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O trabalho científico com a Panthera onca envolve uma coleção de indícios, vestígios e sinais. A presença dela é documentada em pegadas, carcaças de animais abatidos, ou ainda pêlos e fezes. São elementos coletados pelos biólogos do Projeto Gadonça com a finalidade de descrever o comportamento e analisar os hábitos alimentares da onça-pintada na região do Pantanal de Miranda. Os itens coletados no campo são catalogados, numerados e arquivados no laboratório de campo do projeto. Amostras de fezes, por exemplo, colocadas em sacos plásticos com data, hora e local, passam por diversos estágios de tratamento, e o que sobra no final são pêlos de animais, identificados posteriormente com o uso do microscópio.
A coleção do projeto é composta de várias ossadas: veados, catetos, queixadas, capivaras, jacarés, vacas e outros. Além das informações sobre o quando e onde, os ossos dos animais falam também do como. As marcas da mordida da onça no crânio de uma anta (como a da foto) são acompanhadas de anotações sobre o tipo de terreno onde o animal foi encontrado, a localização em GPS, a distância para a estrada mais próxima e outros dados. Crânios de onças também fazem parte da coleção, provenientes de animais abatidos por caçadores em fazendas vizinhas.
Através do blog da San Francisco é possível encontrar informações sobre o projeto Gadonça e muitas imagens de onças feitas na fazenda:
http://blogpantanalfazendasanfrancisco.blogspot.com/
http://jaguarinpantanal.com/
Onça de coleira, onça científica
O primeiro estudo científico da onça-pintada em ambiente selvagem com o uso da telemetria foi realizado no Pantanal. O projeto teve início no final da década de 1970, e foi coordenado pelo naturalista norte-americano George Schaller, da New York Zoological Society. Do ponto de vista científico, a onça se torna uma unidade produtora de dados a partir do momento em que recebe a coleira equipada com o rádio transmissor. Vagando pelos campos em busca de caça, as onças que usam essas coleiras produzem inscrições, coordenadas que vão se acumulando e são processadas em mapas. Os modelos mais modernos de transmissores são equipados com sistemas GPS, programados para armazenar dados de localização em intervalos regulares via satélite.
A partir dos dados obtidos em campo, os estudos ecológicos trabalham com ferramentas quantitativas como o PHVA (Population habitats and viability analysis), que consiste na compilação uma série de dados diferentes em sistemas computacionais, na elaboração de mapas complexos e nas previsões de quadros futuros para uma determinada espécie em termos estatísticos.
Para a biologia da conservação, a onça é um agente ecológico em diferentes sentidos. Em primeiro lugar, ela desempenha um papel como predador no topo da cadeia alimentar, com impacto nas populações de outros animais e no equilíbrio dos ecossistemas. É apontada também como uma espécie carismática ou espécie bandeira para a conservação ambiental, assim como para o ecoturismo na região do Pantanal: Um animal que mobiliza projetos de preservação e que atrai visitantes para a região. Um terceiro sentido provém da ecologia das paisagens: Laury Cullen (link abaixo) designa a onça-pintada como um detetive ecológico, isto é, um animal cuja presença é um indicador de biodiversidade. Neste caso, a descrição e o mapeamento das rotas usadas pela onça e sua permanência em fragmentos florestais podem indicar áreas que devem ser conservadas ou que funcionam como corredores de vida silvestre.
Referências:
http://www.ipe.org.br/pontal/detetives-ecologicos
SCHALLER, George B. 2007. A naturalist and other beasts: tales from a life in the field. San Francisco: Sierra Club Books.
Ataques de onça ao ser humano são muito raros no Brasil. O caso com o maior número de referências no total de 65 entrevistas que fiz na região do Pantanal do Miranda, em 2008, foi o de um funcionário do governo que trabalhava com prevenção da malária. O caso foi citado ao todo por 7 pessoas (ver vídeo), sem referência a nenhuma data.
