imortalizada por sua interpretação de Carcará, de João do Vale, que marcou a estreia da cantora em nível nacional.
A partir daí, o sucesso da filha de Dona Canô não tinha mais volta. Em 1966, ela participa do musical Arena Canta Bahia, também dirigido por Augusto Boal, em que divide a cena com Gal Costa, Gilberto Gil, Tom Zé e seu irmão Caetano.
Assim, Maria Bethânia se consagrou como musa da música popular brasileira, gravando discos e participando de shows desde o final da década de 1960 até hoje. Atualmente, a cantora possui mais de 30 discos lançados e inúmeros shows em seu currículo e ainda é considerada uma das mulheres mais talentosas do país.
Carcará é um pássaro feio, forte, violento, que tem o pode de carregar uma águia mesmo. E o autor da música, João do Vale, é um cara intuitivo, estávamos numa ditadura em 1965, ele sabia que a música ia ser usada no espetáculo do grupo do Teatro Opinião contra a maldade e o poder dos militares. Era também a força do nordestino , do homem brasileiro dizendo "sai de baixo que eu também sou carcará".
Maria Bethânia em entrevista à Playboy em 1996. Disponível em: http://www.mariabethania.com/mlp.php?ID=169
Bethânia sob o olhar de Carlos (Cacá) Diegues
"O sol seco que ilumina o chão do Brasil"
Quando Maria Bethânia chegou ao Rio de Janeiro para substituir Nara Leão no legendário show "Opinião", duas canções marcaram a diferença de seu canto, serviram de senha para levar o público a compreender que estava diante de um valor novo, de uma força muito original. Se não me engano, era logo no início do espetáculo que ela cantava "É de Manhã", de Caetano Veloso, uma espécie de paradoxal berceuse épica que abria numa pista falsa de malemolência boêmia e fechava com uma invocação, uma metáfora barroca do amor que faz nascer todos os dias do mundo. Mais adiante, no clímax do famoso show, ela fazia o público se crispar e depois delirar de excitação, como num orgasmo que sucede à tensão, quando cantava "Carcará", de João do Vale. Essa canção, que a interpretação fina, inteligente e elegante de Nara havia transformado numa espécie de hino da resistência à ditadura, relacionando-a a uma situação social que inflamava a revolta dos justos, transformava-se, na voz, no corpo e nos gestos de Bethânia, numa misteriosa força vital que não tinha sido inspirada e nem dependia apenas dos embates políticos de um momento, fossem eles travados no Rio de Janeiro da velha Ipanema ou na miséria pungente do sertão nordestino, mas que nos atirava a todos numa outra dimensão, às vezes inconsciente, da vida e de sua representação no mundo. Tudo será sempre um começo, a luta continua sempre. Assim como se ela estivesse a nos dizer que havia, por trás das circunstâncias de nosso tempo e além delas, um outro e permanente desconforto a ser vencido, uma tensão entre o mundo e o espírito, a qual tínhamos o dever de enfrentar com a mesma e sagrada disposição, em direção ao êxtase. Como naquelas duas canções, dessa relação entre tensão e êxtase, Bethânia fez a qualidade de seu canto.
