Eu tive que me despedir querendo muito ficar. Você me deixou ir e mais; me deu a certeza de que abrir mão do meu sentimento era a melhor decisão que eu poderia tomar.
- Rabisquei sentimento
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Eu tive que me despedir querendo muito ficar. Você me deixou ir e mais; me deu a certeza de que abrir mão do meu sentimento era a melhor decisão que eu poderia tomar.
- Rabisquei sentimento
“Lave o rosto, tome seu café, vista a sua melhor roupa e vai viver a vida antes que seja tarde.”
— Bipolagem.
Por muito tempo, eu acreditei que o que vivi era amor. Ou, pelo menos, uma forma distorcida dele. Eu me convencia de que era normal sentir medo no meio de algo que diziam ser afeto. Que era normal engolir o desconforto, esconder o choro, forçar o corpo a não reagir, e a mente a não questionar. Eu dizia pra mim mesma que era só um jeito diferente de demonstrar o que sentia. Hoje, olhando pra trás, vejo o quanto eu me apaguei tentando convencer meu próprio corpo de que não estava sendo violentado, quando, na verdade, estava.
Você usava as minhas feridas como argumento. Pegava meus traumas com uma delicadeza que, no início, parecia cuidado, mas logo se mostrou uma forma de controle. Você sabia onde doía. Sabia o que me paralisava. E usava isso. Dizia que eu precisava provar amor, provar entrega, provar que era diferente de quem tinha me ferido antes. Era um ciclo tão silencioso que eu mesma demorei pra perceber que aquilo não era intimidade, era coerção. Não era carinho, era abuso.
Eu aprendi a calar. A respirar fundo e fingir que era normal alguém dizer que eu devia “ceder” porque “num relacionamento é assim mesmo”. Aprendi a aceitar o incômodo, a culpa, a vergonha, como se fossem parte do pacote. Eu estava emocionalmente presa, psicologicamente desgastada, e sem forças pra me defender. E o pior é que, aos olhos dos outros, você era perfeita. O tipo de pessoa que sabia como inverter papéis, me fazer parecer instável, sensível demais, difícil demais de amar.
Você manipulava as situações com uma frieza que, hoje, me arrepia só de lembrar. Dizia que eu era ingrata quando tentava colocar limites, que eu “não sabia lidar com amor de verdade”, que eu “interpretava tudo errado”. Eu comecei a duvidar da minha própria percepção. A achar que talvez o problema fosse eu, que eu era exagerada, dramática, que merecia o silêncio que vinha depois das discussões, o desprezo disfarçado de paciência.
Chegou um ponto em que eu já não sabia diferenciar amor de medo. Eu me olhava no espelho e não reconhecia mais a mulher refletida ali. Havia cansaço, havia dor, havia uma estranha sensação de estar sempre devendo algo, até o que era meu por direito. Eu me sentia invadida, esvaziada, e mesmo assim continuava tentando, acreditando que se eu fosse mais calma, mais compreensiva, talvez você mudasse. Eu ainda achava que o problema era eu.
Mas o problema nunca fui eu. O problema era o poder que você exercia sobre mim. Era o jeito como me fazia acreditar que o que eu sentia não importava, que eu devia agradecer por você ainda estar ali, mesmo depois de me quebrar. Era o jogo psicológico, a chantagem emocional, a manipulação mascarada de cuidado. Você me tirou a paz e ainda quis que eu te agradecesse pela companhia. E eu, tão emocionalmente exausta, quase agradeci.
Quando eu descobri que você me traía, não foi surpresa. Doeu, sim, mas não surpreendeu. Porque lá no fundo, eu já sabia que pra você nada nunca foi sobre amor, foi sobre controle. A traição foi só a confirmação final do que eu já intuía: eu nunca estive segura com você. E, de alguma forma, eu acho que meu corpo sempre soube. As dores, os enjôos, a ansiedade constante, eram gritos de um corpo que tentava me avisar o que minha mente se recusava a aceitar.
Falar disso ainda dói. Porque durante muito tempo eu carreguei a culpa, como se eu tivesse permitido, como se eu tivesse sido fraca. Mas hoje eu entendo: eu fui violentada em nome de um amor que nunca existiu. Fui manipulada a acreditar que devia mais do que podia dar. E isso não é fraqueza. Isso é abuso. É violência.
