O fim de época do Benfica deu-me para, muito masoquisticamente, me obcecar por futebol. Uma febre a qual, felizmente, já baixou de temperatura (voltará a subir quando a pré-época arrancar, presumo) mas, algo pateticamente, me levou a ver alguns filmes sobre a temática. Não há muitos (a maioria é inglesa) e geralmente não são muito recomendáveis. Um ou outro safa-se. Um deles, o de que mais gostei talvez, até porque retrata uma verdadeira obsessão (em comparação, a minha é "a brincar"), foi "Fever Pitch", em que Colin Firth, de cabelo aos caracóis e casaco de cabedal (podia ser eu há uns anos; agora, estou careca, já não uso "aquele" casaco de cabedal e deixei crescer a barba), interpreta um fanático do Arsenal, uma versão de Nick Hornby, que assina o argumento baseado no seu livro homónimo. O filme e o livro diferem muitíssimo: é engraçado como o argumento tem muito mais a ver com "High Fidelity", romance que Hornby editara dois anos antes ("Fever Pitch", o filme, é de 1997) e conheci como "Alta Fidelidade" (um dos livros da minha vida), do que com o livro que lançou a carreira do escritor inglês. Nick Hornby, um escritor falhado até então, só alcançaria o sucesso com as suas memórias de sofredor adepto de futebol, ou melhor, de sofredor adepto de um grande clube que raramente ganha (consigo compreender a sensação). Mesmo com o seu treinador mais bem sucedido de sempre, Arsène Wenger, o Arsenal não ganha título algum há mais de sete anos. Nada comparado com os dezoito anos que ficou sem vencer o campeonato, até à noite de 1989 em que Michael Thomas (sim, esse que jogou no Benfica) marcou um golo nos descontos em Anfield Road, garantido a vitória por 2-0 contra o Liverpool e o título. Em "Fever Pitch", Hornby descreve essa longa agonia mas, sobretudo, as suas idas e vindas como adepto do Arsenal, desde que o pai o levou a Highbury pela primeira vez (o futebol foi a única ligação que encontraram, depois de este ter saído de casa), passando pela sua constante presença nas desconfortáveis bancadas de diversos estádios ingleses (sempre de pé, com pouca visibilidade para o relvado e sujeito a todo o tipo de intempéries), o hooliganismo (e as grandes tragédias: Heysel e Hillsborough), as superstições, a crença de que sua vida estava directamente ligada à do clube, que os seu falhanços eram provocados pelos dos jogadores, até à euforia da conquista do campeonato (repetida em 1991). Claro que, quando Hornby escrevia o seu livro, entre 91 e 92, já o Arsenal se auto-destruía. Uma das maiores derrotas dessa altura foi contra o Benfica em casa, para a Liga dos Campeões (o jogo em que Isaías marcou dois grandes golos). Este texto tinha de acabar onde começou.