— Palavras: coisas incontroláveis.
A maioria das vezes é complicado ser eu. Me sinto recluso em mim mesmo — o que, claro, é a realidade de todo ser humano: nós somos sozinhos. Mas a minha questão é a dificuldade de transpassar a minha bagunça interna e o fio grosso de introspecção e introversão, que, na maior parte do tempo, faz horas extras na minha vida, dificultando-me tocar o momento presente. Veja, o presente é tão complicado. É tão mais fácil matutar ideias e devanear do que projetá-las na realidade. Quando se falam palavras, elas não mais nos pertencem; pertencem ao ar, à atmosfera, aos outros. Não estão mais sob nosso controle. Não podem ser apagadas. Não, eu não quero isso. Como vou saber o que falar para não me arrepender? Por isso fico pensando, pensando e pensando, até que meus pensamentos se acumulem e virem passado, futuro, nunca presente.
Talvez por influência da minha suspeita quase certa de TDAH, mas quando é para... "socializar" seria o nome? Quando é para sair da minha caverna chamada cabeça, é complicado. Ter suspeita quase certa de TDAH é complicado, porque se vive numa constante indefinição e medo de perder uma muleta preciosa (por favor, não me tirem essa muleta; se não for o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade, o que mais vou poder usar para me sentir entendido ou justificado quando sou tão deslocado dos outros? Tão recluso? Vou ter que encarar que, na verdade, eu sou o problema e não uma suspeita quase certa de um transtorno? Não, obrigado).
Mas continuando: é complicado. Quando saio da minha caverna — forçado pelo convívio em sociedade —, na maioria das vezes me frusto. E pior: me conformo com minha dificuldade — havia escrito de início "incapacidade", mas ouvi uma psicóloga dizer que as palavras determinativas criam barreiras subconscientes "eu sou assim", "eu não consigo", "eu sou incapaz", que impedem o progresso, e isso já não melhora minha boa situação mental. Enfim.
Eu sempre fico desviando do assunto principal — eu vi que isso também é um traço de TDAH; talvez seja por isso que eu ame o travessão; me sinto representado por ele; ele foge do assunto; essa é uma das funções dele; eu queria ser um travessão; é muito mais fácil que ser humano; do que ser. Enfim, de novo: estava falando da minha dificuldade: as palavras. As palavras me são difíceis. Já disse; quando faladas, são incontroláveis; quando pensadas, não. Talvez eu seja o sonho de Platão? Vivo no mundo das ideias.
Quando se trata dessas coisas incontroláveis, antes de falar, eu penso, penso e penso, até que se acumulem, e quando falo, falo coisas do passado, me frustrando em ser no presente. E penso, penso e penso no futuro, no que falar, no que não me arrepender, no que... Me calo. Me recluso. É mais fácil do que lidar com essas coisas incontroláveis: palavras. Sempre me frusto. Eu falo no passado querendo ser no presente, mas sempre pensando no futuro.