ᯓ𖹭 Yuta × f. leitoraㅤ | ㅤ 3.3k palavras.
gênero: romance, fluff, angst (bem pouco).
avisos: menções de ansiedade social, palavrões, pegação.
sinopse: Ser adepta ao estilo gyaru sempre foi uma das suas maiores felicidades, bem, pelo menos dentro de sua casa, compartilhando seus outfits na internet. Porém, quando se tratava da vida real, o simples ato de fazer uma maquiagem que te agradava e sair na rua era seu maior pesadelo. Sua sorte, no entanto, foi conhecer alguém tão “esquisito" quanto você.
notas: Tava super ouvindo a música ‘GAL - OHAYO’ quando escrevi. Um beijo para as gyarus que vão ler <3
A amizade entre você e Yuta foi uma que floresceu rápido e lindamente, afinal, como não seria assim?
Ele, por si só, sempre foi um homem de aparência muito andrógina, e que, com influência do seu tipo de música favorita, J-Rock, acabou por adotar um estilo bem feminino, com o cabelo maior do que considerado normal para o sexo masculino, unhas pintadas e roupas que, apesar de quase sempre escuras e cheias de correntes por todo lado, acentuavam sua figura delicada.
E em paralelo, você, uma garota excêntrica, com roupas muito coloridas, curtas e coladas ao corpo, o cabelo volumoso num tom de loiro caramelo decorado por coroas, presilhas e tiaras, maquiagem chamativa que deixava seus olhos iguais aos de um verdadeiro panda e, é claro, unhas tão grandes e repletas de ornamentos 3d que só deixaram de te machucar após anos de costume.
Ou seja, dois indivíduos que eram vistos estranhos por grande maioria, e que consideravam a frase “os opostos se atraem” uma grande mentira, pois todos ao redor aparentavam ser opostos, com estilos normais, e eles faziam mais do que questão de se repelir quando estavam por perto, então vocês decidiram que, na realidade, eram vagalumes, e precisavam mesmo era da presença um do outro para brilhar mais forte e se destacar dentro de tamanha escuridão.
Por isso, essa aliança se tornou rapidamente inabalável…
Ele te protegia de qualquer pessoa mal intencionada que, ao ver sua roupa curta, se achava no direito de tocar. Você o protegia de comentários maliciosos questionando sua sexualidade. E, principalmente, quando chegava num nível onde a ameaça era realmente perigosa, como homens extremamente intolerantes ameaçando ambos em plena luz do dia apenas por estarem existindo num espaço público, os dois se ajudavam, dando pelo menos apoio emocional um ao outro e entendendo que, a impotência naquela situação era uma maneira de se proteger, e não covardia.
É claro, sempre eram situações horríveis, afinal, não importa quantas vezes aconteça, nunca vai se tornar confortável ser tratado pior que um animal. Mas, por incrível que pareça, existia graça nesses momentos, quando você via o rosto furioso de Yuta se transformar num sorriso amoroso e preocupado ao direcionar o olhar a você, te lembrando exatamente a primeiríssima vez em que conversaram…
Foi mais um dia como qualquer outro, nessa época ainda sozinha, visitando sua cafeteria favorita. Você focava nos desenhos que fazia em seu ipad, quando o sino da porta de entrada tocou, anunciando um cliente novo no estabelecimento.
Normalmente não era algo que chamaria sua atenção, pessoas entravam e saíam a todo momento, e a fanart do seu personagem favorito vestindo uma fantasia de Nemo era definitivamente mais interessante. Porém, daquela vez em específico, seus olhos se moveram quase sozinhos, como se por um segundo você estivesse enfeitiçada, guiada a mudar o foco para quem quer que fosse.
E ali viu, um homem de altura mediana e rosto alongado, com um cabelo tingido do mesmo vermelho vibrante que hoje em dia lhe era tão familiar, jogando a franja de lado em prol de não ter a visão obstruída. Suas feições foram o que primeiro lhe chamou a atenção de tão delicadas, o rosto composto por lábios finos e levemente rosados, um nariz relativamente proeminente curvadinho para baixo, e olhos grandes e escuros, que pareciam conter pequenas estrelinhas brilhantes nas pupilas.
Seu estilo? Provavelmente uma das coisas mais lindas que você já havia visto. Simples, mas ainda assim harmonioso e especial.