As melhores cantoras deste país, suas melhores contemporâneas, cantaram com a cabeça, com a garganta, com o estômago, e muitas delas fizeram, de seu modo de cantar, uma maravilha que ajudou a instalar a música popular brasileira, com seus extraordinários compositores, cantores e músicos, no lugar nobre que lhe está assegurado na história da arte deste século 20. Mas Bethânia, abelha rainha, canta basicamente com todo o fluxo de sangue que corre pelas veias de seu corpo, fonte de energia de cor de Iansã. São rios sanguíneos de paixão e ira, romance e revolta, doçura e dureza, nascidos da melhor tradição do Brasil profundo, um Brasil gentil e barroco, cheio de violência e espírito, que ainda não aprendemos a compreender. Como em Orlando Silva, de quem, por um viés diferente do de João Gilberto, ela é a melhor herdeira em nossa música popular, Bethânia promove e pratica um projeto de encontro, sempre sonhado pelos nossos melhores artistas de todas as artes, entre aquele Brasil profundo e o nosso implacável desejo de futuro, fazendo conviver, no mesmo canto, rigor e pranto, pastoril e rock'n'roll, vanguarda e multidão. Me perdoem o confessional inoportuno, mas eu não consigo deixar de chorar, sempre que a ouço cantar "Tupã, Deus do Brasil", de Villa Lobos. Maria Bethânia é uma estrela. Não apenas no sentido convencional, como metáfora de um corpo celeste distante de nós, um astro que possui luz própria e fulgurante. Mas, como uma estrela, ela é sobretudo fonte de energia, uma energia que ilumina generosamente toda a galáxia em que vive. Ou, muito simplesmente, uma rainha do Brasil.
Texto disponível em: http://www.mariabethania.com/mlp.php?ID=86
TEATRO e OPINIÃO
Grupo de estudos em Dramaturgia e Crítica Teatral (GDCT)
O Grupo de estudos em Dramaturgia e Crítica Teatral (GDCT) congrega estudantes de graduação em Letras do Departamento de Teoria Literária e Literaturas e do programa de Pós-graduação em Literatura da Universidade de Brasília com o objetivo de estudar a dramaturgia brasileira. Em 2006, o grupo iniciou pesquisa sobre a publicação de peças teatrais contemporâneas (1958-2006) com o intuito de mostrar como o mercado editorial pode e/ou tem contribuído para a formação da História do Teatro Brasileiro.
Além dos estudos teóricos, alguns alunos integram o Grupo Teatral Entrecenas, com a intenção de encenar peças teatrais ou adaptações de textos literários. A intenção é aliar teoria à prática teatral. Disponível em <http://etudoteatro.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=121&Itemid=53>.
Pagu foi pioneira ao abordar teatro de vanguarda no Brasil, forte influência para o teatro político da década de 60. Coluna Palcos e Atores sobre vanguarda - Suplemento A Tribuna, p. 7, 01 nov. 1959
Por que o teatro segurou a bronca e as outras manifestações artísticas sucumbiram, se desmantelaram durante o percurso?
Simplesmente porque o pessoal de teatro, alguns ligados a organizações de esquerda, tinha aquilo como missão, como instrumento de luta ideológica contra a ditadura.
O elenco era formado por Nara Leão (depois substituída por Maria Bethânia , João do Vale e Zé Kéti. Os atores-cantores intercalavam canções a narrações referentes à problemática social do país. O texto era assinado por Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes.
Desafio - Nara Leão e Zé Keti - Show Opinião. Disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=bYVwhzrWP8w>.
Liberdade, liberdade é um musical escrito por Millôr Fernandes e Flávio Rangel, em 1965, e que estreou no palco no mesmo ano. É um marco da história teatral do Brasil por ter sido o texto de maior sucesso do chamado teatro de protesto, conjunto de peças, na maior parte, musicais, que criticavam a repressão imposta pelo golpe militar de 1964. Liberdade, Liberdade recorre a textos de vários autores sobre o tema que dá a título a peça, entremeados por números musicais. Quatro atores interpretam 57 personagens e se revezam na interpretação de textos de Sócrates, Marco Antônio, Platão, Abraham Lincoln, Martin Luther King, Castro Alves, Anne Frank, Danton, Winston Churchill, Vinícius de Moraes, Cecília Meireles, Geraldo Vandré, Jesus Cristo, William Shakespeare, Moreira da Silva e Carlos Drummond de Andrade, entre outros. E também cantam 30 canções ligadas ao assunto. O tom varia do dramático ao cômico, do discurso político mais explícito ao lirismo da poesia. A versão original estreou num teatro improvisado no Rio de Janeiro, em 1965, no dia 21 de abril, Dia de Tiradentes, o Mártir da Independência. Com direção de Flávio Rangel e elenco era formado por Paulo Autran, Tereza Rachel, Nara Leão e Oduvaldo Vianna Filho, numa produção conjunta do Teatro Opinião e do Teatro de Arena de São Paulo. A repercussão nacional e internacional foi imediata. Até o New York Times registrou o sucesso do mais ambicioso dos espetáculos de protesto. O sucesso da peça repercute nos mais altos escalões governamentais. O presidente Castello Branco, em nota de 2 de junho de 1965, dirigida a seu sucessor Arthur da Costa e Silva, afirma que as ameaças (da peça) são de aterrorizar a liberdade de opinião. Carros de polícia postam-se ostensivamente diante dos teatros onde Liberdade, liberdade é apresentada. Sucedem-se ameaças de bombas nos locais onde o espetáculo é apresentado. Neste clima de medo, Millôr Fernandes lamenta: Triste país em que um cara como eu é perigoso. Em 1966, a Censura Federal proíbe a apresentação de Liberdade, liberdade em todo o território nacional.