A onça-pintada foi considerada como uma ameaça para o ser humano em um terço das entrevistas, e apontada como perigosa apenas em determinadas situações (particularmente quando está com filhote ou se alimentando) em metade delas.
Em junho de 2008, um pescador foi atacado e parcialmente devorado por uma onça-pintada em Cáceres (MT), enquanto acampava na beira do Rio São Lourenço. Este foi o primeiro caso registrado oficialmente no Brasil pelo CENAP (ICM-Bio) de um ataque de onça-pintada a um ser humano envolvendo predação. O acontecimento foi tema de matérias de jornal e televisão na época, e sua repercussão envolveu uma série de questionamentos sobre os limites das relações entre humanos e onças.
Uma discussão aprofundada sobre o caso e suas umplicações na conservação da onça pode ser encontrada no artigo de Peter Crawshaw (2008):
http://www.oeco.com.br/peter-crawshaw/19450-oncas-e-gente-ii-piores-encontros
As armadilhas fotográficas foram desenvolvidas nos EUA para o manejo de animais de caça e adaptadas pela biologia da conservação às pesquisas com mamíferos selvagens. Foram aplicadas no estudo de tigres na Índia por Karanth e Nichols (1998), associadas a modelos de captura e recaptura, e posteriormente usadas em estudos com a onça-pintada (Silver 2005; Da Silva 2011). O padrão gráfico das listras e pintas dessas espécies (a malha da onça, como dizem os pantaneiros) é como uma impressão digital dos animais, que permite aos pesquisadores identificá-los individualmente.
Armadilhas fotográficas podem ser usadas para determinar a distribuição (presença ou ausência) ou para estimar a abundância de uma espécie em determinada região. O equipamento é composto por sensores de movimento e câmeras automáticas comuns protegidas por caixas de plástico resistente (o uso de câmeras digitais só se difundiu no final da década de 2000, depois que a indústria resolveu a questão do delay para tornar a armadilha eficiente). Em estudo realizado no Pantanal, Soisalo & Cavalcanti (2006) compararam os resultados obtidos com coleiras GPS aos resultados obtidos com armadilhas fotográficas, questionando protocolos estabelecidos para estas a avaliação de abundância da onça-pintada a partir dessas últimas.
A armadilha da foto é da marca norte-americana Stealph Cam, usada pelo Projeto Onça Pantaneira em 2008 (ver post abaixo sobre o assunto)
Referências:
Da Silva, M. X. (2011). “Armadilhas Fotográficas”. Site Fotografia Científica. Disponível em http://www.fotocientifica.com/2011/08/fotografia-cientifica.html. Acesso em 12/09/2011.
Karanth, K.U. e Nichols, J.D. (1998) “Estimation of tiger densities in India using photographic captures and recaptures”. Ecology 79(8), 2852–2862.
Silver, S. C. (2005) Estimativa de Abundância de Onças-Pintadas Através do Uso de Armadilhas Fotográficas. Wildlife Conservation Society, NY.
Soisalo, M. K.; Cavalcanti, S. M. C. 2006. “Estimating the density of a jaguar population in the Brazilian Pantanal sing camera-traps and capture-recapture sampling in combination with GPS radio-telemetry”. Biological Conservation, 29 (4): 487-496.
No Pantanal, os rebanhos são contados em milhares de cabeças, assim como os hectares, sendo que existem muitas diferenças entre o gado produzido para fora e aquele que é abatido dentro das fazendas da região. A produção em grande escala, voltada para o consumo externo, contrasta com a pequena escala da produção que abastece as pequenas comunidades locais. As vacas abatidas para consumo interno são aquelas que não produzem mais bezerros (as chamadas matulas), e, enquanto as novilhas ficam na fazenda para procriar, os garrotes são enviados para o engorde e vendidos para abatedouros e açougues nas grandes cidades do Mato Grosso do Sul.