Não passava de uma regata apertada ao corpo, que atualmente havia se tornado tão sua quanto dele, uma blusa por cima com o zíper meio aberto, fazendo com que um dos lados caísse suavemente pelo braço e revelasse seu ombro, enquanto na parte de baixo ele vestia uma calça jeans simples, larga só o suficiente para acumular um pouco acima dos tênis. E os acessórios? Muito bem escolhidos e posicionados, pulseiras grossas, um colar de crucifixo, que você também já havia se apossado, e alguns anéis de prata escura.
Mas o mais importante, mais chamativo e mais animador para você: uma sombra preta esfumada nas pálpebras, acompanhado de um toque de glitter branco no cantinho dos olhos, estranhamente semelhante a como você havia saido de casa naquele dia, porém em tons mais fortes.
Ele atravessou a cafeteria com confiança, olhando para seu celular até que finalmente chegasse ao balcão, onde sorriu com doçura para a atendente e fez seu pedido, sem dar atenção aos homens em uma das mesas ali perto, que riam e faziam comentários sobre o quão afeminado ele era.
Subitamente a fanart que você originalmente fazia ficou em segundo plano, agora seu foco havia se tornado exclusivamente dele e, é claro, em como você transformaria aquele visual intrigante em arte em seu ipad mais tarde.
Nos dias que se seguiram, você acabou por encontrá-lo mais vezes naquele mesmo ambiente, hora já estando lá quando você chegava, com fones de ouvido e um caderninho nas mãos, outrora entrando apenas por alguns e pegando seu pedido de maneira apressada, antes de partir novamente. Mas o dia mais importante foi quando ambos acabaram por estar na fila de espera ao mesmo tempo.
Você havia acordado mais cedo aquela manhã, de bom humor, e decidiu que levaria seu dia inteiro com essa mesma energia, por isso foi tranquilamente até o café, sem pressa ou medo, cega perante a aqueles que poderiam ter algo contra sua aparência. Se aquele homem misterioso tinha coragem de frequentar o mesmo lugar vestido de maneira tão esquisita quanto a sua, então você também era forte o suficiente para isso. Chegando lá, a fila para fazer o pedido estava gigantesca, mas ainda assim isso não te estressou, você simplesmente colocou seus fones de ouvido e ficou curtindo sua playlist enquanto esperava, avulsa das coisas ao seu redor, já se prevenindo contra qualquer infeliz que pudesse decidir ser ousado com palavras.
Quando uma garota aleatória passou por você, propositalmente esbarrando em seu braço de maneira forte, fazendo com que seu celular caísse no chão e o fone fosse arrancado de seu ouvido com uma força que quase machucou, levando você a conseguir ouvir as amigas dela, que vinham em seguida, rindo baixinho e falando coisas como “ai nem encosta nessa coisa não, Deus me livre”, ou o clássico “parece uma putinha de esquina”.
Foi preciso respirar fundo algumas vezes, fechar os olhos, morder o lábio inferior para não xingá-las de todos os nomes existentes, e apenas imaginar as coisas horríveis que você faria com elas se tivesse a oportunidade, já que na vida real infelizmente seria impossível.
E só então você se curvou, estendendo um do bracos para pegar o dispositivo, no entanto, o objeto não estava mais no chão, mas sim nas mãos da pessoa atrás de você, que lhe entregava gentilmente.
Você o reconheceu logo de cara, as unhas pintadas, dessa vez com uma esmaltação dourada e pequenos detalhes rosa, entregavam sua identidade. Seus olhos lentamente se moveram para cima, encontrando um sorriso cheio de charme e aqueles mesmos olhos grandes e alegres de sempre.
— Aqui. — uma voz suavemente grave e rouca disse, e seu coração palpitou mais forte em finalmente estar a escutando de perto.
— Obrigada. — você respondeu, acenando com a cabeça enquanto pegava o celular.
Imediatamente você se virou de costas para ele, fechando os olhos mais uma vez com força, enquanto pensamentos ansiosos inundavam sua cabeça. “Sua idiota, você faz tudo errado! Será que eu deveria ter sorrido mais? Talvez ter falado mais alguma coisa… Eu provavelmente estava com os olhos arregalados de assustada, ah não, ele deve estar pensando que eu sou maluca. Será que ainda dá tempo de falar algo? Mas agora vai ser esquisito só virar e puxar assunto. E se ele concordar com elas? E se achar que eu realmente pareço uma putinha de esquina? Que ódio, eu deveria…”
— Sua capinha é muito linda, por sinal. — aquela mesma voz chegou ao seus ouvidos, interrompendo a agitação em sua mente.
— Oi!? — seu corpo se moveu antes que pudesse perceber, olhando na direção do homem, de fato com olhos mais abertos e meio assustados.