Liberdade, Liberdade - Completo - Nara Leão e Paulo Autran. Disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=gqXvAJjRNmA>
Não prendam Nara Leão – uma mulher de opinião
A capixaba Nara Lofego Leão (19/01/1942 – 07/06/1989) é conhecida como a grande musa da bossa nova, considerada os joelhos mais belos, num ambiente predominante masculino, ela se destacava com sua voz suave e seu estilo delicado. Mas poucos sabem que a doce Nara Leão foi muito mais que belos joelhos e uma voz meiga.
Sua estreia profissional obviamente foi na bossa nova com comédia Pobre Menina Rica (1963) ao lado de Vinícius de Moraes e Carlos Lyra. Logo após, Nara causa grande espanto, ao participar do musical Opinião em 1964, ao lado do carioca Zé Keti e do maranhense João do Vale. Um espetáculo que repleto de críticas sociais em pleno golpe militar, que ocorreu no mesmo ano.
Este show foi um marco em nosso teatro político. Dirigido por Augusto Boal, produzido pelo Teatro de Arena e por integrantes do Centro Popular de Cultura da UNE, que na época estava na ilegalidade. Depoimentos biográficos, notícias de jornal, esquetes bem-humoradas se encaixam com dinamicidade num formato de musical inovador, que possuía canções de protesto que entraram pra história, como a emblemática canção de João do Vale, Carcará e a célebre canção-título Opinião, de Zé Keti. No show Nara representa a classe média engajada. A musa da bossa nova que surpreendeu a todos rompendo com o amor, o sorriso e a flor cantando sambas do morro, a labuta do sertanejo retirante.
Na sua apresentação inicial define seu papel, biográfico, neste espetáculo:
“Meu nome é Nara Lofego Leão. Nasci em Vitória, mas sempre vivi em Copacabana. Não acho que porque vivo em Copacabana só posso cantar determinado estilo de música. Mas é mais ou menos isso: Eu quero cantar toda música que ajude a gente a ser mais brasileiro. Que faça todo mundo querer ser mais livre. Que ensine a aceitar tudo, menos o que pode ser mudado!”
Nara Leão atuou apenas dois meses no Show Opinião, pois teve de se afastar porcausa de uma inflamação na garganta. Para não interromper o andamento do espetáculo, convidou Maria Bethânia para substituí-la. No entanto, a empreitada de Nara no teatro político não se encerrou aí. No ano seguinte, 1966, participa do também musical político Liberdade, Liberdade, de Milôr Fernandes, com Paulo Autran, Tereza Rachel e Oduvaldo Viana Filho. Nesta peça abordavam o papel da liberdade na sociedade, apelando para o humor, música, esquetes... para expor a extrema importância da liberdade em pleno Regime Militar.