O gado de corte, que é o produto da fazenda, é tratado de uma forma completamente diferente de outros tipos de gado, como as vacas leiteiras ou os bois sinuelos (que acompanham os vaqueiros para reunir o rebanho). Enquanto nestes dois casos os animais recebem nomes próprios, o gado de corte é designado por números. O manejo intensivo dentro do mangueiro, os episódios de vacinação e contagem dos animais, são aspectos da relação produtiva do pantaneiro com o gado, momento nos quais o boi é reificado, tratado como objeto, como rebanho indiferenciado. A lida com os animais no campo, por outro lado, é atravessada pela diferenciação, pelos indivíduos excepcionais, brabos, que varam cerca, escapam do rebanho, pelos cavalos difíceis de domar, pelas reses reivindicadas pelas onças e pelas cobras.
De acordo com autores como Campos Filho (2002) e Mazza (1994), a pecuária tradicional pantaneira tende a aumentar a biodiversidade, na medida em que o gado se alimenta de pastagens nativas e mantém o campo aberto, beneficiando outras espécies da fauna regional. A ação do gado sobre o ambiente pantaneiro, além disso, mantém a paisagem tal qual ela é conhecida e valorizada pelos moradores locais; o gado limpa o campo e abre as trilhas por onde os vaqueiros circulam. As tradições locais, no entanto, se encontram ameaçadas por um processo de modernização e implementação de práticas homogeneizantes como o plantio da braquiária, capim exótico que aumenta a produtividade e substitui o capim nativo (Mazza 1994). Num movimento similar, o gado branco (zebuíno de origem indiana da raça Nelore) é apontado um invasor que toma o lugar do gado pantaneiro, sendo que a etno-espécie Tucura, de origem ibérica, encontra-se hoje seriamente ameaçada de extinção (Campos Filho 2002).
O gado branco surge, nesse sentido, como índice de processos que em toda parte substituem os antigos costumes e descaracterizam o ambiente, tornando-o homogêneo. O gado pantaneiro, por outro lado, revela agenciamentos heterogêneos: o boi sinuelo, o gado bagual (selvagem), o visonho (que nunca viu gente), são categorias que fazem parte da tradição pantaneira. O gado branco remete à idéia do animal como recurso, matéria-prima para a empresa humana, enquanto o gado pantaneiro revela outros agenciamentos, aponta para um jogo complexo entre organismos e ambientes. O contraste evidencia uma distinção entre sistemas complexos e sistemas lineares de comportamento previsível e determinista.
Referências:
CAMPOS FILHO, Luiz Vicente da Silva. 2002. Tradição e ruptura. Cultura e Ambiente Pantaneiros. Cuiabá: Entrelinhas.
MAZZA, Maria Cristina Medeiros; MAZZA, Carlos Alberto da Silva; SERENO, José Robson Bezerra; SANTOS, Sandra Aparecida; PELLEGRIN, Aiesca Oliveira. 1994. Etnobiologia e conservação do bovino pantaneiro. Corumbá: CPAP/ EMBRAPA.
Este vídeo foi filmado por cinegrafistas amadores que visitavam o pantanal, às margens de um rio em Cárceres (MT), julho de 2008. Existem algumas versões no youtube. Esta é a maior delas e tem sete (6:58) minutos de duração. A onça espreita as capivaras, imóvel, durante exatamente 4 minutos e cinqüenta e dois segundos. Nesse ponto, ela dá um salto abrupto e se lança em direção a um animal desgarrado do bando. Capivara e onça se jogam na água. Cinco segundos se passam entre o mergulho, a partir do qual predador e presa desapareceram, submersos, e o reaparecimento deles, aos 4:57 do vídeo. A onça nada, se afastando, e aos poucos é possível ver que ela arrasta consigo a capivara, mordendo-a firmemente no topo da cabeça. A onça espreita a capivara e os turistas espreitam a onça, ela captura sua presa e eles capturam a cena em fotografias e filmagens. O vídeo foi mencionado no debate em torno de acusações de que as onças dessa região estariam sendo cevadas, e por isso estariam se tornando perigosamente acostumadas à presença de turistas. Minha impressão, inclusive, é que o movimento dos barcos foi um fator de distração para as capivaras e que a onça tomou partido disso em sua emboscada.
