Só pra pontuar a primeira vez em que [me lembro] chorei por não me sentir no corpo em que queria estar.
Não é a primeira vez que queria ter músculos e barba, mas é a primeira vez que eu admito pra mim mesma [?], que um dia terei. Sempre fui de chorar, só pra tirar o nó da garganta, mas sempre que choro, é por coisas bobas, choro e no próximo segundo penso “deixa de besteira, você consegue isso, se parar de chorar e começar a agir”, e dessa vez é diferente, dessa vez me vejo de mãos atadas, agir? mas agir como? falar? falar com quem como porque? mas e se?
Eu odeio estar em confusão. Gosto de levar um tapa na cara e saber porque foi. Olho pra todos os lados e não vejo nada, não vejo solução. Eu tenho medo. Eu, que sempre sou rebelde quando posso, que não consigo ficar alguns dias sem quebrar alguma regra, me vejo em silêncio, burlando a mim, acreditando que vou ser feliz num corpo que nunca quis ter por medo. MEDO. Um monstro chamado mundo, que não perde a oportunidade de puxar o tapete de alguém só pra rir da queda. Um monstro transvestido de pais religiosos, um monstro que grita o tempo todo que eu sou um erro, uma praga uma maldição. Eu costumo enfrentar monstros, mas dessa vez é diferente.
Aos 6 anos eu adorava quando meu pai me levava pro trabalho e me confundiam com um menino, é uma memória muito forte em mim, “que lindo o seu filho” e eu sorria um sorriso de orelha a orelha, mas meu pai logo acabava com meu sonho e todo sem graça dizia “é uma menina, daniella”, eu parava de sorrir.
Eu adorava [ainda adoro] vestir as roupas do meu irmão, me cabiam perfeitamente. Assim que meus pais saiam de casa eu ia pro guarda roupa do meu irmão e provava as roupas que eu achava mais bonitas e confortáveis, bermudas e regatas sempre foram minhas favoritas, poderia passar horas fazendo aquilo, mas assim que meus pais chegavam eu tirava porque eles brigavam se me vissem vestida nas roupas do meu irmão. Nunca achei que fosse passar disso.
Aos 10 eu saia pra brincar com meu irmão e os amigos dele, geralmente era a única menina, bicicleta, futebol, video game, bola de gude, aqueles meninos viviam no paraíso e eu queria fazer parte. Eu tive que aprender a conviver com o machismo lado a lado e buscava sempre contorna-lo mesmo me magoando a cada “tu perdeu pra uma menina?” ou “devagar, ela é uma menina”. Mas eu nunca desisti, dava drible em muito menino.
Aos 12, meus peitos começavam a crescer, eu tinha que usar sutiã e puta que pariu, como eu odiava aquilo, quando minha mãe não me via eu saia sem sutiã mesmo, foda-se meus mamilos. Minha mãe sempre insistia pra que eu me vestisse mais “feminina”, eu queria agrada-la, mas me sentia incomodada com roupas apertadas, “olha a sua irmã, usa brinco, pulseira, sutiã, short, você devia aprender com ela”, eu tentava, mas vocês sabem o quanto é ruim jogar bola de short jeans? Trocava por uma bermuda tactel e uma camisa do botafogo na primeira oportunidade.
No colégio eu via todas as meninas fofocando sobre meninos e eu queria me sentir parte, mas aquilo era tão chato, enquanto elas passavam um tempão no banheiro se olhando, os meninos jogavam peteca no patio e eu tinha tanta inveja deles, mas estava disfarçada, “pensa na sua mãe, ela quer que você seja mais feminina”. Eu fazia por ela.
Aos 13, quando menstruei pela primeira vez eu pensei “é agora!”, virei meninA. Parei de sair tanto com meu irmão, passei a brincar de boneca em casa com minha irmã, mas até brincando de barbie eu tinha vontade de interpretar o Max Stell, achava bobeira, era só um boneco e era muito mais bonito que a barbie. Eu estava conseguindo. As vezes até deixava minha irmã me maquiar, minha mãe sorria de orelha a orelha. Estava tudo ok, eu até beijei um menino pela primeira vez, não foi lá a oitava maravilha do mundo né, mas isso significava que estava tudo bem, que agora eu era uma adolescente, que ia crescer e virar uma mulher como minha mãe queria. Estava orgulhosa por estar conseguindo, ou pelo menos pra mim eu estava.
Aos 14, mudei de colégio e todos passaram a me conhecer como “maria macho” ou “bulacheira” e eu nem sabia o que isso realmente queria dizer, mas pelo tom que eles falava, e por como eles me tratavam, não era nada bom. Eu ainda usava calças mais folgadas, mesmo que femininas e ainda me comportava “como um homem”, não fazia as unhas, o cabelo ou a sobrancelha. Eu só queria me vestir confortavelmente sem ser zoada. Eu odiava o colégio, não havia um dia sequer que eu não desejasse não estar ali. Eu não podia conversar com meus pais, eles diriam “tá vendo, você tem que se vestir melhor” e essa não era uma solução pra mim.
No ensino médio as pessoas já estavam mais amadurecidas e acostumadas com meu jeito, acabei me aproximando, apesar de excluída, eu não gosto de ser solitária, sempre tentei me aproximar de quem me parecia aberto para mim. Isso acabou deixando o colégio mais leve, eu tinha amigos, não era mais tão chato ir pro colégio, mas ainda haviam piadas sobre minha orientação sexual. Quando eu aprendi que eu gostava de meninas, nunca optei por esconder isso, menos dos meus pais. Dos meus pais eu tinha medo. Mesmo com boatos por todo colégio que eu era “A” lésbica, eu não ligava. Eu tinha amigos que me aceitavam como eu era, pelo menos por um tempo.
Eu sofri coisas como tipo me apaixonar pela minha melhor amiga e depois vê-la se afastar bruscamente, ter uma mãe tirando uma amiga do colégio porque não queria saber dela andando “com esse tipo de gente” e até mesmo ouvir a coordenadora do colégio me dizer que eu devia melhorar minha postura. Foi duro, mas eu sobrevivi pra contar e estou contando.
Eu conto nos dedos as pessoas com quem eu tive coragem de falar que me sinto no corpo errado. Queria que alguma delas pudesse me dar um corpo novo de presente. Queria que por mágica eu acordasse um menino, eu tenho até nome pra ele, Adan, me lembra Dan, e eu gosto de Dan, me lembra bons momentos. Queria que um pózinho fizessem todos esquecerem que um dia me chamei Daniella e substituísse por Adan.
Ultimamente eu fico feliz toda vez que eu soletro mentalmente “Adan”, lindo nome, né? Imagina…
Mas logo balanço a cabeça e quero parar de imaginar, pensa só a vergonha pros meus pais, pra minha família, porque “ser sapatão tudo bem, mas querer ser menino, é demais”. Eu peço desculpas pra mim mesmo. Por eles e por ter medo.
Desculpa,
desculpa.
Mas Adan vive dentro de mim desde que nasci, um dia vocês o conhecerão [eu espero]