Logo depois a música A Banda, de Chico Buarque ganhou II Festival de Música Popular Brasileira e Nara Leão como intérprete virou febre nacional, se afastando dos palcos políticos. Mas sem se afastar da política, sofrendo ameaças de prisão após dar entrevista no “Diário de Notícias”, em 1966, na qual defendia a saída dos militares do poder: “numa guerrilha moderna, o nosso exército não serviria para nada (...) “quem está mandando é que deveria ser cassado”. O título da matéria era: “Nara é de opinião: Esse Exército não vale nada”. Na ocasião, Carlos Drummond de Andrade fez um poema intitulado Não prendam Nara Leão.
Meu honrado marechal
Dirigente da nação
Venho fazer-lhe um apelo
Não prenda Nara Leão
Soube que a Guerra, por conta,
Lhe quer dar uma lição. Vai enquadrá-la
– esta é forte –
Artigo tal... não sei não
A menina disse coisas
De causar estremeção?
Pois a voz de uma garota
Abala a revolução?
Nara quis separar
O civil do capitão
Em nossa ordem social
Lançar desagregação?
Será que ela tem na fala,
Mais do que charme, canhão?
Ou pensam que, pelo nome,
Em vez de Nara, é leão?
Se o general Costa e Silva,
Já nosso meio-chefão
Tem pinta de boa praça,
Porque tal irritação?
Ou foi alguém que, do contra,
Quis criar amolação
A seu
Artur, inventando
Este caso sem razão?
Que disse a mocinha, enfim,
De inspirado pelo cão?
Que é pela paz e amor
E contra a destruição?
E, depois, se não há preso,
Político na ocasião,
Por que fazer da menina
Uma única exceção?
Ah, marechal, compre um disco
De Nara, tão doce, tão
Meigamente brasileira,
E remeta ao escalão;
Ao ouvir o que ela canta
E penetra o coração,
O que é música de embalo
Em meio a tanta aflição.
O gabinete zangado
Que fez um tarantantão,
Denunciando Narinha,
Mudava de opinião.
De música precisamos
Para pegar o rojão,
Para viver e sorrir,
Que não está mole não.
Nara é pássaro, sabia?
E nem adianta prisão
Para a voz que pelos ares,
Espalha sua canção.
Meu ilustre general,
Dirigente da nação,
Não deixe, nem de brinquedo,
Que prendam Nara Leão.
PAGÚ
PARTE IV: Pagu acha um dramaturgo perdido numa noite suja
Outro importante do nosso teatro político nome que gravitou na atmosfera Pagu, foi Plínio Marcos. Seu teatro é eminentemente político com acidez que conseguia penetrar e dilacerar nossas mazelas sociais, dilacerando as partes mais podres da nossa sociedade. Uma espécie de Genet brasileiro, quando percorre o universo marginal em sua dramaturgia. Sua peça de estreia já revela traços do seu teatro corrosivo e está diretamente ligada a Pagu. Na verdade, o seu contato inicial com o teatro é mediado por meio de Pagú, quando ela precisou substituir um ator em uma peça que produzia. Vira Plínio no circo e propôs que ele substituísse, de acordo com o próprio Plínio: “Em 1958, ‘a Patrícia Galvão, a Pagu, estava precisando de um cara pra substituir um ator de uma peça infantil que ela estava fazendo [Pluft, o Fantasminha] e que tinha que ser feita no dia seguinte. Me convidaram e eu fui. E lá fiquei conhecendo essa mulher maravilhosa...Ficamos amigos de infância... quando encontrei a Pagu, conheci um grupo de intelectuais raríssimo. E recebi uma forte influência desse grupo.’ ‘Todos os domingos a Pagu fazia o Geraldo Ferraz [seu marido] ler uma peça pra nós. Peças como Esperando Godot.’ ‘A gente ficava ouvindo a Pagu falar e aquilo nos despertava para ler, para estudar’”
Plínio Marcos à esquerda e Pagu destacada
Depois contato inicial, surge amizade e Plínio mostra a Patrícia a primeira peça que havia escrito, Barrela. Plínio também nos conta das peripécias da sua primeira peça, “Barrela” e primeiro grande sucesso, e relata como Pagu foi figura chave para que a peça fosse montada.