A compilação, para este trabalho, de registros diversos, provenientes da pesquisa etnográfica, resultou num mapa, elaborado a partir de uma série de anotações, fotografias e listagens de referências, que foram fixadas num quadro. A construção deste mapa-colagem acompanhou o percurso da pesquisa de campo nos Pantanais do Miranda e do Abobral.
trinta e um queixadas (by flipskind)
jaguatirica.wmv (by flipskind)
O livro Tigrero! foi publicado em 1952 pela editora Ace Books, de Nova York. (A edição acima é de 1953). Na capa da edição de bolso, o gênero é descrito como “true adventure stories” e a ilustração remete ao faroeste e à cultura popular norte-americana. No livro, o caçador lituano Sasha Siemel narra sua busca por Joaquim Guató, um velho índio do Pantanal que enfrentava as onças-pintadas armado apenas com a zagaia, uma espécie de lança. A figura do zagaieiro é definida a partir de um contraste entre a imagem do índio solitário corrompido pela bebida e a imagem do perfeito caçador, dotado de “qualidades e instintos quase sobre humanos”. (1953: 16)
A luta entre o índio e a onça é apresentada por Siemel como um conflito “[d]o homem contra a natureza nos mais primitivos termos”, a essência da caçada. O embate é narrado nos mínimos detalhes, em contrastes sucessivos entre a figura da onça, enorme e ameaçadora, e a do índio frágil e etéreo:
Era uma luta inacreditável. O gato era uma bola de fúria, rosnados e unhadas, se curvando para frente enquanto se esforçava com cada movimento de suas quatro patas para afastar o objeto que espetava sua garganta e cortava sua respiração. Joaquim era visível apenas em lampejos de pele marrom. Volta e meia eu via as pernas dele se moverem em uma espécie de dança derviche, e seus pés descalços pareciam quase agarrar-se ao chão, enquanto ele lutava para manter o equilíbrio e continuar direcionando mais profundamente a lança na garganta do tigre. (: 177-178)
Sasha Siemel aprende a técnica da zagaia e apresenta-se como o primeiro homem branco a caçar onças desta forma. Ele é um símbolo da caçada de aventura praticada no Pantanal, a qual se sobrepõe à imagem utilitarista da eliminação dos animais nocivos à criação de gado. O caçador admira o tigre como um inimigo honrado e enfrenta-o extrapolando o código da nobreza esportiva e colocando em risco a própria vida: “Você vai ver que o tigre não responde à lógica humana, e não entende o significado de piedade. E o tigre é um dos inimigos mais honrados que você irá encontrar” (:16).
Ao mesmo tempo, apresenta em segundo plano o sacrifício do animal como algo necessário, um serviço para a comunidade: “Eu expliquei (…) que também não gostava de matar animais; e que minha caçada era para abater um animal assassino, do mesmo modo que um policial seria capaz de matar um assassino humano”(: 274). Neste outro trecho o julgamento é moral:“O puma era um destruidor de gado, e um dos raros animais da selva que matam unicamente por matar. (...) Eles [pumas] são covardes”. (:276). Os termos usados para descrever os animais – “assassino”, “covarde”, – contrastam com a nobreza da fera enfrentada pelo zagaieiro. A ambigüidade entre o animal nocivo e o adversário de valor atravessa toda a narrativa.
Rastros e vestígios da onça, a set on Flickr.
Batidas
Pantanal - fauna nativa, a set on Flickr.