— A capinha do seu celular, é bem bonita.
Seu foco congelou na face dele por alguns segundos, em seguida foi até o celular em suas mãos, examinando sua própria capinha como se nunca tivesse a visto antes, e então voltando ao rosto dele.
— Ah… Obrigada. — uma risada constrangida escapou de seus lábios e você teve que limpar a garganta com uma tosse para tentar retomar as rédeas e agir como alguém normal. — Eu também adorei a sua.
“Quem fala desse jeito? Sua esquisita!” Você gritou consigo mesma internamente.
— Esse troço velho? Nem se compara. — respondeu, completando com uma risada suave. — Quem me dera ter paciência para enfeitar a minha igual a sua, combina bem com o restante das suas roupas.
Aquelas palavras pareciam ter alterado completamente a química do seu cérebro, se antes você já estava sem jeito, agora até havia esquecido o próprio nome.
Era difícil ouvir um elogio que não fosse irônico, principalmente fora da sua bolha online, então alguém dizer palavras tão gentis, sinceras e, aparentemente, sem esperar nada em troca, definitivamente foi algo que mexeu com todo seu ser.
— Não é grande coisa, eu só colei uns adesivos e pingentes que caíram de uma bolsa minha. — outro riso envergonhado escapou. — Qualquer coisa dourada combina com gyaru, sabe?
— Oh, gyaru! Eu sabia que conhecia esse tipo de estilo.
— É bem popular em alguns lugares, mas as pessoas por aqui não gostam muito, como você pode ver.
— Bom, então que se foda as pessoas.
Dessa vez você soltou uma gargalhada um pouco mais alta, precisando cobrir a boca com as mãos pelo medo de chamar atenção.
— Desculpa, hm… Como é seu nome?
E simples assim você decidiu que precisava manter esse garoto em sua vida.
Nos próximos dias, sempre que ia à cafeteria, você se via o procurando ao entrar, e quando acontecia de chegar mais cedo, era ele quem parava na porta e passava os olhos por cada mesa até encontrar a sua.
Eventualmente, é claro, vocês trocaram números, coisa que deveriam ter feito desde o dia um, para facilitar os encontros com café quente, além de proporcionar a ambos a conveniência de conversar a qualquer hora do dia por mensagem, mesmo quando tudo estava tão corrido que não conseguiam se ver pessoalmente.
Vocês passavam horas conversando, rindo e se divertindo. Às vezes, naquela mesma cafeteria, vocês se sentavam um ao lado do outro e ficavam desenhando juntos, ou lendo revistas de moda e música. Certa vez ele te convidou para ir ao shopping fazer compras, outra vez o convite foi para comerem juntos numa lanchonete, eventualmente aproveitar para ver um filme no cinema, e claro, alguns dias irem juntos até o trabalho de um ou do outro…
Quando foi perceber, Yuta e você faziam praticamente tudo juntos, e isso nunca beirou a ser desconfortável, pelo contrário, mesmo em situações onde você precisava, por exemplo, comprar uma calcinha nova, ele sempre estava lá, aumentando sua confiança e humor.
— Não, a preta não. Essa rosa combina muito mais com um sutiã que você tem. — o homem dizia, em alto e bom tom, lhe entregando a peça rendada.
Momentos assim já eram normais, e era disso para pior, com coisas mais explícitas e vergonhosas, te impressionando que, em nenhum momento, o medo em ser julgada surgia, apenas risadas e, no máximo, um tapinha no ombro dele para lembrá-lo de falar baixo.
Era como se, enquanto Yuta estivesse ao seu lado, você estivesse completamente segura, e todos ao redor simplesmente desaparecessem, permitindo que se sentisse livre para ser você mesma por inteiro.
Antigamente um costume inconsciente seu era se restringir a compartilhar seus interesses, outfits diários e selfies alternativas apenas na internet, em grupos de pessoas iguais. Agora, existia um amigo bem ali, à sua frente, e a liberdade em poder confiar suas peculiaridades com um outro alguém real, de carne e osso, deixava seu coração quentinho e relaxado.
E agora, em momentos como esses, em específico, quando finalmente conseguiram conciliar suas agendas para que pudessem fazer uma festa do pijama em seu apartamento, você simplesmente sentia uma paz tão profunda como nunca havia sentido em toda sua vida.
A esse ponto da noite, já haviam feito pedido em uma pizzaria, bastava esperar chegar, e enquanto isso, Yuta praticamente implorou para que pintasse as unhas dele.