“Ninguém quis montar e eu levei para a Pagu, que achou meu diálogo tão poderoso quanto o do Nélson Rodrigues. Ela, então, levou Barrela para o Pascoal Carlos Magno, que estava realizando o Festival Nacional de Teatro de Estudante em Santos. Então, ele fez um puta escarcéu, descobriu um gênio, essas coisas.” “... e no final do festival falou para os jornais que fazia questão que os estudantes montassem a peça.” “Começamos a ensaiar no início do ano de 1959.” “Aí, eu é que fui dirigir, eu que fiz um papel, eu que fiz o cenário, eu que fiz tudo.” [O texto foi enviado para a Censura Federal, que o proibiu. A Patrícia Galvão comunicou-se com o Pascoal Carlos Magno, uma espécie de ministro sem pasta do Governo de Juscelino Kubitschek. Ele, então, enviou um telegrama diretamente do gabinete do presidente dizendo para a polícia reconsiderar a proibição da peça. E o texto foi liberado para uma apresentação, no dia 1º de novembro de 1959, no palco do Centro Português de Santos, ficando depois proibido pela Censura Federal por 21 anos]”.
Plínio deslumbrou-se com sucesso de Barrela, vacilando em seu próximo trabalho. Pagu não endossou e ele mesmo se resignou diante da bronca:
““No dia seguinte, a cidade só falava da nossa peça. Eu achava tudo lindo e me badalava como gênio, até que, de tanto me encherem, escrevi outra peça, sem ter absolutamente nada pra dizer.” [A peça era Os Fantoches, ou Chapéu sobre Paralelepípedo para Alguém Chutar, reescrita depois como Jornada de um Imbecil até o Entendimento.] “E foi um vexame tão grande, tão grande, que no dia seguinte a Patrícia Galvão [que escrevia crítica de teatro para o jornal A Tribuna de Santos] botou na Tribuna o meu retratão de gravata borboleta e tudo, com uma manchete assim: Esse analfabeto esperava outro milagre de circo.” “Mas, não me acanhei. Estava selado que eu era um autor teatral e eu jurava pra mim mesmo que nem sucessos, nem fracassos me abateriam.”
Para Plínio, Pagu era “um anjo anárquico que veio a terra para nos inquietar.” De fato, mesmo não exercendo político-partidária, Pagu nunca abandonou suas convicções e manteve seu espírito anárquico até o fim da vida. Uma das lutas que encampou foi pela construção do teatro municipal em Santos, que hoje leva seu nome. Nunca resignou suas opiniões, chegando a pedir demissão da presidência da União de Teatro Amador de Santos (UTAS) por não concordar com a indicação da peça A Escada, de Oswaldo Leituga, que ela julgava ser “falsificação teatral” em todos os sentidos. Até o fim da sua vida pensou o teatro e sabendo da gravidade do seu câncer pediu a Alfredo Mesquita, que seus livros fossem a Biblioteca da EAD. Ele recorda o pedido: “Lembro-me ainda do dia em que, sabendo-se gravemente doente, disse-me pretender entregar imediatamente a sua biblioteca à Escola. Assustado, não querendo por nada acreditar no que dizia a respeito da saúde, recusei a oferta. Vi-a ainda duas vezes, em casa de parentes, sentada na cama, o tronco ereto, fumando, fumando sempre, os olhos muito pretos, ainda vivos, fixos em mim com aquela expressão de angústia e interrogação dos que vão morrer. Já não podia levantar-se e mal conseguia falar. Das duas vezes, repetiu baixinho: - não se esqueça dos livros, são seus...”