Mais animais pantaneiros
Seu Felipe era o mais antigo funcionário da Fazenda San Francisco, e tive o privilégio de conhecê-lo em setembro de 2008. Durante dois dias consecutivos, visitei-o na cidade de Miranda, na pequena casa onde morava desde que havia se aposentado da fazenda. Gravei cerca de 100 minutos de entrevista. Filho de uma índia Terena e de um gaúcho do Rio Grande, a trajetória pessoal dele é impregnada pela história da região.
Seu Felipe participou diretamente da abertura da San Francisco, uma das propriedades resultantes do desmembramento da tradicional Fazenda Bodoquena. Em meados do século XX, a propriedade era um gigantesco empreendimento de gado, com mais de 400 mil ha que se estendiam desde Miranda até Corumbá. A Bodoquena teve origem na Fazenda Francesa, visitada por Levi-Strauss em 1935, em sua expedição ao encontro dos índios Cadiueu (Tristes Trópicos 1955).
Fazenda São Bento, Pantanal do Abobral, novembro de 2008. Os pesquisadores do Projeto Onça Pantaneira encontram restos de um bezerro abatido durante a noite por uma onça-pintada. A pesquisa é coordenada pelo biólogo Fernando Azevedo, do Instituto para Conservação dos Carnívoros Neotropicais, e investiga o comportamento e os hábitos alimentares da onça pantaneira. O foco principal é a interação entre os felinos e o gado, historicamente relacionada ao conflito local entre fazendeiros e predadores. Os dois integrantes da equipe de campo do projeto que aparecem nas fotos são o biólogo Henrique Concone, paulista radicado no Pantanal, e o mateiro e guia de campo João Elias, antigo caçador que trabalha atualmente na preservação das onças.
Depois de encontrar a carcaça do bezerro, Henrique identifica as perfurações causadas pela mordida na base do crânio do animal, um sinal típico do ataque da onça-pintada. Ele anota em sua caderneta de campo as condições do terreno e as condições da carcaça, estimando o tempo decorrido desde o ataque; anota o número do brinco do bezerro; por fim, registra as coordenadas de localização através de um aparelho de GPS portátil. Em seguida, usa a antena de rádio, testando as freqüências referentes aos colares das dez onças monitoradas pelo projeto.
Enquanto isso, Seu João prepara uma armadilha fotográfica, amarrando-a em troncos a cerca de dois metros do bezerro, e a uma altura de 30 centímetros do chão, apontada para a carcaça. O equipamento é composto por uma caixa de plástico resistente e um modelo comum de câmera automática digital dotada de sensor de movimento, que foi programada para disparos consecutivos a cada dez segundos. Como somente uma parte das costelas do bezerro havia sido comida, a possibilidade de que o predador voltasse ao local era grande. Para aumentar as chances de identificação da onça, Seu João amarra as patas traseiras do animal a um cipó atravessado na horizontal, utilizando um cordão que trouxe no bolso.
Na manhã seguinte, voltamos ao local. O que restou do bezerro é praticamente só a ossada e o couro. As armadilhas fotográficas deixadas na tarde anterior foram disparadas, e mostram uma onça de coleira. De volta ao laboratório, Henrique conecta o equipamento ao computador e observa as imagens. O biólogo escolhe um detalhe do corpo da onça e aproxima, selecionando uma área perto do pescoço. Utilizando o mesmo programa de computador, ele visualiza fotos que tirou por ocasião da captura de das onças, alguns meses antes, e compara os detalhes.
O padrão das pintas produz uma espécie de impressão digital de cada indivíduo; assim, através das imagens, o pesquisador identifica o animal. Trata-se de um dos machos monitorados pelo projeto, apelidado pelos pesquisadores de Mirão, em homenagem ao pai do proprietário da fazenda. A coleira de monitoramento no pescoço do felino é da marca Televilt, de fabricação sueca, dotada de transmissor de rádio e equipamento GPS, o qual armazena sua localização em horas pré-determinadas. Através do equipamento, é possível mapear a área de vida da onça e localizar animais abatidos por ela com a finalidade de se estudar sua dieta.