— Você já tem muita prática com isso, até estampa de leopardo consegue fazer! Eu não quero ficar gastando dinheiro em manicure quando tem uma bem aqui na minha frente.
O homem argumentou, fazendo um biquinho e te olhando com aqueles olhos fofos.
Não existia outra opção a não ser aceitar.
Sendo assim, ele se sentou à sua frente, as pernas encolhidas perto do peito, de maneira que sua camisa xadrez escondesse quase todo seu corpo, com uma mão esticada para você e a outra apoiada no joelho, a cabeça deitada no antebraço, e os olhos observando cada uma de suas expressões.
— Vermelho te cai bem. — você comentou, focada na tinta que passava no dedo indicador daquele à sua frente.
— Eu sei, não é atoa que uso o tempo todo.
— Exibido. — um riso doce escapou. — O ruim é que tenho quase certeza que meu esmalte preto está acabando.
— Achei que você tinha feito compras esses dias.
— Eu tentei, mas a minha maquiagem estava horrível e eu não consegui sair de casa.
Uma expressão confusa pairou pela face de Yuta, se transformando em um sorriso provocador.
— Você quer dizer a que você me mandou foto, de sexta?
— Aquela maquiagem estava horrível? Sério?
— Tá bom, tipo, horrível não é a palavra certa, mas sei lá… Não tenho me sentido confortável recentemente, por algum motivo. Talvez fosse porque você não estava lá comigo. — a última frase foi dita em tom de brincadeira, dando de ombros e imitando um biquinho dengoso.
Em situações como essas, normalmente Yuta iria retrucar com alguma piadinha, falando que você não consegue viver sem ele ou algo assim. No entanto, dessa vez o lado cômico foi substituído por um silêncio, percebendo que lá no fundo, mesmo concentrada e brincando, seu tom havia se tornado mais desanimado e defensivo. Tudo o que o de cabelo vermelho fez foi mostrar um sorriso gentil, sua outra mão indo segurar a sua, impedindo que você continuasse a esmaltação.
Com a ação, seus olhos confusos saltaram para cima, encontrando os dele.
— Você consegue voltar a sair sozinha, eu sei disso.
— Sua fé em mim é realmente admirável. — mais uma piada, seguida de uma risada forçada e um desvio de olhar.
— Você é admirável. Sua maquiagem, suas roupas… Tudo. Você não deveria deixar essa gente acabar com sua vida.
— Por isso eu fico em casa, pra eles nem tentarem.
— Mas desse jeito eles já estão conseguindo.
Novamente um breve silêncio pairou pelo ambiente, olhares sendo trocados só invés de diálogos, e seu coração se enchendo de uma pequena angústia que precisava ser eliminada.
— Você quer que eu pinte suas unhas ou não, hein? — mais uma vez brincou com o tom, esse simulando uma falsa irritação, já segurando o pulso dele novamente, com um pouco mais de força.
Ao que Yuta respondeu rindo, voltando à posição de segundos atrás.
— Eu só quero dizer que… Não é justo que você se prive de tanta coisa quando os arrombados são eles.
— Não, sem mas! — Yuta se moveu pelo que parecia ser a milésima vez, apoiando as mãos em seus ombros, forçando que você focasse nele. — Como é que você vai arranjar um namorado? Ou casar, ter filhos, ter uma carreira de sucesso, se nunca mais sair de casa?
— Eu literalmente me cansei só de ouvir você listar tudo isso.
— Eu estou falando sério!
— Ok, ok, entendi… É só que, sei lá, me isolar parece a melhor opção por enquanto. Eu me acostumei muito com o conforto de ter você por perto, e só de pensar em sair sozinha de novo e ter um monte olhar voltado a mim… Eu começo a ficar com falta de ar e um aperto esquisito no coração.
— Eu sei… — cuidadosamente Yuta pousou uma palma macia em sua bochecha, a acariciando com carinho. — Mas a gente vai trabalhar para acabar com seu medo juntos, ok? Aos poucos, é claro. Quer dizer, eu não sou nenhum psicólogo nem nada, mas vou fazer o que for possível para te ajudar.
Você acenou, mostrando um pequeno sorriso constrangido enquanto se inclinava suavemente em direção ao toque dele, seus olhos começando a lacrimejar.
— Obrigada… — você sussurrou.
— Não precisa agradecer, eu só quero seu bem.
Mais um daqueles silêncios arrastados se instaurou, dessa vez sem nenhum sentimento ruim atrelado ao momento, só o conforto e companheirismo de sempre.