Mesmo sem ter realizado peças que tradicionalmente conhecemos como políticas, a colaboração de Pagu para o “teatro político” é valiosa. Pagu por si só é eminentemente política, qualquer coisa que fizesse estaria prsente a marca do seu idealismo e de seu engajamento. No teatro não poderia ser diferente e talvez principalmente através desta arte ela nos revele uma de suas faces mais revolucionárias. Ao divulgar o teatro de vanguarda, através de suas traduções, reportagens, críticas, montagens e etc. ela abre caminhos expressivos, para o teatro brasileiro, sobretudo no que e refere a política, já que nosso teatro político bebeu muito na fonte das vanguardas, muitas delas exploradas e até reveladas por Pagú. Embora pouco reconhecida, não resta dúvidas de que Pagu, com sua inteligência rebelde, foi fundamental na preparação do fértil terreno que o nosso teatro político exploraria na década de 60.
PAGÚ
Parte III: Festa da Antropofagia - O abraço de Pagu e Zé Celso
O primeiro FESTA, que acontece até hoje, ocorreu em 1958, uma ideia de Patrícia Galvão em parceria com o Departamento Cultural do Jornal A Tribuna, coordenado pelo professor Luís F. Carranca, em conjunto com a Comissão Estadual de Teatro e a Comissão Municipal de Cultura. O Festival visava a formação e integração de grupos amadores e de teatro de vanguarda. Na sua segunda edição, em 1959, Pagu se articulou com Pascoal Carlos Magno e promoveu integração do II Festival de Teatro Amador de Santos ao II Festival Nacional do Teatro dos Estudantes, programado aquele ano na cidade. A vinculação do FESTA ao Festival Nacional de Teatro dos Estudantes (iniciativa de Pascoal Carlos Magno) fez de Santos um importante polo das artes cênicas do país, trazendo à cidade grandes nomes da cena teatral, como Cacilda Becker, e também revelando talentos como: santistas Plínio Marcos, Cláudio e Sérgio Mamberti, Carlos Soffredini e Jandira Martini, além de arregimentar à cidade jovens nomes da época, como José Celso Martinez Correa e Aracy Balabanian. Pagu fez parte do júri e da premiação. Dentre alguns dos premiados tem-se: atriz, Etty Fraser; ator, Carlos Miranda; diretor não profissional, Hamir Hadad.
Neste festival José Celso Martinez Correa recebeu o prêmio de autor nacional, com A Incubadeira, 1959. Zé Celso é grande conhecido nosso das aulas que discutíamos O Rei da Vela, de Oswald de Andrade. A montagem que Zé Celso fez com o grupo Oficina é um marco no teatro brasileiro, com sua irreverência transgressora, que tornou esta montagem numa das bandeiras do movimento tropicalista, que por sua vez era fortemente inspirado no movimento antropofágico de Oswald e Pagú. Zé Celso sem dúvida é um dramaturgo politizado e não só pelas várias montagens de Brecht. A propósito recentemente esteve m cartaz com Acordes, uma versão de uma peça de Brecht. Mas o que faz dele essencialmente político é seu espírito anárquico sedento por um teatro “antropofágico” e, sobretudo, de vanguarda, que é fundamentalmente político. O teatro de vanguarda foi uma das grandes obstinações de Pagú, e Zé Celso é um grande discípulo deste ideário. A trajetória de Zé Celso e do grupo Oficina, hoje Oficina Uzyna Uzona tem origem em 1958 na Faculdade de Direito de São Paulo, mas passa a ganhar contornos neste Festival em Santos em que ele foi premiado e onde conheceu Pagu. Talvez conhecê-la tenha, ainda que inconscientemente, influenciado não só na sua montagem libertária e antropofágica de O Rei da Vela, em 1967,oito anos após esse encontro.
Zé Celso na passeata dos cem mil, junto com Renato Boeghi, Gilberto Gil, Nana Caymi, Caetano Veloso, Paulo Autran, Tonia Carrero...