O caso do bezerro seria registrado tanto pelo projeto científico, como um caso de predação de onça-pintada, quanto pela fazenda, como uma ocorrência de perda na produção daquele ano. O manejo do rebanho envolve a documentação das mortes e de suas causas. O bezerro foi abatido no final da estação seca, em novembro, e teria sido enviado para o engorde pouco tempo depois; no ano seguinte teria sido abatido em um frigorífico de Corumbá e a carne seria vendida no mercado local. O projeto, por sua vez, registra todos os animais encontrados mortos na fazenda, incluindo espécies silvestres e domésticas, sendo que o termo predação é utilizado especificamente para os ataques de onças ao rebanho.
Em dez meses de trabalho até aquela data, o projeto havia registrado 44 casos de gado abatido por onças (pintadas e pardas) na fazenda. Em relação ao rebanho total da propriedade, que nos meses de pico chegava a cinco mil cabeças, a predação representou neste caso uma perda menor do que 1% (abaixo de outras causas, como picadas de cobra ou a ingestão de ervas tóxicas pelo gado). Um problema para os criadores de gado da região - e portanto para os projetos de conservação das onças - é que elas selecionam, em sua dieta, os bezerros mais novos (Azevedo e Murray 2007). Isso repercute diretamente na produtividade da fazenda, o que em muitos casos representa uma justificativa para a eliminação das onças pelos fazendeiros. Existe um longo histórico de conflito entre predadores e criadores de gado no Pantanal. Alguns meses depois que voltei do trabalho de campo, Henrique me diria por email que aquela foto tinha sido o último vestígio de Mirão: “Depois disso, nunca mais apareceu. Ou a coleira estragou, ou ele mudou de área, ou foi morto”.
Para saber mais sobre o Projeto Onça Pantaneira
http://www.procarnivoros.org.br/2009/projeto1.asp?projeto=34
Referência:
AZEVEDO, Fernando Cesar Cascelli; MURRAY, Dennis L. 2007. “Evaluation of potencial factors predisposing livestock to predation by jaguars”, in: The journal of wild life management, 71 (7), pp. 2379-86
Parda x Pintada
“A onça-parda surra a pintada”, afirma um morador antigo do Pantanal do Miranda, e acrescenta que “a parda protege a pessoa, acompanha no campo” (Ent. 03/2006). Declarações semelhantes aparecem em muitas outras entrevistas realizadas durante o trabalho de campo. Reproduzo abaixo algumas delas:
Elas não combinam muito não. Dá briga. Só que, a suçuarana, a pintada tem medo dela. Tem receio dela. Diz que ela é bem mais valente do que a pintada.
(...)
O povo antigo sempre falava – meus tios mesmo falavam – que a suçuarana, aonde ela estava, mesmo, que a pintada estivesse ali por perto, ela escorraçava com a pintada pra cuidar o homem. Ela cuida, ela escorraça com a pintada pra ficar cuidando a gente.
(...)
Onde é que tem onça parda, a pintada não para. Porque a parda bate nela. E a parda é menor do que a onça pintada, mais fininha, mas a pintada corre de onde tem a parda.
(...)
Diz que a parda é muito mais rápida, tem muito mais destreza. E não foi nem um e nem dois que eu ouvi falar. Eu conheci um bugre velho que cansou de falar: A parda bate na pintada.
O surpreendente nessas declarações é principalmente o contraste com o que dizem os próprios entrevistados, eles mesmos tendo apontado a pintada como bicho valente, forte, perigoso, que enfrenta gado grande, e a parda como covarde e mansa, que pega muito bezerro pequeno e carneiro.
