“Nesta manhã particularmente límpida
sonho que teria levado há vinte exatos anos
o Severo de visita à fazenda de café
de minhas tias. Sonho que ele teria adorado
uma noite na casona de oito quartos
e duas cozinhas: a interna pulcra, eficiente
e a externa com o seu fogão de lenha e
uma fornalha de assar em forma de iglu,
toda fuliginosa e hospitaleira,
além da qual se divisavam em aclive
uma aléia de jabuticabeiras e
frente à qual, no grande alpendre
regido por papagaios barulhentos,
dispunham-se queijeiras inclinadas
com a parte superior apoiada, ao fundo,
na parede caiada sobre a qual, feito
um Arman ou um Sérgio Camargo in nuce,
penduravam-se as dezenas de fôrmas
da maior para a menor e da direita
para a esquerda. Tantas poltronas e
apliques no interior sombreado, passadeiras
com padrão falso barroco ou falso persa.
Sonho-o paralisado frente às cristaleiras,
todas aquelas xícaras de porcelana inglesa
decorada por limões e mandarinas e
os faqueiros de alpaca desfalcados,
cântaros e suas bacias da época do Império
e o cuco e o relógio que toca o Big Ben
a cada quarto de hora. Sonho que comparamos
nomes em francês, espanhol e português:
para Severo seria uma imersão em um
tempo que ele aurait aimé de vivre,
assim muitas vezes interpolava expressões
em seu discurso un tout petit peu blasé.
Teria vivido lá esse regresso ao passado e
à sua província em Cuba: saíra de lá meninote
e antes da entrada de Castro em Havana e
homem lhe levo a Catanduva : e sonho
que não sou eu quem se recorda
de sua visita passados vinte anos,
mas a Tia Naíka que há tanto já morreu
e a quem encontro na terra dos mortos
para conversar sobre quando aparecia
com amigos como hóspedes-surpresa.
Naíka diz sentir-se bem no au-delà
e que se lembra do cubano curioso:
Esse era bem o modo de ser de ambos,
ele perguntador, ela paciente e precisa
nas respostas: um dia lhe teria apresentado
essa espécie de cupido crescido e inchado e
libidinoso, que não falava português
e que insistia aparentar solicitude e
em beijar as mãos das mulheres —
um traço que ela considera repugnante.
Em minha família não se beijam as mãos
das mulheres: somos pouco expansivos e
tais excessos tomamos por cortesanices;
cultivamos algo tosco, contido em nosso estar e
parcimônia nas palavras e nos modos
sociais: em termos ibéricos, me diz
sorrindo minha tia com arroxeados lábios,
somos “escuetos”. Não há tradução
ao português, acrescenta.
E desaparece.
Existirá de fato a América Latina? E:
Sim, j’aurais très très fort aimé
levar Severo à fazenda ancestral.
Porém com ele nunca estive no Brasil:
não houve tempo. A AIDS cortou cerce
nossa bela amizade. Já não o vi
em sua agonia. Foi longa.
A AIDS cortou cerce nosso mundo.
Mas, na manhã particularmente
límpida, não me impede de sonhar.”