Como dito anteriormente, você sempre esteve acostumada com a proximidade e com o carinho, mesmo quando ele demonstrava de maneira um pouco exagerada. E sim, a segundos atrás ele também havia acariciado sua bochecha, mas dessa vez era claramente diferente. Começando pelo fato de que, ele usou as duas mãos, como se quisesse te manter parada no lugar, e não que precisasse, afinal, quando Yuta começou a lentamente aproximar o rosto do seu, você congelou completamente, os olhos mais arregalados que nunca, não sabendo se focava nos dele ou em seus lábios formando aquele mesmo sorriso provocador de sempre.
— Você está vermelha. — ele disse, o tom mais baixo, íntimo, e levemente aveludado.
Você abriu a boca para responder mas as palavras se perderam em sua garganta, liberando apenas letras aleatórias gaguejadas, que fizeram o homem rir, antes de fechar os olhos e continuar se aproximando.
Como você sequer iria reagir a isso? Sendo pega tão desprevenida, com o pequeno frasco e o pincel do esmalte ainda em mãos.
Em segundos nada mais importava. Se antes pensava que se sentia em plena paz apenas conversando e passando um tempo com Yuta, imagine só quando os lábios dele se juntaram aos seus, em um beijo delicado, mas ainda assim com uma intensidade cativante que obviamente ele teria.
Mal deu tempo das suas pálpebras superiores se juntarem com as inferiores e aquele colado à você já estava depositando o peso do próprio corpo sobre o seu, avançando um pouco para que os dois se deitassem, ali mesmo no chão, rodeados por matérias de manicure, e uns dois ou três travesseiros que haviam pego de seu quarto mais cedo.
— Yuta, sua unha… — você balbuciou entre os breves momentos em que sua boca não estava ocupada.
— Isso não é importante agora.
A resposta foi curta e certeira, o tom mais focado e fervoroso que nunca, praticamente grunhindo entre cada palavra, sem nunca dar realmente um espaço apropriado para sequer respirar.
— O esmalte nas suas unhas v-vão sujar meu cabelo.
E mais uma risada atrevida veio dele, dessa vez ecoando por todo seu corpo por conta da proximidade.
Em resposta, ele apenas aprofundou mais uma das mãos em seus cachos, entrelaçando-os entre os dedos, enquanto com a outra, tateava lentamente a lateral de seu busto, agora se aproveitando de sua fala para juntar a língua à sua.
Era uma composição estranha, mas definitivamente boa. Ele misturava a paixão de beijos molhados com a delicadeza de selinhos, ambos em um só, junto a suspiros pesados e claramente excitados toda vez que você, na tentativa de retribuir, também acariciava cabelo e a nuca dele.
Você jurou para si mesma, naquele segundo, quando sentiu uma das pernas do homem se posicionar ao meio das suas, com o joelho perigosamente encostando em seu ponto sensível, que faria qualquer coisa para aquele momento durar para sempre.
Ironicamente, a campainha tocou assim que o pensamento veio à sua cabeça.
— Só pode ser brincadeira. — você murmurou frustrada quando Yuta, de maneira relutante, se distanciou.
— Deve ser a pizza. — ele comentou, quase cômico, com um pingo de irritação ao fundo.
E então se levantou de vez, com a dificuldade de quem claramente não queria estar fazendo isso, foi até a interfone, ajeitando as roupas que não de fato haviam bagunçado, o pegou e aproximou da orelha.
— Oi. — e um pequeno silêncio enquanto a outra pessoa da linha falava. — Sim, já estou indo buscar, obrigado.
— O meu e o seu cartão estão aí no balcão. — você disse quando ele desligou a ligação, apontando para a superfície ao lado da porta, que dividia a sala da cozinha, ainda deitada no mesmo lugar, se apoiando em seus antebraços para conseguir olhá-lo com mais facilidade.
— Tá bom, volto em um segundo, e quero você exatamente nessa mesma posição quando eu voltar.
Então ele pegou ambos os cartões e saiu, animado e ansioso, com uma enxurrada de ideias do que faria quando passasse por aquela por novamente, o que, para você, foi muito bom, pois sabia que se ele não estivesse ocupado pensando nisso, provavelmente iria sugerir que você começasse a superar seu medo de desconhecidos indo atender a entrega.
Mas o importante mesmo era que, após tempos de amizade, conhecendo meticulosamente um ao outro, os traumas, vontades e limites, aquela noite, ou melhor, aquele momento, foi a prova principalmente de que, independente da ocasião, tudo com ele era leve e estranhamente seguro.