Pioneiros no estudo científico da onça-pintada, Peter Crawshaw e Howard Quigley observam que:“É comumente dito no Pantanal, por pessoas familiarizadas com a fauna, que, em luta corporal, a parda derrota a pintada” (1984: 18). Vale lembrar, a esse respeito, que os autores estimam que o peso médio de uma onça-pintada, na região, seja aproximadamente o dobro do peso de uma onça-parda, e registram que as presas abatidas pela pintada são em média bem maiores do que aquelas das quais a parda se alimenta.
Coincidência ou não, no livro Jaguar, de Alan Rabnowitz (1986), uma afirmação semelhante é atribuída aos índios Maia, de Belize, nas florestas da América Central: “Talvez sua constituição física, indicando que o puma seja relativamente rápido e ágil, ajude a explicar por que o puma é muitas vezes o vencedor nas histórias indígenas de batalhas entre onças-pintadas e onças-pardas” (1986: 206; trad. minha).
Rabinowitz, no entanto, apenas menciona histórias indígenas, mas não parece inclinado a levá-las muito a sério. Crawshaw e Quigley (1984: Op. Cit), por outro lado, não pressupõe que os moradores do Pantanal estejam apenas descrevendo sua própria cultura ou usando uma metáfora, mas sim que eles estão falando do comportamento empírico das onças, observado em ambiente natural. Ao que dizem os pantaneiros, os autores contrapõem duas evidências de pardas aparentemente mortas por pintadas, encontradas durante seu trabalho de campo, porém observam que essas evidências não são conclusivas.
(Desconheço novas informações a esse respeito, mas é bem possível que elas existam na literatura científica sobre o tema).
Nas minhas entrevistas, outras afirmações que aparecem são que a parda “cuida da gente”, “acompanha no campo” e “protege a pessoa” (da onça-pintada), o que também é significativo para uma análise das relações locais entre humanos e onças.
Referências:
CRAWSHAW, Peter G.; QUIGLEY, Howard B. 1984. “A ecologia do jaguar ou onça pintada (panthera onca palustris) no pantanal matogrossense”, in: Estudos bioecológicos do pantanal matogrossense – relatório final – parte I. Brasília: Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal - IBDF.
RABINOWITZ, Allan 1986. Jaguar – One man’s struggle to establish the world’s first jaguar preserve. Washington: Island Press, 2000
Esboço de uma classificação pantaneira das onças
Fiz um total de 65 entrevistas com moradores da região de estudo, associando questões abertas e um questionário fixo. Em relação à classificação das onças, os entrevistados distinguiram basicamente dois tipos de onça, chamadas na maior parte das vezes apenas de pintada e parda. O código cromático foi amplamente utilizado; um exemplo é esta descrição, feita pelo capataz de uma das fazendas: “Aqui tem a onça parda – aquela onça amarela – e a pintada. Tem uma parda que o pessoal fala suçuarana – uma parda maior – e a outra parda, menor, que fala parda, normal. E a pintada tem uma malha larga e uma malha miúda”. (E15.2008)
Os termos suçuarana, suçarana, soçarana e lombo preto foram empregados para qualidades ou como um sinônimo para parda. Outro critério adotado para diferenciar as onças foi o território usado por cada uma delas, que indicou um contraste entre locais mais selvagens e distantes (o campo) para a pintada e mais próximos das casas (a sede) para a parda. Além disso, a parda é conhecida por apreciar o campo aberto – o limpo –, que é igualmente apreciado pelos vaqueiros. A pintada, por sua vez, é reputada de preferir o sujo – o mato fechado. Além da evidente associação estética, o sujo também designa a impenetrabilidade de certos matos, como os pirizeiros, caraguatazeiros e outras vegetações nas quais as onças gostam de se esconder, e onde os caçadores não conseguem avançar.
Ilustrações:
Onça-pintada -Fiona Reid em: Eisemberg, John; Redford, Kent 1999. Mammals of the Neotropics vol.3. University of Chicago Press
Onça-parda - François Feer em: Emmons, Louise 1990. Neotropic Rainforest Mammals. University of Chicago Press