LITANIA DOS PECADOS EM TINTA VERMELHA
Eu vi Deus cuspido no chão da igreja,
não por blasfêmia,
mas por costume.
Vi homens de batina lavando as mãos
numa bacia cheia de olhos,
cada olho uma criança que aprendeu cedo
que o céu também sabe mentir.
E Cristo,
pobre Cristo,
pendurado como um aviso mal interpretado,
com os pregos brilhando mais que a fé,
olhava para baixo
como quem pergunta:
Foi para isso que fizeram do meu sangue
um carimbo?
Da minha dor, um contrato?
Da minha carne aberta,
uma decoração de domingo?
No altar,
os santos tinham bocas costuradas
com fio de ouro.
A Virgem chorava tinta preta,
não lágrimas,
porque lágrima evapora
e tinta acusa.
A tinta escorria pelos vitrais,
manchava as asas dos anjos,
caía sobre os bancos,
sobre as línguas,
sobre os joelhos obedientes.
E eu,
eu estava ali,
de pé no centro da nave,
com o peito cheio de moscas
e um riso de circo preso entre os dentes.
Um riso torto.
Um riso colorido.
Um riso de carta de baralho
jogada sobre um cadáver.
Havia em mim algo de Hisoka:
a fome elegante,
o prazer em ver a máscara trincar,
a delicadeza monstruosa
de quem sabe que o desejo
também pode usar luvas brancas.
Eu não queria salvar ninguém.
Eu queria ver quem sobreviveria
sem o verniz.
Queria arrancar a pele moral dos homens
como quem descasca uma fruta podre
e descobrir, por baixo,
não um demônio,
mas algo pior:
O humano,
essa carne que aprende a rezar
para desculpar a própria crueldade.
O humano,
esse animal que inventou o pecado
para vender perdão.
O humano,
essa criatura que beija a cruz
com a mesma boca
com que condena o faminto,
a mulher,
o corpo,
o desejo,
o diferente,
o próprio espelho.
Eu odeio os seres humanos
como se odeia uma sala abafada,
como se odeia um cheiro impregnado na roupa,
como se odeia uma lembrança
que volta mastigando o nosso nome.
Mas eu também sou humano.
E é aí que o inferno começa.
Porque não há monstro mais repugnante
do que aquele que reconhecemos
no reflexo torto da pia.
Eu lavei meu rosto
e a água saiu vermelha.
Não era sangue de outro.
Era meu.
Era antigo.
Era hereditário.
Era o sangue grosso dos desejos
que eu tentei fingir que eram virtudes.
Debaixo das unhas,
eu trazia restos de oração.
Na língua,
um gosto de ferrugem e hóstia.
No estômago,
uma fome que não era fome:
era vontade de possuir,
de destruir,
de tocar o proibido só para provar
que o proibido treme.
Uma música começou a tocar
no fundo da igreja,
não como hino,
mas como acusação.
Era uma mulher cantando contra os homens sagrados,
contra os palácios do medo,
contra os padres de pedra,
contra os santos administrativos,
contra os administradores de Deus
que trancaram o céu num cofre
e cobraram entrada.
A batida ecoava entre os confessionários
como um coração indecente.
E os confessionários,
ah, os confessionários,
eram caixas de madeira famintas.
Você entrava com culpa,
saía com coleira.
Você entrava com desejo,
saía com nojo de si.
Você entrava humano,
saía obediente.
Na parede, alguém escreveu:
“A culpa é a coleira favorita dos que mandam.”
E logo abaixo, em letra menor:
“Mas há quem ame a própria coleira.”
Não um riso feliz.
Um riso de faca entrando devagar.
Um riso kafkiano,
cheio de repartições celestes,
carimbos, processos, escadas sem fim.
Porque naquela noite
o pecado não era uma queda.
Era um protocolo.
Havia uma fila enorme diante de uma porta.
Cada pessoa segurava um documento
com seus próprios crimes,
seus desejos,
suas omissões,
suas pequenas perversidades domésticas.
“Qual é a senha para ser perdoado?”
Atrás da porta,
ouvia-se apenas o arrastar de móveis,
como se Deus estivesse mudando de endereço
sem avisar.
Uma mulher segurava o coração nas mãos
como um objeto burocrático.
O coração ainda batia,
mas cada batida parecia pedir desculpas.
Um menino carregava uma asa quebrada
e dizia que a encontrou no lixo.
Um velho mastigava páginas da Bíblia
para ver se a palavra santa
ainda alimentava alguma coisa.
A palavra, mastigada,
virava papel molhado.
E o papel molhado grudava na garganta.
Então percebi:
o inferno não tinha fogo.
Tinha espera.
Tinha fila.
Tinha formulário.
Tinha silêncio institucional.
Tinha a sensação de que você errou
mas ninguém explica a regra.
O castigo não era ser condenado.
Era não saber por quê.
Era acordar metamorfoseado
em culpa,
com pequenas patas tremendo sobre o lençol,
enquanto a família batia à porta
não para salvar você,
mas para reclamar do barulho.
não o desejo,
mas o que fazem com ele.
O desejo nasce quente,
cego,
sujo,
luminoso.
Ele nasce como bicho no porão.
Raspa as paredes.
Morde os próprios dedos.
Pede corpo, pede voz, pede mundo.
Mas então vêm os homens puros,
os homens sérios,
os homens sem manchas visíveis,
e dizem:
“Isso é feio.”
“Isso é baixo.”
“Isso é carne.”
“Isso é queda.”
Como se eles mesmos
não tivessem porões.
Como se por baixo das batinas,
dos ternos,
dos discursos,
dos livros santos,
não houvesse também
um animal lambendo os dentes.