Sobre esse momento ele dá um depoimento o poder de um abraço e o de Pagu: “O poder de um abraço - Depoimento de Zé Celso Martinez Corrêa sobre um abraço que Pagu lhe dera em um Festival de Teatro em Santos, no ano de 1958: "Me lembro então que eu recebi um abraço de uma senhora parecida com a Aracy de Almeida; uma velha de óculos pretos que se agarrou em mim como um macaco uns vinte minutos!... Com as pernas e com os braços! Eu soube depois que ela era Pagu, uma das mulheres de Oswald de Andrade, a mulher que fez a Revista de Antropofagia, Segunda Dentição... Aquele abraço foi uma das coisas mais fortes, física, de corpo que eu recebi na minha vida. E ela estava no fim da vida dela. Já andava bem avacalhada, tinha uma carona de debochada embebida no álcool... um cheiro de álcool! Mas eu me lembro que ela me passava uma coisa forte naquele abraço."
É verdade, que a Pagu que ele abraçava, não era mais a arisca antropofágica de outrora, mas essa energia transmitida com certeza advém do espírito revolucionário que guiou o movimento antropofágico e o teatro dionisíaco de Zé Celso. A prova da influência dessa relação, é um artigo que Zé Celso escreveu sobre Plínio Marcos para o Globo Teatro, em 25/11/2009. Ele começa falando da musa: “Pagu deu o passe de bola da antropofagia pro jogador de futebol palhaço de circo, rádio, Plínio Marcos. Ele, dono da bola, escriturou sua primeira peça teatral, ou melhor seu primeiro Evangelho, marcando o primeiro Marco da revolução cultural brazyleira com “Barrela”. A peça grafada na o português-crioulo-cosmopolita giriado na língua girante do “povo por fóra”, lunpen, como diziam com desprezo, os comunistas caretas. Língua da Marginália do Porto Exportador mais rico de Café do Brasil, expandindo-se pelas ruas, morros, mar de Santos.”
PAGÚ
Parte II: Engajamento e militância teatral
Além de Oswald, Pagu foi influenciada e influenciou muitos outros artistas. Cabe destacar mais duas personalidades relevantes para o teatro político brasileiro, que foram marcados de alguma maneira por Pagu: Zé Celso Martinez Corrêa e Plínio Marcos. Antes de falar da relação deles é preciso dizer que estes conheceram uma Pagú que desejava ser apenas Patrícia, na tentativa de esquecer os tormentos da massacrada Pagú. Mesmo decepcionada com o comunismo, nunca abandonou sua luta e sempre se manteve politizada, só que não mais exercendo uma militância político-partidária, mas sim cultural. Esta militância passou a se direcionar para o teatro quando Pagú ingressa na Escola de Arte Dramática (EAD) em São Paulo.
A EAD foi fundada em 1948, como unidade complementar a Escola de Comunicação e Artes (ECA). Pagu já conhecia o fundador e diretor Alfredo Mesquita e no começo da década de 1950, ingressa na EAD, compondo uma das primeiras turmas. Na época, ela até escreve uma peça titulada “Fugas e Variações”, que na época foi encenada, mas infelizmente nunca publicada. Sobre esse período Alfredo relata: “Conversávamos longamente, amigavelmente, enquanto havia pouca gente à volta. Mal aumentava a roda e Patrícia – como queria que a chamássemos – calava-se arredia, – calava-se arredia, assustadiça, para logo se esgueirar e sumir. Assim era a famosa, a terrível, a assustadora Pagú”. Mesmo estando nessa fase mais introspectiva, teve contato com importantes nomes do teatro brasileiro como Cacilda Becker, Ziembinski, Décio de Almeida Prado, Pascoal Carlos Magno...