Demorei pra voltar a tocar em mim sem sentir medo. Demorei pra me olhar e não ver a pessoa que você fez de mim. Ainda há dias em que a lembrança invade sem pedir permissão, em que o corpo treme, em que a mente volta pra aquele quarto, pra aquele olhar, pra aquele tom de voz. Mas agora eu sei que o que aconteceu não me define. E, principalmente, que o silêncio nunca mais vai ser o meu refúgio.
A cura não veio num dia bonito. Ela veio no silêncio. Ainda há dias em que me toco e a memória lateja, mas agora eu sei que o que eu toco é meu. Que esse corpo não é território de ninguém além de mim.
Aos poucos, eu fui reaprendendo a confiar. Primeiro em mim. Depois, devagar, no mundo. No início, qualquer toque me deixava tensa, qualquer gesto de carinho parecia ameaça. É estranho tentar se permitir quando o corpo já aprendeu a se defender antes de entender o que está acontecendo. Mas a cura, eu descobri, não é esquecer o que aconteceu, é deixar que a dor não dite mais as regras. É lembrar e não desmoronar. É respirar e saber que, dessa vez, o medo não manda mais.
Comecei a escrever. A colocar pra fora tudo que me sufocava. As palavras foram o meu abrigo, o único lugar onde eu podia existir sem pedir permissão. Falar sobre o que vivi deixou de ser vergonha e virou coragem. Cada texto era uma ferida aberta sendo limpa, uma cicatriz se formando. Demorei a entender que falar não era reviver, era libertar. Era devolver o peso pro lugar de onde ele veio.
E então veio a parte mais difícil: reaprender o que é amor. Não o amor romântico, mas o amor por mim. Por anos, eu associei amor à dor, entrega à obrigação, afeto à submissão. Hoje, eu me esforço pra mudar essa narrativa. Me cuido com paciência. Me escuto com respeito. Aprendi que posso dizer não e ainda ser amável. Que posso ser forte sem ser fria. Que posso ser vulnerável sem me colocar em perigo.
Há dias em que a lembrança volta, e tudo bem. Eu não preciso mais correr dela. Eu a deixo sentar ao meu lado, olho nos olhos e digo: “eu sei o que você fez comigo, mas agora quem decide sou eu.” E isso é o que mais me liberta. Não é sobre apagar o passado, é sobre não deixar que ele comande o presente. É sobre olhar pro espelho e ver uma mulher inteira, mesmo sabendo o quanto doeu pra se recompor.
A confiança não voltou de repente. Ela chegou aos pedaços, como quem não quer assustar. Voltou quando percebi que podia dormir em paz. Voltou quando um toque carinhoso não me fez encolher. Voltou quando olhei pra alguém e não vi ameaça, mas respeito. Voltou quando percebi que ser tocada podia ser escolha, e não concessão. Que estar com alguém não precisava ser um campo de batalha, e sim um espaço de calma.
A cura não é linear. Tem recaídas, tem dias de raiva, tem lágrimas que vêm do nada. Mas agora eu entendo: não é fraqueza, é processo. Eu me reconstituo um pouco mais a cada vez que escolho cuidar de mim. Eu me salvo quando escolho não repetir o padrão. Quando reconheço o perigo e me afasto. Quando percebo que a minha paz vale mais do que qualquer companhia.
Eu não sou mais a mulher que te amou. Nem a que teve medo. Eu sou a mulher que sobreviveu, que escolheu ficar, que decidiu se reconstruir. A mulher que entendeu que amor nunca deveria doer, que corpo nenhum merece ser forçado, que silêncio nenhum vale a própria destruição.
E agora, quando penso em amor, penso em liberdade. Penso em escolha. Penso em toque leve, em respeito, em reciprocidade. Penso em tudo o que um dia me tiraram e que hoje eu sei que posso me dar. Eu não preciso mais provar nada pra ninguém. Porque sobreviver foi a maior prova de todas. E viver em paz, essa, sim, é a forma mais bonita de vingança.
Por que fez isso comigo? O que eu fiz de errado?
Que bom revê-lo moço 🥹
Não sei o que sinto, mas sinto tanto. Meu coração dói em saber que isso tudo um dia pode acabar.. Estou completamente confusa, mas realmente eu te amo e não sei o que fazer sinceramente. A vida é maluca, somos malucos e não mandamos no que sentimos. Sinto por você amor, mas só ele não irá bastar. Te peço perdão se irei te machucar e tbm te peço desculpas se já te machuquei! Continuarei te amando.
Só alimente a sua alma com aquilo que te faz leve.
Me-sabotando