Não mintam sobre a carne!
A carne sabe.
A carne lembra.
A carne registra tudo.
Cada toque negado.
Cada vontade enterrada.
Cada pensamento que a pessoa afogou
para parecer digna.
Abre como ferida.
Abre como boca.
Abre como flor podre em cima da mesa.
E o que sai de dentro
não é demônio:
é verdade acumulada.
Foi quando os anjos começaram a cair.
Não caíam com beleza.
Não eram estrelas.
Não eram metáforas limpas.
Caíam pesados,
molhados,
com asas coladas de tinta e sangue,
como aves presas em óleo.
Batiam no mármore
com o som de frutas maduras demais.
Um deles me olhou
sem rosto.
No lugar da face,
havia apenas uma mancha branca,
como uma página esperando sentença.
Eu toquei essa mancha
e meus dedos atravessaram.
Por dentro,
não havia luz.
Havia papéis.
Relatórios sobre pecadores.
Listas de impuros.
Nomes riscados.
Nomes repetidos.
Nomes que ninguém deveria ter julgado.
A máquina do céu
era feita de arquivo morto.
E eu tive vontade de incendiar tudo.
Mas não com fogo.
Com verdade.
A verdade é mais cruel
porque não purifica:
expõe.
O fogo acaba.
A verdade permanece cheirando.
Então escrevi com tinta vermelha
na porta do templo:
O pecado não é desejar.
O pecado é transformar o desejo dos outros em prisão.
O pecado não é a carne.
O pecado é usar Deus para odiar a carne alheia.
O pecado não é cair.
O pecado é empurrar alguém
e depois vender escadas.
Quando terminei,
as paredes respiravam.
Os santos desviaram o olhar.
Cristo continuava na cruz,
mas agora parecia menos morto
e mais cansado.
Como alguém que já viu demais.
Como alguém que amou uma espécie
que fez do amor uma instituição
e da instituição uma faca.
A mulher cantava como se dançasse
sobre a ruína dos altares,
com o corpo inteiro dizendo:
não me domestiquem.
E eu pensei que talvez
todo corpo que dança
seja uma heresia necessária.
Porque dançar é declarar
que ainda existe algo vivo
embaixo da culpa.
Eu fiquei parado,
com os sapatos afundando
numa poça escura de tinta e restos de fé.
Meu coração batia
como uma carta marcada.
Meu desejo sorria
com dentes pintados.
Minha humanidade apodrecia
em plena iluminação.
E, mesmo assim,
havia beleza.
Essa é a parte imperdoável.
Há beleza no grotesco.
Há beleza no santo quebrado.
Há beleza na mancha que não sai.
Há beleza no rosto humano
quando ele para de fingir inocência.
Talvez por isso incomode tanto.
Porque o horror verdadeiro
não é sangue no chão.
É perceber que o sangue tem dono.
Nome.
História.
Mãe.
Infância.
Medo.
O horror verdadeiro
é entender que ninguém nasce puro,
mas alguns aprendem a parecer.
O horror verdadeiro
é que o carrasco também sonha.
O monstro também sente frio.
O santo também deseja.
E a vítima, às vezes,
guarda uma faca no pensamento.
Somos todos confessionários quebrados,
cheios de vozes que não combinam.
Uma voz reza.
Uma voz morde.
Uma voz chora.
Uma voz quer ser amada.
Uma voz quer destruir tudo
só para não implorar carinho.
E acima de todas,
uma voz pequena pergunta:
“Eu sou horrível
ou só estou vivo?”
Deus está ocupado.
O clero está contando moedas.
Os anjos estão arquivados.
Cristo está exausto.
Kafka está numa sala sem saída
preenchendo um formulário infinito.
Hisoka sorri no canto,
embaralhando cartas manchadas,
como se soubesse
que toda moral é um truque
até alguém sangrar de verdade.
Escrevo porque a tinta
é o único sangue
que posso derramar sem pedir perdão.
Escrevo para sujar a página.
Para deixar manchas.
Para impedir que alguém diga
que tudo foi limpo,
que tudo foi santo,
que tudo foi necessário.
Há pecados que usam coroa.
Há pecados que usam batina.
Há pecados que usam perfume caro.
Há pecados que dizem “família”,
“ordem”,
“tradição”,
“salvação”,
enquanto esmagam o pescoço
de quem só queria respirar.
E há pecados pequenos,
íntimos,
quase ternos:
o desejo de ser escolhido,
a inveja de quem parece livre,
a raiva de quem nos espelha,
a vontade de desaparecer,
a fantasia de punir o mundo
por não ter nos amado direito.
Esses são os mais perigosos.
Porque moram perto do coração.
No fim,
a igreja ficou vazia.
Tinta preta no altar.
Vermelho no chão.
Dourado descascando dos santos.
Um cheiro de vela apagada
e carne simbólica.
Cristo desceu da cruz
sem fazer barulho.
Não me absolveu.
Não me condenou.
Apenas olhou para as minhas mãos sujas
e disse:
“Agora veja o que você fará
com aquilo que descobriu.”
E eu fiquei ali,
sozinho,
com meus pecados expostos
como órgãos sobre uma mesa branca.
Sem céu.
Sem inferno.
Sem plateia.
E talvez essa seja
a punição final:
não arder em fogo eterno,
não ser devorado por demônios,
não ouvir trombetas no juízo.
Mas acordar todos os dias
dentro da própria pele,
sabendo que o monstro,
o santo,
o juiz,
o réu,
o carrasco,
o cordeiro,
o desejo,
a culpa,
a fome,
a fé
e a faca