Pagu em reunião teatral, entre os presentes Plínio Marcos e Pacoal Carlos Magno
Sua atuação também se deu por meio da imprensa através das matérias e críticas. Após seu longo período de prisão (1936-1940), tenta retomar suas “atividades intelectuais” e passa a trabalhar em diversos jornais e revistas do Rio e São Paulo, tais como: A Noite, O Jornal, A Manhã, Diário da Noite, A Plateia, Fanfulha, Vanguarda Socialista... Cabe destacar sua atuação em parceria , com o segundo marido, Geraldo Ferraz, na organização do Suplemento Literário do Diário de São Paulo de 1946 a 1948. Lá dentre outros artigos, escrevia na coluna Antologia de Literatura Estrangeira traduzindo e comentando escritores como: James Joyce, Rilke, Apollinaire, Mallarmé, Katherine... Eventualmente escrevia sobre teatro. Trabalhou em outros jornais e em 1950, no suplemento literário do Jornal de Notícias foi pioneira ao escrever artigo chamado “Poeta Maldito” sobre o dramaturgo Antonin Artaud e seu teatro da cruelldade. A produção jornalística de Pagu se volta mais fortemente ao teatro quando vai morar definitivamente em Santos, em 1954, passando a trabalhar no jornal A Tribuna, onde permaneceria até sua morte em 1962.
Em Santos, começa a desenvolver atividades teatrais. Em 1955, é nomeada membro da Comissão Municipal de Cultura em Santos. Sobre esse fato, sua biógrafa, Lúcia Maria Teixeira Furlani conta: “Ao ser nomeada membro da Comissão Municipal de Cultura e Santos, Patrícia estabelece com a EAD um acordo para trazer, mensalmente, um espetáculo da Escola a Santos, iniciando com a Descoberta do Mundo, Lope de Vega, em transcrição de Morvan Lebesque. Entre outras peças foram apresentadas Bodas de Sangue, com a formanda Aracy Balabalian, e Os Persas, de Ésquilo, com direção de Maria José Carvalho. A Comissão Municipal de Cultura de Santos, presidida por Evêncio Quinta, tendo ao seu lado Patrícia e a colaboração do Departamento Cultural de A Trinuna, coordenado pelo professor Luís F. Carranca, promovia cursos com nomes conhecidos como Ziembinski e Miroel Sivleira.”
A partir daí se intensifica seu trabalho teatral. Foi a primeira presidente da União de Teatro Amador de Santos, em 1958. Antes, em 1956, coordena o Grupo de Teatro Universitário Santista (TUS), juntamente com Pontes de Paula Lima traduz A tumba do guerreiro, de Ibsen, primeiro texto trabalhado pelo grupo. A respeito deste momento Pagu revela seu entusiasmo e seu apoio a esta iniciativa: "Foi no dia 28 de maio, de 1956, segunda-feira última, que o Teatro Universitário Santista (TUS) iniciou as suas atividades. Sob a égide de Ibsen, em comemoração ao cinqüentenário da morte do grande mestre dramaturgo da Noruega, um punhado de 9 de jovens das faculdades de Santos, pertencentes, em sua totalidade, à Associação Universitária Santista, lançou as bases de seu 'Pequeno Teatro', inaugurado oficialmente e com o desejo e o ideal de realizar uma aventura orgulhosa, concordando com o espírito de pesquisa e rebeldia que deve reinar numa geração decidida a demonstrar que há muita coisa ainda a se fazer neste mundo." Na Tribuna, passa a fazer crônicas sobre o Teatro Mundial Contemporâneo, com autores e temas quase desconhecidos no Brasil, o primeiro apresentado nesta série, é o grande mestre do teatro político Bertolt Brecht, segue traduzindo e escrevendo outros autores como Kafka, Rike, Pirandello, Beckt, Octavio Paz, Ionesco, Arrabal. É importante dizer, que a primeira tradução no Brasil de A Cantora Careca, de Ionesco, no Brasil foi feita por Patrícia e que a estreia mundial de Arrabal, foi feita em Santos, quando ela traduziu a peça Fando e Lis e a encenou com o GETI (Grupo Experimental de Teatro Infantil), estreando em 1959, no II Festival Santista de Teatro Amador (FESTA), organizado por Pagu.
Show Opinião Completo. Disponível em <http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=O9fjaD3fhcM>
Foto retirada do Jornal do Brasil de 12 de dezembro de 1964
Informações sobre o Show Opinião disponível em <http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_teatro/index.cfm?fuseaction=cias_biografia&cd_verbete=638>